Monthly Archives: janeiro 2010

Imaginemos um biólogo dedicando-se a um projeto de classificação de cisnes. Ao observar o primeiro cisne, a característica mais marcante é o fato de ser uma ave branca. Ele observa o segundo, também branco. Observa um milhão de cisnes, todos brancos. Quantos cisnes precisariam ser observados para que, enfim, possamos induzir que todos os cisnes são brancos?

Pela lógica, nunca poderemos fazer essa afirmação com absoluta certeza, pelo menos não enquanto todos os cisnes do universo ainda não tiverem sido observados; o que, obviamente, é impossível. Temos então um problema: as leis de Newton, por exemplo, tratam justamente de uma generalização para repetidas observações; assim, como poderíamos confiar nessas leis se não as testamos infinitas vezes com infinitas variáveis?

Cisnes Negros

Cisne Negro Australiano, a hipótese do nosso biólogo foi falseada.

Este problema, inicialmente observado por David Hume no século XVIII, foi uma pedra no sapato dos cientistas. Todos tinham plena confiança de que, não importando quantas vezes se repetissem os testes, os resultados seriam sempre previstos pelas leis de Newton. A prática contrariava a lógica e isso era inaceitável para os filósofos da ciência.

A solução para este problema foi desenvolvida pelo filósofo Karl Popper, que observou que todas as nossas generalizações, que podemos chamar agora de teorias, estão sempre sujeitas aos fatos. Por mais abrangente e precisa que seja, sempre haverá a possibilidade de um novo fato vir à tona e contrariar a teoria. A isso dá-se o nome de falseabilidade.

Uma vez que todo o conhecimento científico é composto por teorias variadas, para definirmos se uma hipótese é científica, basta observarmos se esta hipótese é falseável. Porém, antes de procurarmos exemplos práticos, vale notarmos a diferença entre hipóteses e teorias num enfoque científico.

Teorias e hipóteses são, popularmente, consideradas como palavras sinônimas. Porém, para os cientistas, uma hipótese é um conceito muito inferior a uma teoria na hierarquia das ideias. Quando estamos diante de um fato não explicado, podemos considerar inúmeras hipóteses para explicá-lo; as hipóteses servem-nos para direcionar os esforços à próxima etapa, a experimentação. Quando uma hipótese resiste à experimentação ela pode, então, ser considerada como uma teoria. Assim como os cisnes brancos, para uma teoria ser considerada absolutamente correta precisaríamos testá-la infinitamente, o que é impossível. Mas basta apenas uma falha, uma única falha, e a teoria se torna inválida. A experimentação, portanto, não busca provar que a teoria está correta, pelo contrário, busca comprová-la como falsa.

Podemos ver que o avanço da ciência depende muito pouco dos experimentos que confirmam as teorias. Poderíamos passar séculos confirmando as Leis de Newton que não traríamos nenhum avanço significativo para a ciência. Muito mais faria pela ciência aquele que demonstrasse uma falha nas leis de Newton. E isso, de fato, foi feito por um físico chamado Albert Einstein.

Albert Einstein

Observemos, então, a falseabilidade de algumas teorias científicas famosas.

Teoria da Evolução: É a teoria que explica a diversidade das espécies por meio de mutações e seleção natural. Para falseá-la, basta encontrarmos uma espécie que não tenha qualquer relação com nenhuma outra espécie. Por exemplo, se encontrarmos um cavalo com asas, um Pegasus, a Teoria da Evolução não tem como explicar tal criatura, afinal, uma asa não pode aparecer em um cavalo sem uma série de registros fósseis de espécies intermediárias. Caso encontremos algo parecido, a Teoria da Evolução será falsa.

Teoria do Big Bang: É a teoria que explica o surgimento do universo por meio da explosão de uma partícula infinitamente densa e quente. Caso observemos, com um telescópio bem potente, um ser barbudo criando o universo, a teoria do Big Bang seria derrubada.

OK, imagino que o leitor não tenha ficado satisfeito com o último exemplo. Pode ser um exemplo idiota, mas derrubaria a Teoria do Big Bang caso fosse observado, nisso creio que todos podemos concordar. Uma teoria é falseável mesmo que possa ser falseável por um exemplo imaginário, idiota e impraticável; mesmo assim, uma teoria é falseável.

Voltemos agora à coluna da semana passada, na qual afirmei que o conceito da falseabilidade pode dar o golpe de misericórdia em qualquer hipótese não científica.

Não há nenhuma maneira de comprovarmos que o criacionismo não existe. Mesmo que, com uma máquina do tempo, observemos as pequenas mutações e variações da primeira bactéria até o homem, não é possível excluir que uma “inteligência superior” tenha determinado tais mutações.

Mesmo que tentemos praticar o suicídio com uma fórmula homeopática do veneno mais potente e não tivermos sucesso, não conseguiremos derrubar a possibilidade de que a homeopatia funciona, mas não para matar. Esse teste, aliás, foi feito na Bélgica.

Como comprovar então que o espiritismo é falso? Nem mesmo desmascarando todos os médiuns. Nem mesmo morrendo e voltando à vida sem ter visto nenhum espírito. Nada disso seria capaz de abalar a crença de qualquer kardecista.

