Que o leitor não se assuste com o título deste texto. Eis o que de imediato podemos dizer para quem pense em desistir de lê-lo. Além disso, poderíamos dizer que o intuito destas linhas não é outro senão explic(it)ar o significado de seu título — que ao final terá, como esperamos, sua parcela de sentido.

Comecemos pelo capital: διεντέρευμα, palavra oriunda do grego clássico, foi um neologismo criado pelo escritor grego Aristófanes em uma de suas mais importantes peças teatrais, a saber, As nuvens. Vejamos, antes de prosseguir com nossas considerações, o excerto no qual o termo aparece:

Strepsíades — E o que disse Sócrates sobre os mosquitos?

Discípulo — Ele afirmava que os mosquitos tinham o intestino estreito; ora, o canal sendo assim delgado, o ar passa com força até o rabo; depois, saindo pelo reto apertado, faz o ânus ressoar pela violência do sopro.

Strepsíades — Então o ânus dos mosquitos é uma trombeta! Três vezes feliz é o autor dessa intesti…gação.[1]

Como se nota, o comediógrafo jogou com as palavras para criar o termo “intestigação” partindo-se da reunião de “investigação” (διερευναν) e “intestino” (ἔντερον). Leve-se em consideração o humor presente na passagem acima, posto que o neologismo reflete, simultaneamente, uma alusão à investigação feita a partir do intestino dos mosquitos e, sobretudo, o caráter próprio da conclusão exposta por Strepsíades, qual seja, uma falácia — ou, para sermos poéticos e entrarmos na dança das palavras, uma espécie de flatulência do discurso, um tipo (típico) de fezes ilógicas.

Aristófanes trouxe à baila uma interessante e bem humorada crítica aos sofistas, tendo em Sócrates seu maior expoente. (Vale dizer, para efeito de justiça, que o pai da Filosofia não era, de fato, um sofista; tal interpretação aristofânica teve como ensejo tão somente a necessidade de pilheriar.) O que nos interessa é, no caso, a crítica proveitosa contra tais mestres das distorções retóricas. Mais do que isso: a ameaça desses pseudo-pensadores que não se importam em alcançar a verdade, mas sim em garantir, num debate, a persuasão — geralmente para fins desonestos. Para ser mais claro: “No caso específico de As nuvens, o que fica patente na crítica aos sofistas são os efeitos inesperados decorrentes do reino da palavra, o qual se pretende controlar: tão plástico e escorregadio, quanto traidor e incontrolável. Tudo isso, à revelia das boas intenções dadas por princípio.”[2]

Eis que se percebe o contratempo caso transferirmos, para o mundo atual, o excerto dAs nuvens e a crítica que há na peça como um todo. Passados mais de dois mil anos desde a primeira encenação da comédia aristofânica, o que notamos é um cenário no qual a maioria não sabe nada, mas sabe de tudo — menos, explicite-se, de sua estreiteza intelectual —; a lógica devem saber que a infringem, mas se esqueceram de que o sabem. Apesar dos riscos de generalizações apressadas, de modo geral os religiosos optam por argumentações que parecem assegurar tão somente a inutilidade de uma discussão: para eles, um debate torna-se proveitoso apenas se for possível dissimular, nos argumentos, a deficiência de seus equívocos. Em outras palavras, suas investigações intelectuais não passam de intestigações. E sabemos bem a consequência pragmática disso…

Pode soar estranho comparar o argumento “o ânus dos mosquitos é uma trombeta porque o canal delgado do intestino faz com que o ar ressoe ao sair” com um argumento contemporâneo (por exemplo, “Deus está além de nosso conhecimento” ou “a evidência de que Deus existe provém do que confirmam meus sentimentos”); mas, ao analisarmos mais a fundo, apontaremos com facilidade alguns princípios que ainda constituem o grosso das discussões atuais — ausência de evidência objetiva, falta de consistência lógica e presença de conclusões equivocadas, para citar apenas três.

Não é por acaso que, no século XXI — que nada mais é do que um século ainda VI a.e.c. com, claro, algumas dissimulações e equívocos a mais e melhor tecnologia —, Deus torna-se, a cada dia, uma palavra cada vez mais obscena.

Montagem a partir de RODIN, Auguste. Le penseur. Paris: Musée Rodin, 1902.

Montagem a partir de RODIN, Auguste. Le penseur. Paris: Musée Rodin, 1902.

Talvez a questão ainda persista porque o homem, como o conhecemos em suas circunvoluções, não mudou o bastante; e ainda, diga-se, tem a ilusão babuína de achar que terá sucesso em tapar com esparadrapo um corte extenso na jugular da razão. Lembremo-nos, por fim, da ideia trazida a lume por Michel Foucault, a respeito da loucura na idade clássica — mas que, como se poderá notar, tem sua validade ainda hoje —: “o louco também é detentor da sua verdade, mas essa verdade está oculta e, como ele não consegue alcançá-la, nem decifrá-la, então ele clama desesperadamente para que ela seja, enfim, revelada.”[3]

Sejamos loucos, mas não abusemos.

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Notas

  1. ARISTÓFANES. As nuvens. Trad. Mário da Gama Cury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. l. 167. (o texto, no original, pode ser encontrado no site do Perseus Digital Library.)
  2. RUBIÃO, Laura Lustosa. “A comédia e a ruptura dos semblantes: notas sobre ‘As nuvens’, em Lituraterra”. In: Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, Vol. 9, Número 2, pp. 261-262. Julho-Dezembro de 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/pdf/agora/v9n2/a07v9n2.pdf>. Acesso em 12 de dezembro de 2009.
  3. VIEIRA, Priscila Piazentini. “Reflexões sobre A história da loucura, de Michel Foucault”. In: Revista Aulas, Número 3, p. 20. Dezembro/2006-Março/2007. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scribd.com/doc/16660368/Foucault-Historia-da-loucura-Artigo>. Acesso em 12 de dezembro de 2009.
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