III

Há alguma diferença entre um homem ateu e outro religioso? Sim, a diferença é que um deles está certo; o outro só acredita nisso. Isso o torna superior ao religioso? Do ponto de vista do conhecimento, sim. Mas, do ponto de vista da realidade, não. Isso porque estar certo nem sempre é o mais importante em nossas vidas, pois nós nos guiamos por regras que dizem respeito a coisas como leis, interesses e genes, não à realidade em si mesma. Ser ateu pode ser importante do ponto de vista do conhecimento, mas, do ponto de vista da condição humana, estar certo é frequentemente irrelevante. Manter nossas barrigas cheias e nossos corpos aquecidos é sempre mais urgente que estar certo. Portanto, se adotarmos uma perspectiva ampla o bastante, perceberemos que o valor do conhecimento teórico está subordinado à performance prática, significando que a teoria ocupa uma posição relativamente marginal em nossas vidas.

Com exceção de alguns poucos afortunados, praticamente ninguém recebe uma educação realista. Em regra, chegamos da infância equivocados sobre quase tudo, alicerçados em fantasias e preconceitos, tentando aplicar à realidade conceitos que não correspondem a nada, e o resultado disso é sofrimento; sofremos como ignorantes, e isso não é nada mais que isto: sofrimento de ignorantes. Nessa situação, ou aceitamos que estamos errados, e tomamos a iniciativa de nos educarmos para a realidade, ou passamos o resto da vida sonhando, como praticamente todos fazem. Evidentemente, só conseguimos perceber o valor da educação quando estar certo torna-se um interesse pessoal — e, sim, é disso que nasce o ateísmo. Logicamente não podemos esperar que um indivíduo incapaz de perceber o valor da educação seja capaz de reconhecer o valor do ateísmo. Mesmo porque, em circunstâncias normais, o ateísmo surge não como um elemento central, não como uma ideologia, não como algo que se defende, mas como um efeito colateral, como um detalhe dentro de um grande projeto de reeducação que empreendemos para melhorar a qualidade de nossas vidas pessoais por meio do conhecimento.

Desse modo, ser ateu não é apenas uma questão de intelectualidade, mas também reflexo de maturidade emocional — noutras palavras, reflexo de termos nos tornado adultos, tomando a vida em nossas próprias mãos, não mais dependendo de um líder protetor para nos dizer o que a realidade é ou para nos confortar diante dos perigos da vida. Tornar-se adulto envolve a capacidade de reconhecer o valor da educação por si só, a capacidade de tornar-se um autodidata num mundo no qual não há professores, e isso só pode significar que a religiosidade, por contraste, envolve uma espécie de infantilidade emocional, na qual ainda tentamos nos relacionar com a ideia abstrata de um pai da realidade — e tenhamos o cuidado de observar que isso não deve ser entendido como um insulto, mas como uma descrição bastante apropriada do comportamento religioso. Na verdade, do ponto de vista emocional, a maioria dos homens jamais supera seus primeiros anos de adolescência — ficamos parados no tempo. Em geral passamos à vida adulta — isto é, independente — apenas do ponto de vista financeiro, mas, emocionalmente, permanecemos dependentes e infantis, coisa que se manifesta como religiosidade, revelando uma profunda carência afetiva. Podemos então dizer, e com toda a justiça, que a religiosidade reflete uma mentalidade infantil, mas não necessariamente uma inteligência infantil — por isso é tão comum que, numa só cabeça, ao lado de uma elevada inteligência, haja também uma lamentável infantilidade emocional. Ser ateu, portanto, é um sinal de maturidade, não de superioridade. Mesmo assim, há uma clara relação entre ateísmo e educação. Isso porque, se não tivermos recebido uma educação realista, será bastante difícil dar esse passo à vida adulta. Despreparados, o mundo nos assusta, pois não se comporta como nos foi ensinado, sendo nossa reação mais natural negá-lo e permanecer abraçados aos nossos preconceitos. Desnecessário dizer que indivíduos incapazes de dar esse passo constituem o público-alvo da religião, que lhes oferece o abrigo que não conseguem dar a si próprios.

