“Nada” é uma palavra criada por nós, seres humanos. Obviamente fomos nós quem criamos todas as outras que existem no vocabulário para designar e dar significado contextual às coisas, mas a palavra “nada” me chama especial atenção. A abrangência dela é enorme e normalmente a usamos tão corriqueiramente que nem percebemos o que de fato ela pode esconder, ou não esconder, e é aí que reside minha perplexidade em relação a ela. Quando alguém nos pergunta o que estamos sentindo e respondemos “não estou sentindo nada”, fica claro que este nada é bastante superficial e se refere a um estado qualquer em que a pessoa se encontra (dor, tristeza, angústia, paixão, depressão, solidão, alegria etc.). Mas, se analisarmos a mesma resposta “não estou sentindo nada” de forma absoluta, perceberemos quão esta palavra só possui valor factual subjetivo, pois não há meios de uma pessoa (viva e consciente) não estar sentindo absolutamente nada. E nesses termos chego ao ponto que desejo abordar.

Crédulos e incrédulos muitas vezes se “golpeiam” verbalmente na tentativa de cada um dar uma explicação melhor e mais plausível para a origem do universo conhecido ou até mesmo do infinito cosmos (apesar do nosso universo possuir o cognome de “infinito”, ele pode sim ter suas longínquas fronteiras, já o cosmos, não), porém, é muito comum ambos ignorarem que o nada não existe e nunca existiu, e se perderem em pensamentos que jamais os levarão a lugar algum. Esta dificuldade de assimilação é perfeitamente aceitável por termos uma visão padrão de começo, meio e fim e por existirmos. Temos uma visão subjetiva do nada e ao pensarmos no cosmos muitas vezes não conseguimos apartar essa subjetividade de nossas mentes e acabamos pensando equivocadamente que um dia “ele” foi um nada. As estórias religiosas para explicar a origem das “coisas” são de longe as mais irracionais e muitas vezes cômicas, mas isso não significa que não exista uma singela parte de céticos e ateus que insistem em pensar no cosmos como tendo uma “origem” a partir de um nada. Com certeza é nesses moldes que a confusão e as questões naturalmente instigantes se elevam ainda mais. Nem poderia ser diferente. O erro se inicia a partir do momento em que o pensador (crédulo ou incrédulo) tenta desenvolver em sua mente a ideia do nada absoluto. Primeiramente teríamos que compreender o que é o nada, mas visto que ele nunca existiu, caso contrário nada existiria (nada = nada), não temos então que nos esforçar para compreendê-lo. É um pensamento sem lógica e não nos ajuda a entender as coisas. Ao contrário, pois somente nos faz alimentar a absurda ideia da “causa primeira”. Absurda pois com deuses ou sem deuses o nada jamais poderia gerar algo. Seja qual algo for.

Curiosamente o equivocado nada absoluto assusta as pessoas por elas terem em mente justamente o seu nada subjetivo: o começo, meio e fim da existência orgânica que somos, conscientes ainda por cima. A humanidade, debruçada em centenas de crenças variadas, inventou a “vida eterna”, os “espíritos”, as “almas”, para poder de uma certa maneira conviver bem com a noção da própria morte, esta última representante máxima da ideia distorcida do nada e de toda a aflição humana que isto envolve. Mas esta mesma aflição, considerando-a somente em relação ao nada, curiosamente não tem impacto algum quando pensamos em “quem” não existe ou em “quem” ainda não nasceu (ou nem foi concebido). Um casal que planeja ter um filho em cinco anos, sequer para pra pensar sobre o “nada” em que se “encontra” hoje seu futuro primogênito(a). A não existência pós vida incomoda muito, enquanto a não existência pré vida nada significa aos humanos. Mas por que, se ambas as situações para o efeito da aflitiva não existência são rigorosamente a mesma coisa? No meu entender a resposta que parece ser a mais coerente, além da nossa imensa bagagem emocional, é essa equivocada ideia a respeito do nada. Tanto quando se trata da “origem” do cosmos quanto qualquer outra questão que envolva a tentativa de se “idealizar” o nada absoluto, como a morte tanto nos aparenta ser.

Alguns filósofos e grandes pensadores já “flertaram” inutilmente com o nada, tentando preencher de maneira até mesmo metafísica o que simplesmente não pode ser preenchido de modo algum, e assim muitos foram à loucura. E pode ser aí, em nossa equivocada ideia sobre o nada, que reside o início da solução de muitos mistérios ainda não descobertos pela ciência. Pode ser na inexistência do nada, na ausência da origem cósmica tão discutida, que se encontre respostas mais esclarecedoras. Talvez esteja na hora de esquecermos a ideia do nada absoluto e voltarmos nossa atenção para algo novo.

