A nova revista Ateus.net teve o seu primeiro texto publicado hoje. O espaço servirá para publicarmos uma nova postura editorial, com vistas a maximizar as informações passadas. Serão textos autorais publicados periodicamente, com a possibilidade de participação externa, desde que devidamente adequada.

Os textos farão parte do acervo do Portal Ateus.net e ficarão disponíveis como novidades, conforme forem publicados. Grato a todos que fizeram o sucesso deste canal e espero que nos ajudem a fazer o sucesso do novo, que acaba de ser aberto.

O texto pode ser lido no seguinte link: Do dogma.

Atenciosamente,

Jairo Moura.


Quando surgiu a ideia de um periódico relativo ao mundo do ateísmo, os participantes do Fórum Ateus.net que organizaram o projeto discutiam o grau de independência que ele deveria ter no que diz respeito ao Portal. Não seria somente mais um braço, como os outros existentes, mas um espaço diferente, com características próprias. Em resumo, não seria algo do Ateus.net, mas algo que envolvia participantes do Ateus.net.

No entanto, de uma forma ou de outra, essa implicação era inevitável, pois toda a logística depende do Portal – desde o domínio de internet até o fórum de discussões editoriais. O que realmente diferenciava os dois era a independência intelectual, pois, aqui, não existia hierarquia, mas igualdade de voz entre os participantes. Depois de decidida a linha a ser seguida, foi ela que se transformou em norte para as decisões e ela permaneceu soberana por todo esse tempo, independentemente de quem estivesse no corpo de editoração.

Por motivos quaisquer, fui o último a permanecer ativo. E acredito que, por mais que exista, hoje em dia, maior número de publicações de cunho ateísta, não poderíamos deixar que este espaço fosse perdido. Não será difícil encontrar blogs sobre o assunto, mas não somos apenas mais um. Tivemos mais de duzentas publicações autorais que prezaram pela qualidade e pela relevância das informações. Todos os textos foram cuidadosamente selecionados e plenamente discutidos e melhorados, na medida do possível.

Portanto, não deixa de ser com tristeza que venho anunciar o encerramento por tempo indefinido das atividades da revista eletrônica Um Deus na Minha Garagem. É certamente o fim de um ciclo, mas não será a morte, e sim a reciclagem do que se mostrou satisfatório: a partir de junho, surgirá uma revista que passará a integrar o corpo editorial do Portal Ateus.net.

Em respeito à história e à imagem deste espaço, todas as publicações ficarão aqui disponíveis, tais como estão. Nenhum texto será modificado ou reaproveitado de qualquer forma na nova revista. A linha editorial será diferente e o corpo será composto por André Cancian e por mim, Jairo Moura, com a possibilidade de textos estrangeiros, meticulosamente selecionados.

Contatos:

André Cancian: cancian@ateus.net

Jairo Moura: jairo@ateus.net


Quando dizemos que o mundo físico, externo a nós, existe, independentemente de nós, queremos dizer que ele existiu antes do advento do ser-humano e continuará a existir, se um dia viermos a perecer. Por mais que nós não possamos comprovar essa alegação pessoalmente, parece bem provável que ela seja verdadeira.

Nossa criatividade é impressionante e, para o bem ou para o mal, podemos aventar várias explicações para o que observamos ou simplesmente vivenciamos. Essas explicações podem ser úteis nas mais diversas formas, desde que supram a nossa necessidade de entender ou de sentir conforto e segurança.

No entanto, elas só serão úteis se acreditarmos em alguns pressupostos: 1) que a verdade objetiva, isto é, independente de nós, de alguma forma existe; 2) que podemos, senão alcançá-la, chegar perto dela; 3) que temos um método razoavelmente eficiente para isso.

Se o pressuposto 1) for falso, nossa busca pela verdade não é apenas infrutífera, mas também não teremos nenhum padrão para julgar sua veracidade; se 2) for falso, teremos um padrão para julgar, mas será apenas o de nossa infinita falha e esta crença não restará justificada; se 3) for falso, em princípio, só precisamos criar um método que supra nossa necessidade.

