Todos nós que cursamos o ensino médio (ou segundo grau, no caso dos mais velhos, como eu) provavelmente vamos nos lembrar de já ter ouvido falar em genes ou alelos recessivos e dominantes nas aulas de biologia. Definindo grosseiramente a noção de recessividade e dominância, o gene dominante, quando presente, sempre se manifestará, mesmo que haja maior número de genes recessivos. Mas passemos da biologia para a história.

Eric J. Hobsbawn, historiador britânico, escreveu um interessante livro intitulado A era das revoluções. A obra trata do período entre os anos de 1789 e 1848, sob uma perspectiva “primordialmente europeia” e “mais precisamente franco-britânica”, nas palavras do próprio autor (p. 13). Hobsbawn aborda o período referido enfatizando o que ele chama de “dupla revolução”, ou seja, a Revolução francesa de 1789 e seus desdobramentos até 1848, e a revolução industrial, cujo epicentro é a Inglaterra. O impacto desta dupla revolução nas mentalidades é inquestionável. O progresso tecnológico e científico é acelerado pela própria dinâmica da revolução industrial, e as novas ideias e valores políticos que ajudaram a deflagar a Revolução na França espalham-se pela Europa e, posteriormente, pelo mundo todo.

Mas não é minha intenção fazer aqui uma resenha desta obra. Quero apenas expor algumas reflexões sobre um trecho do livro. No capítulo 12 d’A era das revoluções, cujo título é A ideologia religiosa”, o autor menciona que as classes sociais mais baixas e a maioria das pessoas pertencentes à burguesia ainda eram religiosas naquele período. Entretanto, havia no seio da burguesia uma minoria crescente de livres pensadores, que se opunham à religião, e esta minoria irreligiosa era, como descreve o eminente historiador, “imensuravelmente mais dinâmica e efetiva”. Chamou-me a atenção a forma como Hobsbawn expôs este fato, e acho que vale a pena transcrever parte do texto:

“Embora, em termos puramente quantitativos a religião continuasse muito forte e, como veremos, ficaria ainda mais forte, ela não era mais dominante (para usarmos uma analogia biológica) mas recessiva, e assim permaneceria até os dias atuais dentro do mundo transformado pela revolução dupla” (p. 306).

Vale ressaltar que Hobsbawn publicou o livro no início da década de 1960 e, portanto, devemos levar em conta que o que ele chama de “dias atuais” já se passou faz quase meio século.

A “analogia biológica” de Hobsbawn é interessante, mas, comparando a época por ele retratada e a nossa própria época, me vem à cabeça a questão: será que o livre pensamento ainda é dominante em nossos dias? Será que a religião, que nunca deixou de ser quantitativamente superior, ainda é recessiva em nossos dias, ou será que ela se tornou dominante?

Entre o final do século XVIII e meados do século XIX, as instituições religiosas no Ocidente, e em especial a Igreja de Roma, ainda possuíam considerável influência, mas nada que pudesse ser comparado ao poder que possuíam antes do século XVIII. É, porém, difícil comparar nossa época com o período estudado na obra citada de Hobsbawn, ou mesmo com épocas anteriores. Em primeiro lugar, a influência de qualquer instituição na cultura é hoje exercida por meios que não existiam na primeira metade do século XIX. Não havia naquela época, por exemplo, igrejas-empresa donas de emissoras de televisão e rádio. A popularidade de religiosos carismáticos da época não tinha o alcance e a dimensão da popularidade dos padres cantores galãs ou dos “televangelistas”. E o alcance destas pessoas hoje não se limita às classes sociais mais baixas, mas exerce influência sobre boa parte da classe média e alta. Politicamente, o discurso religioso chega a influenciar fortemente até o destino de países poderosos, como pudemos ver recentemente com os recentes oito anos de governo Bush na América do Norte, ou a ascensão do poder político de fundamentalistas islâmicos em diversos países do mundo. O discurso religioso está hoje visivelmente mais presente e influente na vida política de boa parte do mundo do que no período da “dupla revolução”, e seu alcance parece aumentar também na esfera privada, por causa dos meios de comunicação hoje disponíveis.

Obviamente, Hobsbawn tem o privilégio de escrever sobre um período cujo distanciamento no tempo permite uma análise histórica mais objetiva. É sempre difícil para qualquer historiador falar sobre seu próprio tempo, e talvez, daqui a um século, nossa visão sobre a influência da religião nas primeiras décadas do século XXI seja diferente. Talvez historiadores do futuro constatem que, apesar de tudo, o pensamento secular se manteve dominante, e o religioso se manteve recessivo. Vivemos em uma época que talvez seja considerada tão revolucionária, do ponto de vista tecnológico, quanto o período da revolução industrial. Talvez até mais. Mesmo assim, é inquietante pensar que nós hoje nos preocupamos muito mais com a influencia do extremismo religioso nas nossas vidas do que os livre pensadores que viveram duzentos anos antes de nós.

Referências

1. HOBSBAWN, Eric J. A Era das Revoluções. 21ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

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One Comment

    • Roberto Zoza
    • Posted 24 de janeiro de 2010 at 9:28
    • Permalink

    Pertinente sua matéria, caro Humberto.

    Sem dúvida alguma a religião de hoje influencia as grandes massas e todas as classes sociais no Brasil, desde as grande cidades até aos mais remotos grotões(onde vivo e observo esse fenômeno).

    Estão invadindo perigosamente os meios de comunicação e assustadoramente o meio político.

    Observo inquieto essa invasão até em escolas públicas.

    Talvez seja matéria para sociólogos analizarem e enriquecerem mais ainda o seu texto.

    Um grande abraço.