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17 Comments

    • Rulphus
    • Posted 30 de janeiro de 2010 at 0:59
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    Ricardo, mas se muitos flertaram “inutilmente” com o nada, e por vezes enlouqueceram, oque esperam os que se aventurarem com esse algo novo? E se as possibilidades de tentativas em se preencher o “nada” ainda não foram necessárias ou devidamente direcionadas?

    Discordo quando vc afirma que a existência pré vida não significa “nada” para o homem, justamente “nada”. Ora, o questionamento mais antigo do homo sapiens é justamente : De onde vim e pra onde vou? A preocupação com a origem é proporcional com a do destino.

    Portanto, acredito humildemente, que nós temos o dever, não somente de “flertar” mas, de encarar objetivamente o nada. Afirmo isso com base nos avanços matemáticos e físicos acerca do universo embora não mensurável, em associação com o “big bang”, e sua origem finalística. E se considerarmos os avanços com a anti-matéria, perceberemos que a obejetividade acerca do nada está cada vez mais próxima. Lembre-se dos buracos negros, da inversão de elétrons e prótons, dos multi-universos e dos mal falados caminhos de minhoca.

    Entretanto, vc, equivocadamente pode estar certo. Simplesmente porque esse algo novo pode levar, justamente, para o nada que te deixa perplexo.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Ricardo Ramos
    • Posted 30 de janeiro de 2010 at 10:28
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    A diferença que enfatizei entre o pré e o pós reside na preocupação aflitiva do Homem, e não na simples curiosidade dele ao tratar o famoso ” oh! de onde vim e para onde vou”. São coisas distintas.

    Quanto ao “nada”, independente de teorias e pensamentos bucólicos científicos não vejo a menor possibilidade do “nada” absoluto ter existido. Não se trata de “mente aberta” ou “mente fechada”, mas pela simplicidade da própria resposta comprovada com a existência de qualquer coisa. ou melhor, pela simples existência.

    Se adentrarmos ou ventilarmos qualquer hipótese da existência do “nada” absoluto anterior a existência, teremos que apelar para a metafísica, mesmo que embustida ou travestida na pele de Homens da ciência. Uma perda de tempo deles e nossa.

    Agora, se a ideia que muitos brilhantes cientistas fazem do “nada” for diferente da minha (pois muitos querem imaginar o “nada” como um algo vazio, e é aí que reside o erro, inclusive de muitos cientistas), então realmente não há o que discutir. Mas uma coisa é certa: o “nada” absoluto nunca existiu simplesmente porque não há o nada absolto. Esse “nada” é apenas uma criação da mente humana, como tantas outras coisas.

    • Guilherme Policena
    • Posted 30 de janeiro de 2010 at 13:10
    • Permalink

    Penso(posso estar equivocado) que o Universo não teve um começo,bem como não terá um fim.Tal perspectiva parece absurda para nós(a própria mente humana não foi arquitetada para conceber a existência dessa forma),mas se analisarmos a questão com mais perspicácia,veremos que o mesmo motivo que leva alguns indivíduos a acreditarem que há uma força inteligente como causa primeira,leva outros a acreditarem que o Universo veio do nada:antropocentrismo.

    Como estamos presos a condição de seres vivos,passamos a julgar praticamente tudo pela ótica da vida;tornamos-nos o referencial absoluto.A galáxia é gigante?sim,para nós.Os átomos são minúsculos?sim,para nós;e assim por diante.Para obtermos uma noção razoavelmente boa sobre o funcionamento do Universo,temos que tirar o máximo possível de nossa subjetividade e parcialidade,para que não poluam nossa vista.De onde tiramos a ideia que o Universo foi causado por uma força inteligente,criadora e manipuladora?Não do Universo que vemos ,obviamente,mas de um espelho;quem tem inteligência,cria e manipula somos nós.De onde tiramos a ideia de que o Universo veio do nada?Igualmente de um espelho,pois quem veio do nada(no caso ,nossa consciência) fomos nós,mas isso não muda o fato de que a matéria que forma nossos corpos já existia desde sempre antes de nosso nascimento;ela apenas sofreu modificações e organizou-se de forma a possibilitar a nossa consciência(como uma tv,cujas imagens aparecem apenas se os componentes estiverem perfeitamente organizados).Quando dizemos que o Universo veio do nada estamos pressupondo que ele “nasceu”,mas quem nasce somos nós,não o Universo.

