II

Receber uma boa educação é uma bênção. Mesmo assim, não devemos entender a educação como capaz de mudar o mundo, mas apenas como necessária para conseguirmos lidar com a realidade de forma eficiente. Uma boa educação pode diminuir o sofrimento causado pela ignorância, mas evidentemente não mudará nossa condição básica de existência, que é ser humanos — e tudo o que isso implica, algo que a educação, por si só, jamais mudará. Tentemos exemplificar o que queremos dizer. Em geral, intelectuais pensam que o problema do mundo é a falta de reflexão; pobres pensam que é a falta de dinheiro; ricos pensam que é o excesso de pobres; religiosos que é a falta de fé; ateus que é o excesso de fé. Que padrão podemos encontrar nisso? Seus umbigos. Todos querem que o mundo os reflita, e é evidente que isso não vai melhorar nada. São apenas sonhos narcisistas que cultivamos por razões míopes. No fundo, nós os cultivamos por sabermos que eles nunca vão se realizar e, mesmo se se realizassem, também não há quaisquer motivos concretos para acreditar que os resultados seriam os que esperamos. Sonhar pode ser agradável, mas não podemos realmente acreditar que a humanidade toda se comportaria segundo nossas crenças pessoais idealizadas e intangíveis apenas por ter recebido uma boa educação; isso é tolice. Ora, quem consegue acreditar que, apenas porque foram bem educados, os homens deixariam de matar, roubar e mentir? Se até indivíduos educados fazem tais coisas, por que deveríamos propor a educação como uma forma de resolvê-las? Isso não faz sentido. Depois de educados, os homens se tornarão educados; mais nada.

Também não confundamos educação com doutrinação. Tornar-se cristão não é educação; gostar de futebol não é educação. Educação envolve apenas aprender, não tomar partido. O papel da educação é apenas nos familiarizar com o mundo, não corrigir aquilo que consideramos gafes morais de nossa natureza. Utilizemos a injustiça para exemplificar uma dessas gafes. Faz sentido educar um indivíduo na suposição de que isso o tornará mais justo? Não. Educá-lo o tornará mais instruído, não mais justo. Se a instrução o permite entender as sutis razões pelas quais deve ser justo, tudo bem, mas isso não é uma consequência necessária, pois ele poderia muito bem, a partir dessa mesma educação, concluir que é melhor ser injusto, e levar isso adiante. Se não gostamos dessa ideia, é simplesmente porque ela nos assusta. Diante disso, para satisfazer nossa necessidade de segurança, fazemos o possível para manter essa liberdade educacional pelo menos um pouco circunscrita por preconceitos morais. Assim, em vez de valorizarmos a educação diretamente, passamos a valorizar as virtudes às quais ela supostamente conduz, ignorando o fato de que essas virtudes nada mais são que ideais morais insípidos nascidos de perfeccionismos metafísicos de teólogos desocupados — ideais que nunca vimos ser levados à prática perfeita que acalentam em nenhum tempo, em nenhum lugar. Paremos de sonhar. A educação só é valorizada porque a utilizamos indiretamente para nos proporcionar segurança. A função original desses ideais aos quais ela se subordina é apenas justificar a lavagem cerebral que aplicamos em todos os que nascem ao nosso redor. Conseguimos, agora, perceber que esses ideais não apontam para nada tangível. O verdadeiro ser humano é aquilo que vemos no nosso dia a dia, aquilo que acompanhamos ao longo da história, não aquilo que, em nossos sonhos otimistas, fantasiamos que seremos num inespecífico futuro tornado próspero por alguma graça misteriosa da educação.