Fica aqui o desafio aos leitores: um teste, por mais bizarro que seja, que consiga provar definitivamente e sem sombra de dúvida que espíritos não se comunicam conosco. Mandem seus testes pelos comentários. Aquele que, em um mês, chegar mais perto ganhará um exemplar do livro O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan.

Aparição

Chico Xavier com a materialização da Irmã Josefa. Uberaba 1965

“Nada” é uma palavra criada por nós, seres humanos. Obviamente fomos nós quem criamos todas as outras que existem no vocabulário para designar e dar significado contextual às coisas, mas a palavra “nada” me chama especial atenção. A abrangência dela é enorme e normalmente a usamos tão corriqueiramente que nem percebemos o que de fato ela pode esconder, ou não esconder, e é aí que reside minha perplexidade em relação a ela. Quando alguém nos pergunta o que estamos sentindo e respondemos “não estou sentindo nada”, fica claro que este nada é bastante superficial e se refere a um estado qualquer em que a pessoa se encontra (dor, tristeza, angústia, paixão, depressão, solidão, alegria etc.). Mas, se analisarmos a mesma resposta “não estou sentindo nada” de forma absoluta, perceberemos quão esta palavra só possui valor factual subjetivo, pois não há meios de uma pessoa (viva e consciente) não estar sentindo absolutamente nada. E nesses termos chego ao ponto que desejo abordar.

Crédulos e incrédulos muitas vezes se “golpeiam” verbalmente na tentativa de cada um dar uma explicação melhor e mais plausível para a origem do universo conhecido ou até mesmo do infinito cosmos (apesar do nosso universo possuir o cognome de “infinito”, ele pode sim ter suas longínquas fronteiras, já o cosmos, não), porém, é muito comum ambos ignorarem que o nada não existe e nunca existiu, e se perderem em pensamentos que jamais os levarão a lugar algum. Esta dificuldade de assimilação é perfeitamente aceitável por termos uma visão padrão de começo, meio e fim e por existirmos. Temos uma visão subjetiva do nada e ao pensarmos no cosmos muitas vezes não conseguimos apartar essa subjetividade de nossas mentes e acabamos pensando equivocadamente que um dia “ele” foi um nada. As estórias religiosas para explicar a origem das “coisas” são de longe as mais irracionais e muitas vezes cômicas, mas isso não significa que não exista uma singela parte de céticos e ateus que insistem em pensar no cosmos como tendo uma “origem” a partir de um nada. Com certeza é nesses moldes que a confusão e as questões naturalmente instigantes se elevam ainda mais. Nem poderia ser diferente. O erro se inicia a partir do momento em que o pensador (crédulo ou incrédulo) tenta desenvolver em sua mente a ideia do nada absoluto. Primeiramente teríamos que compreender o que é o nada, mas visto que ele nunca existiu, caso contrário nada existiria (nada = nada), não temos então que nos esforçar para compreendê-lo. É um pensamento sem lógica e não nos ajuda a entender as coisas. Ao contrário, pois somente nos faz alimentar a absurda ideia da “causa primeira”. Absurda pois com deuses ou sem deuses o nada jamais poderia gerar algo. Seja qual algo for.

Curiosamente o equivocado nada absoluto assusta as pessoas por elas terem em mente justamente o seu nada subjetivo: o começo, meio e fim da existência orgânica que somos, conscientes ainda por cima. A humanidade, debruçada em centenas de crenças variadas, inventou a “vida eterna”, os “espíritos”, as “almas”, para poder de uma certa maneira conviver bem com a noção da própria morte, esta última representante máxima da ideia distorcida do nada e de toda a aflição humana que isto envolve. Mas esta mesma aflição, considerando-a somente em relação ao nada, curiosamente não tem impacto algum quando pensamos em “quem” não existe ou em “quem” ainda não nasceu (ou nem foi concebido). Um casal que planeja ter um filho em cinco anos, sequer para pra pensar sobre o “nada” em que se “encontra” hoje seu futuro primogênito(a). A não existência pós vida incomoda muito, enquanto a não existência pré vida nada significa aos humanos. Mas por que, se ambas as situações para o efeito da aflitiva não existência são rigorosamente a mesma coisa? No meu entender a resposta que parece ser a mais coerente, além da nossa imensa bagagem emocional, é essa equivocada ideia a respeito do nada. Tanto quando se trata da “origem” do cosmos quanto qualquer outra questão que envolva a tentativa de se “idealizar” o nada absoluto, como a morte tanto nos aparenta ser.

Alguns filósofos e grandes pensadores já “flertaram” inutilmente com o nada, tentando preencher de maneira até mesmo metafísica o que simplesmente não pode ser preenchido de modo algum, e assim muitos foram à loucura. E pode ser aí, em nossa equivocada ideia sobre o nada, que reside o início da solução de muitos mistérios ainda não descobertos pela ciência. Pode ser na inexistência do nada, na ausência da origem cósmica tão discutida, que se encontre respostas mais esclarecedoras. Talvez esteja na hora de esquecermos a ideia do nada absoluto e voltarmos nossa atenção para algo novo.