De toda forma, se a hipótese solipsista estiver certa, e se formos realmente somente o ser pensante em um mundo falso, aparente, ainda precisaremos de uma forma de conviver neste mundo, de interagir com ele; falso ou não, parece ser o único que temos, a menos que se alegue ser preciso morrer nele para atingir um mundo novo, real – uma espécie de paraíso.

Como se questionam até mesmo os dados empíricos, não há senão a Navalha de Occam para dirimir a discussão. Trata-se de um princípio valioso na averiguação de hipóteses concorrentes. Dessa forma, ao decidir sobre uma colisão delas, devemos seguir a mais simples, por uma questão de elegância e por exigir menos variáveis, quanto mais questionáveis forem.

Na impossibilidade de termos um referencial externo a nós mesmos, ficamos com a) nosso conhecimento sofre limitações biológicas, bem explicadas por conta de nosso processo evolutivo, mas temos certo acesso à verdade; ou b) não temos acesso nenhum à verdade e toda essa ilusão é criada por algo que não conhecemos sem sabermos com qual propósito.

Até que tenhamos boas razões para largar a hipótese mais parcimoniosa, é de bom tom que não o façamos; se só conseguimos enxergar os fenômenos, que entendamos que eles apontam para a coisa-em-si, por mais inacessível que se a julgue. E tenhamos em mente, principalmente, que o fato de existir algo para o qual se aponte coincide com a nossa versão de mundo objetivo.

Independentemente de buscarmos algum sentido específico de verdade, devemos ter em mente o que realmente buscamos. Falsidades podem ser reconfortantes, mas, se não queremos nos enganar, resta-nos passar por uma espécie de auto-adestramento para que os nossos métodos pessoais conduzam aos nossos objetivos pessoais. Fora de nós, o êxito logrado por outros métodos consiste exatamente em extirpar essas discrepâncias intersubjetivas, em busca de conhecimento que, na medida do possível, independa de nós.

O que importa, afinal, é entender que essa verdade objetiva é uma meta, e que os nossos mecanismos subjetivos de produção de verdade são meios de tentar alcançá-la. A verdade subjetiva – em suas mais diversas formas –, torna-se, ao invés de uma entidade metafísica inquestionável, a construção de ferramentas para encontrar as melhores formas de caminhar até ela.

Resta agora diferenciar essa realidade objetiva do mundo das ideias, conforme Platão o descreveu. Para ele, tal mundo também se contrapunha à deficiência dos sentidos – ao mundo sensorial –, mas a sua solução não era descartar o ser-humano, e sim encontrar, a partir dele, formas eternas e imutáveis, possíveis por ser o homem dotado de uma alma.

O mundo objetivo, por outro lado, existe independentemente do ser-humano, por mais que nós sejamos a única forma conhecida de contemplá-lo e de atestar-lhe a existência. Não é imutável e não possui formas eternas. Em nossa cabeça, o mundo objetivo é o esforço mental para representar a realidade sem a interferência de cérebros programados para executar funções específicas.

 

Leituras recomendadas:

HARRIS, Sam. We are lost in thought. Disponível em <http://www.edge.org/q2011/q11_12.html#harriss>. Acesso em 07 maio 2011.

PLATÃO. Timeu. Disponível em <http://en.wikisource.org/wiki/Timaeus>. Acesso em 07 maio 2011. [em inglês]

SAGAN, Carl. Admiração e ceticismo. Disponível em: <http://ateus.net/artigos/ceticismo/admiracao-e-ceticismo/>. Acesso em 07 maio 2011.

______. Podemos conhecer o universo? Reflexões sobre um grão de sal. In: O cérebro de broca. Lisboa: Gradiva, 1987.


O texto imediatamente anterior foi o ducentésimo deste espaço. Números redondos parecem nos causar espanto, mas nem por essa ilusão deixaremos de celebrar tal marco.

Grato a todos os leitores e àqueles que ajudaram a construir cada um desses duzentos relatos, dedicando seu tempo a algo que julgaram importante.

Jairo Moura.


