por Vinícius Rodrigues de Assis (Hórus)

O criacionismo se apoia numa desonestidade intelectual medíocre, na tentativa de justificar sua crença, no entanto, essa não se faz crível pela consistência de suas explicações, e sim por atuar na simples vontade de acreditar aguçada e instigada, tornando-se necessidade de seus fiéis.

É irônico o fato de crentes se utilizarem da ciência quando essa lhes é conveniente, e atacá-la veementemente quando a mesma atinge suas confortáveis crenças. É raro ver crentes reclamando das tecnologias produzidas pela ciência; em geral, usam-na com gosto; portam celular, meios de transporte, central de ar em casa ou no trabalho, micro-ondas, bombas nucleares para matar infiéis, enfim, uma incontável diversidade de benefícios que facilitam a vida prática, sem falar na medicina, que salva muito mais vidas que qualquer pastor, curandeiro, médium etc., e que a maioria dos crentes prefere consultar quando está morrendo. Mesmo com essa confiança nos produtos e serviços científicos, a situação muda quando a ciência apresenta alguma teoria que vá contra alguma coisa relacionada à crença em deus; os religiosos, que antes se fartavam com os agrados da ciência, agora passam a ofendê-la e desrespeitá-la com vigor, como se a ciência pudesse acertar em tudo, menos em qualquer coisa ligada a deus. Ora, nenhum religioso se incomoda com o parecer científico sobre a gravidade, ou com a lei de ação e reação de Newton, e se importaram pouco com a revolução física provocada pela relatividade de Einstein se comparada com a do evolucionismo, embora este apresente tantas evidências quanto a outra, senão mais. A teoria do Big Bang também apresenta fortes evidências, mas mesmo assim muitos crentes relutam em aceitá-la.

Há que se perguntar se essas próprias crenças religiosas não são embasadas em evidências, e a resposta para isso é não. Não há nenhum motivo racional para se crer num deus pessoal, nenhuma evidência ou indício de sua existência; a religião, com seus mitos, sempre falhou em suas explicações, as quais não se baseiam em fatos, isto é, na realidade propriamente dita, mas em sonhos que enaltecem o ser humano com antropocentrismos ocos. As investigações científicas, que se fundamentam em evidências e rigorosas experimentações, quanto mais avançam mais demonstram a irracionalidade das crenças religiosas.

Como os religiosos não possuem argumentos sólidos que sustentem suas crenças, apelam para deprimentes falácias que só demonstram o quanto necessitam crer nessas infantilidades. Uma delas é a de que estão justificados para crer em deus porque nunca se provou a inexistência dele. Obviamente que, por questões práticas, quem afirma a existência de alguma coisa é que deve prová-la, do contrário qualquer um poderia inventar por meio da imaginação coisas totalmente insanas e admitir sua existência sem nenhum motivo plausível. Mas crentes querem que os cientistas percorram todo o universo para verificar que deus não está em nenhuma parte, e não basta fazer isso com telescópios, exigem fazê-lo pessoalmente. Presumindo que os cientistas consigam tal proeza e comprovem a ausência de deus, os crentes ainda diriam: “Ora, mas como saber se não há universos exteriores ao nosso nos quais possa estar deus? Vocês devem comprovar isso também”. Mesmo que conseguissem investigar todo o espaço que existe e não achar nada de deus, ainda poderia se ouvir dos crentes a alegação de que deus pode estar oculto por poderes que nossos sentidos não conseguem detectar. Desse modo, não se pode provar a inexistência de deus, mas isso em nada justifica racionalmente a sua crença. Sem contar que com todo conhecimento que obtemos por meio da ciência, é provável e até faz sentido dizer que deus não existe, ao menos não um deus pessoal como gostariam os religiosos.

Os criacionistas, não tendo nada para alegar a favor de sua “teoria”, usando somente uma autoridade que sequer é demonstrada, dirigem todos os esforços atacando a ciência na ânsia de refutá-la, como se depois disso automaticamente estivessem validando sua própria tese. Entretanto, as falhas que os religiosos alegam encontrar na ciência ou são mal entendidos ou distorções deslavadas. Quando desistem de forjar falhas, apelam para a ignorância da ciência, apontando as lacunas, nas quais depositam deus como explicação. Assim como todo o resto, isso não passa de covardia; chamar nossa ignorância de deus nunca nos ajudou em nada, pelo contrário, até hoje só nos conduziu ao erro e prolongou nosso desconhecimento. Ademais, se a ciência estiver errada em suas explicações sobre o desenvolvimento do universo e da vida o que é possível, mas demasiado improvável, já que há inúmeras evidências ao seu favor , isso só mostrará que estamos errados e teremos que recomeçar nossas investigações do zero, ou de onde erramos; nada disso justificará a crença no criacionismo, como este postula, ainda mais porque segundo o seu raciocínio, a ciência deve mostrar um conhecimento absoluto para estar certa, enquanto que para o criacionismo ser validado basta que a mesma esteja errada. O mínimo que podemos chamar isso é de desonestidade.