Ridendo castigat mores. A máxima latina, que significa “rindo castigam-se os costumes”, foi adotada por, dentre outros, Jean-Baptiste Poquelin (vulgo Molière) e Gil Vicente, dramaturgos que faziam de suas peças ocasiões para evidenciar à plateia traços caricatos e criticáveis da sociedade. Seguindo com esse adágio — mas com uma pequena mudança para Ridendo castigat fidem, ou “rindo castiga-se a fé” —, esbocemos alguns comentários um tanto quanto (im)pertinentes. Afinal, se o que as religiões nos divulgam é geralmente um conjunto de ideias estapafúrdias e risíveis, é justo que também tenhamos a chance de fazer o mesmo. Não que tenhamos a mesma fértil imaginação daqueles que pregam palavras supostamente sacras, imbuídas de ideias genuinamente caricatas; não, não temos imaginação suficiente. Mas ao menos temos a sinceridade a nosso lado, e uma boa dose de sarcasmo.

Seja como for, reza a lenda que somos uma espécie sapiens, excessivamente sapiens. Aparentemente. Uma espécie que cobiça desvendar a verdade, seja lá o que a palavra signifique de fato; uma espécie que se diz especial porque talvez ainda não tenha descoberto a importância soberana dos micróbios — tão ou mais relevantes ao mundo do que nós — como a bactéria Propionibacter shermani, douta na arte da produção do queijo suíço (que, aqui, é uma bela metáfora para qualquer dogma religioso: saboroso, mas cheio de furos). Talvez o pior veneno ao homem seja a sua própria ideia de que seja o auge da cadeia evolutiva; embora tenha alguma razão, o pedantismo que disso advém o degenera.

E em sua busca incessante por verdades, por respostas, por serenidade, diante de um espelho deformado esgota-se em desculpas e pretextos os mais aberrantes. Os olhos da razão, se enxergassem, certamente notariam algo próximo dO Grito de Edvard Munch. Enoja, nesse sentido, as tentativas (ou tentações?) de decifrar o homem, o mundo, o cosmos a partir de nossas próprias fantasias; fazendo coro a Henry Miller, podemos dizer que “talvez não se descubra o segredo do universo num cu, mas seria muito mais interessante que o estudo de seu próprio umbigo”[1]. É a razão, pois, a grande culpada por eventualmente ir ao toalete; em sua ausência, quão humanos podemos ser… Ah!, a razão, esta que Martin Luther (o teólogo, não o King) chamava carinhosamente de Fraw Klüglin die kluge Rur — ou, em bom português, “dona sabida, a sábia puta”[2].

Fato é que enquanto trouxermos, dentro do crânio, o circo (de horrores?) que é nosso cérebro, nada haverá para fazer que não seja assistir ao espetáculo. O que é urgente, no caso, não é sabermos se há vida inteligente em outros cantos do universo; necessário é descobrir, primeiramente, se há vida inteligente aqui, nesta caricatura de astro. Depois, ora pois, partamos para outras questões também relevantes. Por exemplo, a de saber se há ou não há deus, ou deuses, ou deusas; a propósito, visto que existem n divindades no mundo, sejam elas “vivas”, extintas ou em vias de, é de se presumir que os crentes praticam em demasia o método da tentativa e erro. Um dia, quem sabe, acertam. Um dia… Pois agora o que se observa são mentes paradas que, por raramente terem ideias plausíveis, se fossem computadores estariam com o cérebro no screen-saver; se fossem televisores, no stand-by.

O interessante, nisso, é ainda hoje encontrarmos homens já formados, mulheres já maduras, pessoas que, já crescidas, ainda acreditam na salvação; e ainda troçam das crianças que esperam, em dezembro, a visita do bom velhinho. O que se torna difícil de compreender é que tais pessoas, quando crescem, abrem mão de Noel, mas não de Deus. Poderíamos imaginar que o espírito natalino seria como o sarampo ou a catapora: se já se teve quando criança, não se volta a contrair; e, no melhor dos casos, poderíamos idealizar que o mesmo ocorresse com a ideia de Deus. Mas, como se nota, esta não é uma simples catapora; é, antes, um vírus semelhante ao da gripe, que sofre mutações para se adaptar às circunstâncias.

Mas deus — ou Deus, como preferir —, sentimos muito por informar, não existe. E há uma boa prova para isso: se Ele existisse, se existisse e se fosse realmente bom e piedoso, haveria arquitetado um mundo com ar condicionado. E nós, assim como Nietzsche, só acreditaríamos em um deus que soubesse dançar — de preferência um tango argentino. É-nos impraticável, considerados esses critérios, acreditar na existência de deus; em qualquer um dos milhares que já passaram pela mente humana. Ainda que a Teologia — essa espécie de coitus interruptus pela qual (ou com o qual) nunca se chega verdadeiramente a uma verdade — venha tentando há séculos explicar a validade de sua hipótese (que só existe enquanto mentira), não podemos digerir o eixo-badeixo que é tal conceito. Não vivemos em Cucolândia das Nuvens; de lá, na verdade, emigramos. Talvez seja por isso que nossos critérios para chegar à verdade — ou a algo próximo disso — sejam bastante diferentes do critério empregado pela religião (algo como “par ou ímpar” ou congênere). Afinal, não é porque somos pessoas normais, naturais, humanas, comuns, que devemos ser lugares-comuns.

