Na segunda metade do século XVII foi publicada uma das obras mais populares na história do cristianismo, especialmente entre cristãos protestantes. Trata-se de O Peregrino (The Pilgrim’s Progress), redigida por John Bunyan (1628-1688), escritor inglês e fervoroso pregador do cristianismo. O texto narra a jornada de um peregrino, chamado Cristão, rumo a Sião e à Cidade Celestial. Em seu caminho, o protagonista percorre uma terra fantástica, com castelos, vilarejos, fortalezas, calabouços, lutas com demônios e gigantes, elementos que fazem lembrar os mundos de fantasia descritos por outros escritores conterrâneos de Bunyan, como Tolkien ou Carroll. As dezenas de personagens que o leitor encontra ao longo da leitura são, em sua maioria, a personificação de vícios ou virtudes, como Hipocrisia, Loquaz, Inveja, Adulador, Esperança, Piedade, Prudência, ou então representações de tipos humanos, como Fiel ou Ateu. O livro é talvez a mais famosa alegoria cristã já escrita, e é publicada até hoje, além de traduzida para várias línguas.

Não me interessa aqui fazer uma resenha detalhada da obra. Minha proposta é apenas uma breve reflexão sobre um trecho do texto: o encontro do protagonista, Cristão, e um de seus companheiros, Esperança, como a personagem denominada Ateu. Neste encontro, Ateu se revela descrente quanto à existência de Sião e da Cidade Celestial, e adverte Cristão e Esperança de que sua busca é vã. O Ateu de Bunyan apresenta características muito comumente atribuídas pelos cristãos aos descrentes em geral. Ele demonstra ser arrogante ao chamar Cristão e Esperança de ignorantes, além de ser zombeteiro e escarnecedor, ao soltar uma estrepitosa gargalhada quando ouve o protagonista falar sobre o destino de sua viagem. Mas, do breve encontro entre estes personagens, mesmo da forma narrada por um autor devoto como Bunyan, podemos tirar algumas reflexões.

Em primeiro lugar, é interessante observar que o encontro entre Cristão, Esperança e Ateu acontece quase no final do livro, em um de seus últimos capítulos. Este detalhe é importante quando o associamos a uma das afirmações de Ateu. Este personagem conta a Cristão e Esperança que fez, por mais de vinte anos, a mesma jornada que eles empreendem, mas que não encontrou Sião e assim concluiu que tal lugar não existe. Isto pode levar o leitor a pensar que Ateu é tolo ou cego, visto que, no mundo fantástico de Bunyan, a Cidade Celestial existe e Cristão a encontra no final. Mas, considerando o caráter alegórico da obra, podemos pensar que, na vida real, a atitude que Ateu representa é louvável, uma vez que ele se deu ao trabalho de percorrer o mesmo caminho que Cristão percorreu. Alegoricamente, isto pode ser interpretado como a atitude de alguém que procura investigar, verificar, constatar, antes de concluir. Ateu investigou o caminho percorrido por Cristão, e assim pôde verificar a probabilidade e a plausibilidade da existência da Cidade Celestial. Mesmo tendo chegado a uma conclusão diferente da de Cristão, Ateu não pode ser acusado de ter sido preguiçoso, ou leviano, ou de ter tirado suas conclusões apressadamente. Podemos pensar que Bunyan, talvez inconscientemente, reconheceu no Ateu, pelo menos, alguém que busca a experiência, mesmo que suas conclusões sejam consideradas falsas, pelo ponto de vista do cristianismo. Ateu estava no final da jornada, tinha experiência, vivência, ao contrário do que seria a personagem se o autor a tivesse colocado no início da narrativa.

