É comum a afirmação de que o ateísmo conduz ao niilismo, e de que este tira o significado da existência. Na verdade não tira, pois a existência não tem significado algum. Nós também não. O significado é criado por nós. Mas isso não é tudo; há mais um detalhe, e é ele que realmente nos incomoda: com o niilismo, em vez de colocarmos o significado como a base do mundo, colocamos o mundo como a base do significado. Claro que, ao fazê-lo, ruem todos os significados que não possuam relação com a realidade, pois se tornam subordinados a ela, e isso é bastante desejável, pois mantém nossos pensamentos com os pés no chão. Noutras palavras, o niilismo nos proíbe de recorrer à metafísica em busca de consolos emocionais.

O ateísmo incomoda os religiosos e os agnósticos pelo mesmo motivo que o niilismo incomoda os ateus. Trata-se de uma espécie de medo de perdermos certos confortos emocionais que dependem de mentiras. O religioso pensa que, sem deus, a vida seria intolerável; o ateu pensa que, sem sentido, a vida seria uma miséria. Mas não seria, pois esse tipo de coisa só existe em nossas cabeças; são mentiras confortantes, mais nada. Temos medo de perder todas as coisas às quais estamos emocionalmente apoiados, sejam elas verdadeiras ou não. Então, como se nota, a equação é bem mais simples do que normalmente se supõe.

Nessa situação, o que nos incomoda não é tanto o fato de deus não existir, mas o fato de que, sem uma figura subjetiva autônoma, não há como legitimar qualquer postura de valorização subjetiva com base em elementos externos. Não temos em quê nos apoiar, pois estamos sozinhos no mundo, e paradoxalmente apoiar-se em si mesmo não nos conforta: queremos nos apoiar em algo que esteja fora da condição humana, mesmo sabendo que isso é impossível. Aqui fica claro que são emocionais os motivos pelos quais, nessas circunstâncias, normalmente recorremos à metafísica. Ninguém quer acreditar num sentido que é meramente uma crença; mas todos os sentidos são meras crenças.

Então o mundo não tem significado, e essa é uma verdade emocionalmente corrosiva; por isso, ateus ou não, temos a tendência de fugir dela. Certas verdades doem mais do que estamos dispostos a suportar: a coisa toda reduz-se basicamente a isso. Pois bem, e para que serve entender isso tudo? Para várias coisas, mas principalmente para entendermos nossa condição; como a ciência, o esclarecimento proveniente do niilismo serve para quaisquer fins. Tentemos entendê-lo com calma. De início talvez não percebamos, mas a “ausência de sentido” é uma ideia que pode ser importante, por exemplo, à nossa satisfação pessoal, pois, sendo máquinas fisiológicas, nossa satisfação precisa ocorrer fisiologicamente em nossos corpos, não apenas nas representações simbólicas desses corpos. Para tanto, precisamos ser capazes de orquestrar uma relação entre a realidade e a nossa satisfação — e compreender essa relação é exatamente o processo de dar sentido às coisas. Se um perder-se do outro, passaremos a viver em função de fantasmas, e isso é muito mais comum do que se imagina: basta pensarmos na busca pela felicidade.

Pois bem, como costumamos dar mais importância à nossa ideia da realidade que à própria realidade, nossas necessidades geralmente se encontram bastante distantes da ideia que fazemos dessas necessidades; ou seja, nós nos ignoramos em favor dessas abstrações ocas, guiamo-nos por critérios que sequer tocam nossa natureza — que muitas vezes sequer nos preocupamos em entender —, vivendo completamente alienados de nossos corpos, vistos como meros detalhes. Tornamo-nos, assim, uma ficção de nós mesmos. Ora, uma ideia sem realidade por detrás é simplesmente nada — como podemos permitir que o sentido do nada seja determinante em nossas vidas reais? Isso é insanidade.

A matéria é primária, o sentido é secundário; sempre. Nós somos nossos corpos, não a ideia que fazemos deles; nossas experiências pessoais são fatos fisiológicos, não a ideia que fazemos desses fatos. Sentidos não existem, mas podem ser criados; contudo, criar sentidos abstratos, sem qualquer correspondência com nossas experiências pessoais concretas, e então viver em função disso: trata-se apenas de um modo criativo de nos perdermos da realidade. Por isso deveríamos cuidar para que nossas ideias sobre nós mesmos sempre sejam redutíveis — ou ao menos relacionáveis — à fisiologia, ou serão apenas desvarios cerebrais. Isso não é exagero, apenas um bom senso há muito tempo negligenciado em favor de progressos vazios.

Talvez essa ideia, de início, pareça um pouco extrema, mas só parece extrema às nossas cabeças. Se levarmos à prática, veremos que o sentido não faz falta alguma, pois ele sempre foi uma quimera. Quando, por fim, conseguirmos fazer com que nossas ideias e nossa fisiologia caminhem lado a lado, e em paz, talvez percebamos que dar significado às coisas é simplesmente supérfluo. Comer não precisa ter sentido, nem dormir, beber, dançar; tampouco a dor, o prazer, ou mesmo o viver — nossas razões a esse respeito são irrelevantes. Aceitemos que isso tudo independe de nossas explicações. Sentidos não significam nada; são apenas um modo de entreter uma civilização que não soube muito bem o que fazer depois de assegurar as bananas.

