Monthly Archives: dezembro 2009

Ainda que sejamos apenas mais um em um mar de bilhões de pessoas, todos nós gostamos de nos sentir especiais. Sentimo-nos especiais quando estamos apaixonados, quando lembram do nosso aniversário, quando pensamos ser mais inteligentes e críticos do que os crentes etc. Mas nada disso é comparável, em termos de egocentrismo, do que o ato de orar pedindo algo.

Crentes creem que deus é um ser onisciente; logo, os planos para todas as coisas já deveriam estar devidamente traçados. Um crente quando ora, porém, pede a deus que mude os planos supremos do universo a seu favor, sentindo-se, talvez, o ser mais especial de toda a criação.

Vejo a religião, de modo geral, como um reflexo desta necessidade que as pessoas têm em se sentirem especiais. Isso fica evidenciado, por exemplo, na lenda da criação dos judeus e cristãos, na qual Deus cria a humanidade à sua imagem e semelhança, para que domine todas as outras espécies no ar, na terra e no mar.

O primeiro tapa no antropocentrismo foi dado por Nicolau Copérnico que, em 1543, publicou o seu livro Commentariolus, com o qual demonstrou que a Terra gira em torno do Sol. Ora, segundo a “Genesis”, Deus criou o Sol apenas no terceiro dia, ao redor de que a Terra teria girado antes disso? Pela primeira vez, uma descoberta científica contrariava um importante dogma bíblico, rebaixando o planeta Terra a uma posição subalterna ao Sol; por este motivo, o livro Commentariolus foi banido pela Igreja até 1835.

O segundo e definitivo tapa no antropocentrismo foi dado por Charles Darwin, que, com a Teoria da Evolução, demonstrou que a humanidade possui uma linha de ancestralidade ligada aos outros primatas e animais não tidos como tão gloriosos pela Igreja da época. Desta vez, descobrimos que a humanidade era apenas mais uma espécie da fauna da Terra, e não mais podíamos nos considerar a imagem do criador supremo do universo, apenas macacos pelados que, por um acidente de percurso, se tornou o que somos.

Por fim, não poderíamos deixar de lembrar a fantástica foto idealizada por Carl Sagan e fotografada pela Voyager em 1990, nos limites do sistema solar. Um símbolo da insignificância da humanidade.

PaleBlueDot

Este pequeno ponto no meio da foto é o Planeta Terra, que antes fora considerado o centro do universo. Hoje não é mais do que um pálido ponto azul.

O mundo que conhecemos hoje nem sempre foi assim. Uma frase um tanto quanto óbvia não é mesmo? Mas para muitas pessoas, e por incrível que pareça, isso não é levado em consideração quando se aprofundam em pensamentos, considerando as que se permitem aprofundar. Fazer um retrocesso histórico/temporal honesto e confiável, até onde se é capaz, para muitos significa ir de encontro às suas convicções religiosas. Convicções essas que independente de quão bizarras sejam, estão cravadas na cabeça de uma pessoa crente. Basta dizer que nos dias de hoje, mesmo com o acúmulo de informações, com todo nosso conhecimento a respeito da evolução das espécies e precisas datações históricas, ainda há quem pense que o planeta Terra possui seis mil anos apenas. Isso não seria surpreendente caso eu estivesse me referindo a pessoas sem instrução e sem conhecimentos. Há casos em que o crente cristão letrado e suficientemente culto simplesmente ignora algumas passagens de seu livro sagrado (no livro “Deus, Um Delírio” o biólogo Richard Dawkins narra uma situação bastante curiosa sobre isto) para continuar fiel àquela doutrina religiosa. E existem casos mais severos em que tal convicção se transforma num muro intransponível ao seu detentor, como ocorreu com um professor de biologia de uma renomada escola de São Paulo, que preferiu parar de lecionar a referida matéria científica, pois seu conteúdo “feria” suas convicções cristãs. Imaginem um homem que passou anos estudando em excelentes colégios, posteriormente se formou em biologia, consagrou-se mestre nesta matéria e abandona tudo em nome de uma convicção que não possui palpabilidade alguma.

Voltemos agora ao inicio deste texto. Se o mundo, desde os idos tempos medievais, para não irmos tão longe na história, tivesse seguido a risca a cabeça dos orgulhosos homens convictos (acho interessante como uma pessoa se auto-vangloria exageradamente quando se declara convicta em algo), será que nós teríamos estes computadores à nossa disposição? E quanto a medicina? Quantas e quantas vezes a humildade em reconhecer erros, refazer pensamentos, inverter ideias, desistir de ideias, criar novas ideias, dar o braço a torcer para a opinião de outrem, foram necessárias para chegarmos onde estamos? Há pesquisadores convictos? Certamente que sim, mas nenhum pesquisador convicto (aquele determinado a provar sua teoria, porém suficientemente maduro e honesto para admitir o oposto caso as evidências assim o forcem) sério e interessado realmente no resultado verídico final de seu estudo, iria contra a realidade somente para sustentar uma convicção que ficou sem embasamento. E nesse momento chegamos a uma conclusão: existem as convicções necessárias e as desnecessárias. Antes que leitores afoitos, principalmente os com tendências a qualquer tipo de credulidade no sobrenatural, acessem o “santo” google tentando achar referências oficiais sobre essas expressões e solicitar fontes sobre o enunciado, me adianto informando que são apenas termos criados por mim neste texto com o único objetivo de efetuar a devida separação. Separação esta de profunda importância para a história e para a vida no planeta.