A premissa não é tão inovadora: imaginemos um espelho. Olhamos diretamente para ele e vemos o nosso reflexo. Mexemos músculos de nossa face e a superfície repete exatamente os mesmos movimentos. Viramos de costas e voltamos rapidamente para ver se a imagem consegue suplantar nosso ceticismo e lá está novamente a figura idêntica a nós realizando tudo o que decidimos fazer em tempo real.

No entanto, ao terminarmos de nos arrumar, saímos do quarto e ficamos imaginando se o espelho ainda continua a refletir os objetos em seu ângulo de influência, mesmo quando não estamos lá. Voltamos ao quarto e checamos por nós mesmos, mas só sabemos quando olhamos diretamente e acabamos por ver nossa imagem também. Mas é aí que temos uma ideia:

Instalamos uma câmera de vigilância para testar a hipótese de que o espelho continua a funcionar quando não estamos lá, mas percebemos que a câmera funciona exatamente como nossos olhos: ela só consegue captar a imagem refletida quando ela mesma está apontada para o objeto e, assim, acaba por aparecer e frustrar nosso pequeno experimento.

Concluímos, então, que só podemos ter certeza de que o espelho reflete quando estamos observando o espelho refletir. Por mais estranho que pareça, é até onde podemos realmente comprovar. Se pedirmos para outra pessoa olhar, devemos confiar no testemunho dela, pois, se olharmos juntos para conferir, estaríamos outra vez burlando as regras de nossa imparcialidade.

O exemplo não para aí e pode ser estendido para árvores que caem na floresta e a dúvida sobre fazerem barulho ou não; como também para o nosso passado – como podemos provar que não implantaram memórias falsas? E, se podemos nos enganar com o nosso passado, por que não podemos estar enganados a respeito de todas as nossas sensações e de nossos pensamentos?

Esse tipo de raciocínio leva a algo chamado solipsismo. Trata-se da linha que culmina na constatação de que a única coisa que podemos comprovar por certo é que há um ser pensante, porque, certo ou errado em seus pensamentos, do simples fato de pensar segue-se que há um ser. Descartes [1] é talvez o mais famoso filósofo dessa conceituação, mas ela tem origens desde as religiões orientais e a filosofia grega, e a forma já fora explorada desde poetas, como Edgar Allan Poe [2] e Pedro Calderón de la Barca [3], até a ficção científica moderna, com sonhos indistinguíveis da vida real [4] ou com máquinas manipulando nossas mentes [5].

Mas qual o real apelo do solipsismo? Por que não parece haver contestação para ele? O solipsismo ataca diretamente uma de nossas falhas de percepção: a de que nosso cérebro interpreta apenas os dados obtidos através dos sentidos e que não é capaz de superar essa deficiência. Mesmo quando não medimos esforços empáticos para tentar pensar como outra pessoa, dificilmente conseguimos boa noção do que se trata até termos nós mesmos passado pela experiência.

É assim que se dá com o choque entre culturas: temos problemas para entender por que alguns comem carne de cachorro ou mesmo por que alguns rejeitam consumir carne de vaca. Mas a dificuldade também pode vir por fatores etários – o choque entre gerações – ou de gênero – o choque entre os sexos. É um rol meramente exemplificativo, mas dá conta do sentimento de incompreensão advindo da incapacidade natural para se imaginar no lugar do outro.

O solipsismo aponta para essa falha e, pelo fato de não sermos perfeitos, põe em xeque toda a nossa capacidade de conhecer. No entanto, tal apelo só teria efeito completo se nossa constituição fosse puramente racional, como a matemática. Dentro de suas regras, podemos pedir por respostas certas. Diante de nossos problemas diários, as operações matemáticas passam por ótimo porto seguro. Não é à toa que, em linguagem técnica, as ciências matemáticas sejam as únicas que ainda falam em prova.

Em outros ramos, falamos apenas em evidências, que são elementos que usamos para confirmar nossas hipóteses. De certa forma, nunca alcançaremos evidências suficientes para provarmos em definitivo que nossas hipóteses são verdadeiras – e, mesmo que conseguíssemos, poderíamos usar do solipsismo para duvidar da validade delas. Com isso, quanto mais certeza queremos ter sobre determinado assunto, mais evidências devemos coletar e conferir se elas confirmam ou refutam nossa impressão.