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10 Comments

    • Rulphus
    • Posted 28 de janeiro de 2010 at 0:21
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    Desconsiderando os valores metafísicos, vc direciona a sua força vital para a destruição da moral. E após essa aniquilação, tudo cai no vazio, a vida é desprovida de qualquer sentido, reina o absurdo e o niilista não pode ver outra alternativa senão esperar pela morte . Porém, esse final não representa o escopo do niilismo, eis que, assim que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a ver-se como criador de valores e no momento em que entende que não há nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno retorno: sem isto, o niilismo será sempre um ciclo incompleto.

  1. cilo incompleto; o que isto tem a ver com a realidade?

    O texto deixa claro que a vida nos guia independentemente da moral. Somos animais e não metafisica moralista!

  2. só se precisa seguir a moral, quando se vive em função dela, metafísica. Ou seja, queres aparecer para a sociedade, preferes encarnar um personagem em vez de simplesmente viver.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Lewis
    • Posted 29 de janeiro de 2010 at 12:29
    • Permalink

    “Não quero viver num mundo onde eu sou mortal. Não pode ser só isso”.

    Acho que todas essas invenções desconexas da realidade, as religiões e afins, partem desse desejo impossível, portanto ele mesmo desconexo da realidade, portanto tolo.

    Bem irônica a frase “uma ideia sem realidade por detrás é simplesmente nada”. Então, na verdade, quem cultua o nada são os que preferem viver nessas fantasias.

    • Claudio
    • Posted 29 de janeiro de 2010 at 13:41
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    Discordo do colega acima. Com a destruição da moral, não ocorre aniquilação, ocorre sim um preenchimento completo. A moral é que cria esse vazio, pois inviabiliza o pleno crescimento. A destruição da moral abre infinitas possibilidades, e potencializa a capacidade intelectual, simplesmente porque não existirá barreiras. A moral é um freio. É justamente por isso que as religiões são baseadas em preceitos morais. Acredito até que o objetivo maior das crenças no sobre natural, seja, através de instrumentos como a moral, segurar o homem e impedir seu desenvolvimento pleno.

    • Rulphus
    • Posted 29 de janeiro de 2010 at 21:30
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    Claudio, também conhecido como Claudius. Respeito seu posicionamento, que aliás segue o de Maurice Blanchot (Os limites da experiência: Niilismo), que afirma que o “niilismo é um extremo que não pode ser transcendido, porém é o único caminho de transcendência ; é o principio de um novo começo.”
    Mas eu lhe pergunto, se é a moral que cria esse vazio, ela também criaria o niilismo? E se a destruição da moral “abrirá infinitas possibilidades”, será o início de um novo começo? Onde ficará o niilismo, nesse novo começo…nessas infinitas possibilidades. Eu te respondo: em lugar algum…
    O que o niilismo tem a oferecer além de um mero fascínio pela destruição? Nada…esse é o ponto.

    Esse “novo começo” ou “essas infinitas possibilidades” entrarão, inexoravelmente, no ciclo repetitivo, no labirinto enfadonho que o niilismo propõe.

    É fato que o niilismo, literalmente, nasceu morto, Nietzche errou ao supervalorizar o niilismo.

    • Guilherme Policena
    • Posted 29 de janeiro de 2010 at 23:13
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    Querer que o Universo tenha um sentido é querer humanizá-lo,pois, desse modo,estamos lhe conferindo características inerentes,até onde se sabe,apenas aos seres humanos:sentidos,razões e intenções.Portanto,não passa de uma tentativa de alimentar ainda mais nossa vaiadade.Como foi elucidado no texto,os sentidos existem em função do mundo,não o contrário,e essa ideia é algo com que já devíamos estar acostumados.

    Até mesmo alguns físicos e astrônomos,aterrorizados com as próprias descobertas e da pequenez humana diante do cosmos,acabam rendendo-se ao deísmo como uma forma de consolo para amenizar a náusea provocada pelas incessantes lacunas de ignorância ante o vazio da existência.

    Muitos ,angustiados pela própria insignificância e insatisfeitos pelo fato do mundo não dar todas as respostas pelas quais anseiam,paradoxalmente fecham os olhos para a realidade afim de extrair as “respostas definitivas” de um espelho metafísico(se é que me entendem).O fato é que,do mesmo modo que humanos acreditam numa grande força inteligente,ratos com a mesma arrogância acreditariam numa grande força roedora para justificar a Existência.

    Em suma,aqueles cujo emocional está desprotegido contra a grandeza do Universo e o absurdo da Existência,acabam encontrando em seus umbigos o único refúgio.

    • Roberto Zoza
    • Posted 30 de janeiro de 2010 at 21:31
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    Que a vida não tem sentido; que o universo não dá a mínima para nós é fato.
    Mas a vida pode ter valor para aqueles que como disse o nosso amigo Guilherme: não está desprotegido com respeito à grandeza do Universo e o absurdo da Existência.

    • Vikernes
    • Posted 30 de julho de 2010 at 13:00
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    Eu nunca entendi esse medo da falta de sentido, qual a diferença entre você dizer que vive para cumprir os designios de um lunático celestial ou que vive à deriva?? Em termos práticos nenhuma. Você continua com a mesma cara de primata e com as mesmas necessidades mundanas.

    • Alex
    • Posted 18 de setembro de 2010 at 10:25
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    Olha, quando o autor do texto escreveu a palavra Deus com com inicial minúscula, toda a sua argumentação cai por terra.

    “Na língua portuguesa, os nomes próprios devem ser escritos com letra inicial maiúscula”

    Mesmo não acreditando na existência desse ser, o autor demonstra sea refutação a um ser que julga não existir, como se fosse possível refutar o que não existe.