Monthly Archives: janeiro 2010

Causa arrepios toda vez que ouço frases como: “Criacionismo Científico”, “O espiritismo não é religião, é ciência” ou até mesmo “Isto é comprovado cientificamente”. A ciência é largamente utilizada por todo o tipo de charlatão para vender seus produtos. Em um país como o Brasil, entre os piores no ensino de ciências, charlatões desse tipo encontram alvos fáceis em nossa população.

Tudo o que é científico está subordinado aos fatos. Por este motivo, uma das maneiras de avaliar o grau científico de uma afirmação é questionar quais fatos a sustentam. Quais fatos sustentam a astrologia, por exemplo? Haverá, possivelmente, casos em que a astrologia parece prever a personalidade de uma pessoa em particular; porém, o que observamos é que as previsões acertadas se encaixam para a quase totalidade das pessoas; quanto mais específica é uma previsão, maior a possibilidade de erro. Neste vídeo, James Randi faz uma excelente demonstração de como a astrologia é capaz de fazer acertos.

Experimentos científicos precisam sempre utilizar controles para avaliar os fatos. Um exemplo desta necessidade são os testes com homeopatia. Analisando a homeopatia isoladamente, esta é capaz de promover curas; porém, quando comparada com um placebo, o número de pacientes curados não se diferencia estatisticamente. Assim como fizemos com a astrologia, quando avaliamos os fatos, precisamos observar a influência de outros fatores como a idoneidade dos avaliadores, utilização de controles, relevância estatística etc.

Outras afirmações são, pelo menos aparentemente, sustentadas pelos fatos. O exemplo disso é o criacionismo, no qual seus proponentes sustentam que o fato de o corpo humano ser perfeito prova que deus existe e nos criou. Conforme já expus neste artigo, esta afirmação parte de uma série de pressupostos não comprovados (o fato de o nosso corpo ser perfeito, só para começar), e quanto mais dependemos destes pressupostos para sustentar uma determinada afirmação, menores são as chances de esta ser a explicação correta, conforme a Navalha de Occam.

Observar os fatos que sustentam dada afirmação e aplicar a Navalha de Occam já torna possível rechaçar quase todas as afirmações tomadas como científicas por charlatões. Existe, porém, uma terceira ferramenta que pode dar o golpe de misericórdia em qualquer uma delas, trata-se do conceito de falseabilidade. Este conceito, porém, é tão abrangente e interessante que merece o próximo artigo inteiro só para ele.

Você trocaria a realidade pela fantasia? Trocaria o amor, a amizade, o carinho de uma pessoa real pelo “afago” psicológico de um ser que não existe de fato? Ainda que você acredite em “algo”, provavelmente não. Mas essas perguntas, que a princípio soam sem sentido, constituem um sério problema que está começando a se tornar comum nas sociedades. A fé, a crença, não estão mais presentes somente naqueles inocentes encontros dominicais em que o fiel cumpria suas obrigações para com Deus e pecava à vontade na semana que se seguia. Hoje temos um reflexo, um efeito colateral social maior, interferindo diretamente nas vidas das pessoas. Sem querer ignorar toda a história religiosa do mundo e as mazelas proporcionadas pelas religiões nos tantos séculos passados, incluindo-se aí o uso da força, o fato é que o fanatismo psicológico religioso contemporâneo começa a mostrar a que veio e como veio, e o mundo racional moderno falhou e não conseguiu colocar as religiões e as estúpidas crenças medievais em seu devido lugar. A força, a brutalidade, o inquisicionismo foram postos de lado, substituídos sabiamente por uma “arma” muito mais eficaz: a lavagem cerebral. A manutenção das crenças até os tempos atuais, mesmo considerando a maneira como a ciência já demonstrou o quanto elas são ideias infantis e sem lógica, serve de forma falaciosa aos argumentos dos crentes (“se existe até hoje é porque é verdade”). Muitas vezes a escolha por uma doutrina religiosa intelectualmente castradora retira da pessoa alguns pontos importantes para o correto discernimento no procedimento de escolhas coerentes e para a tomada de decisões. E tomar decisões corretas, ou pelo menos próximas disso, nos dias de hoje é extremamente importante. Em alguns casos chega a ser vital.