O solipsismo – ou a dúvida absoluta – dá espaço, então, para a dúvida guiada. Devemos duvidar de qualquer proposição que não venha acompanhada de evidências proporcionais à alegação e estarmos sempre dispostos a abandonar aquelas para as quais as evidências apontam em direção contrária [6]. Eis a força e a fraqueza de tudo: podemos coletar um número grande de evidências confirmativas, mas apenas uma negativa é o bastante para que sua validade seja questionada.

É o máximo que conseguimos obter de nossos sistemas cognitivos limitados, mas tem se mostrado satisfatoriamente eficaz. O gosto pelo absoluto e o repúdio pelo incompleto parece ser uma lembrança de nossos cérebros primitivos que acabam por vacilar quando não há segurança que nos guie a determinado comportamento. O solipsismo é útil para que abandonemos certas crenças, mas fazer dele uma crença maior é votar pela inércia de dispensar avanços em prol de um conhecimento absoluto que muito provavelmente nunca teremos.

Notas:

[1] DESCARTES, René. Meditationes de prima philosophia, in qua Dei existentia et animæ immortalitas demonstratur. Original latim com traduções para o inglês e o francês disponível em: <http://www.wright.edu/cola/descartes/>. Acesso em 18 abr. 2011.

[2] POE, Edgar Allan. A dream within a dream. Poema disponível em <http://www.poemhunter.com/poem/a-dream-within-a-dream/>. Acesso em 18 abr. 2011. [em inglês]

[3] BARCA, Pedro Calderón de la. La vida es sueño. Peça completa disponível em <http://es.wikisource.org/wiki/La_vida_es_sue%C3%B1o>. Acesso em 18 abr. 2011. [em espanhol]

[4] Inception, dirigido por Christopher Nolan. Warner, 2010. IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1375666/

[5] The Matrix, dirigido por Lana Wachowsky e Andy Wachowsky. Warner, 1999. IMDb: http://www.imdb.com/title/tt0133093/

[6] RUSSELL, Bertrand. O valor do ceticismo. In: RUSSELL, Bertrand. Ensaios céticos. Trad. por Maria Motta. Porto Alegre: L&PM Editores, 2008. Original inglês disponível em <http://www.positiveatheism.org/hist/russell4.htm>. Acesso em 21 abr. 2011.


Na acepção que nos interessa neste texto, o vocábulo grego lógos (λόγος) significa a faculdade do homem de raciocinar [1]. E é exatamente nessa acepção que encontraremos o termo latino ratio [2]. A ambiguidade aparente do termo “razão”, em português, vem de outra forma de interpretar a ratio: além da inteligência ou do intelecto, pode significar também o próprio princípio de inteligibilidade, o que nos diferencia, em tese, dos outros animais.

O mundo exterior não é racional no primeiro sentido, porque, até onde sabemos, não podemos projetar intencionalidade no universo. Não há uma mens que raciocina por si. De acordo com todo o conhecimento coletado até agora, somos as únicas formas de vida conhecidas na vastidão que enxergamos lá fora. E, aqui dentro, o pensamento é um fenômeno que não existe sem o substrato cerebral, presente apenas em alguns tipos de animais com sistema nervoso central e mais reservado àqueles com capacidade superior de abstração. Se, ainda assim, nos separamos dos outros, é por nossa capacidade de expor tais pensamentos através da linguagem.

No entanto, dadas as regularidades das constantes da natureza e a nossa capacidade de abstrair padrões – às vezes até mesmo onde não existem –, é possível racionalizar a existência em todos os seus traços. Foi com esta ideia de razão que criamos a filosofia, que se expandiu para as mais diversas áreas, e mais recentemente a ciência, em sua acepção atual, que abarca praticamente todos os fenômenos conhecidos. As alegações recentes de impossibilidade de racionalização saíram do mundo externo, pois a abrangência científica já demarcou os pontos mais diversos que podemos imaginar. Ficamos, então, restritos a certos comportamentos humanos ou a certas manifestações que julgamos serem únicas de nossa espécie.

