Ateus são figuras estereotipadas. Um exemplo é a imagem do ateu cientificista. Claro, como todos os outros estereótipos atribuídos a nós, ateus, este não passa de mais uma bobagem. Ateus não [necessariamente] creem que a ciência possui resposta para todas as questões. Falando por mim, vejo o método científico como uma poderosa ferramenta para se compreender fenômenos naturais, mas termina aí. Não existe nenhum motivo muito evidente para que eu baseie minhas concepções de moral e visão de mundo inteiramente na ciência. Não trato as descobertas científicas com a mesma fé ardorosa que um cientificista o faria ou como um crente devoto trataria seu livro sagrado.

Como esses dois conceitos, ateísmo e ciência, vieram a ficar tão interligados é o cerne deste texto. Imagino que a responsável por essa associação no imaginário popular não seja o ateísmo em si, mas sim a mitificação da ciência. Falarei brevemente não da história da ciência, mas da história de como o grande público leigo viu a ciência moderna durante todos esses anos.

Fazendo um resumo porco desta história, a ciência começou sendo vista como um incômodo curioso e rebelde, desafiando dogmas centrais na sociedade ocidental. Isso já começa a conferir à “ciência” uma aversão à idéia de “fé”. Galileu é uma das figuras mais importantes desta época. Depois de incomodar, a ciência cresceu e começou a surpreender. Nos fins do século XVII e durante boa parte dos séculos XVIII e principalmente XIX tivemos grandes gênios. Newton, Lavoisier, Darwin, Tesla e Faraday, para citar alguns. Descobertas que alavancaram a tecnologia, a economia e até mesmo a própria maneira de interpretar o mundo, radicalmente. Até a primeira metade do século XX surgiam eventuais gênios, como Einstein, Watson e Crick. Parecia mesmo que tudo podia ser respondido de maneira lógica e sem apelo ao sobrenatural através do método científico. Depois disso ela cresceu exponencialmente tanto em termos de cientistas quanto de publicações. A quantidade de informação nova publicada anualmente ficou colossal. Porém, isso não refletiu em reviravoltas impactantes como as de épocas anteriores. Muito pelo contrário. A ciência decepcionou. Esperávamos cura para o câncer, colonizações no espaço, maior longevidade, carros voadores. Mas, no fim, parece que os avanços se limitaram ao meio virtual.

Jetsons - Versão cartunesca de como algumas pessoas imaginavam o final do século XX

A razão pela qual se associa normalmente ateísmo com ciência é porque esta começou a ser vista exatamente como ela não é, ou seja, detentora de todas as verdades. É de se convir que um método baseado essencialmente na dúvida, no ceticismo e no debate não pode se dar ao luxo de ser visto como infalível e absoluto. Este é um bom exemplo de como o público acaba por ver as coisas de maneira diametralmente oposta ao que realmente são.

Não só a ciência começou a ser vista como deidade, mas também foi vista como uma deidade que fazia acontecer, ao contrário dos muitos outros deuses que eram misteriosos demais e eficientes de menos. Também era natural que as pessoas começassem a perceber o quanto essa “ferramenta milagreira” que era o método científico dispensava deuses e orações. Surgia uma nova fé: a fé nos milagres da ciência, a fé cientificista. Uma deidade a qual valia a pena acreditar. Como o cientificismo consiste em acreditar que tudo pode ser explicado através de teorias naturais, o número de ateus consequentemente aumentou. Muitos chegaram a pensar que a fé em deuses teria um fim próximo. Ledo engano. As pessoas se desiludiram com a ciência tão violentamente que, além da fé no sobrenatural ter aumentado, criou-se uma aversão descabida à ciência. Leigos passaram a ver muitos dos cientistas como arrogantes, partindo do pressuposto que estes pretendiam se aproximar a(os) deus(es). Arrogantes, é claro, pois os cientistas eram pobres seres incapazes que ainda não se deram conta disso. É por isso que existe hoje uma confusão entre “curiosidade” e “presunção”, “humilde” e “ignorante”, e “douto” e “arrogante”. Na minha opinião, essa é uma situação um pouco triste. O ser humano é uma criatura naturalmente curiosa e não existe nada de condenável em querer entender o mundo ao seu redor, nada de presunçoso em conhecê-lo.