Entre vários exemplos que podemos citar, um é o crescente número de cônjuges com problemas dessa natureza. Não se trata da “fé” pessoal exclusivamente, carregada e guardada intimamente no “coração” do crédulo, mas do modus operandi na aplicação trivial da postura prática e da rotina social (educação dos filhos, organização financeira, fantasias exarcebadas, fanatismo etc). O número de pessoas que se convertem a essas novas formas de religião (as chamadas neos) dirigidas e professadas por grandes empresários da fé, cresce assustadoramente. As pessoas são expostas a uma incrível e eficiente lavagem cerebral e passam a agir, mesmo sem se darem conta, de modo diferente na sua rotina conjugal, pessoal, financeira, racional, enfim, comportamental. Obviamente que seria uma afronta de minha parte censurar a questão íntima crédula das pessoas, mas o ponto que evidencio envolve a extrapolação disso. Resultados catastróficos provenientes de ações medíocres acabam atingindo terceiros (filhos, maridos, irmãos, netos, amigos) que em hipótese alguma “comungam” com tais devaneios. A liberdade religiosa exige respeito, mas não é uma via de mão dupla, uma vez que ela própria invade as vidas dos incrédulos pensadores que agem pela razão. No caso dos cônjuges chegou-se à absurda situação em que, o crente ao se ver “encurralado” e obrigado a tomar um partido, uma decisão, fazer a escolha, acaba surpreendentemente optando pela fantasia, pelo irreal. Abre mão do(a) companheiro(a) de carne e osso e segue “feliz” de mãos dadas com o amigo imaginário. Difícil escolher e classificar tal situação entre “triste” ou “cômica”. Talvez o termo mais correto seja “patético”.

Há casos mais severos em que a troca da realidade pela fantasia chega a ser chocante. Deveria inclusive ser tratada como doença, embora o teor da crença não seja nem mais nem menos insano do que qualquer outra. Porém, o grave problema reside nas ações. As atitudes surpreendem. É o caso da ala radical islâmica, à qual a citada troca acima significa abrir mão da própria vida, seja em atentados suicidas, carrengando com eles a vida de milhares de pessoas inocentes e mentalmente sãs, ou simplesmente em suicídio ordinário. Os crentes muçulmanos radicais orgulhosamente chamam isso de “sacrifício” por Alá (Deus), mas sabemos que na verdade são vítimas também de intensa e eficiente lavagem cerebral iniciada ainda em berço, tal qual ocorre com os cristãos, destacando-se entre estes os lunáticos neos cristãos. E não há argumentos racionais que façam uma lavagem cerebral bem instalada ser alvo de autocrítica pelo seu detentor, salvo raríssimas exceções.

Uma outra troca boçal e inadmissível da realidade pela fantasia, e esta me choca consideravelmente por eu ter presenciado pessoalmente o sofrimento de uma jovem vida inocente que sequer podia escolher, é a psicose que reina entre os Testemunhas de Jeová. Antes que algum leitor crente lance petardos enfurecidos sobre mim, me amaldiçoando ao fogo eterno por desrespeito a crença alheia, antecipo que não há nada, absolutamente nada, crença alguma, convicção alguma, maldição alguma que justifique a privação de uma inocente criança a um tratamento simples e suficientemente eficaz para salvar a sua vida, seja uma transfusão de sangue ou um transplante de órgão. A liberdade de crença deve ser respeitada, mas o limite da insanidade envolvendo a vida de terceiros deveria ser rigorosamente vigiado e controlado, não importando e nem cabendo nessas situações apelos religiosos ou credulismos insanos. Porém, ainda que esse controle seja feito, ou não, é muito assustador pensar que existem pais que trocam a real vida do filho, a real presença dele ao seu lado, vê-lo crescer, se formar, lhe dar netos e muita alegria, por uma crença qualquer. É a loucura religiosa se sobrepondo aos mais básicos instintos naturais humanos.

Como afirmei acima e repito agora, seria uma afronta de minha parte censurar a questão íntima crédula das pessoas, mas quando isso extrapola a individualidade, o lado pessoal introspectivo, e retorna à sociedade em forma de normas medíocres, regulamentações impróprias para o avanço da civilização, dogmas sem sentido, atitudes fundamentalistas, interferindo na educação laica das crianças, na formação de leis de uma nação e até mesmo na censura comportamental de um indivíduo incrédulo, a questão torna-se extremamente grave. Trocar a verdade pela fantasia, por mais lamentável que seja, é um direito de todos. Desde que não interfira absolutamente na vida de quem optou pela realidade.

Diz a primeira lei de Newton: “Todo corpo permanece em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em linha reta, a não ser que seja compelido a mudar aquele estado por causa de forças sobre ele aplicadas”[1]. Sim, sabemos que é uma lei da Física, mas curiosamente — e, vale dizer, metaforicamente — percebe-se a validade parcial dessa lei no que concerne ao pensamento: não mudamos nossas opiniões sem que haja, e aja em nós, um argumento com força suficiente para delas nos livrar. No entanto, ainda que ao religioso não faltem argumentos manifestos de sua miséria intelectual, a inércia de sua situação permanece. Nesse caso, outra força se apresenta: a fé. E esta, não é segredo, subjuga qualquer outra energia psíquica.