Notadamente, as áreas que mais tentam livrar-se do cunho da racionalidade são as religiosas ou as artísticas. Note-se que o pretenso destaque do escopo da ciência só se realiza se tomarmos por base aquele grupo de ciências naturais que costumamos simplesmente designar “ciências”, como a física, a química e a biologia. Por mais que elas também estudem constituições do ser-humano, entende-se que a sua abordagem é meramente mecânica, como quando estudamos as funções e o funcionamento de nossos sistemas, desde o digestivo e o respiratório, até o nervoso e o reprodutivo.

Em termos filosóficos, sempre tivemos autores que tentaram racionalizar a arte e a religião. Aristóteles escreveu vários tomos sobre o primeiro termo e a própria palavra grega para “arte” significa simplesmente “técnica” (τέχνη). Os títulos latinos para suas obras são ainda mais interessantes, como Ars rhetorica (τέχνη ρητορική) ou Ars poetica (περὶ ποιητικῆς), e nos revelam um sentido para o vocábulo “arte” que usamos hoje em dia, de forma mais displicente: quando um indivíduo demonstra notável destreza em seu campo de atuação, dizemos que é um artista, dizendo, na verdade, que simplesmente possui técnica apurada e criatividade avantajada, como no caso de jogadores de futebol ou praticantes de xadrez, mas também de bons funcionários ou administradores.

Sobre a religião, vários autores se aventuraram a discorrer sobre seus fundamentos, bem como tentaram usar a racionalidade filosófica para justificar a (in)existência de deus(es). Desde os aforismos de Epicuro, até os teólogos medievais Agostinho e Tomás de Aquino, culminando nos extensos escritos de Hume sobre a religião. E, ainda depois disso, com Voltaire, Leibniz e Espinosa. Filosoficamente falando, religião e arte, conclui-se, não estão fora do escopo da razão, pois são objetos tratados por vários ramos, desde a teologia até a estética, não importando a provável naturalidade de tais traços.

A ciência também lida com os dois construtos humanos. E muitas vezes aplica o método científico strictu sensu para tal. Partindo de manifestações sociais, os sociólogos clássicos da escola francesa já estudavam os costumes religiosos, enquanto se expandiam para além das fronteiras europeias – surgiu assim a figura do bon sauvage, tão famosa na literatura da época [3]. Para mais perto de nosso tempo, tivemos a expansão para as civilizações dos arquipélagos do Oceano Pacífico, com mais estudos sobre os nativos e o acompanhamento de uma religião que nascia dali: o caixismo ou o culto à carga [4]. Em nosso país, até hoje antropólogos visitam tribos isoladas e que, não raro, nunca tiveram contato com o “homem branco”. De seus estudos, saem vários tratados interessantes, como a série de relatos sobre a tribo dos Pirahãs [5].

E vamos ainda mais longe, quando tratamos dos traços universais que temos codificados em nosso DNA. A psicologia evolutiva trabalha de forma complementar às disciplinas sócio-filosóficas, como no caso da estética evolutiva [6][7]. O objetivo de tal disciplina é tentar enxergar as vantagens evolutivas dos mecanismos que nos permitem explorar a arte e a religião como formas culturais. Os estudos mais aceitos em comunidades especializadas dão conta da arte como produto acidental, pois é um uso diferente e novo para características isoladas que desempenhavam funções nobres para a nossa sobrevivência, como o reconhecimento de padrões na natureza, e para a seleção sexual, como os conceitos de beleza e agradabilidade [8].

Mesmo que se alegue que isso tudo não é realmente fazer arte ou participar de uma religião, a racionalidade não fica de fora da práxis. Nas artes, é inegável que entendemos melhor a música e a harmonia musical de um ponto de vista físico – com relação aos comprimentos de ondas das notas musicais – e matemático – com a noção de proporção entre as notas que, desde os gregos, nos dão escalas belas e agradáveis. A escala pentatônica, por exemplo, em suas várias modalidades surge com os estudos de Pitágoras sobre as divisões melódicas [9].