Desse modo, a nós as ingênuas fantasias semianalfabetas perdem seu efeito quando notamos que possuímos miolo — que de fato é mole, mas não o é conotativamente. Nossa postura é outra, não aquela seguida por muitos — que consiste no ato de segurar, com uma mão, um grosso e pesado livro que não entendem (ainda que tenham passado a vida inteira a estudá-lo), e com a outra a segurar outro livro, um de páginas em branco que é, afinal, sua cabeça. Não, definitivamente não somos de tal espécie — ainda que sejamos, como eles supostamente o são, sapiens. Não somos daqueles que dão graças quando recebem uma bênção, mas ignoram seu deus quando não carecem de auxílio. É por esse motivo em particular, e por outros mais, que a ideia de deus acaba por se assemelhar ao papel higiênico: só nos lembramos de sua existência quando dele, em desespero, precisamos.

Mas paremos por aqui, pois muito já se escreveu a troco de nada. E se as carolas e os beatos nos condenarem por termos, nestas linhas, trazido alguns sorridentes gracejos, seria interessante que pensassem melhor (perdoe-se a contradição) — pois, ora, caros religiosos, foram vocês que começaram…

*   *   *

Notas

  1. MILLER, Henry. Opus pistorum. New York: Grove Press, 1941.
  2. LUTHER, Martin. Apud NIETZSCHE, Friedrich. Zur Genealogie der Moral; eine Streitschrift. Frankfurt: Inseln Verlag, 1984.

É comum a afirmação de que o ateísmo conduz ao niilismo, e de que este tira o significado da existência. Na verdade não tira, pois a existência não tem significado algum. Nós também não. O significado é criado por nós. Mas isso não é tudo; há mais um detalhe, e é ele que realmente nos incomoda: com o niilismo, em vez de colocarmos o significado como a base do mundo, colocamos o mundo como a base do significado. Claro que, ao fazê-lo, ruem todos os significados que não possuam relação com a realidade, pois se tornam subordinados a ela, e isso é bastante desejável, pois mantém nossos pensamentos com os pés no chão. Noutras palavras, o niilismo nos proíbe de recorrer à metafísica em busca de consolos emocionais.

O ateísmo incomoda os religiosos e os agnósticos pelo mesmo motivo que o niilismo incomoda os ateus. Trata-se de uma espécie de medo de perdermos certos confortos emocionais que dependem de mentiras. O religioso pensa que, sem deus, a vida seria intolerável; o ateu pensa que, sem sentido, a vida seria uma miséria. Mas não seria, pois esse tipo de coisa só existe em nossas cabeças; são mentiras confortantes, mais nada. Temos medo de perder todas as coisas às quais estamos emocionalmente apoiados, sejam elas verdadeiras ou não. Então, como se nota, a equação é bem mais simples do que normalmente se supõe.

Nessa situação, o que nos incomoda não é tanto o fato de deus não existir, mas o fato de que, sem uma figura subjetiva autônoma, não há como legitimar qualquer postura de valorização subjetiva com base em elementos externos. Não temos em quê nos apoiar, pois estamos sozinhos no mundo, e paradoxalmente apoiar-se em si mesmo não nos conforta: queremos nos apoiar em algo que esteja fora da condição humana, mesmo sabendo que isso é impossível. Aqui fica claro que são emocionais os motivos pelos quais, nessas circunstâncias, normalmente recorremos à metafísica. Ninguém quer acreditar num sentido que é meramente uma crença; mas todos os sentidos são meras crenças.

Então o mundo não tem significado, e essa é uma verdade emocionalmente corrosiva; por isso, ateus ou não, temos a tendência de fugir dela. Certas verdades doem mais do que estamos dispostos a suportar: a coisa toda reduz-se basicamente a isso. Pois bem, e para que serve entender isso tudo? Para várias coisas, mas principalmente para entendermos nossa condição; como a ciência, o esclarecimento proveniente do niilismo serve para quaisquer fins. Tentemos entendê-lo com calma. De início talvez não percebamos, mas a “ausência de sentido” é uma ideia que pode ser importante, por exemplo, à nossa satisfação pessoal, pois, sendo máquinas fisiológicas, nossa satisfação precisa ocorrer fisiologicamente em nossos corpos, não apenas nas representações simbólicas desses corpos. Para tanto, precisamos ser capazes de orquestrar uma relação entre a realidade e a nossa satisfação — e compreender essa relação é exatamente o processo de dar sentido às coisas. Se um perder-se do outro, passaremos a viver em função de fantasmas, e isso é muito mais comum do que se imagina: basta pensarmos na busca pela felicidade.

Pois bem, como costumamos dar mais importância à nossa ideia da realidade que à própria realidade, nossas necessidades geralmente se encontram bastante distantes da ideia que fazemos dessas necessidades; ou seja, nós nos ignoramos em favor dessas abstrações ocas, guiamo-nos por critérios que sequer tocam nossa natureza — que muitas vezes sequer nos preocupamos em entender —, vivendo completamente alienados de nossos corpos, vistos como meros detalhes. Tornamo-nos, assim, uma ficção de nós mesmos. Ora, uma ideia sem realidade por detrás é simplesmente nada — como podemos permitir que o sentido do nada seja determinante em nossas vidas reais? Isso é insanidade.