    • rosangela
    • Posted 30 de janeiro de 2010 at 14:08
    • Permalink

    ‘Patterns in the Void’ de Sten Odenwald

    • Claudio
    • Posted 30 de janeiro de 2010 at 14:57
    • Permalink

    Interessante o embate entre o Ricardo e o Rulphus, vou entrar no meio! Literalmente!

    Trata-se de uma colisão entre uma atitude positiva do rulphus e uma posição negativa do Ricardo, eis que enquanto um alega que devemos insistir na “busca” pelo nada o outro diz que devemos desconsiderá-lo por completo (baseado no ótimo artigo).

    Ouso discordar de ambos, o certo seria adotar uma atitude equilibrada, eis que a busca do nada pode prosperar com a pesquisa de algo novo. Não acho coerente que a ciência desista de algo em razão dos fracassos anteriores, isso seria incoerente. Assim como seria contraditório não engendrar por algo novo, simplesmente porque a missão dos cientistas é conhecer e provar o desconhecido.

    Ambas as visões são coerentes apesar de opostas, e por isso podem caminhar juntas, afinal nossa inteligência e força de vontade permitem isso.

    Os cientistas, filósofos e estudiosos em geral devem ser “brahmeiros”…rsrsrs…não desistir nunca…ser guerreiros! KKK

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 30 de janeiro de 2010 at 19:12
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    Entendo o que quer dizer, Claudio, e não discordo amplamente na questão do equilíbrio. Em vários outros assuntos polêmicos eu já “mesclei” opiniões de terceiros com a minha e cheguei a um denominador adequado bem mais interessante do que o anterior proferido por mim mesmo apenas. Não há vergonha alguma nisso, ao contrário, apenas um acúmulo maior de conhecimentos e o reconhecimento de novos “insights” que não se tinha antes por conta própria.

    Mas nesse assunto especificamente, acho que está havendo uma grande defasagem no que cada um entende por “nada”. Se as pessoas entendessem o “nada” absoluto como eu entendo certamente não haveria dúvidas de que “ele” nunca existiu.

    • Rulphus
    • Posted 31 de janeiro de 2010 at 23:18
    • Permalink

    Ricardo, mas seria muita pretensão afirmar que o nada absoluto nunca existiu. Concordo com vc, eu acho difícil imaginar a ausência ABSOLUTA de existência. Se todas as coisas desaparecessem e somente o espaço restasse, ainda não aconteceria o nada absoluto, já que o espaço constitui existência. Lembremos também que não foi possível estabelecer o vácuo perfeito, apesar de todos os avanços tecnológicos. Porém, eu ainda prefiro me resguardar e não descartar essa possibilidade, até porque não podemos, ainda, provar essa certeza.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Ricardo Ramos
    • Posted 1 de fevereiro de 2010 at 0:00
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    Afirmar convictamente ou impor como uma certeza, de fato seria pretensão. Mais do que pretensão.

    Quando digo no artigo “o nada absoluto nunca existiu” estou enfatizando apenas o meu pensamento, embora no fundo eu não veja a menor possibilidade “dele” ter existido.

    De qualquer maneira eu continuo achando que os conceitos sobre o “nada absoluto” estão bastante defasados entre os debatedores, dificultando talvez a compreensão sobre a minha insistência a respeito da impossibilidade do “nada absoluto” ter existido.

    Veja bem, eu não estou dizendo que as “coisas” sempre existiram, de maneira alguma, apenas que o “nada” absoluto nunca existiu.

    Me responda o seguinte: o pseudo vácuo absoluto que você se refere acima, seria para você o “nada” absoluto?

    • Rulphus
    • Posted 1 de fevereiro de 2010 at 12:43
    • Permalink

    Não, eu não estabeleci relação alguma entre o vácuo e o nada. Apenas exemplifiquei que se nós não conseguimos nem estabelecer “o vácuo perfeito”, dentro de nosso campo de atuação e interferência, com inúmeras formas de instrumentalização, como poderíamos afirmar com certeza a existência do “nada absoluto”. O “vácuo perfeito” é parte integrante do espaço, enquanto o “nada absoluto” representa a inexistência de tudo, inclusive do espaço.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 1 de fevereiro de 2010 at 13:26
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    “O “vácuo perfeito” é parte integrante do espaço, enquanto o “nada absoluto” representa a inexistência de tudo, inclusive do espaço”.