Essa decepção quanto aos milagres da ciência acabou por criar muitos dualismos em nossa cultura, alguns deles falsos. Temos “fé” de um lado e “razão” de outro. Um dualismo que impede muitos fervorosos de ponderar sobre suas crenças e muitos racionais de possuir segurança em suas convicções. Tudo bem que “fé” e “razão” são conceitos diferentes, mas também não são excludentes. Fé é uma forte crença e razão é a dedução lógica de certas premissas. Apesar de as duas não serem “grandes amigas”, elas não se tratam de ideias opostas uma à outra. Além desse dualismo tem-se “crentes” e “cientistas/ateus”, o que é patético. Eu como ateu ouço com relativa frequência perguntas do tipo “Ué, mas você não é ateu? Não é um cientista?”.

Mas muito pior do que o simples equívoco de associar ateísmo com cientificismo é a condenação do livre pensar. Existe hoje um abismo entre as descobertas científicas e a carga de conhecimento da população, mesmo a da elite intelectual. Falo isso baseado na rejeição que a teoria neodarwinista da evolução biológica encontra em muitos círculos. Essa rejeição é fruto da criação desse dualismo entre fé e razão. Muitos querem enxergar uma guerrinha entre sua fé e as novas descobertas da ciência, como se a última estivesse tão somente preocupada em ocupar o lugar de seu deus ou deuses. Pessoas mais elucidadas sabem que a ciência é apenas um método (poderoso) de entender o mundo natural e que a crença no sobrenatural não deve fugir do escopo pessoal. Deus e ciência não são dois generais se enfrentando em um campo de batalha. São apenas duas coisas que não interagem entre si, ou que ao menos não deveriam interagir. Mas falarei desse aspecto noutro texto.

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Não se passou ainda muito tempo desde que a internet começou a se popularizar. No Brasil, somente a partir de 1995 tornou-se possível ao público contratar os serviços de provedores de acesso à rede e conectar-se ao ciberespaço. Mas, desde então, os hábitos de milhões de pessoas se modificaram radicalmente, e hoje o acesso à internet é indispensável para muitas pessoas, especialmente no campo profissional. Logo no início da popularização da internet no Brasil, na segunda metade da década de 1990, tornou-se lugar-comum a ideia de que a rede promove ao mesmo tempo integração e isolamento. Inúmeras vezes já foi dito que hoje há muita gente que conversa todos os dias com pessoas do outro lado do mundo, mas não sabe sequer o nome de seus vizinhos.

Esta ideia é expressa, geralmente, como uma espécie de reprovação ao comportamento de quem cultiva mais relacionamentos virtuais do que reais. Condena-se tais relacionamentos como algo que promove o distanciamento entre as pessoas, ou a reclusão, ou hábitos antissociais. Talvez, em certa medida, esta ideia tenha algum fundamento. Fala-se em pessoas viciadas em internet, que não têm outra vida além da tela de um computador. Mas esses casos são uma insignificante minoria, e a internet, na verdade, revelou-se um poderoso instrumento de aproximação de pessoas que possuem algum tipo de afinidade, mas que jamais se encontrariam fora do ciberespaço. Os ateus são um bom exemplo.

Sou ateu desde antes da popularização da internet no Brasil. Acessei a rede pela primeira vez quando estava na universidade, em 1996. Antes disso, acho que conhecia pessoalmente no máximo uns dois ou três ateus. O isolamento era então muito grande. Imaginemos a seguinte situação: um católico praticante tem à sua disposição, em qualquer lugar do país, igrejas para frequentar e, consequentemente, sempre encontrará um grupo de pessoas com quem tenha afinidade. Se um cristão deseja conversar com alguém que compartilhe de suas crenças, facilmente encontrará interlocutores. Se este cristão se mudar de cidade, não terá dificuldades para encontrar outro grupo. Os ateus, antes da internet, dificilmente encontravam pessoas com a mesma cosmovisão, exceto, talvez, em cidades grandes de alguns países onde alguns grupos já se haviam organizado. Este isolamento era agravado pela forte oposição e até mesmo hostilidade que muita gente ainda tem ao ateísmo. O ateu, além de se sentir isolado, sofria maior pressão social para não manifestar seu pensamento, e manifestar publicamente ateísmo, mesmo que de forma corriqueira, em simples conversas, poderia trazer aborrecimentos para a vida social do descrente. Ser parte de uma minoria que desperta algum tipo de hostilidade sempre gera este tipo de pressão sobre o indivíduo.