Não podemos, é claro, fazer com que o religioso saia de seu estado inercial porque simplesmente esfregamos em sua face razões para tal: é dele que deve partir o alento para a mudança. E se não aceitar, diante da comodidade que traz sua condição, nada podemos fazer a não ser virar-lhe as costas. Resta-nos, ainda assim, prosseguir com a maculação das inverdades que imperaram e imperam no seio da sociedade, talvez para fazermos nossa parte e ficarmos descansados quanto a isso. O que podemos dizer, para o caso, é a História nos narra acidentes de percurso, desastres que poderiam ser evitados não fosse a vontade humana, quiçá masoquista, de almejá-los. Mas, no que diz respeito ao mundo contemporâneo, “que tudo ‘continue assim’, isto é a catástrofe”[2]. E por sermos convivas de um mesmo tempo e de um mesmo espaço, não podemos ficar indiferentes a situações de calamidade que têm como protagonista aquele que mata e se mata, que se faz conivente quanto a tudo o que o rodeia.

Esse tal Homo religiosus, trazido a lume por Alister Hardy, esse ser no qual a vaidade e o equívoco se confundem, é mestre na arte de provar a existência não de Deus, mas da gritante “inércia das mentalidades” assinalada por Michel Foucault. Para tal espécime, o pensamento tornou-se simples bric-à-brac; a dúvida, mausoléu por se esquecer; seus pe(n)sares, feito Maria Madalena, surgem como rameiras vendidas para os abastados mendigos que são seus neurônios. Entretanto, seus pensamentos não são apenas suas rameiras, à moda de Diderot; são mais do que isso: tornaram-se autênticas amantes.

Mas não podemos lhes atirar toda a culpa, pois não são somente eles os responsáveis pela conjuntura da civilização atual; são, na verdade, apenas o fim de uma cadeia de eventos que se intensificou com a ampliação, nos últimos séculos, do conhecimento humano. “A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas”, como apontou Theodor Adorno na primeira metade do século XX, “desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo”[3]; portanto, é útil — para não dizer imprescindível — que saibamos separar ideias de idéias. E isso, vale dizer, faz efeito apenas quando usamos nossa sensatez — nossa, não de outrem.

Se uma possível função do passado for a de nos aterrorizar, talvez a fim de não revisitarmos o que um dia fomos, é pertinente que aprendamos com rapidez a não repetir o que as ru(s)gas da História nos mostram; esta, sendo a grande desmancha-prazeres de nossas expectativas, se de fato nos serve para distinguir o hoje do ontem e, a partir dessa verificação, determinar possibilidades originais de transformar a atual situação humana [4], deveria ser melhor compreendida. Está nos anais, nas bibliotecas, nos sítios arqueológicos, nos museus espalhados pelo mundo grande parte de nossa história enquanto espécie, enquanto civilização; o que de todo passado podemos concluir é que, dentre outras coisas, um homem, quando livre, pode tudo — inclusive não pensar. E como já vimos esse tipo de liberdade em excesso… Resta, pois, impedir o repeteco.

Com isso, evidencia-se diariamente o mirmidão a se atolar na alienação sua de cada dia. Debater problemas racionais não é sua seara; o ânus da prova, o ônus da troça, estes lhe são íntimos. Note-se: o que não percebe é a fragilidade de seus argumentos, fracos demais porque são embasados em uma subjetividade maltrapilha; em argumentos “sagrados” que, validade vencida, pouco ou nada sustentam, provam, querem dizer; em falácias que, ingênuo, não percebe serem apenas falácias; em esfíngicos mistérios que, alheio, não compreende se tratarem de evidentes ironias. Disso conclui-se que o adágio Diga-me qual é teu ídolo e te direi quem és serve bem para separar os homens em duas espécies de pervertidos: os que acreditam nas verdades divinas e os que acreditam nas verdades humanas. Destarte, resta escolher o que abraçar, a partir das engrenagens enferrujadas do pensamento de cada um.

Mas, e repetindo, não nos esqueçamos: que tudo ‘continue assim’, isto é a catástrofe.

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Notas

  1. Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus a viribus impressis cogitur statum illum mutare”. NEWTON, Isaac. Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. 1687. Apud LYRE, Holger. “Metaphysik im „Handumdrehen“: Kant und Earman, Parität und moderne Raumauffassung”. In: Philosophia naturalis, Vol. 49, Número 1, p. 5. 2005. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.uni-bonn.de/~lyre/paper/kanthand.pdf>. Acesso em 28 de dezembro de 2009).
  2. BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. Obras escolhidas III. Trad. José Carlos Martins Barbosa e Hemerson Alves Baptista. 2ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 174.
  3. ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. 2ª Ed. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. p. 15.
  4. FOUCAULT, Michel. “Nietzsche, a genealogia e a História”. In: ______. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1978, p. 27.