A matéria é primária, o sentido é secundário; sempre. Nós somos nossos corpos, não a ideia que fazemos deles; nossas experiências pessoais são fatos fisiológicos, não a ideia que fazemos desses fatos. Sentidos não existem, mas podem ser criados; contudo, criar sentidos abstratos, sem qualquer correspondência com nossas experiências pessoais concretas, e então viver em função disso: trata-se apenas de um modo criativo de nos perdermos da realidade. Por isso deveríamos cuidar para que nossas ideias sobre nós mesmos sempre sejam redutíveis — ou ao menos relacionáveis — à fisiologia, ou serão apenas desvarios cerebrais. Isso não é exagero, apenas um bom senso há muito tempo negligenciado em favor de progressos vazios.

Talvez essa ideia, de início, pareça um pouco extrema, mas só parece extrema às nossas cabeças. Se levarmos à prática, veremos que o sentido não faz falta alguma, pois ele sempre foi uma quimera. Quando, por fim, conseguirmos fazer com que nossas ideias e nossa fisiologia caminhem lado a lado, e em paz, talvez percebamos que dar significado às coisas é simplesmente supérfluo. Comer não precisa ter sentido, nem dormir, beber, dançar; tampouco a dor, o prazer, ou mesmo o viver — nossas razões a esse respeito são irrelevantes. Aceitemos que isso tudo independe de nossas explicações. Sentidos não significam nada; são apenas um modo de entreter uma civilização que não soube muito bem o que fazer depois de assegurar as bananas.

por Vinícius Rodrigues de Assis (Hórus)

O criacionismo se apoia numa desonestidade intelectual medíocre, na tentativa de justificar sua crença, no entanto, essa não se faz crível pela consistência de suas explicações, e sim por atuar na simples vontade de acreditar aguçada e instigada, tornando-se necessidade de seus fiéis.

É irônico o fato de crentes se utilizarem da ciência quando essa lhes é conveniente, e atacá-la veementemente quando a mesma atinge suas confortáveis crenças. É raro ver crentes reclamando das tecnologias produzidas pela ciência; em geral, usam-na com gosto; portam celular, meios de transporte, central de ar em casa ou no trabalho, micro-ondas, bombas nucleares para matar infiéis, enfim, uma incontável diversidade de benefícios que facilitam a vida prática, sem falar na medicina, que salva muito mais vidas que qualquer pastor, curandeiro, médium etc., e que a maioria dos crentes prefere consultar quando está morrendo. Mesmo com essa confiança nos produtos e serviços científicos, a situação muda quando a ciência apresenta alguma teoria que vá contra alguma coisa relacionada à crença em deus; os religiosos, que antes se fartavam com os agrados da ciência, agora passam a ofendê-la e desrespeitá-la com vigor, como se a ciência pudesse acertar em tudo, menos em qualquer coisa ligada a deus. Ora, nenhum religioso se incomoda com o parecer científico sobre a gravidade, ou com a lei de ação e reação de Newton, e se importaram pouco com a revolução física provocada pela relatividade de Einstein se comparada com a do evolucionismo, embora este apresente tantas evidências quanto a outra, senão mais. A teoria do Big Bang também apresenta fortes evidências, mas mesmo assim muitos crentes relutam em aceitá-la.

Há que se perguntar se essas próprias crenças religiosas não são embasadas em evidências, e a resposta para isso é não. Não há nenhum motivo racional para se crer num deus pessoal, nenhuma evidência ou indício de sua existência; a religião, com seus mitos, sempre falhou em suas explicações, as quais não se baseiam em fatos, isto é, na realidade propriamente dita, mas em sonhos que enaltecem o ser humano com antropocentrismos ocos. As investigações científicas, que se fundamentam em evidências e rigorosas experimentações, quanto mais avançam mais demonstram a irracionalidade das crenças religiosas.

Como os religiosos não possuem argumentos sólidos que sustentem suas crenças, apelam para deprimentes falácias que só demonstram o quanto necessitam crer nessas infantilidades. Uma delas é a de que estão justificados para crer em deus porque nunca se provou a inexistência dele. Obviamente que, por questões práticas, quem afirma a existência de alguma coisa é que deve prová-la, do contrário qualquer um poderia inventar por meio da imaginação coisas totalmente insanas e admitir sua existência sem nenhum motivo plausível. Mas crentes querem que os cientistas percorram todo o universo para verificar que deus não está em nenhuma parte, e não basta fazer isso com telescópios, exigem fazê-lo pessoalmente. Presumindo que os cientistas consigam tal proeza e comprovem a ausência de deus, os crentes ainda diriam: “Ora, mas como saber se não há universos exteriores ao nosso nos quais possa estar deus? Vocês devem comprovar isso também”. Mesmo que conseguissem investigar todo o espaço que existe e não achar nada de deus, ainda poderia se ouvir dos crentes a alegação de que deus pode estar oculto por poderes que nossos sentidos não conseguem detectar. Desse modo, não se pode provar a inexistência de deus, mas isso em nada justifica racionalmente a sua crença. Sem contar que com todo conhecimento que obtemos por meio da ciência, é provável e até faz sentido dizer que deus não existe, ao menos não um deus pessoal como gostariam os religiosos.