Saindo da música, a ideia de harmonia também contaminou a poesia, e basta citar a estrutura poética mais conhecida – o soneto. É a junção de dois quartetos e dois tercetos, com sílabas poéticas bem definidas e uma estrutura de rima variável, a depender do autor. Sua fórmula nada mais é do que a racionalização de um compasso musical que soa bem aos nossos ouvidos, ou seja, a teorização de algo que temos em nossa programação inata. Em ainda outras palavras: a justificação racional para a beleza percebida por nossos sentidos [10].

O mesmo pode-se dizer para a arquitetura, para a escultura e para a pintura. Esta última, aliás, desenvolveu-se de forma surpreendente quando os artistas ocidentais – notadamente a partir do Renascimento – passaram a aplicar avançados cálculos matemáticos para as proporções humanas. O famoso estudo do homem vitruviano de Leonardo da Vinci é pura e simplesmente a aplicação da proporção que o arquiteto e engenheiro romano Marco Vitrúvio Polião prescrevera para o corpo humano, já no séc. I a.C., e seguia os princípios arquiteturais de utilidade (utilitas), beleza (venustas) e solidez (firmitas) [11].

Quod erat demonstrandum, não só temos ótimas bases empíricas para decidirmos sobre as opções disponíveis, como também dispomos de grande arsenal racionalista para que nenhuma de nossas escolhas fique à mercê de arbitrariedades. Conforme avançamos e nos aprofundamos nas questões que sempre nos levaram ao autoconhecimento, resta pouco ou nenhum espaço para obscuridades. No fundo, não deixa de ser irracional – não no sentido de não usar a razão, mas de ser contra o que ela demostrou ser mais verdadeiro – que se alegue lacuna onde já não existe mais.

No mais, parece permanecer, a favor da crença em deus(es), o adágio latino geralmente atribuído a Tertuliano [12], que dá conta da crença no sentido mais peculiar para “fé”: o depósito de confiança em algo que se demonstra injustificável por quaisquer outros meios; a crença em algo para o qual não se tem a menor das evidências. Ficamos, enfim, com o poético mas tragicômico credo quia absurdum.

 

Notas:

[1] GOBRY, Ivan. Vocabulário grego da filosofia. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[2] FONTANIER, Jean-Michel. Vocabulário latino da filosofia. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

[3] Página da Wikipédia sobre a idealização: <http://fr.wikipedia.org/wiki/Bon_sauvage>. Acesso em 03 abr. 2011. [em francês]

[4] Sobre o assunto, há um bom texto neste mesmo espaço: TEIXEIRA, Bruno. O início das religiões: o culto à carga. Disponível em: <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/05/21/culto-a-carga/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[5] Página da Wikipédia sobre o povo Pirahã: <http://en.wikipedia.org/wiki/Pirah%C3%A3_people>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[6] DE SMEDT, Johan. Toward an Integrative Approach of Cognitive Neuroscientific and Evolutionary Psychological Studies of Art. Disponível em <http://www.epjournal.net/filestore/EP08695719.pdf>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[7] DUTTON, Denis. Aesthetics and Evolutionary Psychology. Disponível em <http://www.denisdutton.com/aesthetics_&_evolutionary_psychology.htm>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[8] Sobre a religião como produto acidental, há outro texto neste mesmo espaço: MOURA, Jairo. Das origens da religião II: produto acidental. Disponível em <http://deusnagaragem.ateus.net/2010/12/15/1808/>. Acesso em 03 abr. 2011.

[9] Bobby McFerrin demonstrando que todos temos a escala pentatônica em nossa programação cerebral: <http://www.youtube.com/watch?v=ne6tB2KiZuk>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]

[10] Em português, Augusto dos Anjos tem, sem dúvidas, alguns dos mais belos sonetos. Para referência, “Versos Íntimos” é um ótimo exemplo. Há uma versão disponível em <http://www.releituras.com/aanjos_versos.asp>. Acesso em 03 abr. 2011.

[11] Página da Wikipédia sobre Marco Vitrúvio Polião: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vitr%C3%BAvio>. Acesso em 03 abr. 2011.