As convicções necessárias a que me refiro (que até poderíamos substituir por um termo similar ao significado de busca consciente de algo), são aquelas que sustentamos por causa de motivos e evidências favoráveis que justamente nos fazem tê-las, e consequentemente defendê-las enquanto a razão assim nos permitir. Esse tipo de convicção é um alimento (um fomento extra) que nos da energia para continuar seguindo as “pistas” de nosso objeto de pesquisa/estudo e alcançar o sucesso (seja a criação de uma vacina, o projeto de um novo perfil de asa em um túnel de vento, a criação de um novo pesticida, enfim, o descobrimento de algo novo, seja em qual área for). Essas convicções são facilmente abandonadas quando se conclui que as evidências estavam equivocadas ou mau interpretadas. Você pode até pensar: “então não eram convicções”. Ledo engano. Eram sim, porém abertas a realidade, e não ao misticismo esdrúxulo. Um engenheiro aeronáutico que passou meses ou até anos convicto que o projeto de seu novo perfil aerodinâmico iria funcionar bem e inovar o mercado da aviação, abandona imediatamente tal convicção ao se deparar com a inviabilidade técnica da ideia quando demonstrado o fiasco no resultado final. Não há orgulho ferido e nem vergonha nessa atitude, apenas profissionalismo e maturidade humana para colher bons frutos da aprendizagem do antigo projeto e partir para um próximo. É muitíssimo provável, para não dizer certo, que a humanidade vive confortavelmente nos moldes de hoje devido a atitudes deste tipo.

As convicções desnecessárias (que até poderíamos substituir por um termo similar ao significado de falta de aprofundamento na questão), são por vezes nocivas, uma vez que, se sustentadas por um grupo social grande o suficiente para fazer “peso” de ordem, podem atrapalhar, prejudicar e atrasar diversas áreas de interesse comum ao restante da sociedade que não possui tais convicções. Isso foi e ainda é um problema sério até mesmo para a elaboração de leis (aborto, pena de morte, prisão perpétua…). Mas você pode estar se perguntando: com que autoridade ou base fundada este que escreve está afirmando sobre a nocividade das convicções desnecessárias? A resposta é bem simples. Se o objeto alvo da convicção desnecessária ultrapassar a fronteira do íntimo, do pessoal, ela passa a ser nociva, arrogante e prejudicial, seja em curto, médio ou longo prazo. Nenhuma convicção sem embasamento lógico e evidenciável, que formam as desnecessárias, deveria romper os limites do indivíduo que a possui. Mas infelizmente a realidade é outra. E isso nos leva diretamente às religiões, que são produtos de devaneios, fantasias e convicções coletivas que adentram no sistema de vida de toda sociedade, pois é notória a dificuldade de uma nação ser, de fato, laica. O laicismo total e verdadeiro seria um enorme passo para que as convicções desnecessárias fossem irrelevantes aos restantes cidadãos da sociedade, mas iremos tratar o laicismo em outra ocasião, não neste texto. Se levarmos em conta o mundo globalizado de hoje, podemos dizer sem exageros que as convicções desnecessárias de alguns, do outro lado do planeta, interfere diretamente na vida de quem vive do lado oposto do globo (11/09 WTC é um ótimo exemplo). Sempre lembrando que o termo “desnecessário” utilizado aqui diz respeito tão somente a ser desnecessário para a coletividade, e não individualmente (a análise de quanto uma convicção idiota e desnecessária faria mal unicamente ao seu portador não vem ao caso).

No geral, para pessoas que não são detentoras da verdade e reconhecem isso, as convicções podem de certa maneira fomentar projetos e até mesmo sonhos, concretizando coisas maravilhosas que um dia foram apenas impulsos elétricos dentro de um cérebro vivo freneticamente pensante. Porém, sem se aprofundar imparcialmente nas gigantescas “fossas” dos questionamentos e sem respeitar o bom senso e a razão, tudo o que se terá serão apenas convicções idiotas e sem fundamento, e a história real do mundo nos mostra dolorosamente o quanto elas são DESNECESSÁRIAS para as sociedades.

Nota de esclarecimento ao leitor – O conceito sobre o termo convicção abordado neste texto, não segue com rigor o significado desta palavra, mas tão somente a maneira vulgar como ela tramita rotineiramente no dia-à-dia das pessoas.

MACCARI, Cesare. Cicerone denuncia Catilina. 1882-1888. Villa Madama, Roma. (detalhe)

MACCARI, Cesare. Cicerone denuncia Catilina. 1882-1888. Villa Madama, Roma. (detalhe)

Quando tomamos conhecimento de tudo o que até agora criamos, respondemos, evidenciamos, comprovamos, descobrimos — nós, enquanto humanidade —, fica difícil compreender em que ponto estaria, na ideia de progresso, de desenvolvimento, de avanço, a concepção (malograda) de providência divina. Se a História evidencia algo, é isto: Deus — sua defesa, mais propriamente, por meio de instituições religiosas — serviu à humanidade tão somente para detê-la em seu curso e garantir seu retrocesso. Ou a conservação de seus insensatos paradigmas.

Ainda que tal ideia não seja inédita, é importante evidenciá-la porque, como se sabe, o óbvio é óbvio apenas a quem acolhe, a par de sua honestidade intelectual, a par de uma sinceridade irrestrita e, por vezes, insuportável, a evidência das evidências. Não é difícil, nesse ínterim, encontrar exemplos sobre isso — visto que a história da humanidade, ainda que seja um livro empoeirado e digerido por traças e sandeus, é sobretudo um livro aberto; contudo, e é pertinente esclarecer, apontemos alguns fatos. Levando-se em consideração a Idade Média, o que encontramos é, no campo da Filosofia, a estagnação ou mesmo a desaceleração de um processo racional de entendimento do homem, do mundo, da existência, iniciado com os gregos e deturpado pelos santos filósofos ligados à ICAR que, ao reciclarem as ideias de Platão e Aristóteles, nada mais fizeram que deturpá-las a fim de garantir a validade de um resguardo caquético que amparasse Deus.