Assim, excetuando-se o lamentável fato de nos julgarmos dignos de inveja por sabermos mais do mundo que crianças, o fato é que estamos virtualmente certos naquilo que pensamos. Somos ateus porque deus não existe. Sabemos que estamos certos. Temos provas. Mas e daí? Isso só importa para nós. Para crianças, brincar é mais importante que saber — e não podemos esperar que reconheçam o valor da maturidade; mas, por outro lado, está dentro de nossas capacidades reconhecer a diversão da brincadeira deles, ainda que não gostemos de brincá-la. Não há nada de errado em estar errado quando o objetivo é divertir-se; as regras da brincadeira são diferentes das do conhecimento, feitas para maximizar a diversão. Ser maduros é um favor que fazemos a nós mesmos, e isso é algo que não se pode compartilhar com crianças — fato este que só compreenderemos desde o início se tivermos nos tornado ateus pelos motivos certos, e não por mera revolta. Nesse sentindo, a militância ateia envolvida em tornar toda a sociedade descrente — como se isso fosse nos trazer qualquer benefício — revela uma visão bastante tacanha, incapaz de reconhecer que, muito antes de tornar-se ateia, uma pessoa já deveria ter se tornado adulta, ou a coisa toda não passará de lavagem cerebral às avessas. Para nossos fins, isso encerra a discussão. Se ser criança é melhor que ser adulto, isso já é outra questão — e não cabe a nós avaliar a vida dos pequeninos sob o nosso ponto de vista. Brincadeiras são insípidas para adultos; maturidade não vale nada para crianças. Alguns homens nunca crescem; tudo bem. Não vamos culpá-los por isso, mas também não vamos considerá-los.

 

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga and Paralipomena. Vol. 2. Oxford: Clarendon, 1974.

 

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16 Comments

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 12 de janeiro de 2010 at 9:32
    • Permalink

    Deus, para os adultos, é igual a papei noel para as crianças. Apenas a cor da roupa que muda. Porque até a barba e o físico arredondado permanecem os mesmos.

    A diferença crucial, entretanto, é que no caso do papai noel, somos, ainda crianças, informados que ele não existe. Ficamos tristes, mas seguimos em frente sem maiores sequelas.

    O caso de deus é diferente. Nunca ninguém chaga para uma criança e diz que ele é uma fantasia. Ficamos adultos e continuamos a acreditar que ele existe.

    Mas agora a situação é mais grave. Não mais pedimos bicicletas no fim do ano. Pedimos a cura do câncer, os números da loteria, o fim só sofrimento e a vida eterna.

    Deus é o papal noel dos adultos. Só que, agora, os nossos desejos são mais complexos.

    Quem me dera alguem dissesse para as crianças que deus é uma ilusão. Igual fazem com o bom velhinho.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      André Cancian
    • Posted 12 de janeiro de 2010 at 17:06
    • Permalink

    Mas não podemos negar que papai Noel deixa a vida das crianças mais mágica e agradável.

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 12 de janeiro de 2010 at 19:25
    • Permalink

    Certo. Mais ninguém acha razoável que um adulto acredite em papai noel. A magia deve parar no momento em que a vida real precisar ser encarada. Por isso dizemos que papel noel não existe. Deus é a exceção para essa regra. Existe um consenso social que diz que a magia de deus não precisa parar. Deus deixa a vida dos adultos mais mágica e agradável.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      André Cancian
    • Posted 12 de janeiro de 2010 at 19:43
    • Permalink

    Mas o que estou dizendo é que não, não deve. Por isso Deus existe. Senão não existiria.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 12 de janeiro de 2010 at 19:59
    • Permalink

    Ou, como dizia um velho amigo dos meus tempos de residência em SP: “Eu não tô nem aí se Deus existe ou não. Pra mim acreditar nele já é o suficiente”.

    O desconforto geral que a NÃO existência divina causa na maioria é tamanha a ponto do crédulo “dar de ombros” para qualquer pensamento lógico que invada sua mente.

  1. Eu particularmente vejo que crédulos estão caminhando como vacas ao matadouro, não que não iremos ao matadouro também, a diferença é que temos conhecimento disso, enquanto eles apenas caminham, pastam, abanam o rabo e perpetuam suas sandices.

    Mas em termos praticos eu também não vejo vantagens em não participar do mundo magico da ignorancia deles, por que depois que tudo acabar, quem me dirá o que restou?

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 13 de janeiro de 2010 at 9:18
    • Permalink

    Caros,

    Não confundam magia com mentira. A vida fica mais agradável com magia. Ok, concordo. Mas não é preciso mentir para isso.

    Quando vamos ao cinema, por exemplo, participamos de uma ficção. Mas sabemos que é ilusão, mentira. E isso vale para a literatura, música, artes em geral.

    Penso que não é saudável inventar um papai noel mágico para que a vida de uma criança fica mais agradável. A fantasia pode ser benéfica, desde que a realidade nunca fuja de vista.

    • Be Happy
    • Posted 13 de janeiro de 2010 at 13:28
    • Permalink

    Concordo com o seu texto Cancian sobre muitos adultos pensarem como crianças imaturas e a ligação disto com a falta de uma educação focada mais no realismo.

    É mesmo díficil, quase impossível se convencer um adulto que possui apenas o ensino fundamental que o teísmo não é sustentado por provas corrobadas pela ciência, muito menos fazê-lo entendender superioridade prática da ciência sobre a religião.

    Quanto a nos tornarmos adultos, acho que o ateísmo não nos faz mais ou menos adultos, mas com certeza nos faz intelectualmente e emocionalmente mais preparados para diversos problemas que enfrentamos quando crescemos.