[12] Página da Wikipédia sobre a discussão referente ao adágio: <http://en.wikipedia.org/wiki/Credo_quia_absurdum>. Acesso em 03 abr. 2011. [em inglês]


Há uma crescente leva de publicações de cunho ateu nas mais diversas mídias. O que antes estava reduzido a filósofos esporádicos e era encarado como motivo de vergonha ou receio, agora parece estar na boca de qualquer um disposto a falar. Por mais que alguns reclamem falta de legitimidade para o ato, não deve ser o caso. A hipótese deus(es) diz respeito a todos nós, direta ou indiretamente.

Como tal, foi tratada pelos mais diversos campos do conhecimento. Como fundamento metafísico, sob a filosofia e a teologia; sob o fundamento social, temos a sociologia e a antropologia. De certa forma, não importa a abordagem, pois sempre partimos da análise da justificativa da crença do homem, caso a hipótese da existência seja verdadeira ou falsa; ou da análise de seu comportamento, caso creia ou não na hipótese.

Colocando a questão dessa forma, a factualidade de deus(es) fica em plano secundário e passamos a estudar tópicos que dizem ou podem dizer respeito às nossas vidas práticas. É assim que a interferência religiosa nas mais diversas áreas legitima qualquer um de nós, especialistas ou leigos, a manifestar suas opiniões. Nesse sentido, alegar insuficiência acadêmica ou intelectual para que se critique a hipótese divina é apenas uma forma de calar bocas.

Mas deveríamos mesmo nos calar? Talvez. Mas se – e somente se – houvesse tratamento mútuo por parte dos religiosos. Ora, se não temos o direito de falar contra algo para o qual não vemos evidências, também não deveria haver o direito de professá-lo. Hegemonia e números absolutos não servem como pretexto para calar as minorias e todo o nosso ordenamento jurídico caminha na proteção formal dos hipossuficientes substanciais.

Uma coisa é certa: se o problema é realmente a falta de escrutínio por parte das críticas ateias, que sejam mostrados exatamente os pontos falhos da argumentação. Era de se esperar que quem estivesse certo não se furtasse a oportunidade de mostrar conclusivamente o equívoco da tese contrária, mas o que vemos é simplesmente uma reação emocional, comparável a quem teve a honra ofendida – não a intelectualidade e a racionalidade.

Ainda mais interessante: a maior parte das críticas ateias diz respeito a duas características principais – a falta de evidências para a hipótese divina e a deturpação e a exploração da fé alheia em troca de benefícios político-financeiros para as instituições religiosas. São os dois pilares que sustentam, entre outras coisas, a dominação e o sequestro da moral e dos comportamentos individuais e sociais, o acobertamento a crimes cometidos por eclesiásticos e associados, o enriquecimento ilícito e a isenção de impostos que o propicia, a mutilação genital e a punição severa e desproporcional a delitos de menor importância, como o adultério e a apostasia.

Diante da exposição de tantos fatos, é possível reconhecer algumas reações arquetípicas, mas a principal delas é o ataque gratuito às fontes de críticas. É uma forma de autodefesa através do recrudescimento contra aqueles que simplesmente fizeram circular a informação. Fosse falsa ou difamatória, as vias judiciais seriam muito mais adequadas para resolver o litígio, mas raramente o fazem, em uma declaração tácita de veracidade do que é levantado.

Sem entrar no mérito da justiça ou da eficácia das normas, a verdade é que temos direitos inalienáveis dos quais não deveríamos abrir mão. Um deles é a liberdade de expressão, garantida constitucionalmente contra qualquer ato de uma maioria ensandecida e ditatorial, que busca calar opiniões em contrário. Dessarte, não será uma pessoa ou um grupo delas que farão com que escrevamos ou deixemos de escrever sobre o que nos agrada ou incomoda.

Em momento algum se questiona o direito de se crer no que quiser, mas sim a razoabilidade e a justificação das crenças. A discussão aberta deveria ser encorajada e não cerceada. Devíamos expor os diferentes lados e deixar que a escolha fosse feita por seus méritos e não por sua imposição. Devíamos entender, finalmente, que o direito de crer não é a obrigação de crer e que há, em contrapartida, o direito de não crer e de explicar-se por quê.