É, portanto, inegável que a internet tenha ajudado, e ainda esteja ajudando, a mudar tal situação. Para quem queria encontrar interlocutores ateus e discutir assuntos relacionados a ateísmo ou religião, sem ouvir o discurso hostil contra os descrentes que, infelizmente, é tão comum, o ciberespaço é o “lugar” ideal, e é também uma ferramenta que reduz a sensação de isolamento. Mas, além disto, há outro aspecto importante a se considerar: a internet não só tornou muitos ateus visíveis uns para os outros, mas também ajudou, e muito, a tornar o ateísmo visível para a sociedade. Se, a cada dia, mais e mais pessoas acessam a internet e se inserem no mundo virtual, mais e mais pessoas também se deparam com os ateus, não somente com indivíduos isolados, à mercê da hostilidade e reprovação social, mas também como grupo que tem voz e se expressa sobre tudo que lhe interessa, principalmente sobre religião e política. É claro que os ateus, como grupo, também são hostilizados e recebem críticas. Mas tais hostilidades apenas aumentam a nossa visibilidade e mostram que, a cada dia, nos tornamos mais difíceis de sermos ignorados.

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Recentemente foi revelado ao mundo um dos casos mais estarrecedores de pedofilia entre padres. Desta vez foi na Alemanha onde, até agora, 115 ex-alunos de colégios católicos resolveram romper o véu do silêncio e denunciar suas experiências acadêmicas desagradáveis.

Ainda mais revoltante é a Igreja Católica, que parece estar muito mais preocupada em manter a sua boa imagem do que em prezar pelo bem estar das crianças que frequentam seus cultos. Segundo a Ministra da Justiça alemã, o Vaticano criou um “muro de silêncio” para tratar deste caso, afirmando que a Igreja orienta seus membros a não divulgar tais assuntos fora da instituição, dificultando, desta forma, a ação da justiça dos homens.

A conclusão da ministra é corroborada por uma carta do falecido João Paulo II que, em 1999, aconselhava Robert Burns, um padre com histórico de abusos, a mudar de área ou continuar na mesma área desde que sua permanência não acarretasse novos escândalos.

Aqui no Brasil também há alguns casos semelhantes. O do padre Ângelo Schiarelli, por exemplo, pego pela polícia em flagrante no quarto com uma menina de 13 anos. O padre, de 64 anos, havia sido transferido de São Lourenço do Oeste onde já havia suspeitas de abusos contra menores.

Existem muitos outros casos descobertos e, provavelmente, muitos outros mantidos em segredo com sucesso.

Segundo a doutrina católica, a castidade não é um sacrifício, mas um fruto do Espírito Santo, que ajudando os homens a controlar suas mentes, aproxima-os de Deus.

Evidentemente, não podemos cobrar sucesso do Espírito Santo nessa missão. Afinal, além de não haver qualquer sinal deste, somos seres sexuados e, por isso, o sexo possui uma relevância psicológica bastante grande em todos nós. Essa relevância é muito mais prevalente nos homens, que, por razões evolutivas, possuem uma libido bastante maior do que a média das mulheres.

Com padres, obviamente isso não poderia ser diferente. A tentativa de coibir a natureza humana com dogmas religiosos é uma tentativa fadada ao insucesso, o problema assume maior proporção quando essas falhas envolvem crianças, alvos fáceis para padres predadores.

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III

Se a fé não tem a capacidade de realmente prover o objeto de desejo que a produz, ou que a justifica, cabe de qualquer forma questionar se existe algum mal em tê-la. A fé traz conforto, alterando, ao menos psicologicamente, uma realidade demasiadamente incômoda para algo nada incômodo ou até mesmo agradável. Quando o seu corpo parar de se mexer por si mesmo e começar a apodrecer, como acontece com todo mundo algum dia, você não estará morto, mas sim continuará a viver em um outro lugar onde o seu corpo não será necessário. E aquelas pessoas queridas que você viu morrerem um dia, aquelas que deixaram uma saudade quase insuportável, você poderá ter a companhia delas outra vez.