    Acho que a definição de um adulto ou um não adulto é uma convenção bastante relativa a época em que vivemos. Os jovens de hoje são muito mais adultos do que as gerações anteriores em relação a sexo, religião, política, etc.

    • Be Happy
    • Posted 14 de janeiro de 2010 at 11:20
    • Permalink

    Cancian
    Concordo com o seu texto quanto muitos adultos pensarem como crianças imaturas e a ligação disto com a falta de uma educação focada mais no realismo.

    É mesmo díficil, quase impossível se convencer um adulto que possui apenas o ensino fundamental que o teísmo não é sustentado por provas corrobadas pela ciência, muito menos fazê-lo entendender superioridade prática da ciência sobre a religião.

    Quanto a nos tornarmos adultos, acho que o ateísmo não nos faz mais ou menos adultos, mas com certeza nos faz intelectualmente e emocionalmente mais preparados para diversos problemas que enfrentamos quando crescemos.

    Acho que a definição de um adulto ou um não adulto é uma convenção bastante relativa a época em que vivemos. Os jovens de hoje são muito mais adultos do que as gerações anteriores em relação a sexo, religião, política, etc.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Lewis
    • Posted 14 de janeiro de 2010 at 14:58
    • Permalink

    Sim, o ateísmo nasce da maturidade intelectual e emocional, às quais nem todos chegam. Do conseguir não só receber e entender idéias alheias, mas da capacidade de criticá-las e desenvolver idéias próprias. De desenvolver sem limitações a própria percepção do mundo.

    Bastante verdadeira essa explicação: a idéia de deuses permanece viva em pessoas com inteligência não necessariamente infantil, mas com o emocional, esse sim, necessariamente infantil. A necessidade eterna de um pai controlador e protetor.

    • Guilherme Policena
    • Posted 15 de janeiro de 2010 at 12:13
    • Permalink

    De fato,a fé é sustentada completamente por fatores emocionais.Sabemos que o mundo é físico,impessoal,natural e que só somos migalhas com objetivo de perpetuação num planeta perdido no meio de um emaranhado de 100 bilhões de estrelas da via-láctea,a qual por sua vez,é apenas um grão no meio de inúmeras outras galáxias.Mesmo assim,insistimos na crença de um “pai”,insistimos que somos importantes,e isso,claro,só se sustenta pela emoção, e não pela racionalidade.Talvez a crença em deus não seja tão ruim se o objetivo é a segurança e a paz da alma.Mas para quem busca conhecer a realidade,mais que completamente inútil,chega a ser um obstáculo.Mas se o objetivo é brincar,que continuem acreditando no papai-do-céu,afinal,como foi destacado no texto,maturidade não vale nada para crianças.

    • romualdo
    • Posted 21 de março de 2010 at 16:38
    • Permalink

    recomendo mudar as cores da página, fica elegante como está, mas para ler é totalmente ineficiente, a vista cansa e cria fantasmas…

    considero q todo ateu comete o erro de considerar deus só desde o ponto de vista da fantasia religiosa. para mim, ele é uma transcrição psicológica duma dinâmica zoológica ( o macho alfa do nosso rebanho humano).
    deus é, antes de tudo, a instrumentalização dum instinto hierárquico, útil nos primórdios da civilização para o sucesso organizacional da manada humana.
    deus tem existência real na história das culturas, na vida diária dos indivíduos q acreditam nele ( e indirectamente nos q não acreditam por sermos seres relacionais)como um compêndio de proibições e recompensas.
    é óbvio q esse fantasma barbudo criador duma criação incompetente e selvagem não existe no tempo nem no espaço, mas essa entidade psico-biológica á qual nos subordinamos e nos prepara para aceitar aos outros alphas
    (político, herói, chefe) é tão real quanto nós mesmos.

    • romualdo
    • Posted 21 de março de 2010 at 17:02
    • Permalink

    p.s.
    discutir somente se esse ser é real ( isolado do seu contexto zoológico) é rebaixar a discussão ao nível medieval, no mínimo.
    desvendar ás orígens do macho alpha introjetado e divinizado seria o ponto de partida para uma transformação radical da nosa civilização, baseada em funções animais institucionalizadas.

    • romualdo
    • Posted 21 de março de 2010 at 17:09
    • Permalink

    p.s.
    discutir somente se esse ser é real ( isolado do seu contexto zoológico) é rebaixar a discussão ao nível medieval, no mínimo.
    desvendar ás origens do macho alpha introjetado e divinizado seria o ponto de partida para uma transformação radical da nossa civilização, baseada em funções animais institucionalizadas.

    • romualdo
    • Posted 21 de março de 2010 at 17:17
    • Permalink

    errata: “considero q todo ateu comete o erro de questionar”…

  2. Bem que poderia ter mais atualizações no blog né. Abraço