Desse modo, crentes não estão interessados, como nós, em entender a realidade, mas em justificar sua crença em deus, não importando as explicações pífias que tenham de preservar para tanto. Mas não levemos a sério esses religiosos, discutir com eles é como tentar convencer crianças de que Papai Noel não existe enquanto temem perder seus presentes ao descobrir isso. Deixando a metáfora de lado, religiosos não entendem que o conforto emocional que obtêm não advém de deus, mas da crença deste, e por isso o avanço científico os amedronta com a ideia de que não sobre nenhum lugar no qual deus se esconda. Afinal, como bem sabiamente afirmou Carl Sagan, não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar [1].

Referências

  1. “You can’t convince a believer of anything; for their belief is not based on evidence, it’s based on a deep seated need to believe”. SAGAN, Carl. Contact. New York: Pocket Books, 1985.

*   *   *

(artigo recebido em 08 de janeiro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

Be Sociable, Share!

7 Comments

  1. Realmente, é inútil tentar convencer Religiosos de qualquer coisa que não seja o Teatro-da-Fé.
    Pessoalmente, já travei batalhas verbais com crentes, mas isso foi quando eu era mais imaturo e inexperiente. Assim, atualmente, ignoro-os, pois não há outra coisa a se fazer.
    Finalmente, tenho a impressão de que a maioria dos Religiosos não acreditam de fato em deuses. Desta forma, quanto mais fanático é o crente, mais perigoso e manipulador ele é.

    • Hórus
    • Posted 27 de janeiro de 2010 at 15:28
    • Permalink

    Esqueceram de por minha denominação nerd: Hórus; ninguém me conhece pelo meu nome.

    • Jairo Moura
    • Posted 27 de janeiro de 2010 at 19:02
    • Permalink

    Eu saí perguntando quem seria esse tal de Vinícius. Se dissessem que era o deus-sol concorrente seria muito mais fácil!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 27 de janeiro de 2010 at 22:44
    • Permalink

    Marcelo Cabral, após a lavagem cerebral ser devidamente instalada na mente do crente comum, as chances de voltar à realidade são mínimas, quase zero. Já os “empresários da fé” provavelmente são mais ateus do que três Richard Dawkins juntos.

    • Guilherme Policena
    • Posted 29 de janeiro de 2010 at 23:27
    • Permalink

    Exigir que a ciência vasculhe todo o Universo afim de provar a inexistência de deus é algo tão tolo quanto exigir que pesquisadores vasculhem os quatro cantos do polo norte para provar a inexistência do papai noel.

    • Roberto Zoza
    • Posted 31 de janeiro de 2010 at 12:58
    • Permalink

    Não tem como induzir um crente a usar um raciocínio lógico.
    Ele foge para o abstrato ao primeiro sinal de racionalidade.
    Pois então aconselho aos indecisos a ler o novo livro de Richard Dawkins ” O maior espetáculo da terra” que com imparcialidade e lucidez nos leva a meditar sobre a “criação”.
    E tambem o livro do Cancian “Ateísmo e Liberdade” que também nos propõe uma meditação profunda sobre a liberdade adquirida quando se chega ao ateísmo.

    • Monsueto de Castro
    • Posted 14 de janeiro de 2011 at 18:58
    • Permalink

    ENGANAR AS PESSOAS EM NOME DE JESUS:É com tristeza que vejo muitos pregadores desonestos, enganando as pessoas em nome de JESUS. É muita gente safada, visando apenas dinheiro, mais dinheiro, falando o nome de JESUS. Você para alcançar ou ser atendido por DEUS, não precisa pagar ou dar dinheiro pra ninguem, é só fazer o pedido com fé. Agradeça quando for atendido. Podendo, ajude sim.É importante participar e ajudar as pessoas. Existem muitas instituíções religiosas sérias, procure obter informações,antes de se tornar membro de alguma delas.