Do mesmo modo, se enfocarmos a Física teremos, no mesmo período, a evidência de descobertas relevantes, embora árduas — posto que, contra os dogmas cristalizados da Igreja, não se podia argumentar francamente (Galileu o prova, a contragosto) —; o curioso, aqui, é que qualquer descobrimento dessa natureza serviu para extrair da Igreja parte de sua coerência (na suposição de que existisse alguma). Restaria a nós, com isso, inferir quanto estaríamos mais desenvolvidos — do que de fato estamos — caso não existissem tais bloqueios. A fortuna da humanidade foi a de ter como compartes alguns homens que presentemente denominamos gênios, e que nada mais fizeram do que o contrário que fez a grande maioria que homens que puseram em prática a obediência que nada questiona, uma mistura de estupidez e insolência. Estes, os insensatos e simplórios — não necessariamente em tal ordem —, se constam na história do homem é meramente por, talvez, uma questão de sarcasmo.

Como aventamos acima, ainda que brevemente, no curso do progresso humano houve sempre o conflito da aceleração rumo à sensatez versus o retrocesso rumo ao desesclarecimento. E hoje, quando vemos no tecido da História as máculas que nos coagiram, é impossível não concluir que, atualmente, estaríamos muito mais avançados no que concerne à tecnologia, à ciência e à cultura do que, de fato, estamos. Estaríamos, nós, homens de hoje, pois os homens de ontem trocaram o avanço intelectual por um lenitivo metafísico, placebo que nunca realmente curou — pelo contrário, sempre acabou por nos denegar um pouco mais. Saliente-se, além disso, que o tempo perdido nesse retrocesso não podemos reavê-lo.

No entanto, ainda está ao alcance de nossa competência mudar o andamento da sinfonia humana, fazê-la de staccato a prestissimo, isto é, evitarmos que nosso presente e nosso futuro sejam pacientes de possíveis pioras de sua doença dogmática. Possíveis, vale dizer, caso nossa liberdade de pensamento se aliar à rejeição de tudo o que nos re-tarde. Até quando?

*   *   *

Nota

Quo usque tandem…?: expressão latina a significar “Até quando?”, foi imortalizada pelo orador romano Marcus Tullius Cicero que a empregava no início de seus discursos contra Catilina. A frase completa (Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?, “Até quando, ó Catilina, abusarás de nossa paciência?”) serve aos nossos propósitos caso fizermos uma simples mudança: alterarmos “Catilina” por “caterva”.

Observemos nossa sociedade. Que lugar deus ocupa nela? A fachada. Afirmamos que deus existe, mas nossas ações dizem exatamente o contrário. Na prática, vivemos como se deus não existisse. Naturalmente somos forçados a isso, pois deus não existe, mas não é essa a questão. A questão é que a crença em deus não reflete simplesmente uma ignorância de nossa parte, não é meramente um erro. É uma mentira. Uma mentira fria, lenta, calma e deliberada. E nós sabemos disso. Só fingimos que não. Faz parte do script. Isso diz muito sobre quem somos. Somos macacos. Macacos maus, pérfidos e ansiosos. Parvos também.

Para ilustrar, comparemos religião e dinheiro. Deixando os detalhes de lado, podemos dizer simplificadamente que cada país tem sua religião e seu dinheiro. Ambos são invenções, mas no dinheiro nós acreditamos, e não apenas da boca para fora. Se tivermos dúvidas quanto a isso, basta lançar ao chão uma Bíblia e uma nota de cem, e observar os resultados. Provavelmente ninguém dará atenção à Bíblia tão logo. Porém, mesmo que um transeunte pegasse a nota e aproveitasse para pegar também a Bíblia, é certo que só pensaria em abri-la bem depois de haver gastado a nota mui apaixonadamente. Também é evidente que o indivíduo, ao se deparar com um livro sagrado, jamais diria a si próprio: puxa vida, que sorte, encontrei um meio de salvar minha alma! Pensará algo como: bom, papel… pelo menos é de graça. Nessa situação, provavelmente apanharia a Bíblia apenas para disfarçar o fato de estar se apropriando de um dinheiro que não lhe pertence, ou simplesmente como um efeito colateral do entusiasmo diante da nota. Então, pelo modo como as tratamos, alguém do lado de fora de nossa cultura teria a clara impressão de que o objeto sagrado são as notas, não as Bíblias. Perceba-se também que a religião ocupa um papel de fundo em nossas vidas, nunca o papel principal; sua função pouco difere de um consolo temporário diante das eventuais derrotas da vida. Então, no fim das contas, sim, recorremos à religião, mas só depois que o dinheiro acaba.

Mas a religião não é só uma fachada. Ela tem muito poder. Mas poder sobre o quê? Sobre costumes fósseis, sobre superstições ignorantes, sobre irrelevâncias rituais? Se o Papa esperasse dominar o mundo com base nisso, ele só conseguiria arrancar mais algumas gargalhadas da humanidade. Nós o mataríamos se tentasse. Mesmo. A religião está caduca. Pensamos o contrário por inércia, ou talvez só por educação. Olhemos ao nosso redor. Deus está morto. Que assuntos importantes a religião controla? Vacinas? Gramática? Agricultura? Genética? Leis? Medicina? Economia? Transporte? Informática? Nenhum. Ela só controla nossos pretextos. Tudo o que a religião pode fazer é propagandear ladainhas tiradas de livros santos que ninguém lê. Nem mesmo quem acredita neles lê — e esse detalhe deveria nos deixar perplexos. Todos já conhecemos a conclusão: só permitimos que a religião decida sobre questões absolutamente irrelevantes, e nos demais assuntos nós a ignoramos. Ela tinha muito poder. Não tem mais. Constrangedoramente simples. Na prática, nossa sociedade já é ateia; só não atualizamos o discurso.