Os criacionistas, não tendo nada para alegar a favor de sua “teoria”, usando somente uma autoridade que sequer é demonstrada, dirigem todos os esforços atacando a ciência na ânsia de refutá-la, como se depois disso automaticamente estivessem validando sua própria tese. Entretanto, as falhas que os religiosos alegam encontrar na ciência ou são mal entendidos ou distorções deslavadas. Quando desistem de forjar falhas, apelam para a ignorância da ciência, apontando as lacunas, nas quais depositam deus como explicação. Assim como todo o resto, isso não passa de covardia; chamar nossa ignorância de deus nunca nos ajudou em nada, pelo contrário, até hoje só nos conduziu ao erro e prolongou nosso desconhecimento. Ademais, se a ciência estiver errada em suas explicações sobre o desenvolvimento do universo e da vida o que é possível, mas demasiado improvável, já que há inúmeras evidências ao seu favor , isso só mostrará que estamos errados e teremos que recomeçar nossas investigações do zero, ou de onde erramos; nada disso justificará a crença no criacionismo, como este postula, ainda mais porque segundo o seu raciocínio, a ciência deve mostrar um conhecimento absoluto para estar certa, enquanto que para o criacionismo ser validado basta que a mesma esteja errada. O mínimo que podemos chamar isso é de desonestidade.

Desse modo, crentes não estão interessados, como nós, em entender a realidade, mas em justificar sua crença em deus, não importando as explicações pífias que tenham de preservar para tanto. Mas não levemos a sério esses religiosos, discutir com eles é como tentar convencer crianças de que Papai Noel não existe enquanto temem perder seus presentes ao descobrir isso. Deixando a metáfora de lado, religiosos não entendem que o conforto emocional que obtêm não advém de deus, mas da crença deste, e por isso o avanço científico os amedronta com a ideia de que não sobre nenhum lugar no qual deus se esconda. Afinal, como bem sabiamente afirmou Carl Sagan, não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar [1].

Referências

  1. “You can’t convince a believer of anything; for their belief is not based on evidence, it’s based on a deep seated need to believe”. SAGAN, Carl. Contact. New York: Pocket Books, 1985.

*   *   *

(artigo recebido em 08 de janeiro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

Não é novidade que a indústria da religião movimenta uma soma incomensurável todos os dias. Todos conhecem também alguém que lucra indiretamente com a religiosidade alheia, seja por meio da comercialização de produtos cristãos, de souvenir como a venda de produtos milagrosos e indulgências modernas. Mas há novas oportunidades de mercado surgindo, com seus métodos para lá de heterodoxos na conquista de novos adeptos e melhor arrecadação financeira.

Um exemplo incomum desta empreitada é a empresa Inspired Media Entertainment[1], antigamente conhecida por Left Behind Games: Bible and Christian Games. Baseado no best-seller apocalíptico “Deixado para Trás”, que conta com títulos como Eternal Forces. Neste bizarro enredo, o jogador se encontra no meio de uma Nova York pós-apocalíptica, que muito nos faz lembrar do atentado de 11 de setembro. No jogo, uma ordem de cristãos fundamentalistas recebe a missão de converter ateus, mulçumanos, judeus e basicamente todos os demais residentes a uma espécie de cristianismo fundamentalista.

Aqueles que resistirem devem ser mortos.

O jogo conta também com uma expansão: Tribulation Forces. A descrição do jogo compreende mensagens como: “combata ferozmente as forças do àanticristo, nesta guerra física e espiritual. Utilize o poder da oração para resistir à influência espiritual e defenda-se de tais ataques.” Ao navegar pelo site da empresa, você é obrigado a ouvir uma descrição em áudio de cada jogo, que afirma ser “um exemplo de ensinamento moral e de valores cristãos para as crianças e jovens, de uma forma divertida e realista”.

Vale dizer que a empresa conta com o patrocínio do governo americano, que em 2007 encomendou centenas desses jogos para serem enviados ao Iraque, onde os soldados americanos poderiam aproveitar o seu tempo livre aniquilando infiéis virtualmente[2]. Não é à toa que o jogo, apesar de relativamente desconhecido, contou com a participação de grandes nomes, como o compositor Chance Thomas (King Kong, X-men e Senhor dos Anéis).

Esta tentativa de atrair o público adolescente para a igreja, por meio de jogos surreais e violentos é apenas um exemplo do que está chegando ao mercado nesta última década. É obvio que o grande público não é atingido por esse tipo de jogo patético, que expressa orgulho em ser “o primeiro jogo em que orações e devoções são mais poderosas do que armas”.

A criatividade comercial não enfrenta limitações. Eras pós-apocalípticas, cristãos fundamentalistas armados, super-heróis que têm poderes provenientes da sua fé (blibleman)[3], etc.; são exemplos absurdos, mas cada vez mais comuns e lucrativos[4] no mercado da fé. Resultado de uma profunda alienação, atua como mantenedora de tal estado, utilizando-se de perigosas técnicas de incentivo à intolerância contra aqueles que não compartilham da mesma fé. Jogar vídeo-game nunca foi tão perigoso.

———

Notas

  1. LeftBehind Games
  2. Kill or Convert
  3. Bibleman
  4. Apenas em 2006 o jogo Eternal Forces gerou um lucro de dois milhões de dollares


Algumas opiniões (em inglês) sobre os produtos da empresa IME

  • Dallas Anderson of the Billy Graham Center says, “one of the geniuses of these games is that they give gamers a chance to see the consequences of poor decisions …we’re pretty excited to see that these games were designed to provide positive moral input to a youthful generation which would otherwise not hear it.”
  • Focus on the Family (Breakaway Magazine) says, “Overall, this is a positive faith building game worth your time and money.”
  • LEFT BEHIND author Tim LaHaye says, ” … for those who are into video games, Left Behind games are the #1 most powerful vehicle for their hearts and minds that’s been invented in our lifetime.”
  • Founder of Concerned Women for America, Beverly LaHaye says, “Here is a game we heartily recommend.”
  • More than 1,000 people have recommitted their lives or come to faith as a result of our games and evangelistic website.