Depois de morrer vamos para o céu. Como assim “céu”? E como é esse céu? E por que alguém haveria de querer ir para lá? Por que só depois de morrer? Notemos que não há qualquer exagero nesse tipo de pergunta. Se disséssemos que vamos à praia, não nos incomodaríamos de responder perguntas desse gênero. Como assim “praia”? E como é essa praia? Por que alguém haveria de querer ir para lá? Por que só depois de as férias começarem? Se o mundo houvesse sido criado por um deus, deveríamos saber responder com relativa segurança o que queremos dizer com “ir para o céu depois de morrer”, assim como temos segurança a respeito de férias no litoral. O fato de religiosos se mostrarem tão hesitantes a respeito do céu deveria nos deixar desconfiados, pois comportam-se exatamente com quem não sabe do que está falando. Não conseguem responder as perguntas mais básicas, que seriam facílimas se o céu de fato existisse.

Tentemos imaginar como o mundo seria se houvesse um deus. A princípio, isso é algo difícil de conceber, pois nunca tivemos contato com esse tipo de entidade. Então, para facilitar, tentemos imaginar como seria o mundo se nós o houvéssemos criado; já será um bom começo. Pois bem, como seria o céu? Mais ou menos como uma festa VIP: só entram convidados. O inferno seria o equivalente à prisão. Então, se o mundo fosse uma criação humana, as coisas se enquadrariam mais ou menos nesse esquema, e haveria muitos jornalistas fotografando quem se deu bem, quem acabou no inferno, e assim por diante. Nossas vidas todas girariam em torno disso, e o mundo seria movido pela mais profunda religiosidade.

Mas, pelo modo vago como descrevemos coisas como “céu”, “vida eterna” e “realidade espiritual”, de onde parece que realmente tiramos tais ideias? Dos sonhos. A descrição do mundo espiritual assemelha-se grandemente à descrição de um sonho. São muitas as semelhanças entre ambas as coisas: acontecem num lugar do qual só temos uma ideia vaga, que não sabemos como situar no tempo e no espaço; um lugar no qual não valem as regras físicas deste mundo, mas as morais, sim; um lugar no qual nossa matéria não tem massa, no qual nosso corpo seria desnecessário, mas mesmo assim preservamos as estruturas necessárias para a sobrevivência no mundo físico. Tendo isso em mente, com a afirmação de que, “depois de morrer, vamos para o céu”, deveríamos entender que ficaremos para sempre num mundo de sonhos do qual nunca acordaremos. Trata-se de uma explicação que até faz sentido se levarmos em consideração a época em que foi inventada. Contudo, hoje sabemos que defuntos não sonham.

A conclusão que queremos alcançar é que, se deus existisse, o mundo seria muito diferente — ele faria sentido, por exemplo; até um mundo criado por nós teria algum sentido. Contudo, o mundo que temos diante de nós parece não ter nenhum. Na verdade, lembra um terreno baldio: um lugar abandonado que não foi criado por ninguém, que não serve para nada, que não existe em função de coisa alguma; ou seja, o mundo apenas existe, e nós também. Seja como for, deve ficar claro que entender a realidade dessa maneira não se trata de pessimismo, mas de aceitar as coisas como elas são. O mundo poderia ter um criador, mas isso não é compatível com a realidade que observamos; o mundo poderia ter sentido, mas isso não é compatível com a realidade que observamos; a vida poderia ser eterna, nós poderíamos ter superpoderes mentais e assim por diante, mas a conclusão seria a mesma: não há fatos que apontem nessa direção.

Como se percebe, a falta de sentido decorre justamente do fato de a realidade ser indiferente à vida, e essa indiferença não é uma mera hipótese pessimista, mas um fato esmagadoramente comprovado pelo próprio funcionamento da realidade. Os átomos não ligam para nós. Com o avanço da ciência, já estão diante de nós todos os fatos necessários para entendermos o mundo razoavelmente bem; só não queremos aceitá-los. Uma realidade cega, morta e sem sentido é a única interpretação compatível com os fatos que conhecemos. O mundo só faz sentido se visto como algo destituído de sentido.

por Gustavo dos Anjos

Atualmente, é possível encontrar muitos textos e artigos de boa qualidade sobre religião, ateísmo e temas do gênero. A internet, sem dúvida, facilita bastante essa divulgação, possibilitando cada vez mais o acesso a informação. Entretanto, difícil mesmo é achar, nessa infinidade de ideias, alguma que seja realmente nova. Ou que ao menos traga alguma perspectiva diferenciada para contribuir com a reflexão sobre esse complexo debate. Deus e sua relação com os seres humanos. Ou vice-versa.

Nessa perspectiva, nos últimos dias fiquei pensando sobre como, de fato, as pessoas a minha volta se relacionam com deus. Como as pessoas enxergam deus no seu dia a dia, fora do mundo dos cultos e das igrejas. Porque, ao menos na minha realidade cotidiana, ninguém fica utilizando os famosos e exaustivamente debatidos argumentos históricos e filosóficos para reforçar sua crença em deus.

