É notório e indiscutível (embora qualquer crente irá afirmar o contrário) que os humanos possuem suas crenças e religiões basicamente por medo da morte e pela busca de um sentido “maior”. E também, nos casos dos crédulos pensadores, para tapar as instigantes lacunas, por mais contraditório que isso possa parecer. O pensador crente usa em última análise a figura de um deus para cessar em sua cabeça as perturbadoras questões sem resposta, e curiosamente parece não perceber que abre uma lacuna muito maior. Na verdade ele abre uma fantasia absurda e simplesmente se contenta com ela. Neste último caso fica claramente demonstrada a relevância do fator emocional. Mas não é esse o cerne da questão que desejo abordar. Por ora, neste texto, deixaremos o medo da morte (que de uma maneira ou de outra, é natural sentirmos) e as lacunas de lado. O alvo da nossa reflexão profunda é o tal sentido “maior”. O que significa isso afinal?

É bastante comum ouvirmos de pessoas crédulas que os ateus carecem de um sentido para suas vidas e para o além-morte. Que não possuem um sentido “maior”, que vivem por viver. É evidente que há um equívoco nisso o qual não pretendo alimentar, que é a presunção do crente (uma certeza) em afirmar naturalmente que há vida após a morte. Mas para seguir adiante com a proposta do raciocínio requerido por mim, necessito hipotetizar que o crente esteja correto. Vou descer do meu arrogante pedestal de cético teimoso e dar asas à fantasia, imaginando assim todos os seres humanos morrendo e, sabe-se lá de qual forma, continuando suas vidas em outro “local” para todo o sempre. Na eternidade. Seja em um inferno, num céu, num paraíso, numa colina linda e exuberante, ou nos braços de sedutoras virgens ninfetas. Não me importam esses detalhes. O que está em voga é: o que isto traria de sentido “maior” para alguém? Tudo indica que os crédulos nunca pararam para analisar profundamente esta questão. Sequer devem ter ideia do siginificado da palavra eternidade, quando a usam. Dentro de um “universo” de fantasias e possibilidades de pseudo-situações pós-morte, ainda assim seriamos obrigados a nos perguntar: qual o sentido “maior” disso ou daquilo? Recentemente, li em um adesivo fixado no terminal de passageiros do aeroporto de congonhas-SP a seguinte inscrição que questionava os transeuntes: “Onde pretende passar a eternidade?”. Ora, não sei quanto ao leitor, mas por falar em sentido, aí está uma pergunta um tanto quanto sem sentido. Mas, dando sequência a essa hipotetização, a princípio, num surto de sinceridade e pensando em minha plena satisfação, eu responderia que desejaria passar a eternidade num lindo campo verde cercado das pessoas que amei durante minha vida; ou que desejaria passar a eternidade assistindo ao sitcom “Seinfeld”; ou que desejaria passar a eternidade ouvindo minhas bandas preferidas… Bem, são tantas as possibilidades que tornam a escolha difícil. Mas muito mais difícil de se compreender é que, seja lá qual for a escolha do crente em resposta ao adesivo religioso que indaga “onde” ele gostaria de passar a eternidade, qual seria o sentido “maior” dessa escolha principalmente se tratarmos com rigor o significado da palavra eterno?

Voltando ao mundo dos verdadeiros mortais, como podem perceber o sentido real de nossas vidas é absolutamente subjetivo e somos nós mesmos que o fazemos. Qualquer sentido “maior” que o crente reclame ou exija é um engodo idiota, infantil, fantasioso e, ironicamente ao contrário do que prega, verdadeiramente sem sentido. Se você for crente, pense nisso, porque como diz aquela antiga propaganda de cartão de crédito: “A vida é agora”

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3 Comments

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 6 de janeiro de 2010 at 9:48
    • Permalink

    “Onde pretende passar a eternidade?”

    Com certeza não quero passar minha eternidade ao lado de um velho barbudo sentado em uma nuvem arremessando relâmpagos.

    Acho que vou aceita a sua sugestão “…nos braços de sedutoras virgens ninfetas.”

  1. Muito bom Ricardo, infelizmente as pessoas tendem a resistir à realidade.

    O mau do homem é achar que pode disperdiçar sua vida sob as rédias de sua imaginação, de forma que quanto mais este creia, mais provável é que esteja certo!

    • Guilherme Policena
    • Posted 15 de janeiro de 2010 at 14:44
    • Permalink

    Concordo com o texto ,e acho que ele permite que nos lancemos sobre outras questões ainda mais fundamentais.Muitos se perguntam sobre qual o sentido da vida,sobre vida após a morte,sobre como o universo surgiu,etc.Naturalmente,nunca encontram respostas,justamente pelo fato de serem perguntas absurdas alimentadas por nossas fantasias subjetivas.O fato é que sempre chegamos num beco sem saída e a mais fundamental pergunta que poderíamos fazer é:qual o sentido da existência?A maioria responde esse tipo de pergunta com uma lógica fajuta tapa-buracos chamada deus.Mas vemos,que,mesmo respondendo dessa forma,não chegamos a resposta nenhuma,pois deus ainda seria um ser existente,logo”qual é o sentido da existência de deus?”.Diante do absurdo da existência,a resposta mais natural é dizer que ela não tem sentido.Não há sentido maior.Tudo existe gratuita e incondicionalmente,então o máximo que podemos fazer é encontrar lógicas e razões dentro do universo,mesmo sabendo que ele,como um todo,não tem razão nenhuma.Vemos então que dizer que deus criou o universo não é necessariamente uma forma de explicá-lo,mas de dizer”mude de assunto”.