Em segundo lugar, podemos observar um detalhe interessante. Pequeno, mas significativo. A primeira coisa que Cristão percebe ao avistar Ateu, é que ele volta suas costas a Sião. Cristão menciona tal fato no primeiro comentário que faz a Esperança após avistar Ateu. No diálogo entre as personagens, Ateu indaga se há no mundo o tal lugar chamado Sião, e Cristão responde que Sião não existe neste mundo, mas em outro. Ora, se Ateu está dando as costas a Sião, então logicamente ele está virado de frente para o mundo, encarando-o, enquanto Cristão, ao encarar Sião, põe-se a mirar o outro mundo, dando as costas àquele em que vivemos. Isto ilustra uma atitude típica de muitos cristãos: a de olhar tanto para um improvável “outro mundo” a ponto de negligenciar a existência do mundo em que vivemos, com seus problemas e mazelas, com suas dores e injustiças, mas que é o único do qual podemos ter razoável certeza de que existe, e no qual podemos agir, seja para compreendê-lo, seja para mudá-lo, contribuindo para que melhore. Não quero, com tal interpretação, ser injusto com todos os cristãos. Esta atitude de dar as costas ao mundo não é característica de todo seguidor do cristianismo, e, se na história há exemplos de cristãos que fogem da realidade, isolando-se do resto da humanidade, há também exemplos de cristãos que propuseram agir e trabalhar para minorar o sofrimento de seus semelhantes. No entanto, dificilmente se poderá encontrar ateus que tomam esta atitude de dar as costas ao mundo, de fugir da realidade e focar-se em um improvável “além”, de cuja existência não há o menor indício fora de velhas tradições de tempos bem diferentes dos nossos. Ateus, em geral, encaram o mundo, analisam a realidade, pois ela é um dos sustentáculos de sua cosmovisão. Esta atitude é desejável e benéfica, pois somente encarando o mundo e seus males podemos reunir informação e conhecimento para combatê-los. Pessoas que creem em um “outro mundo”, mesmo as que não fogem deste nosso mundo real, mesmo as que encaram a realidade e lutam para mudá-la, não podem ter a mesma perspectiva dos ateus, ou seja, a de que este é o único mundo que temos, que nossas esperanças devem se voltar todas para ele, que nossas forças devem se voltar todas para a melhoria da nossa realidade, pois muito provavelmente não teremos outra para viver. Nisto reside a esperança dos ateus. E, por mais paradoxal que pareça, os ateus têm mais motivo para ter esperança do que os cristãos. Se a “esperança” dos cristãos se volta muito mais para um mundo que provavelmente não existe, como pode então existir esperança? Esperança em um mundo que não existe?

É neste ponto que quero voltar à alegoria de Bunyan. No livro, Esperança é a personagem que acompanha Cristão até o fim de sua jornada. Portanto, Esperança também dá as costas ao mundo. É como se não pudesse haver esperança no mundo real. Isto é errado pois, se nós pensarmos que não há esperança de progresso e melhora no mundo, de nada adiantaria vivermos, trabalharmos, lutarmos para que a realidade seja melhor. Só nos restaria cair no desespero. Porém, a maior parte dos ateus não se enquadra na categoria de pessoa desesperada, infeliz, apática, sem objetivo ou propósito na vida. Ao contrário, ateus em geral trabalham, pensam, lutam, debatem, se frustram com fracassos mas se regozijam com o sucesso, e assim contribuem para que o mundo real seja aprimorado. São atitudes de pessoas que têm esperança.

Neste ponto, é pertinente uma crítica à alegoria de Bunyan. A esperança não é apenas um companheiro de viagem dos cristãos rumo a lugar nenhum. Ela se faz muito mais presente como companheira dos livre-pensadores em sua jornada e em sua luta por este mundo. Se me é permitida uma licença para modificar a alegoria de Bunyan, eu reescreveria o final da obra, fazendo com que Esperança deixasse Cristão continuar sozinho sua viagem a uma improvável Cidade Celestial, e acompanhasse Ateu em sua jornada para o mundo real. Nesta nova alegoria, Ateu, sendo também um peregrino, com sua experiência e com a companhia de Esperança, certamente contribuiria para tornar o mundo melhor. E Cristão, agora desacompanhado de Esperança, que pôs-se a caminhar com Ateu, poderia talvez voltar-se também para o mundo, ao invés de fugir dele, contribuindo também para mudar a realidade e melhorá-la. E, quem sabe se, assim, Cristão não poderia tornar-se ele mesmo um novo Ateu?

A todos aqueles que querem um mundo (real) melhor, e que contribuem para melhorar a realidade, sejam ateus, cristãos, ou qualquer outra coisa, desejo um feliz ano novo, na companhia da Paz e da Esperança.

Referências:

BUNYAN, John. O Peregrino. 19ª ed. São Paulo: Imprensa Metodista, 1992. Também disponível no original em inglês em:<http://www.sacred-texts.com/chr/bunyan/> Acesso em: 27 dez. 2009.

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