Na intenção de trazer alguma análise particular, resolvi tentar traçar o perfil de Deus segundo a perspectivas de alguns amigos próximos. Primeiramente, é necessário fazer algumas considerações. Esses amigos não pertencem a nenhuma religião especifica,  tampouco frequentam cultos ou rituais rígidos. Mas todos acreditam em deus e acham que esse mesmo deus mantém algum tipo de comunicação pessoal com eles.

Sempre inicio minhas discussões sobre religião perguntando para as pessoas a definição de Deus. Como era de se esperar, os tropeços já começam bem cedo. É surpreendente a quantidade de elementos distintos que cada indivíduo apresenta para qualificar seu Deus pessoal. Só como exemplo, vou relatar um caso em particular que me chamou a atenção, mas que resume de forma satisfatória o comportamento padrão das pessoas a minha volta. Um determinado amigo acredita em um Deus que consegue ouvir suas orações diariamente, é capaz de interferir na sua vida, que, por sinal, não acaba após a morte, e ainda alega que seu espírito é real e às vezes sai do seu corpo durante a noite.

Até aqui tudo bem, parece uma definição clássica de um cristão. Mas é exatamente aí que mora o problema. Essa pessoa não é cristã, está longe disso. Não vai à igreja, não acha que foi o divino quem criou o mundo, acha a história de Adão e Eva uma besteira, Maria não era virgem e considera a evolução como um fato. Bom, tento nem entrar no assunto Jesus Cristo, porque daí as coisas ficam ainda mais nebulosas. As pessoas sequer conseguem claramente distinguir Cristo de Deus.

Depois de ouvir pacientemente várias respostas, que acabam inevitavelmente se repetindo, é possível dizer que Deus é constituído por um conjunto de características que cada indivíduo julga conveniente. Em outras palavras, pega-se um dogma do cristianismo, outro do budismo, noções do espiritismo, mais um do hinduísmo e às vezes de filosofias quem nem são religião, como o yoga. O que as pessoas não percebem é que ao agregar características diversas, acabam criando um novo deus, único, exclusivo e personalizado. E o mais perturbador é saber que essa constatação não parece ser um problema para essas mesmas pessoas.

O mais comum é ouvir dizer que cada um pode ter seu deus pessoal, de acordo com suas convicções e experiência de vida. Como podem existir infinitos deuses pessoais igualmente verdadeiros? Essa contradição não parece tão absurda para a maioria das pessoas. A partir do momento em que se cria um deus personalizado, um frankenstein, mais frágil se torna a própria argumentação a favor da existência de um Deus qualquer. Ao menos, os deuses fundamentados em uma religião específica estão resguardados por alguma fundamentação histórica, por mais frágil que seja. E, nesses casos, me parece ser mais plausível acreditar nessa divindade. Tenho mais respeito por aqueles que tentam seguir os dogmas de um deus historicamente consolidado do que por aqueles que produzem sua receita de acordo com sua arrogante conveniência.

Só existe uma conclusão óbvia para toda essa miscelânea de definições.  Deus é como uma colcha de retalhos. Um emaranhado de vontades pessoais que se entrelaçam para acobertar os medos e frustrações humanas. Uma capa protetora contra a impotência perante a realidade. Todos se sentem protegidos e aquecidos, mas existe sempre o risco de serem descobertos.

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(artigo recebido em 16 de dezembro de 2009)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

E assim começa a maior de todas as fábulas: um deus entediado criou tudo o que existe em apenas 6 dias, fez à sua imagem e semelhança (e a partir do barro) o homem, e da costela deste fez surgir a mulher. Baniu ambos do jardim do Éden após, persuadidos por uma cobra falante, terem comido uma maçã proibida.

Então estas duas insignificantes criaturas se reproduziram, e seus filhos multiplicaram-se numa incessante prática incestuosa. Deus, então, personificado na figura do seu próprio filho, se condenou a uma terrível morte de torturas e crucificação apenas para que ele mesmo pudesse perdoá-los pelo pecado original, advindo daquele fruto que Adão e Eva comeram.

Este é só o começo de toda a estória, mas sejamos realistas: tais ideias absurdas já não têm mais lugar em tempos como este, senão nas mentes anacrônicas de quem se deixou levar pelo fascínio de um mito secular. Desde tempos imemoráveis observa-se uma subserviente e obrigatória homenagem dos povos religiosos para com os deuses (e esta não é uma exclusividade do deus abraâmico). Constroem-se templos, se faz arte, surgem profetas e se dedica boa parte das suas vidas em seu louvor.