Usamos outras coisas assim no dia a dia, e não são necessariamente ruins. A anestesia suprime uma dor física demasiadamente grande, e é fundamental para o sucesso de quase todas as cirurgias. É não só útil como muito benéfica, e os benefícios vão além da supressão da dor, já que em grande parte das vezes o usuário pode viver bastante mais tempo por ter tido uma cirurgia bem sucedida. Ou mesmo um ato simples como o de tomar refrigerante. Fazer isso não traz nenhum benefício físico: podemos nos hidratar bebendo simplesmente água e as calorias nós normalmente já consumimos em excesso em outros alimentos, tanto que uma parte das pessoas prefere a versão dietética. Mas proporciona um pequeno prazer – um efeito puramente psicológico – com o qual podemos considerar a vida um pouco melhor.

O mesmo se pode dizer de preferir a vida com fé – por que não? Se é um alento, um conforto que dá à pessoa a possibilidade de se preocupar menos com um problema que de toda maneira é inevitável, e isso não muda independente de quanta preocupação se dedique a ele. Não há um mal intrínseco nessa postura, mas vale para a fé a regra que convém para praticamente qualquer coisa: “use” com moderação. Manter os pés no chão – ou a cabeça na realidade que não dá indícios para os acontecimentos pretendidos com fé – permite colher o conforto que proporciona sem prejuízos colaterais.

O problema é que a as religiões mais populares exploram a necessidade, a busca pelo conforto emocional num mundo onde coisas ruins acontecem e as tendências que todo mundo ocasionalmente tem à irracionalidade, para fazer um apelo exacerbado ao argumento autossustentado – e vazio – da fé. Conquistam massas com esse recurso que atrofia a capacidade crítica das pessoas e com isso conseguem transmitir ideias e explorá-las, mesmo com promessas baseadas em mundos que ninguém nunca viu e à troca de vantagens absolutamente mundanas, sem praticamente nenhum questionamento. E rebanhos de religiosos cedem 10% de suas rendas a igrejas que não cogitam o trabalho de prestar contas – isso quando não são mais afoitas e pedem contribuições mais vultuosas aos seus fiéis, como carros, imóveis e outros bens ofertados a um deus inexplicavelmente materialista; oferecendo em troca um duvidoso paraíso de felicidade ao mesmo tempo em que os ameaça com o fogo de um suposto inferno caso não contribuam satisfatoriamente. Mais impressionante do que haver líderes religiosos que usem de uma retórica assim é haver fiéis que se comportem de acordo e achem tudo perfeitamente normal. Isso só se explica com muita fé.

 

O argumento da fé
Parte I
Parte II
Parte III

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É fato inegável que há várias áreas de conhecimento. O que se considera ciência em sentido estrito são todas aquelas disciplinas que aplicam o método científico na sua empresa. Temos, portanto, a biologia estudando os seres vivos; a química estudando a constituição dos elementos na natureza; a física estudando a parte mecânica do universo. A lista é imensa e suas divisões podem ser citadas ad infinitum.

Mesmo fora do escopo da ciência em sentido estrito, há disciplinas que nos dão bons questionamentos que dificilmente seriam alvo de uma análise laboratorial: são as ciências humanas, dentre elas boa parte da psicologia e a filosofia, de modo geral; além das ciências sociais, como a própria sociologia ou o direito. São disciplinas especulativas, que, mesmo sem a relativa certeza do método científico, têm uma boa forma de controle sobre as variáveis que procuram analisar.

É de senso comum que, dentro de uma determinada área de conhecimento, os que trabalham nela são mais autorizados a falar dos elementos incluídos. Não chega a ser um apelo à autoridade, mas é o reconhecimento pelo fato de que não podemos abarcar toda a gama de novas pesquisas em todas as áreas que julgamos interessantes. Somos forçados a escolher uma área de trabalho e a acompanhar remotamente todas as outras nas quais não temos tempo para nos aprofundarmos.