Fala-se muito em “religião organizada” quando se apontam os males causados pelo pensamento religioso. É como se todos fossem inocentes isoladamente, mas a nova entidade formada pelos indivíduos herdasse um pouco do mal inerente de cada um e se transformasse em um novo ser, dotado da capacidade de cometer as maiores atrocidades imagináveis em nome da fé.

Apesar da popularidade, algumas perguntas restam inevitavelmente sem resposta. O que se poderia chamar de “religião organizada” hoje? Pensamos na Igreja Católica e nas grandes protestantes; mas e as igrejas que surgem diariamente – aproveitando-se de nossa legislação flexível e da isenção de contribuições – se encaixam? Os cultos domésticos, que não precisam de um eclesiástico ordenado, se encaixam? Os rituais de despacho de algumas religiões afrobrasileiras se encaixam?

Creio que a resposta para cada questão variará de acordo com o gosto de quem as responde. Assim, o termo “religião organizada” padece de terrível atecnia e de plurissignificação. Quem usa do termo procura somente algum espantalho vagamente definido para atacar. Não foram poucas as vezes em que ouvi cristãos vangloriando-se por seguirem somente a Jesus, e não a igrejas; ou ateus dizendo que respeitam o comportamento individual, mas são contra a tal “religião organizada”.

“As igrejas são feitas por homens”, dizem. “Sigo algo muito maior”, batem no peito e bradam orgulho. Mas podem mesmo se valer do espantalho como bode expiatório? Pelo que vemos acontecer, não. Em primeiro lugar, porque podem ser tão fanáticos quanto qualquer beato de igreja. Em segundo, porque, mesmo moderados, não aceitam deixar de lado a denominação cristã. Se eufemismos valem como conforto emocional, vale dizer que não têm muito valor numa discussão sobre as consequências das ações.

Crenças em seres sobrenaturais organizadas em culto crescem como mato nas sociedades, mesmo nas atuais. E um local apropriado serve não só como centro de oração, mas principalmente como ponto de socialização. Os rituais induzem estados vendidos que supostamente só podem ser comprados ali e é por isso que a maioria, mesmo postulando deuses pessoalmente montados, ainda segue casas oficiais de culto, mesmo sem fidelidade a quaisquer delas.

Dessa forma, a famosa “religião organizada” não é bem assim tão culpada por seus atos se o fiel continua seguindo os seus preceitos, dentro ou fora das paredes. De certa forma, serão tão culpados pelo que as “religiões organizadas” fazem quanto o somos pelas ações dos nossos políticos eleitos. Mesmo que não os tenhamos colocado diretamente no poder, é nosso dever fiscalizá-los na sua gestão de nossa boa-fé.

Fingimos aceitar que o mal do país é gerado pela má atuação dos governantes simplesmente para nos sentirmos aliviados de culpa. Se realmente acreditássemos que eles são os responsáveis, dificilmente ficariam no poder por tanto tempo. Sairiam por revolta – expressa ou tácita, nas próximas eleições. Da mesma forma, não acreditamos que o papa ou outro grande líder religioso seja responsável pelas atrocidades que os fieis deixam acontecer.

Quisessem, poderiam bradar suas verdades reveladas a quem os escutasse. Aqueles que o fazem em pequenas praças públicas são vistos apenas como excêntricos e ignorados pela maior parte da população. É o mesmo com quem não segue uma grande denominação religiosa: vemos somente um velho de cabelos brancos, envolto por um vestido longo e cheio de adornos, pendurado em uma janela bem arquitetada, falando besteiras com um sorriso amarelo em sua face.

É o que aquelas pessoas comovidas que o escutam na praça abaixo fazem que importa. São elas que dão suporte ao velho retrógrado. Somos nós que damos audiência às suas palavras caducas. Que levamos a sério sua retórica de púlpito. Que nos fazemos cordeiros em seu rebanho. Queremos que acabe? Comecemos por não expiarmos a culpa em um bode, pois é uma tradição cristã que há muito deixamos racionalmente de seguir: não há uma “religião organizada” a quem combater, mas uma mea culpa, pessoal e intransferível, que deve ser retratada.