A oração, por exemplo, é um fenômeno extremamente interessante. Faço referência à conversa que se tem com aquele homem invisível que hipoteticamente nos observa lá de cima, e não a repetição incessante e impensada de palavras, típica dos católicos. Quase sempre fruto de motivos egoísticos, tem seu nascedouro na ingenuidade de indivíduos que insistem em acreditar que, dentre 6.7 bilhões de pessoas que populam este planeta, este deus irá alterar todo o curso da história tão somente para atender suas queixas e pedidos, apenas para fazer com que o Flamengo seja campeão do Brasil, que determinada pessoa se cure de um câncer ou que seu primo consiga um emprego melhor.

Existem também as orações de louvor, que visam tão somente exaltar este deus vaidoso, que precisa ser lembrado constantemente de que “ele é o cara”. Para tanto, constroem-se inúmeras capelas, onde as pessoas diariamente rezam e entoam hinos em sua homenagem, livros são escritos, quadros são pintados, orações e poesias são feitas. Que espécie de narcisismo doentio é este, que o moveu a criar tudo o que existe apenas para que alguns bilhões de seres insignificantes dedicassem sua vida à insípida missão de reafirmar a sua grandiosidade?

Entre ateus, um dos debates mais recorrentes gira em torno dos obstáculos psicológicos que atrapalham a transição da crença para a descrença.

É unânime que o maior motivo é o medo da morte. Mas eu falarei sobre este obstáculo em particular em outros textos, pois exige uma discussão maior. Neste texto falarei sobre a descabida fama de fundamentalismo atribuída aos ateus em geral.

Eu entendo as pessoas que não se consideram ateias justamente por este motivo. Muitas se dizem “agnósticas”, outras dizem “não acreditar em nada”. No imaginário popular “ateísmo” está associado com “negação” e não com “dúvida” ou “ceticismo”. Chego até a ouvir coisas como: “Não gosto que me chamem de ateu. Eu simplesmente não acredito em deuses.”

Pois ateísmo é justamente isso, é a descrença em deuses. O problema já começa no sufixo. “Ismo”, uma ideologia, um grupo, um plural. Mas é difícil definir ateísmo como uma ideologia. Da mesma maneira que não nos sentiríamos muito tentados em definir alguém como um militante do “aunicornioísmo” simplesmente por não acreditar em unicórnios.

Claro que eu seria muito ingênuo em comparar, no seco, deus com unicórnios. Existem muitas semelhanças, mas, como toda a analogia, têm suas diferenças. A principal diferença é que a crença em deus se tornou tão ampla que a tratamos como o default. O que entendemos por “normal” se baseia na maioria. Se 90% da população humana fosse perneta, os portadores de um par de pernas seriam “aberrações”. No mundo real, dizemos que as pessoas com apenas uma perna são “pernetas”, mas não precisamos de um termo para as que possuem duas, pois elas são o nosso “normal”. E a situação não é diferente para a descrença em deus, muitas vezes tratada como algo excêntrico, um desvio, uma anormalidade (e de fato é, sob o ponto de vista estatístico).

Outro problema seria a associação histórica entre ateísmo e negação. Em séculos anteriores, um ateu normalmente era alguém teimoso. Não existia toda essa quantidade de informação facilmente disponível. Outros ainda defendem que o prefixo “a” de “ateu” pode e deve ser interpretado como negação. Mas duvido que defenderiam o mesmo para “agnóstico”. Eles seriam o que, afinal? Seriam “negadores do conhecimento”?

Mas a atual associação feita entre ateísmo e fundamentalismo deve muito à deturpação causada por certos crentes, estes verdadeiramente fanáticos. Nomes como Dawkins, Hitchens, Harris, Dennet e até mesmo Sagan aparentemente despertam mais ódio do que Lúcifer e Judas. Esses dias, em um debate no Fórum Ateus.net, apareceu essa charge aqui:

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Isso resume perfeitamente a versão cômica e degenerada que muitos teístas fanáticos pintam dos ateus. O ateu da esquerda comete terrorismo intelectual dizendo que “não há como fugir do universo” (sabe-se lá o que o autor quis dizer com isso). O ateu do meio preenche o estereótipo mais popular no imaginário crente, o arrogante detentor da verdade absoluta. Um terceiro ateu se limita a pregar o amor de Darwin em mais uma caricatura descabida.

Agora eu pergunto: Você já viu algum ateu fazer qualquer uma das coisas retratadas na charge?

Certamente não. Eu pelo menos nunca vi algo assim. Mas vi algo parecido, feito não por ateus, mas sim por crentes. E é aí que está a grande ironia.

A sátira feita sobre os ateus usa elementos típicos de um… Crente fanático!

O ateu da esquerda fala sobre o universo exatamente da mesma maneira que um crente fundamentalista fala de seu deus vingador. O segundo ateu cita um interessante fato sobre a cosmologia justamente como um cristão ou muçulmano fanático citaria um versículo de seu livro sagrado. E o terceiro espalha o “amor de Darwin” da mesma maneira que um cristão o faz com Jesus.