Mesmo assim, indivíduos esclarecidos são constantes vítimas da ilusão de que, se todos fossem educados, o mundo seria melhor, mas não seria, assim como não seria melhor se todos fossem ricos. Por que não? Porque, se todos fossem ricos, nossos problemas seriam outros — e seriam igualmente aflitivos. Se duvidamos, imaginemos que a humanidade inteira, num passe de mágica, se tornou dez vezes mais rica que o homem mais rico da atualidade, seja ele quem for — uma riqueza incluindo não apenas dinheiro, mas também condições de vida, status social etc. Isso nos daria a sensação de que vivemos num mundo melhor? Apenas por contraste; em si mesmo, não. Para ver a prova disso, basta nos perguntarmos: temos a sensação de que vivemos num mundo melhor porque sabemos controlar o fogo? Não. Talvez os homens da idade da pedra tenham sonhado com o dia em que todos conseguiriam controlar o fogo quando bem entendessem, na suposição de que, quando conseguissem, todos passariam a ser irmãos. Mas tais coisas nunca acontecem, e com o exemplo acima fica mais fácil entender o porquê. A irmandade não se segue do fogo, assim como a justiça não se segue da instrução.

Então, mesmo que alcançássemos um ponto x qualquer estabelecido arbitrariamente como o objetivo de nossas investidas educacionais, isso não nos daria a satisfação que esperamos, pois nossa insatisfação é adaptativa. Significando que, seja qual for nossa condição, ela nos parecerá insatisfatória, e lutar para melhorá-la apenas nos dará uma satisfação temporária, a qual logo será suplantada pela insatisfação diante de outra insignificância qualquer. Isso não é uma escolha, não é algo que a educação, ou que a religiosidade, ou a falta dela, vai mudar; isso é nossa natureza. Tais fatos talvez contrariem nossas crenças pessoais, mas tenhamos o cuidado de observar quão bem eles descrevem nossas vidas práticas. A insatisfação é nossa condição básica de existência; é o que nos move, mesmo que em círculos. Desse modo, se todos fossem educados, se todos fossem ateus, se todos fossem ricos, se todos fossem religiosos, se todos fossem socialistas, para nossos fins, daria no mesmo. Continuaríamos tão insatisfeitos quanto estamos agora, mesmo que nossa situação fosse mil vezes melhor. Considerando que, ao lado de homens da Idade da Pedra, somos praticamente bilionários obesos e metidos a besta, já deveríamos ter parado de lamuriar há pelo menos um século. Mas não vamos parar de reclamar. Nunca. Por mais que tudo melhore, sempre nos acompanhará o sentimento de que deveria ser melhor.

Como se percebe, a educação não é um substituto para o caos e para a brutalidade que move a vida; é apenas um refinamento dessa mesma brutalidade — na forma de um pacote de informações por meio do qual podemos nos tornar mais competitivos por entendermos o mundo em que estamos. Evidentemente, entender o comportamento do ambiente não mudará as regras do jogo, só nos dará melhores chances de vencê-lo. Por isso, se todos fossem educados, parece que a única consequência razoavelmente previsível seria o mundo tornar-se ainda mais competitivo. Similarmente, se fôssemos todos ateus, em vez de deus, apenas usaríamos outro pretexto qualquer para justificar nossas demências.

 

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2 Comments

    • rosangela
    • Posted 4 de janeiro de 2010 at 12:50
    • Permalink

    Mesmo concordando que a ‘brutalidade move a vida’, indivíduos educados são preferíveis. Poucas coisas mantêm sua graça na solidão. A vida entre seres humanos é inevitável e, ‘seres’ menos patéticos poupa-nos dor de cabeça.
    Não esperar milagres salvadores dos novos séculos nem dos novos milênios é recomendável visto que calendários não trazem nada de novo à vida humana, mas ‘viver’ inteligentemente filtra um pouco as nossas ‘demências’.
    Seus textos são realmente muito bons, André.

  1. Penso que a educação não resolveria nossos problemas, mas assim como o fogo acalentou os homens da idade da pedra, a educação viria bem a calhar agora.

    Mas somos seres criativos, sempre inventariamos insatisfações e problemas a mais para nos ocuparmos.


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  1. By Educação e religião: a figura divina on 20 maio 2011 at 4:35 pm

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