Não é novidade que a indústria da religião movimenta uma soma incomensurável todos os dias. Todos conhecem também alguém que lucra indiretamente com a religiosidade alheia, seja por meio da comercialização de produtos cristãos, de souvenir como a venda de produtos milagrosos e indulgências modernas. Mas há novas oportunidades de mercado surgindo, com seus métodos para lá de heterodoxos na conquista de novos adeptos e melhor arrecadação financeira.

Um exemplo incomum desta empreitada é a empresa Inspired Media Entertainment[1], antigamente conhecida por Left Behind Games: Bible and Christian Games. Baseado no best-seller apocalíptico “Deixado para Trás”, que conta com títulos como Eternal Forces. Neste bizarro enredo, o jogador se encontra no meio de uma Nova York pós-apocalíptica, que muito nos faz lembrar do atentado de 11 de setembro. No jogo, uma ordem de cristãos fundamentalistas recebe a missão de converter ateus, mulçumanos, judeus e basicamente todos os demais residentes a uma espécie de cristianismo fundamentalista.

Aqueles que resistirem devem ser mortos.

O jogo conta também com uma expansão: Tribulation Forces. A descrição do jogo compreende mensagens como: “combata ferozmente as forças do àanticristo, nesta guerra física e espiritual. Utilize o poder da oração para resistir à influência espiritual e defenda-se de tais ataques.” Ao navegar pelo site da empresa, você é obrigado a ouvir uma descrição em áudio de cada jogo, que afirma ser “um exemplo de ensinamento moral e de valores cristãos para as crianças e jovens, de uma forma divertida e realista”.

Vale dizer que a empresa conta com o patrocínio do governo americano, que em 2007 encomendou centenas desses jogos para serem enviados ao Iraque, onde os soldados americanos poderiam aproveitar o seu tempo livre aniquilando infiéis virtualmente[2]. Não é à toa que o jogo, apesar de relativamente desconhecido, contou com a participação de grandes nomes, como o compositor Chance Thomas (King Kong, X-men e Senhor dos Anéis).

Esta tentativa de atrair o público adolescente para a igreja, por meio de jogos surreais e violentos é apenas um exemplo do que está chegando ao mercado nesta última década. É obvio que o grande público não é atingido por esse tipo de jogo patético, que expressa orgulho em ser “o primeiro jogo em que orações e devoções são mais poderosas do que armas”.

A criatividade comercial não enfrenta limitações. Eras pós-apocalípticas, cristãos fundamentalistas armados, super-heróis que têm poderes provenientes da sua fé (blibleman)[3], etc.; são exemplos absurdos, mas cada vez mais comuns e lucrativos[4] no mercado da fé. Resultado de uma profunda alienação, atua como mantenedora de tal estado, utilizando-se de perigosas técnicas de incentivo à intolerância contra aqueles que não compartilham da mesma fé. Jogar vídeo-game nunca foi tão perigoso.

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Notas

  1. LeftBehind Games
  2. Kill or Convert
  3. Bibleman
  4. Apenas em 2006 o jogo Eternal Forces gerou um lucro de dois milhões de dollares


Algumas opiniões (em inglês) sobre os produtos da empresa IME

  • Dallas Anderson of the Billy Graham Center says, “one of the geniuses of these games is that they give gamers a chance to see the consequences of poor decisions …we’re pretty excited to see that these games were designed to provide positive moral input to a youthful generation which would otherwise not hear it.”
  • Focus on the Family (Breakaway Magazine) says, “Overall, this is a positive faith building game worth your time and money.”
  • LEFT BEHIND author Tim LaHaye says, ” … for those who are into video games, Left Behind games are the #1 most powerful vehicle for their hearts and minds that’s been invented in our lifetime.”
  • Founder of Concerned Women for America, Beverly LaHaye says, “Here is a game we heartily recommend.”
  • More than 1,000 people have recommitted their lives or come to faith as a result of our games and evangelistic website.
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4 Comments

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 26 de janeiro de 2010 at 9:32
    • Permalink

    Olha que eu gosto de jogar uma partidinha de videogame. Mais essa aí, não fiquei, nem um pouco, com vontade.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Ricardo Ramos
    • Posted 26 de janeiro de 2010 at 10:08
    • Permalink

    Os caras são uns gênios mesmo. Usando mais uma vez a “força” do imprinting infanto, e dessa forma exposta no artigo pode-se atingir a meninada da maneira que eles mais gostam hoje em dia (high tech).

  1. As Igrejas são na realidade a materialização da hipocresia da nossa espécie (homo sapiens). Os seguimentos religiosos conseguiram sobreviver a todos esses anos devido a aceitação coletiva do arquétipo pré-estabelecido para o ser humano. Assim, tudo que é imposto a raça humana tem sido “pacificamente” aceito e praticado, como condição sine qua non para que a pessoa seja reconhecida como parte da “sociedade”.
    Em particular, no caso dos Games Religiosos, percebo um claro sinal de desespero por parte das Igrejas, pois com a atual facilidade de acesso a informação (WEB, TV-à-Cabo, Livros Importados etc…) as pessoas estão mais críticas e investigam os conteúdos das informações. Desta forma,interpreto os Games Reliosos como um dos sintomas do enfraquecimento, mesmo que sutil, do Teísmo.
    Finalmente, reitero, a idéia de que todos nós somos Ateus, mas apenas uma pequena parcela se manisfesta publicamente contra o arquétipo que lhe é imposto.

    • Roberto Zoza
    • Posted 1 de fevereiro de 2010 at 18:39
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    Po Victor. Eu não sabia dessas “novidades”.
    Sem dúvida são armas perigosas nas mãos dos fundamentalistas.
    Os cristãos estão aprendendo muito bem com seus inimigos religiosos.
    A Madraçais são a forma mais concreta de alienação de jovens exercida pelos muçulmanos (leia-se Al Qaeda)).
    E os cristãos aprimoraram esta fonte de alienação. Atingem os jovens em seu ponto mais vulnerável: a informática com seu inquestionável apelo.
    Um grande abraço…