No entanto, não devemos dar total confiança a alguém só porque está no escopo de sua área de conhecimento. Não são raros os casos em que um entusiasta apresenta maior destreza no que deveria ser de domínio do profissional. Uma ideia faz sentido por si só ou não faz de forma alguma. Quem a teve é irrelevante, desde que se consiga usar de métodos confiáveis de análise e reprodução.

Com essa separação didática entre as disciplinas, fica fácil identificar qual delas é mais apta a nos dar respostas para determinado fato. Tirando as obscuras áreas interdisciplinares (físico-química, bioquímica etc.), sabemos muito bem a quem nos reportar. E raramente precisamos mais do que daquela área para saciar nossa curiosidade.

É com esse tipo de discurso que alguns religiosos tentam justificar suas crenças. Para este tipo de pessoas, a ciência não entra em terreno da religião e a religião não procura ser científica. Mas é realmente uma alegação legítima?

Não. Em primeiro lugar, à parte das religiões “ateístas” orientais, toda e qualquer religião postula a existência de um ou mais deuses. A existência objetiva de algo é uma alegação completamente passível de estudos científicos. Em segundo lugar, todos os fieis que louvam suas divindades esperam algum tipo de resposta ou intervenção para os seus pedidos. Caso tivessem respostas objetivas, a interação seria facilmente identificada.

É fato que a maioria dos mitos de criação das religiões atuais só passaram a ser vistos como tal depois de um conhecimento razoavelmente bom sobre as origens de nosso universo. Até então, o que estava em livros sagrados era tido como a verdade revelada, seja sobre elefantes montados em tartarugas ou sobre escultores de argila.

Já que a religião não pode, em tese, fazer alegações científicas sobre o mundo, pois esta não é sua função – ou seu magistério, como diria Gould[1] –, o que resta para ela? Que área de conhecimento ou atuação lhe é exclusiva? Para aqueles que alegam a área de conforto contra os fatos negativos da vida (i.e. morte, dor, perda), será que não podemos ter isso por meios puramente seculares? Aos que alegam obras e instituições de caridade, não temos tantas outras de igual ou maior valor que são, no entanto, laicas?

A resposta parece ser óbvia: não há mais lugar para a religião em nosso mundo e o preço que temos que pagar por seus benefícios há muito já ultrapassaram a nossa quota de tolerância. O prejuízo é evidente e só não enxerga quem não quer sair do barco que naufraga lentamente.

[1] GOULD, Stephen Jay. Nonoverlapping magisteria. Artigo disponível em <http://www.stephenja…gould_noma.html> Acesso em 26 fev. 2010.

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Diante da dúvida e da incerteza, relativistas nunca adotam, como cientistas, uma postura aberta, positiva e construtiva, buscando os melhores meios de conhecer a realidade, mas uma postura negativa e destrutiva, buscando os melhores meios de ridicularizar aquilo de que discordam, aquilo que, em última instância, vai contra suas convicções pessoais e as despedaça. Claro que, em qualquer debate, suas convicções sempre são convenientemente omitidas para evitar suspeitas quanto à legitimidade de seus motivos. Em regra, relativistas são apenas indivíduos ressentidos pelo fato de a ciência não corroborar suas crenças. Sabemos que ter respaldo da ciência é seu maior sonho. Para ilustrá-lo, pensemos no caso dos religiosos, pois, ao seu modo, religiosos também são relativistas. Senão, vejamos: afirmam repetidamente que a fé não precisa ser comprovada pela ciência; atacam-na quando esta desenvolve teorias que vão contra suas convicções, como o heliocentrismo e o evolucionismo; dizem que a ciência é um saber extremamente parcial, limitado e dúbio. Suponhamos, entretanto, a seguinte situação: a ciência demonstrou a existência de Deus. Preto no branco, está lá: Deus existe; é fato. A descoberta está em todos os jornais, e os ateus coram de vergonha. Diante disso, os religiosos continuariam a defender tal postura relativista, alegando que a ciência é limitada, e que, mesmo comprovada por fatos irrefutáveis, a existência de Deus continua sendo muito duvidosa? Ora, claro que não; eles se tornariam, embora pelos motivos errados, os mais aferrados defensores da ciência. Alardeariam pelos quatro cantos do mundo que suas crenças são fatos. Em outras palavras, já não precisariam ter fé, pois acreditar em Deus passaria a ser tão normal quanto acreditar na gravidade. O mesmo se aplicaria, por exemplo, aos parapsicólogos, caso fosse comprovado que a mente humana possui poderes paranormais; aos reencarnacionistas, caso fosse demonstrada a existência de espíritos; aos astrólogos, caso fosse estabelecida a influência dos astros celestes sobre nosso comportamento. Se os fatos conhecidos estivessem a seu favor, abraçariam imediatamente a ciência, abandonando o fardo de incoerência que os tornava relativistas.