A charge se transforma em um reconhecimento do ridículo. Assim como boa parte da argumentação teísta encontrada pela internet, carente de conteúdo e lotada de falácias. Convenhamos, é muito intrigante que alguém critique um grupo retratando-o com atributos característicos do seu próprio. Imagine um macumbeiro que, na tentativa de sacanear os católicos, faça uma charge na qual um padre está prestes a despachar uma galinha preta.

O que poucos percebem é que o ateísmo cético é uma posição bastante neutra. Aliás, irritantemente neutra para muitos. Tão neutra quanto a descrença em fadas. Um ateu crê no ateísmo no mesmo grau que um banguela escova os seus dentes. É algo tão neutro que “simplesmente não há”.

Eu queria encerrar esse texto com uma questão deveras relevante para quem quer que acredite em fundamentalismo ateu.

Existe uma boa razão para um ateu ser fundamentalista?

Bom, muitos sequer conseguirão imaginar uma boa razão para ser ateu, que dirá um fundamentalista, mas pensem. Um teísta temente a um deus pai vaidoso e vingador tem uma boa razão para ser fundamentalista. Basta piscar torto e terá um castigo eterno e sofrido para amargar. Mas o que puniria um ateu? O que ele ganharia sendo fundamentalista?

Em meu texto anterior, falei um pouco sobre a importância do conhecimento das ciências naturais para uma crítica razoável das escolhas do indivíduo em matéria de religião. Acho importante reiterar o que disse antes: o conhecimento científico não vai necessariamente fazer com que o sujeito rejeite qualquer religião, como atesta a existência de cientistas religiosos, assim como o desconhecimento da ciência não vai necessariamente tornar o sujeito religioso, como demonstra a existência de ateus com pouca cultura científica. Mesmo assim, o conhecimento científico dá (muito) o que pensar acerca das crenças religiosas, e enriquece bastante a autocrítica das convicções de alguém.

Eu gostaria, porém, de me afastar um pouco das considerações sobre a influência da ciência nas convicções religiosas das pessoas. Há um outro conhecimento que é também negligenciado por muita gente quando se trata de pensar a própria crença: o conhecimento das outras religiões. Muita gente não se interessa muito por ciência. É até possível discutir o grau de relevância do conhecimento científico para a vida cotidiana da maioria das pessoas. Eu penso que este grau de relevância é altíssimo, mas nem todo mundo pensa assim, e acho que a maioria das pessoas não parece disposta a lançar-se a estudos científicos para enriquecer sua própria visão de mundo. Mas, nestes tempos em que vivemos, e especialmente no Brasil, é difícil ignorar a existência de outras religiões, assim como é praticamente impossível não ter contato com pessoas que têm crenças bem diferentes. Quem, ao andar por qualquer rua das grandes cidades brasileiras, dirige seu olhar para a multidão, provavelmente verá católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, testemunhas de Jeová, talvez alguns judeus, muçulmanos e budistas e, quiçá, alguns ateus. Em outros lugares ou em outras épocas, nem sempre foi assim. Em nações cuja observância de uma religião é imposta pelo Estado, como em alguns países islâmicos, ou em outras épocas, como na Europa Medieval, seria mais difícil este contato. O outro está distante, até sua existência parece algo incerto e nebuloso. Mas, na maioria dos países ocidentais de hoje, a diversidade religiosa está diante da nossa cara, e não dá para ignorá-la. O outro está bem perto, sentado ao lado no ônibus, na fila do banco, no supermercado ou mesmo dentro de casa, como no caso de famílias cujos membros são adeptos de diferentes religiões.

A diversidade de religiões pode dar um bom material para reflexão, sem necessidade de conhecimentos mais aprofundados, como no caso das ciências naturais. Na verdade, até crianças podem fazer questionamentos interessantes sobre tal assunto. Eu fui uma criança educada em uma família metodista. Ainda na infância, tinha curiosidade sobre as diferenças entre a minha religião de então e as outras religiões. As diferenças em relação à religião da maioria, o catolicismo romano, eram evidentes até para um menino pequeno, de seis anos ou menos. Os católicos ajoelhavam-se diante de imagens esculpidas ou pintadas, e nós não. Os católicos persignavam-se e nós não. Os sacerdotes deles eram chamados padres, usavam batinas e não podiam se casar, enquanto os nossos eram chamados de pastores e pastoras, vestiam ternos ou vestidos e tinham suas esposas ou maridos.

Mas meus questionamentos de criança não paravam aí. Eu perguntava insistentemente a minha mãe (a pessoa mais paciente que eu conheço) sobre as dúvidas que me assaltavam: Qual a diferença entre nós, os batistas e os presbiterianos, já que somos tão parecidos? E minha mãe, sempre paciente, se esforçava em traduzir para uma mente infantil a doutrina da predestinação dos presbiterianos, ou as razões pelas quais os batistas não batizam crianças, ou porque os adventistas vão à igreja aos sábados. Perguntando sempre, fiquei sabendo que os judeus acreditam no mesmo deus em que cremos, mas não creem que Jesus é deus.