    EXATO!

    • Rulphus
    • Posted 2 de fevereiro de 2010 at 11:47
    • Permalink

    Exatamente! Eu apenas não concordo com vc na sua “insistência a respeito da impossibilidade do “nada absoluto” ter existido. ”

    Ora! Como não se pode, ainda, provar a sua existência, como vc tem a pretenção de afirmar categóricamente que ele nunca existiu?

    Partindo de sua premissa, sob a ótica de que ele nunca existiu, supõe-se também que ele nunca existirá!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 2 de fevereiro de 2010 at 13:12
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    “Partindo de sua premissa, sob a ótica de que ele nunca existiu, supõe-se também que ele nunca existirá!”

    EXATO novamente Rulphus! Haja pretensão da minha parte, mas está corretíssimo ahahahahahaha…

    • Rulphus
    • Posted 2 de fevereiro de 2010 at 15:55
    • Permalink

    Ok, Ok. Mas vamos nos ater à fatos científicos. O modelo do Big Bang continua a possuir o apoio da maioria dos cosmólogos e astrofísicos, que acreditam poder adequá-lo de modo a incorporar todas as novas “teorias”.Inclusive, observações muito recentes do telescópio espacial Hubble levaram a uma determinação que tem provocado grande agitação da comunidade científica por sugerir uma idade para o Universo, claramente inferior à idade das estrelas mais velhas da Via Láctea. É claro que não “seria” viável admitir que o Universo seja mais novo que as suas estrelas. Contudo, é ainda assim possível ajustar o modelo de Big Bang e obter uma idade do Universo compatível com a idade das estrelas mais antigas, admitindo uma constante cosmológica positiva. Ou seja, como o universo, comprovadamente está em expansão, ele inexoravelmente caminha para o “nada”. Logo, o “nada” existiu, existe e continuará existindo. Perceba que pela constatação acima, o “nada” pode existir até entre as estrelas, talvez, entre os multiuniversos. Agora, o máximo que sua pretensão pode alcançar seria a impossibilidade de nós, como parte integrante do espaço, vislumbrar-mos o “nada absoluto”, eis que a constante expansão do universo, nos impede de tal contato, pelo menos, por enquanto.

    É muito mais aceitável “flertar” e encarar objetivamente o “nada”, do que simplesmente ignorá-lo. Isso é muito conformismo e plenamente anti científico.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/07. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 2 de fevereiro de 2010 at 19:24
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    Anti científico seria botar metafísica na história. Nem de longe sugiro isso.

    Você escreveu: “Perceba que pela constatação acima, o “nada” pode existir até entre as estrelas” (você se refere ao “espaço” entre elas?)

    Ok, me responda uma coisa. Se pegarmos uma caixa do tamanho de um quarto grande (5X5X3), ermeticamente fechada, e antes de ser definitivamente lacrada, dela for extraída todas as composições físicas internas, absolutamente tudo. Para você e para esses cientistas que voce citou o interior dela seria a representação do “nada”? Caso sua resposta seja um “sim”, eu terei que fazer outra pergunta posteriormente. Caso seja um “não”, também.

    Não sou físico, portanto não tenho a competência desses cientistas, e mesmo você também não sendo um físico profissional, gostaria de ler sua resposta e o que pensa a respeito.

    Pode ser diretamente lá no fórum “O universo surgido do nada”

    • Guilherme Policena
    • Posted 2 de fevereiro de 2010 at 22:30
    • Permalink

    O nada absoluto nunca existiu,simplesmente porque é nada;não tem como existir.Pode parecer confuso,mas é porque temos a tendência de ficar desconfiados quando nos deparamos com o óbvio.

    • Rulphus
    • Posted 3 de fevereiro de 2010 at 22:08
    • Permalink

    Ricardo, apesar de respeitar sua opinião e admirar seu envolvente e perspicaz artigo, ouso discordar. E acolhendo sua orientação, prolongarei meus comentários diretamente lá no fórum “O universo surgido do nada”.

    No entanto não resisto à minha natureza, no que vou parodiar o Guilherme:

    “O Deus absoluto sempre existiu, simplesmente porque é Onipotente e Onipresente. Pode parecer confuso, mas é porque temos a tendência de desconfiar quando nos deparamos com o óbvio”.

    Convenhamos, Guilherme, é muito conformismo…

  1. “O Deus absoluto sempre existiu, simplesmente porque é Onipotente e Onipresente.”

    Porque chama de Deus?