Agora vejamos essa mesma questão do ponto de vista de nossas vidas pessoais. Estamos viajando, e decidimos dormir no volante. Por quê? Ora, porque avisamos deus que iríamos dormir, e ele certamente não nos deixaria na mão. Pensemos agora em alguém que, em vez de estudar, reza; e depois sai em busca de emprego, confiante de que terá sucesso, pois possui três mil horas de Pai Nosso no currículo. Só conseguiríamos rir desse tipo de coisa. Vida prática e religião não se misturam. Todos sabemos disso. Não se deve esperar de deus mais do que esperaríamos do acaso. O fato é que nós nos valemos da retórica da fé apenas em certas situações pré-definidas, quase estereotipadas — nas quais, diga-se, não há absolutamente nada a se fazer —, como, por exemplo, um ente querido à beira da morte. Mesmo porque, se houvesse algo a ser feito, estaríamos fazendo esse algo, não rezando como palermas. Levar deus realmente a sério — ao pé da letra — não apenas beira, mas praticamente define o ridículo.

Então, fora dessas situações pré-estabelecidas, quem continua se guiando pela fé já não é respeitado, pois está fora de seu elemento. Por exemplo, rezar em hospitais é respeitável, mas imaginemos alguém rezando durante um tiroteio. Se deus existisse, claro que poderia desviar balas, assim como poderia curar doentes. Contudo, nessa situação nós o veríamos com certa pena, como alguém tão indefeso e desorientado que não chega sequer a ser visto como um rival, mas como um bobo — como veríamos uma criança deslocada, excluída pelas outras, passando vergonha porque não entendeu as regras do jogo. Deus só manda dentro de igrejas. Nosso modo de ter religião não é inocente, mas cheio de malícia, repleto de segundas e terceiras intenções. No fundo, é tudo política. Por isso um indivíduo genuinamente religioso simplesmente nos inspiraria pena — parece-nos um parvo que se perdeu da realidade, uma criança bêbada, alguém que nunca gostaríamos de ter como amigo, pois se comporta como um imbecil, destituído de qualquer bom senso. Ademais, como se mostrou incapaz de lidar com esse tipo de sutileza social, jamais confiaríamos no tino desse indivíduo para decidir qualquer assunto que nos fosse importante; sua intuição nos parece estar estragada.

Pois bem, se deus é um mito, se a religião é política, o que resta? Espiritualidade, talvez? Mas, se prestarmos alguma atenção, veremos que as situações nas quais recorremos à espiritualidade são indistinguíveis das situações nas quais recorreríamos a comprimidos de Valium. Ora, sequer levamos a sério o assunto do qual depende nossa eternidade — trocamo-la sem hesitar por meia dúzia de pecados e dois dedos de uísque. Diante disso, ainda estamos preocupados com espiritualidade ateia? Se, mesmo acreditando em deus, tratamo-lo pior que um cão, como podemos falar da importância da espiritualidade aos que não têm espírito? Isso é uma paspalhice. Não temos sequer interesse em ler os livros que abordam o assunto, e isso já diz tudo — muito mais do que gostaríamos. Inclusive a nós, ateus, se quisermos ouvi-lo. Poderíamos continuar exemplificando, mas não é necessário. Mesmo porque, se não deixarmos de lado esses pretextos nostálgicos e desvairados envolvendo a importância de uma espiritualidade que nunca nos importou até descobrirmos que não tínhamos espírito, a situação somente ficará cada vez mais ridícula.

Alguns homens eventualmente entendem tais mecanismos, ainda que por caminhos tortuosos. Contudo, a maioria jamais chega a tomar consciência de suas próprias engrenagens simiescas. Mesmo assim, vivem. É curioso imaginar como indivíduos tão profundamente perdidos dos fatos conseguem viver — parece um milagre que consigam descascar laranjas e contar até três simultaneamente sem decepar o próprio braço. Pois, intelectualmente, é o que fazem; só nos inspiram pena todas as vezes em que enchem os pulmões para nos explicar como estão certos ao estar errados. Parecem-nos crianças brincando de raciocinar. Mas a explicação para isso é simples. Há uma enorme diferença entre o mundo que temos sobre os ombros e o mundo que temos sob os pés. Nossas crenças consistem basicamente de sonhos verborrágicos com efeito calmante; elas não orientam nossas vidas práticas, apenas nossas explicações, que são quase sempre ocas e dispensáveis. O fato é que, se dependêssemos apenas de nossas crenças para guiar nossas vidas, já estaríamos todos mortos; são nossos instintos que nos mantêm com os pés nos chão. Obviamente, essa é a razão pela qual, na prática, tratamos deus como o que ele é, uma crença; tratamos a religião como o que ela é, política; tratamos a espiritualidade como o que ela é, um entorpecente barato. Nosso discurso pode ser beato, mas nosso tutano é ateu. Quem nos criou foi a realidade.

Discursos emocionados, rituais repletos de simbolismo, exorcismos, curas milagrosas, incitação ao combate armado, utilização de argumentos pseudocientíficos. A oratória religiosa varia muito de secção para secção, mas seja qual for o método adotado é espantosa a sua efetividade. Como se consegue encantar tantos ouvintes com discursos subjetivos, que fogem da realidade?

A arte de alcançar os ouvintes com discursos fantásticos recebeu a alcunha de retórica. Aristóteles[1] dividiu a retórica em três principais segmentos: a retórica política (ou deliberativa), a retórica forense (ou legal) e o epidíctico (ou oratória de louvor); esta última é a que nos interessa. Para o filósofo macedônico: “os homens são convencidos por considerações de seus interesses”, e a efetividade do discurso religioso repousa nas inverossímeis respostas que traz aos medos e receios humanos. Seu segredo repousa na exploração das lacunas, na oferta de respostas ao que ainda não pode ser respondido.

