Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu
livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram
ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles. (salmo 138:16)

Nada acontece sem que o ser onisciente saiba, até mesmo o que há de acontecer no mais distante dos futuros, já é conhecido pelo deus abraâmico. Deus arquitetou e planejou, com calculada antecedência, o nascimento de cada indivíduo, bem como o dia de sua morte. Nada passa desapercebido para aquele que tudo sabe. A isto, os cristãos chamam de “o plano divino“. Sim, sempre que algo bom ou ruim acontece é por que um deus de sabedoria superior o fez propositadamente, sem que nós, meros mortais, possamos compreender.

Entretanto, há algumas implicações na ideia de plano previamente estabelecido. A primeira que me vem à mente é: se deus planejou, desde o princípio dos tempos, quando nasceríamos, implicaria também afirmar que ele provavelmente manipulou o encontro de nossos pais, e de seus pais, sucessivamente em um script digno de novela mexicana, na qual a ideia do livre-arbítrio facilmente cairia por terra (por contradizer a própria lógica religiosa).

Imputaríamos ainda a deus o nascimento de pessoas como Hitler, Charles Manson e Vlad Tepes, pois aquele ente supranatural sabia com incomensurável antecedência sobre seus nascimentos e atitudes (e em nome de um livre-arbítrio que ele mesmo criou, se absteve de impedi-los de seus atos). Para ser sincero, talvez estas figuras mereçam até homenagens divinas, uma vez que apenas fizeram cumprir o papel que o ser celestial lhes reservou, afinal… se deus planejou que entre 1938 e 1945 cerca de seis milhões de judeus morreriam, como cumprir este plano sem a intervenção de peças chaves?

Então, por que precisamos de leis criminais? A única coisa em que um criminoso incorre é fazer cumprir-se o plano de deus, e já que todos serão punidos no pós-vida, seria absurdo ainda puni-los agora. Para evitar um indesejável Bis in idem,[1] deixemos que apenas deus faça a justiça, pois nossos julgadores não são suficientemente competentes e sábios para tal.

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1. Bis in idem em latim significa “duas vezes à mesma coisa”. Refere-se a proibição legal de ser punido duas vezes pelo mesmo crime, mesmo que a penalidade tenha sido executada em Estado estrangeiro.

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4 Comments

    • Livre Pesquisador
    • Posted 13 de janeiro de 2010 at 2:30
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    Boa,

    Se somos tão incapazes, pra que utilizarmos de nossa insignificancia para tentar resolver as coisas?

    O mundo teísta é um mundo em que os seres humanos são fantoches!

    • Higor
    • Posted 13 de janeiro de 2010 at 17:51
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    Deus já sabia de “Sweet Child ‘O Mine” muito antes de Axel Rose.

    • Be Happy
    • Posted 14 de janeiro de 2010 at 11:18
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    Quando é conveniente os teístas se comportam feito qualquer ateu: vão a polícia, ficam depressivos, fazem quimioterapia, etc.

    Bom texto Kosmic !

    • Liesel.
    • Posted 14 de janeiro de 2010 at 14:42
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    [ironic]Belíssima contribuição,Higor.