Ao mesmo tempo em que minhas perguntas mais simples sobre outras religiões eram respondidas, eu absorvia os ensinamentos da minha religião. E isto causava uma produção incessante de novas dúvidas: se deus é onisciente e onipotente, porque os presbiterianos estão errados sobre a predestinação? Se as crianças batistas não são batizadas, elas são cristãs como nós? Se ajoelhar-se diante de imagens é idolatria, será que todos os católicos vão para o inferno? Se Jesus disse que ninguém vai ao pai senão por ele (João 14:6), então os judeus também vão para o inferno? Isto para não falar daqueles que eu sabia que estavam bem distantes de mim, como os muçulmanos, hindus e budistas…

Isto me inquietava. Muitas pessoas que eu conhecia eram católicas, inclusive pessoas queridas, como minha avó. Porque teriam que ir para o inferno, mesmo que fossem pessoas boas? Se deus é onisciente e onipotente, será que ele já não decidiu que eu serei um pecador e não obterei minha salvação? Mas além desta balbúrdia de pensamentos, havia uma ideia em especial que costumava me atormentar: pessoas pertencentes a outras religiões também creem, como eu acreditava, que suas religiões estavam corretas. Isto me levava a pensar sobre a fé que cada um tem em sua própria religião, e a convicção de que está correta, e que os outros estão errados. Isto é inquietante. Se cada um pensa igualmente que está certo, e que os outros estão errados, como determinar quem está certo? Minha cabeça de criança procurava se tranquilizar simplesmente pensando que a convicção deles não importa, pois eu estava certo, e só me restava ter pena deles e esperar que se convertessem. Mas tal solução não satisfez minha mente por muito tempo. Escolhi descrer. O mesmo não acontecia com a maioria das pessoas religiosas que eu conhecia. Elas não se preocupavam muito em saber o que os adeptos de outras religiões pensavam, em que acreditavam, quais eram suas doutrinas. Simplesmente sequer passava pela cabeça da maioria deles a possibilidade de estarem errados, e os outros, certos. Estavam certos, e pronto.

Após eu ter me desvinculado da religião, passei a refletir sobre a importância de conhecer as opiniões dos outros, suas convicções religiosas, crenças, ideias, cosmovisões enfim. Acho que tal postura pode ajudar qualquer pessoa a pensar de forma crítica sobre suas próprias ideias, e pode ajudar na escolha assim como as ciências naturais que eu mencionei no texto anterior.

Porém, como anteriormente, quero ressaltar que seria absurdo pensar que o conhecimento de outras religiões inevitavelmente afastará a pessoa de sua própria fé ou a tornará ateia. A realidade desmente tal ideia: há ateus que nada sabem sobre religião, assim como há pessoas com profundo conhecimento sobre religiões que se mantêm filiados a uma religião. Aliás, no Ocidente, inúmeros estudiosos de religiões são sacerdotes ou teólogos filiados a uma denominação religiosa, em geral cristã. No entanto, o conhecimento das diferenças entre as religiões sempre enriquecerá a crítica do sujeito de sua própria religião.

Muitos conhecedores de religiões conciliam bem seus credos com os de outras tradições, usando vários argumentos. Um dos mais comuns é a ideia de que todas as diferenças entre as crenças são insignificantes, e que os pontos em comum, em geral os preceitos éticos de caridade, amor, paz, fazem com que todas as religiões sejam a expressão de uma única verdade, por mais diferentes que sejam as doutrinas e tradições. Mas, como no caso das posturas conciliatórias entre as ciências naturais e a religião, as posturas conciliatórias entre as diversas religiões podem ser a expressão de sacerdotes, teólogos e pessoas mais cultas, mas está longe de ser a postura adotada pela maioria das pessoas adeptas de uma fé.

No entanto, acho possível que isto mude, em todo o mundo, com o desenvolvimento de meios de comunicação que possibilitam acesso fácil a ideias diversas, mas especialmente no Brasil. Se, em uma sociedade antiga com religiosidade homogênea, ou em um Estado teocrático, os adeptos de outras religiões são em geral os estrangeiros, e muitas vezes o inimigo, no mundo de hoje os fiéis de outras crenças estão mais perto, e no Brasil os adeptos de outras religiões são nossos conterrâneos, falam a mesma língua, partilham da mesma cultura, e não é raro que uma pessoa vá a uma missa em um dia, a um centro espírita em outro, a um terreiro de umbanda depois, para em seguida dar uma passadinha na igreja evangélica mais próxima. Quem sabe esta postura não leve o sujeito a visitar de vez em quando um site de ateus, como o nosso?