A comoção é a principal arma da retórica, e tal elemento é bem familiar aos religiosos. Seja através do sofrimento de um mártir (como a figura de Jesus), da criação de ídolos (Chico Xavier, Alan Kardec, Mahatma Gandhi) através de discursos energéticos, seja do despertar de um sentimento de familiaridade. Já perceberam, por exemplo, como a igreja católica é organizada? O seu líder maior recebe o título de Papa (pai), assim como os padres (pais) e as freiras (irmãs). Os evangélicos se tratam por irmãos; a provocação deste sentimento de fraternidade (estar entre irmãos) é deliberada e serve a um propósito: a vontade natural de proteger a nossa família a todo custo.

Quando se trata de retórica, cada detalhe é importante. Os gestos, a articulação das palavras, a aproximação da plateia, a percepção de suas reações e a sensação que percorre os ouvintes de estarem sendo observados pelo orador, que aparenta oferecer um discurso preparado especialmente para quem o escuta. Ainda em Aristóteles, podemos apontar os três pilares que sustentam tal ardil: A aparência de discurso munido de razão (logos), o direcionamento do discurso para o lado emocional (pathos) e a autoridade da qual é investida o orador (ethos).

A igreja católica, com seus métodos arcaicos de atração e manutenção de fiéis, cada vez mais perde espaço para as seitas protestantes. Somente na década de 90, segundo o IBGE, o número de evangélico duplicou (de 9% para 18%), enquanto os católicos passaram de 83,8% para 73,8% (dados referentes ao Brasil, entre 1991 e 2000). Qual é o segredo do sucesso? Os constantes apelos emocionais, os discursos exagerados e demagógicos, exorcismos, curas e promessas de soluções para quase todo tipo de problema são determinantes no marketing sagrado.

Não podemos nos esquecer da fonte que alimenta a igreja evangélica, a chamada Teologia da Prosperidade, desenvolvida na década de 70 pelo americano Kenneth Hagin, que em síntese defende que os fiéis devem ser abençoados (presenteados) em vida com bens materiais. Nas palavras do pastor batista Ariovaldo Ramos, da Associação evangélica brasileira, “para os neopentecostais, existe uma obrigação de Deus para com os seus fiéis” [2]. Outro pastor, Anderson Angelotti Moraes, da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra complementa: “Jesus foi um homem rico. A igreja sempre pregou que ele foi pobre, mas isso não é verdade. Ele não recebeu somente três presentinhos dos reis magos. Ganhou muito mais e ficou rico. Tinha até tesoureiro. Como ele cuidaria de seus discípulos sem dinheiro? Vivendo de vento? Eles precisavam comer e trocar de roupa, mas isso a igreja tradicional não diz”[3].

Ora, quem não quer se aliar a um ser poderoso, capaz de nos tornar ricos, saudáveis (independentemente da moléstia que nos aflige), exorcizar nossos demônios e nos dar a vida eterna? Combinados com a figura de um pastor (ethos) e com missas em voz alta, onde constantemente grita-se e repetem-se frases de efeito (pathos), o discurso religioso torna-se uma bomba nuclear, que mata a razão e dissemina ilusões.

O Sociólogo Ricardo Mariano, em seu livro análise sociológica do crescimento pentecostal no Brasil, corrobora a ideia de que a retórica evangélica pauta-se nas promessas de soluções mágicas, ao afirmar: “uma grande parcela da população não tem acesso ao serviço de saúde – e, quando tem, recebe atendimento precário e mal entende os médicos. É muito mais fácil, e faz mais sentido, acreditar que os problemas são causados pelo demônio e se tratar na igreja.”[4]

A retórica manifesta-se não somente nos discursos, mas em outra importante ferramenta de persuasão: os hinos religiosos. Através da música sacra, exaustivamente repetida a cada culto e cerimônia, imbui-se na mente do fiel todas as ideias previamente encucadas pelo discurso retórico. A retórica e a música caminham de mãos dadas, e esta exerce papel sedimentador das ideias daquela.

É preciso se educar e compartilhar conhecimento. Há um défice zetético em nossa cultura – talvez proposital – que contribui significativamente para a instalação da ignorância manipuladora. Apenas a mente bem treinada e munida de senso crítico é capaz de resistir aos encantos irracionais das religiões. Daí a importância urgente em incentivar o estudo científico e o ceticismo moderado das gerações futuras e contemporâneas.

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  1. Cf. Aristóteles. Ars Retorica.

  2. Cf. Revista Galileu, Julho de 2002, Ano 11, nº 132. De onde vem a fé, pág. 21 – 27.

  3. Idem.

  4. MARIANO, Ricardo. Análise sociológica do crescimento pentecostal no Brasil. apud Superinteressante, Fevereiro de 2004. Edição 197. Evangélicos, pág. 51-60

Leitura complementar:

  • FONSECA, Alexandre. Evangélicos e mídia no Brasil. Edusf/Ifan/Faculdade São Boaventura, 2003.

  • ROMEIRO, Paulo. Supercrentes.  Mundo Cristão. 1993.

  • PIERUCCI, Antônio Fávio; PRANDI, Reginaldo. A realidade social das religiões no Brasil. Hucitec. 1996.

  • MAFRA, Clara; ZAHAR, Jorge. Os evangélicos. 2001.

Qual foi a última vez que a Teoria Gravitacional foi taxada de “mera teoria”? Quando que a teoria da tectônica de placas ou a teoria atômica foram consideradas blasfêmias, entrando em conflito com várias facções religiosas?
Com certeza, essas teorias não foram muito bem aceitas logo quando foram propostas. Inclusive, muitas delas foram severamente criticadas. Newton teve que ver a sua teoria gravitacional constantemente ridicularizada em diversas caricaturas e Wegener morreu sem testemunhar o prestígio que a sua teoria sobre placas tectônicas alcançaria anos mais tarde.
Mas, em 2009, suas teorias são amplamente aceitas, não apenas no meio acadêmico, como em qualquer setor da sociedade. O mesmo não se pode dizer sobre a Teoria da Evolução, cuja autoria é conferida a Charles Robert Darwin e Alfred Russel Wallace.