Muitos teístas se utilizam da famigerada aposta de Pascal em seus discursos. Em resumo, o que a aposta de Pascal diz é que um teísta tem o mesmo destino que um ateu caso o primeiro esteja errado e o último certo. Porém, se deus realmente existe, uma eternidade acolhedora aguarda o teísta. O mesmo, porém, não se pode dizer do ateu, que dificilmente será bem aceito, graças à sua descrença.

Não vou me adentrar na aposta. Ela é apenas uma forma mais elaborada (e asquerosa) de perguntar:

“E se você estiver errado?”

“Se deus realmente existir, o que você acha que irá acontecer?”. Muitos tementes a deus apresentam uma profunda e sincera preocupação conosco, pessoas que não creem em deus algum. “Que destino terrível não deve estar reservado para essas pessoas…” eles devem imaginar.

Mas agora pensem comigo. Eu sou ateu, não creio em deus(es). Então existem duas possibilidades. Eu posso estar terrivelmente enganado e todos os teístas estariam certos, pois realmente existe pelo menos algum deus. Ou eu estaria certo e todos os teístas estariam rezando para algo que não existe.

A parte irônica é que, mesmo que deus existisse, pouquíssimos teístas estariam certos sobre seus detalhes. Se o deus que existe é o abraâmico, então as três grandes religiões monoteístas estão corretas quanto a ele. Mas certamente esse deus, muito conhecido pela sua vaidade, não daria o mesmo destino para os fiéis de todas as três. A começar pelo cristianismo, que é dividido em uma série de igrejas menores, cada uma com um modo diferente de adorá-lo. Uns adoram santos, outros não saem nos sábados e ainda outros se debatem e se contorcem no chão, berrando o nome de Jesus. E nem vou falar do judaísmo e islamismo, pois conheço-os bem menos.

Ou então vai ver que o que existe é algo parecido com os deuses do Olimpo. Eram os antigos gregos, afinal, que estavam certos o tempo todo. Certamente, Zeus não irá perdoar os adoradores de falsos deuses. Ou vai ver que eram os hindus, e não os gregos ou hebreus que estavam corretos e você irá pagar por todas as baratas que matou, reencarnando na forma de uma. E não podemos nos esquecer de Tupã, o deus da mitologia guarani, aquele que mora no Sol (ou que é o próprio Sol, agora eu não lembro). E dá-lhe divindades, existe uma miríade delas, cada uma tomando para si o título de criadoras de universo.

O fato desconcertante é que todos não podem estar certos. Aliás, pouquíssimos estariam certos. Se você estiver no espaço, olhando para o nosso planeta Terra, existem poucas coisas que você pode dizer com um bom grau de certeza. Uma delas é que a grande maioria das pessoas ali embaixo, naquele planeta azulzinho, está dedicando boa parte de suas vidas para algo que não existe. Quase toda a população mundial está esperando por uma vida eterna que não chegará, adorando um deus que não está noutro lugar que não seja no imaginário de seus fiéis.

Como se a situação não fosse irônica o suficiente, boa parte dessa multidão perdidamente iludida tem uma profunda fé de que estão certos. Não é à toa que diferentes crenças despertem o ódio mais visceral entre povos. Um povo não consegue odiar tanto o outro só porque suas terras seriam boas aquisições. Mas se o seu vizinho se diz o “povo escolhido”, contradizendo tudo o que você entendia por “povo escolhido” (que, obviamente, incluía você), então aí está um forte combustível para o ódio.

Eu não acredito em vida eterna. Mas, se ela existe, eu posso dizer com segurança uma coisa: ela é famosa no além por sua horda de desiludidos. Seja lá como essa improvável vida eterna for, deve ser impagável ver os muçulmanos chegando aos milhares, perguntando onde, afinal, estão todas aquelas virgens. E os cristãos, chegando em igual ou maior número que os muçulmanos, não ficariam menos surpresos ao perceber que o “céu” pelo qual eles tanto esperaram não existe. Ou então um mercador hindu, pasmo depois de constatar que não reencarnou como um futuro mercador recém nascido, honrando a casta. E claro, nós ateus nos sentiríamos constrangedoramente idiotas e não ficaríamos atrás dos colegas de eternidade em termos de surpresa.

E eu nem vou falar da fúria dos deuses. A própria aposta de Pascal, que já é desprezível pelo seu caráter irrelevante em um debate, se torna ainda mais fraca quando paramos para pensar em deuses diferentes. Justamente porque ela desconsiderou esse importante fato de que um deus tão vaidoso certamente não seria muito compreensivo com toda essa diversidade de fé. Este mesmo deus vaidoso odiaria ainda mais um crente em uma divindade falsa do que um simples descrente.

