Muitos teístas se utilizam da famigerada aposta de Pascal em seus discursos. Em resumo, o que a aposta de Pascal diz é que um teísta tem o mesmo destino que um ateu caso o primeiro esteja errado e o último certo. Porém, se deus realmente existe, uma eternidade acolhedora aguarda o teísta. O mesmo, porém, não se pode dizer do ateu, que dificilmente será bem aceito, graças à sua descrença.

Não vou me adentrar na aposta. Ela é apenas uma forma mais elaborada (e asquerosa) de perguntar:

“E se você estiver errado?”

“Se deus realmente existir, o que você acha que irá acontecer?”. Muitos tementes a deus apresentam uma profunda e sincera preocupação conosco, pessoas que não creem em deus algum. “Que destino terrível não deve estar reservado para essas pessoas…” eles devem imaginar.

Mas agora pensem comigo. Eu sou ateu, não creio em deus(es). Então existem duas possibilidades. Eu posso estar terrivelmente enganado e todos os teístas estariam certos, pois realmente existe pelo menos algum deus. Ou eu estaria certo e todos os teístas estariam rezando para algo que não existe.

A parte irônica é que, mesmo que deus existisse, pouquíssimos teístas estariam certos sobre seus detalhes. Se o deus que existe é o abraâmico, então as três grandes religiões monoteístas estão corretas quanto a ele. Mas certamente esse deus, muito conhecido pela sua vaidade, não daria o mesmo destino para os fiéis de todas as três. A começar pelo cristianismo, que é dividido em uma série de igrejas menores, cada uma com um modo diferente de adorá-lo. Uns adoram santos, outros não saem nos sábados e ainda outros se debatem e se contorcem no chão, berrando o nome de Jesus. E nem vou falar do judaísmo e islamismo, pois conheço-os bem menos.

Ou então vai ver que o que existe é algo parecido com os deuses do Olimpo. Eram os antigos gregos, afinal, que estavam certos o tempo todo. Certamente, Zeus não irá perdoar os adoradores de falsos deuses. Ou vai ver que eram os hindus, e não os gregos ou hebreus que estavam corretos e você irá pagar por todas as baratas que matou, reencarnando na forma de uma. E não podemos nos esquecer de Tupã, o deus da mitologia guarani, aquele que mora no Sol (ou que é o próprio Sol, agora eu não lembro). E dá-lhe divindades, existe uma miríade delas, cada uma tomando para si o título de criadoras de universo.

O fato desconcertante é que todos não podem estar certos. Aliás, pouquíssimos estariam certos. Se você estiver no espaço, olhando para o nosso planeta Terra, existem poucas coisas que você pode dizer com um bom grau de certeza. Uma delas é que a grande maioria das pessoas ali embaixo, naquele planeta azulzinho, está dedicando boa parte de suas vidas para algo que não existe. Quase toda a população mundial está esperando por uma vida eterna que não chegará, adorando um deus que não está noutro lugar que não seja no imaginário de seus fiéis.

Como se a situação não fosse irônica o suficiente, boa parte dessa multidão perdidamente iludida tem uma profunda fé de que estão certos. Não é à toa que diferentes crenças despertem o ódio mais visceral entre povos. Um povo não consegue odiar tanto o outro só porque suas terras seriam boas aquisições. Mas se o seu vizinho se diz o “povo escolhido”, contradizendo tudo o que você entendia por “povo escolhido” (que, obviamente, incluía você), então aí está um forte combustível para o ódio.

Eu não acredito em vida eterna. Mas, se ela existe, eu posso dizer com segurança uma coisa: ela é famosa no além por sua horda de desiludidos. Seja lá como essa improvável vida eterna for, deve ser impagável ver os muçulmanos chegando aos milhares, perguntando onde, afinal, estão todas aquelas virgens. E os cristãos, chegando em igual ou maior número que os muçulmanos, não ficariam menos surpresos ao perceber que o “céu” pelo qual eles tanto esperaram não existe. Ou então um mercador hindu, pasmo depois de constatar que não reencarnou como um futuro mercador recém nascido, honrando a casta. E claro, nós ateus nos sentiríamos constrangedoramente idiotas e não ficaríamos atrás dos colegas de eternidade em termos de surpresa.

E eu nem vou falar da fúria dos deuses. A própria aposta de Pascal, que já é desprezível pelo seu caráter irrelevante em um debate, se torna ainda mais fraca quando paramos para pensar em deuses diferentes. Justamente porque ela desconsiderou esse importante fato de que um deus tão vaidoso certamente não seria muito compreensivo com toda essa diversidade de fé. Este mesmo deus vaidoso odiaria ainda mais um crente em uma divindade falsa do que um simples descrente.

Tudo isso me perturbaria muito, se tivesse algum cabimento. Resolvi falar sobre isso apenas para evidenciar o quanto a crença em vida eterna e/ou deuses é frágil e desesperada. Não se deve crer apenas por medo de uma punição pela descrença. Muitos temem essa punição baseados na aposta de Pascal, mesmo achando que essa punição seria muito improvável. E esse medo de uma punição no além acaba por punir, de verdade, o próprio pensamento crítico.

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One Comment

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      T. H. Abrahão
    • Posted 25 de janeiro de 2010 at 10:43
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