Por quê?

Existem duas possibilidades. Ou a teoria é falha, ou existe outro motivo, não racional, pelo qual muitos relutam em aceitá-la como verdadeira.
Quanto à primeira possibilidade, devo dizer, é uma possibilidade muito pequena. A teoria neodarwiniana afirma que a variação genética de uma população em relação ao tempo é definida por uma etapa de aumento aleatório de informação, que incluiria mutação, deriva genética e recombinação, sucedida por uma diminuição nada aleatória, representada pela seleção natural. Não irei me ater, dentro deste texto, sobre todas as evidências que corroboram cada etapa desta afirmação. Mas posso garantir que não existe a menor dúvida de que estas etapas ocorram, estão amplamente documentadas, e o resultado destes processos resulta no que chamamos de evolução.

Antes de entrar na outra possibilidade, deve-se salientar que não é apenas a Teoria Evolutiva que encontra problemas. O maior absurdo é que muitos, hoje em dia, negam o fato da evolução. Eu entenderia que muitos discordassem da explicação que Darwin, Wallace e todos os neodarwinistas que os sucederam deram para o fenômeno da variação genética de uma população em função do tempo, mas duvidar do fenômeno em si é ainda mais grave.
Sobre a evolução como fato e teoria, não posso deixar de citar esse brilhante trecho escrito por Stephen Jay Gould (trecho original, seguido da tradução em português):

“Evolution is a theory. It is also a fact. And facts and theories are different things, not rungs in a hierarchy of increasing certainty. Facts are the world’s data. Theories are structures of ideas that explain and interpret facts. Facts do not go away when scientists debate rival theories to explain them. Einstein’s theory of gravitation replaced Newton’s, but apples did not suspend themselves in mid-air, pending the outcome. And humans evolved from ape-like ancestors whether they did so by Darwin’s proposed mechanism or by some other yet to be discovered.”

(tradução)“A evolução é uma teoria. Mas também é um fato. E fatos e teorias são coisas diferentes, e não estágios de hierarquia de certeza crescente. Fatos são dados do mundo. E teorias são as estruturas de idéias que explicam e interpretam os fatos. Os fatos não desaparecem enquanto os cientistas debatem teorias rivais que tentam explicá-los. A teoria gravitacional de Einstein substituiu a de Newton, mas as maçãs não ficaram pairando no ar, à espera da definição. E os seres humanos evoluíram a partir de ancestrais parecidos com símios, quer através do mecanismo proposto por Darwin, quer através de qualquer outro ainda por descobrir.”

Charge, por Kyle Baker

Charge, por Kyle Baker

Quanto aos que duvidam da atual teoria neodarwinista sobre a evolução…   Continuem duvidando. A dúvida produz conhecimento, duvidar é pensar. Não temos por que aceitarmos a Teoria Sintética da Evolução como explicação absoluta para qualquer fenômeno evolutivo encontrado. Existem teorias alternativas, que inclusive complementam perfeitamente a teoria neodarwinista, como a teoria endossimbiótica, de Lynn Margulis. Essa teoria diz que organelas como mitocôndrias e cloroplastos se originaram a partir de procariotos engolfados por procariotos maiores. Teoria hoje amplamente aceita.

Meu foco vai para os que rejeitam a evolução como fato. Peço a vocês que parem e pensem. Tudo o que é necessário para ocorrer tal fenômeno é uma variação genética ao longo do tempo. Isso é um fato cabalmente comprovado. É bem possível que os detalhes desta teoria, como a afirmação de que os anelídeos são mais aparentados com os artrópodes do que com os moluscos seja motivo de discussão. Mas quanto à variação genética em si, realmente, não tem o que debater.

Então, vamos para a outra possibilidade. A de que a evolução é rejeitada por qualquer outro motivo. Ou seja, ela não é rejeitada após uma análise cuidadosa de suas proposições. É rejeitada precocemente por questões menos racionais.
Para exemplificar bem o que eu quero dizer como “menos racionais” irei direto a um dos pontos que mais incomodam muitos dos opositores do evolucionismo, com a seguinte pergunta:

Qual a dificuldade em reconhecer que somos parentes próximos dos macacos?

Essa pergunta é uma verdadeira pisada no pé da maioria dos criacionistas. A caricatura feita de Darwin era justamente a do velho Charles no corpo de um macaco. É comum encontrar panfletos criacionistas começando com a pergunta “Você acredita que veio de um macaco?”. O último artigo realmente barulhento sobre evolução comparava o material genético do chimpanzé com o nosso. O próprio Wallace, um dos pais da Teoria, voltou atrás na hora de incluir os seres humanos na baila, alegando que sua inteligência não poderia ser explicada como mero mecanismo de sobrevivência. (um dos assuntos mais legais dentro da biologia, chamado de psicologia darwinista, procura explicar evolutivamente a nossa capacidade cognitiva).

Pessoas não têm problemas em ver que os organismos variam geneticamente ao decorrer do tempo. Elas têm problema, sim, em se situar no meio dessa história. Em enxergar as outras formas de vida não apenas como recurso, enfeite ou obstáculo, mas como parentes.
Muitas até toleram o fato de não estarem morando em um planeta que fica no centro do universo. Nem mesmo o Sol está no centro. A própria Via Láctea não está no centro. Mas nada ataca tanto o orgulho antropocêntrico quanto a evolução. Afinal, não somos mais pródigos descendentes de anjos, servos leais do próprio criador do universo. Agora nós somos parentes de macacos. Taxonomicamente, considerando que não temos nada que nos separe tão categoricamente destes animais, posso dizer que somos, de fato, macacos. No mínimo, primatas.