Tudo isso me perturbaria muito, se tivesse algum cabimento. Resolvi falar sobre isso apenas para evidenciar o quanto a crença em vida eterna e/ou deuses é frágil e desesperada. Não se deve crer apenas por medo de uma punição pela descrença. Muitos temem essa punição baseados na aposta de Pascal, mesmo achando que essa punição seria muito improvável. E esse medo de uma punição no além acaba por punir, de verdade, o próprio pensamento crítico.

Todos nós que cursamos o ensino médio (ou segundo grau, no caso dos mais velhos, como eu) provavelmente vamos nos lembrar de já ter ouvido falar em genes ou alelos recessivos e dominantes nas aulas de biologia. Definindo grosseiramente a noção de recessividade e dominância, o gene dominante, quando presente, sempre se manifestará, mesmo que haja maior número de genes recessivos. Mas passemos da biologia para a história.

Eric J. Hobsbawn, historiador britânico, escreveu um interessante livro intitulado A era das revoluções. A obra trata do período entre os anos de 1789 e 1848, sob uma perspectiva “primordialmente europeia” e “mais precisamente franco-britânica”, nas palavras do próprio autor (p. 13). Hobsbawn aborda o período referido enfatizando o que ele chama de “dupla revolução”, ou seja, a Revolução francesa de 1789 e seus desdobramentos até 1848, e a revolução industrial, cujo epicentro é a Inglaterra. O impacto desta dupla revolução nas mentalidades é inquestionável. O progresso tecnológico e científico é acelerado pela própria dinâmica da revolução industrial, e as novas ideias e valores políticos que ajudaram a deflagar a Revolução na França espalham-se pela Europa e, posteriormente, pelo mundo todo.

Mas não é minha intenção fazer aqui uma resenha desta obra. Quero apenas expor algumas reflexões sobre um trecho do livro. No capítulo 12 d’A era das revoluções, cujo título é A ideologia religiosa”, o autor menciona que as classes sociais mais baixas e a maioria das pessoas pertencentes à burguesia ainda eram religiosas naquele período. Entretanto, havia no seio da burguesia uma minoria crescente de livres pensadores, que se opunham à religião, e esta minoria irreligiosa era, como descreve o eminente historiador, “imensuravelmente mais dinâmica e efetiva”. Chamou-me a atenção a forma como Hobsbawn expôs este fato, e acho que vale a pena transcrever parte do texto:

“Embora, em termos puramente quantitativos a religião continuasse muito forte e, como veremos, ficaria ainda mais forte, ela não era mais dominante (para usarmos uma analogia biológica) mas recessiva, e assim permaneceria até os dias atuais dentro do mundo transformado pela revolução dupla” (p. 306).

Vale ressaltar que Hobsbawn publicou o livro no início da década de 1960 e, portanto, devemos levar em conta que o que ele chama de “dias atuais” já se passou faz quase meio século.

A “analogia biológica” de Hobsbawn é interessante, mas, comparando a época por ele retratada e a nossa própria época, me vem à cabeça a questão: será que o livre pensamento ainda é dominante em nossos dias? Será que a religião, que nunca deixou de ser quantitativamente superior, ainda é recessiva em nossos dias, ou será que ela se tornou dominante?

Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, as instituições religiosas no Ocidente, e em especial a Igreja de Roma, ainda possuíam considerável influência, mas nada que pudesse ser comparado ao poder que possuíam antes do século XVIII. É, porém, difícil comparar nossa época com o período estudado na obra citada de Hobsbawn, ou mesmo com épocas anteriores. Em primeiro lugar, a influência de qualquer instituição na cultura é hoje exercida por meios que não existiam na primeira metade do século XIX. Não havia naquela época, por exemplo, igrejas-empresa donas de emissoras de televisão e rádio. A popularidade de religiosos carismáticos da época não tinha o alcance e a dimensão da popularidade dos padres cantores galãs ou dos “televangelistas”. E o alcance destas pessoas hoje não se limita às classes sociais mais baixas, mas exerce influência sobre boa parte da classe média e alta. Politicamente, o discurso religioso chega a influenciar fortemente até o destino de países poderosos, como pudemos ver recentemente com os recentes oito anos de governo Bush na América do Norte, ou a ascensão do poder político de fundamentalistas islâmicos em diversos países do mundo. O discurso religioso está hoje visivelmente mais presente e influente na vida política de boa parte do mundo do que no período da “dupla revolução”, e seu alcance parece aumentar também na esfera privada, por causa dos meios de comunicação hoje disponíveis.

Obviamente, Hobsbawn tem o privilégio de escrever sobre um período cujo distanciamento no tempo permite uma análise histórica mais objetiva. É sempre difícil para qualquer historiador falar sobre seu próprio tempo, e talvez, daqui a um século, nossa visão sobre a influência da religião nas primeiras décadas do século XXI seja diferente. Talvez historiadores do futuro constatem que, apesar de tudo, o pensamento secular se manteve dominante, e o religioso se manteve recessivo. Vivemos em uma época que talvez seja considerada tão revolucionária, do ponto de vista tecnológico, quanto o período da revolução industrial. Talvez até mais. Mesmo assim, é inquietante pensar que nós hoje nos preocupamos muito mais com a influencia do extremismo religioso nas nossas vidas do que os livre pensadores que viveram duzentos anos antes de nós.

Referências

1. HOBSBAWN, Eric J. A Era das Revoluções. 21ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.