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por Daniel Quintão e Fabíola Rebouças

Breve etimologia: Homo (homem) é cognato da palavra latina humus (terra). Adão significa tanto “homem” quanto “barro”. No hebraico bíblico temos ‘Adam (homem) e ‘adamah (terra, barro).

Um equívoco maior do que atribuir obras naturais a um ser imaginário é se autodenominar “homem”, criando rótulos para não apenas se distinguir, mas também para definir as espécies por status (abstratos), meras criações do Homo sapiens para colocar-se acima dos demais seres, porém nem sempre condizente com sua real situação.

Assim como os seres míticos, o homem não existe enquanto ser, pois não é palpável, imutável, estável e nem mesmo provável. Não é o mesmo em todo lugar, nem possui características próprias. Não é natural, apenas um produto artificialmente criado pelo meio.

“Humano” é um termo adotado não apenas para a classificação de uma espécie, mas também para a visualização do outro através de conceitos pessoais, sendo este último consequência ambiental, cultural e genética, que definem a “visão de mundo” das espécies, em especial o Homo sapiens.

O Homo sapiens não criou deuses e seus respectivos poderes fantásticos apenas para a explicação do desconhecido, mas também para sustentar um mito anterior a tudo isso que foi desenvolvido — ele mesmo — justamente por sua capacidade de abstração e ampliação de um sistema cognitivo cada vez mais avançado. Distorce-se o sentido (sur)real desta palavra para benefício próprio, visto que “é de ilusões que se vive o homem”, sendo que esta frase deixa bem claro que o homem não vive, apenas se vive, o que é bem diferente e óbvio.

Este abstrato ser, o homem, necessita de pilares para sustentar o termo que é. Segmentações complexas e dificilmente descartáveis tornaram-se indispensáveis para a definição de grupos sociais (e talvez por isso torna-se um ser tão discrepante).

Entre os pilares de sustentação do homem podemos citar três como principais:

Mythos: Pilar imprescindível para a sustentação de uma postura soberana, sádica e divina, perante outras espécies, raças e culturas. Por exemplo, o catolicismo, que defende que somos imagem e semelhança de um deus poderosíssimo, ou o simples fato de associarmos inteligência com ateísmo, podendo ser esta a mitificação de uma postura/ideologia. O conceito de mitificação se estende para além do horizonte da imaginação, pois quando condicionado não se vê a própria falha, se é que podemos chamar de falha.

Mea Gloria: Pilar que sustenta uma característica básica de todo ser vivo, inclusive as plantas: a competição. Foi transformado pelo Homo sapiens, deixando de ser algo necessário para sua sobrevivência genética e passando a suster sua sobrevivência memética e um suposto posicionamento social (abstrato e mutável). Resume-se na fusão entre necessidades básicas, como a alimentação e a sobrevivência, e necessidades fúteis, como o Mc Lanche Feliz e a vida eterna.

Sapere Idiota: Advém de conceitos externos do individuo, baseado (novamente) em termos abstratos. Origina, além dos pilares citados anteriormente, tantos outros com explicações extensas e complexas, e tudo isso para justificar a insolubilidade nos conceitos que a espécie tem impregnada em si. Pode ser entendido como o conjunto de falácias somado ao medo do fracasso existencial (o desconhecimento, a submissão, a solidão, a morte etc.)

Fato é que, extinguindo-se toda a abstração desnecessária para a compreensão da espécie Homo sapiens, como valores culturais absorvidos e interpretação pessoal do outro e do ambiente, volta-se ao que realmente é o estado “cru” do ser, despido de glórias e mitos (uma clara utopia). Se assim se faz, chegar-se-á a uma única conclusão: a humanidade é a maior invenção do homem, que por sua vez não passa de um avatar utilizado por nossa espécie.