Pela última vez, parem de me seguir! Eu sou criacionista.

"Pela última vez, parem de me seguir! Eu sou criacionista.", por Dan Piraro

Mas existe ainda outro motivo e devo dizer que este é mais significativo, embora menos escancarado.
O evolucionismo dispensa um agente inteligente para explicar o fenômeno da biodiversidade.

Considerando que a teoria evolutiva é uma teoria verdadeiramente científica, naturalista, é de se esperar que ela possua essa característica. Nenhuma teoria pode ser chamada de naturalista se ela admite um agente sobrenatural nas suas proposições. Isso é evidente. E não difere de qualquer outra teoria científica. Nenhuma delas fala ou deixa implícita a necessidade de existir um ser externo e sobrenatural agindo sobre os agentes naturais.
Só que isso fica mais claro na teoria evolutiva, pois a vida era justamente um dos fatos que gozavam de uma explicação estritamente mística e religiosa. O nosso planeta, os rios, as estrelas, as montanhas, tudo isso poderia ter uma explicação meramente natural. Mas a vida era complexa demais. Temos dor, prazer, felicidade, sofrimento, por quê? Quem botou os animais e as plantas onde estão? Como viemos a ser o que somos? Nascemos e morremos, com qual objetivo? O porquê dessas coisas cabia à religião explicar. Tudo isso tinha um propósito e um autor, que era, na maioria das culturas, um deus ou deuses. Com o evolucionismo, tudo isso, que antes era sagrado, passa a ser visto sob a óptica naturalista.

Antes não havia muita dúvida. No caso ocidental, onde predomina a fé cristã, tínhamos a bíblia. E lá era explícito. Deus colocou as plantas, e depois a vida nas águas, as aves, o gado, os répteis e, por fim, o homem. (sim, a taxonomia da bíblia é meio estranha)
Certamente, o evolucionismo foi um baque. Este é o motivo pelo qual evolucionismo e ateísmo são comumente relacionados. Ou pelo qual se vê crentes alienados dizendo que a Origem das Espécies é a bíblia dos ateus. O evolucionismo tirou a história da vida de seu lugar como evidência favorita para a existência de deus, e a tornou em objeto de estudo científico. Dá para se dizer que deus é um conceito que se acomoda em lacunas, como muitos ateus defendem. E o que a nossa compreensão a respeito da evolução biológica fez foi justamente preencher uma lacuna enorme de nosso conhecimento.

Há em nossa época milhões de ateus no mundo. Mesmo que eles sejam ainda uma minoria diante de bilhões de seres humanos que se declaram ligados a alguma religião ou crença, o número de ateus provavelmente cresce a cada dia desde o final do século XVII e início do século XIX. Mas, e antes daquela época?

Voltaire, em seu famoso “Dicionário Filosófico”, dá uma resposta breve e clara a esta questão: “Antigamente (…) todo filósofo que se desgarrasse da gíria da escola era criminado de ateísmo pelos fanáticos e espertalhões, e condenado pelos cretinos”. Ao longo dos quase mil e quinhentos anos em que o cristianismo exerceu inquestionável poder sobre o mundo ocidental, milhares de pessoas foram chamadas de ateus, bem como de hereges, bruxos ou ímpios, dentre outros epítetos que traziam, para os infelizes que assim eram nominados, as mesmas consequências: exclusão social, acusações, processos, e penas diversas, como confisco de bens, prisões, tortura e morte.

Mas eram realmente ateias tais pessoas? É possível afirmar, com segurança, que a grande maioria não era, pelo menos da maneira como hoje se conceitua ateu e ateísmo. Mantendo o foco na cristandade dos séculos entre o fim da antiguidade e o início da idade contemporânea, seria muito difícil para alguém, imerso na cultura cristã hegemônica desse período, pensar na inexistência de um deus como uma hipótese plausível. A vida de todos era governada, do berço ao túmulo, pela religião. O argumento do desígnio, ou seja, da necessária existência de um projetista do universo, parecia insuperável diante de um mundo complexo, e era defendido até por pensadores brilhantes, como Newton e o próprio Voltaire, célebre inimigo da religião organizada, mas que não negava a existência de um deus.

Ateus como existem hoje, e o ateísmo como conceituado em nossa época, só começaram a surgir mais comumente, e ainda assim em grande minoria, ao longo do século das luzes, e no início do século XIX, período que, significativamente, abrange aquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawn chamou de Era das Revoluções, e que marca o declínio do poder político da religião organizada no Ocidente.

Mas, antes dessa época, ateísmo era quase sempre uma acusação que se fazia a um desafeto. Voltaire, em sua obra mencionada acima, dá um exemplo típico da acusação de ateísmo lançada sobre alguém, ao falar do caso do religioso napolitano Vanini, que, por divergências em questões teológicas, foi acusado de ateísmo por seus opositores. Em sua defesa, segundo o relato de Voltaire, Vanini catou uma palha no chão e declarou que aquilo bastaria para provar a existência de um criador. Mesmo assim foi condenado. Qualquer discordância quanto à ortodoxia vigente no momento trazia o risco de acusações de ateísmo, ou de heresia, ou de bruxaria.

É importante ressaltar que tal atitude não é invenção cristã. Na Grécia antiga, o “atheos” designava o ímpio, alguém que ignorava a moral ou o direito, pois tal pessoa seria alguém abandonado pelos deuses, ou contrário às leis divinas. Voltaire menciona a acusação de Ateísmo feita contra Sócrates por Aristófanes. Este dramaturgo retrata o famoso filósofo em sua peça teatral “As Nuvens” como alguém que descrê em Zeus. Entretanto, tal acusação não se confunde com as sérias acusações que levaram o filósofo a julgamento, e que de certa forma incluía o ateísmo como desrespeito aos deuses da cidade. A peça de Aristófanes foi na verdade apenas uma pilhéria, uma forma de ridicularizar Sócrates através do humor, e ninguém a levou a sério. Mas acusar alguém seriamente de ateísmo significava que o acusado havia desrespeitado as leis de sua pólis, o que equivaleria a um crime político.

No Império Romano, antes de Constantino, e durante as perseguições, os cristãos e judeus foram chamados de ateus, e isto não seria algo espantoso para a mentalidade daquela época. A Roma antiga era célebre pela tolerância religiosa. Pode parecer irônico afirmar tal coisa, diante das perseguições aos cristãos, dos martírios, das pessoas atiradas às feras nos espetáculos do Coliseu, mas há uma razão para isto. Os romanos tinham por hábito não somente tolerar as práticas religiosas dos povos conquistados, mas, em muitos casos, também incorporavam aos seus próprios cultos divindades estrangeiras, que eram incluídas no panteão de Roma. Os povos submetidos, por sua vez, em geral não viam problema em aceitar aspectos da religião romana, como a divindade do imperador. Porém, quando os romanos se depararam com religiões como o cristianismo e o judaísmo, que, na época do Império, rejeitavam a crença em outros deuses, não seria estranho que os chamassem de ateus, ainda mais levando-se em conta a íntima conexão entre os ritos religiosos e os assuntos de Estado na história de Roma.

Porém, em nosso tempo, ninguém pensaria em chamar alguém de ateu por causa de mero comportamento imoral ou maldoso, certo? Errado. Em 29 de junho de 2009, o Papa Bento XVI publicou uma encíclica com o título “Caritas in Veritate” (A Caridade na Verdade). Nesta encíclica, o sumo pontífice da Igreja de Roma ataca a suposta promoção do “ateísmo prático” por parte dos Estados laicos existentes na atualidade. Este “ateísmo prático” a que se refere o Papa é uma ideia exposta já no século XX pelo filósofo católico Jacques Maritain, e parece retomar a noção de ateísmo como impiedade, ou imoralidade. Para Maritain, o “ateísmo prático” se revela no comportamento de quem declara acreditar em deus, mas nega este deus ao comportar-se de forma reprovável, desonesta, imoral.

Será que, hoje, falar em ateísmo como algo diverso da não aceitação da ideia de divindade faz algum sentido? No mundo antigo, é algo lógico. No mundo medieval, é compreensível. Mas hoje, pelo menos no Ocidente, onde a liberdade religiosa é tido como um dos fundamentos da democracia, a ideia de “ateísmo prático”, endossada pelo Papa, é anacrônica, e revela apenas a permanência de uma hostilidade que boa parte da religião organizada tem para com os que pensam livremente.

Referências

  1. ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
  2. BENTO XVI. Caritas in Veritate. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html>. Acesso em: 01 nov. 2009.
  3. STONE, I. F. O Julgamento de Sócrates. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
  4. VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2253>. Acesso em: 01 nov. 2009.

É muito comum ouvirmos a frase “A ciência é a religião dos ateus” quando em uma discussão com religiosos. Menos comum é ouvir algo parecido de ateus, ateus mal-informados, é verdade, mas ainda assim ateus.

Muitas vezes me pergunto se essa é uma injustiça maior com as religiões ou com a ciência, não que eu tenha algum respeito especial pelas religiões, porém, as ciências são sustentadas por um estado constante de dúvida, o que é o extremo oposto do que pregam as religiões e a certeza da fé que professam.

Os ateus não são homogêneos, é muito difícil imputar-lhes características baseando-se apenas no fato de serem ateus. Ateus não são necessariamente céticos, mas seriam os céticos necessariamente ateus?

Um cético, só poderia ser teísta caso houvesse evidências de que algum deus existe. Como é altamente improvável que existam tais evidências, um cético só poderia ser ateu. Existem, porém, aquelas pessoas que afirmam que o mundo é a maior evidência da existência de deus, e o mundo com sua complexidade e fascinante beleza seria prova suficiente para convencer qualquer cético. Segundo a Navalha de Ockham, a explicação mais simples para um dado evento tende a ser a correta e, de fato, deus parece ser de longe a explicação mais simples, pelo menos em uma perspectiva antropocêntrica e superficial. É neste ponto que entra a Ciência.

A ciência, através da observação, indução e experimentação, foi capaz de dar-nos uma explicação muito mais eficiente, abrangente e elegante para a complexidade do mundo. Já sabemos como se formou o universo, as estrelas, o planeta Terra e a vida; sabemos de onde vêm as chuvas, raios, bebês e presentes de natal. Uma vez que deuses sempre foram utilizados para explicar aquilo que não compreendíamos, a necessidade e importância deles para explicar cada um desses esses eventos diminuiu até se tornar insignificante.

Quando carecíamos de boas respostas para estas perguntas, mesmo a mais cética das pessoas não tinha dificuldades em assumir um criador para respondê-las, isso talvez explique o porquê das mais brilhantes mentes do passado como Newton, Descartes e Copérnico terem sido crentes tão devotos; porém hoje, mais de 90% dos membros da Academia de Ciências dos EUA não creem em deus [1].

A ciência mostra-se, portanto, como um componente chave para entendermos o mundo sem necessariamente dependermos de um criador.

A questão que permanece é: Por que, em um mundo tão tecnologicamente avançado como o nosso, ainda existem pessoas que acreditam que o mundo foi criado em sete dias?

O Brasil, segundo avaliação da OCDE, figura entre os países com pior desempenho no ensino de Ciências. Na avaliação com 57 países, o Brasil ficou em 52o lugar. Em primeiro lugar ficou a Finlândia, que, talvez não por coincidência, figura entre os primeiros no ranking de países com o maior número de ateus. Será que isso responde à pergunta?

Referências:

  1. Nature, Vol. 394, No. 6691, p. 313 (1998) © Macmillan Publishers Ltd.