Talvez uma ínfima parte do Genesis esteja certa: nós viemos do barro, terra (subentende-se o lodo). Um ser simples, sem ornatos.

Eis aqui o Homo sapiens, tão homem quanto um vegetal.

* * *

(artigo recebido em 10 de janeiro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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No Brasil é notório que um considerável número dos ateus contemporâneos já foram religiosos um dia. Geralmente educados por famílias tradicionalmente cristãs, em algum momento de suas vidas — e pelos mais diversos motivos — eles se questionaram sobre a existência de um deus e de todas as outras coisas que a religião propõe. É interessante perceber que nem mesmo os mais devotos conseguem escapar de tais dúvidas, entretanto nem sempre chegam à mesma conclusão.

Através de efetivos instrumentos de manutenção da crença, as instituições religiosas desenvolveram uma perniciosa lógica cíclica, atribuindo tal dúvida como algo importante para a existência do próprio conceito de fé. Para estas dúvidas, adotam diferentes nomes: tentação, teste divino, desvio etc. Não é incomum ver o Livro de Jó ser invocado como exemplo de perseverança na fé, ou a fábula de Tomé, que precisou ver Jesus encarnado para crer em sua ressurreição.

A dúvida sobre a existência de um deus é natural, e nem mesmo os ícones da cristandade escapam. Madre Teresa de Calcutá, por exemplo, é tida como exemplo de perseverança e filantropia para os católicos; entretanto, até ela travou incessantes e furiosas batalhas contra a descrença. Em seu livroI loved Jesus in the night (sem tradução para o português), Teresa demonstra uma agonizante resistência contra o seu ateísmo natural. Sua hipocrisia religiosa hoje é tida como exemplo a ser seguido, e o livro tem sido publicado por editores cristãos.

Não é incomum histórias sobre padres que abandonaram a batina, mas é um outro tipo que me chama a atenção, e sobre o qual quero discorrer hoje. A história de Teresa de Calcutá me traz lembranças de um antigo professor de hermenêutica, que nos meus primeiros anos de faculdade me surpreendeu com sua inteligência e sagacidade. Este professor, que era padre católico, havia confessado em determinada oportunidade que tinha muitas dúvidas, e hoje poderia se encaixar facilmente no conceito de agnóstico.

Mas não se engane, este não é um caso incomum, poucos são os que emergem e tornam-se visíveis. Possivelmente o primeiro exemplo conhecido data de 1730, quando foi encontrado post mortem o manuscrito de Jean Meslier — proeminente padre católico francês, autor de inúmeras obras sobre filosofia e religião — intitulado “Memorias dos pensamentos e sentimentos de Jean Meslier: uma clara evidência da frívolidade e falsidade de toda as religiões do mundo” talvez tenha sido o primeiro livro com fortes embasamentos teóricos em defesa do ateísmo, ironicamente escrito por um padre.

Diferentemente de Madre Teresa, Jean Meslier já não mentia para si. Dedicou toda a sua vida para escrever secretamente tal obra, mas ainda assim continuou até os seus últimos dias a seguir rigorosamente os seus votos clericais. Seu assombroso intelecto nos presenteou com esta obra de grande significância, que exerceu influência sobre Voltaire e outros pensadores iluministas, com pensamentos que transpassam as barreiras do tempo, como a ideia de que “existindo ou não deus, os homens possuem uma obrigação moral para com outros homens, que perdurará enquanto for da sua natureza o convívio social”. Ainda assim, Meslier nunca tirou a sua batina.

Estes dois exemplos supracitados são os que mais me espantam. Já não são mais atingidos pelos mecanismos de manutenção da fé, são capazes de enxergar a puerilidade das crenças nas quais pautaram todas as suas vidas, entretanto continuam rotineiramente a exercer o que faziam desde o princípio: exaltar e reforçar ilusões em corações ignorantes e/ou desesperados. Creio ser uma analogia pertinente a de um casal de namorados que permanecem juntos por anos a fio, sem que haja qualquer sentimento maior entre os dois. O que os unia no princípio já não existe mais, mas por comodismo preferem permanecer juntos.

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