Monthly Archives: fevereiro 2010

por Gustavo dos Anjos

Muita gente argumenta que a fé se sustenta pelo simples ato de acreditar. Que não é necessário qualquer tipo de evidência para que alguém possua fé. Não concordo em absoluto. Observando a realidade cotidiana, o comportamento das pessoas se volta justamente para o lado contrário. Todos buscam evidências, fatos, acontecimentos que de alguma forma, mesmo que ilusoriamente, comprovem sua fé.

Isso ocorre simplesmente porque é assim que nos comportamos em todos os demais aspectos de nossas vidas. Quando recebemos alguma acusação infundada, solicitamos imediatamente provas. Quando somos proibidos de fazer algo que gostaríamos, logo queremos saber o porquê. Mesmo as crianças nunca ficam satisfeitas com a famosas resposta: porque sim e ponto final. Os seres humanos parecem ter uma vontade insaciável de quererem entender e explicar tudo em sua volta. E por que seria diferente quando o assunto é a fé? Esse é o ponto, não acho que seja diferente.

A todo instante, as pessoas procuram reforçar a sua fé baseadas nos eventos ao seu redor, por mais banais que sejam. Criam mecanismos próprios para que, de alguma forma, sua fé seja racionalmente comprovada, que sua fé tenha alguma relação com a realidade que vivem. Diferentemente das alegações usuais, as pessoas não se conformam com apenas a promessa de verdade, elas querer ver, sentir, tocar, entender a fé. Ou seja, de alguma forma a fé vai ter que se materializar, descer do seu patamar superior e interagir com a realidade tangível.

O crescimento assustador das igrejas evangélicas nada mais é, ao meu ver, do que o surgimento de uma forma eficiente de se mostrar às pessoas de fé que suas convicções são verdadeiras. Facilitam o trabalho da busca pelas tão desejadas evidências. Ao comparecerem aos cultos, o que as pessoas procuram são, nada mais, nada mesmo, motivos que reforcem suas crenças. E, inegavelmente, as igrejas estão tendo sucesso nessa tarefa.

O principal problema disso tudo é a honestidade. Quando um crente diz que hoje obteve um sinal de que Deus existe, alegando que escapou de um grave acidente de carro, dificilmente está sendo honesto consigo mesmo. A necessidade emocional de encontrar um reforço positivo é tão grande que qualquer evento se torna forte evidência do que se procura. Isso é tão poderoso que uma simples vitória em uma partida de futebol é motivo para uma euforia sobrenatural generalizada. Quantas vezes já não escutamos um discurso de agradecimento começar com Deus? E isso vale para qualquer área da vida. Desde um banal graças a Deus até um complexo comportamento de autoflagelação. Se as pessoas parassem para se perguntar e refletir, talvez Deus tivesse que ter um pouco mais de trabalho para emitir seus sinais. Não custa nada se perguntar: estou sendo honesto? Isso foi realmente trabalho da fé?

Vale lembrar que o oposto não se confirma. Um acontecimento negativo qualquer raramente possui o mesmo poder de influência. Ser assassinado brutalmente não se constitui em evidência de nada. Apenas mostra que não foi esse o momento para se reforçar a fé. Basta esperar o próximo momento mais oportuno e conveniente. Parece existir um claro desequilíbrio de medidas nessa relação. Um evento positivo é razão suficiente para realimentar a fé de qualquer crédulo desiludido. Mas um evento negativo é apenas um evento negativo, sem grande poder para abalar a fé de alguém.

Não entrei, propositalmente, na discussão acerca da veracidade dessas alegadas evidências. O foco aqui é tentar entender como determinados fatos atuam como reforço da fé, sejam eles verdadeiros ou falsos. Portanto, não faz o menor sentido afirmar que a fé é simplesmente o ato de acreditar sem evidências. A realidade cotidiana mostra que as pessoas buscam, a todo instante, algo em que possa sustentar sua fé. Eventos banais do dia a dia se tornam poderosos instrumentos para que indivíduos, talvez inconscientemente, reforcem sua fé. Estamos no automático, programados culturalmente e historicamente (talvez geneticamente) para realizar essa busca.

Vejam que natureza bela!! Evidência irrefutável da existência de Deus.

* * *

(artigo recebido em 10 de janeiro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

Mito é uma palavra que deriva do grego Mithós (μυθος) e tem por definição moderna “coisa ou pessoa que não existe, mas se supõe real. Quimera”. Eu particularmente adoro mitos, você não? Em suas entrelinhas, os mitos nos dizem tantas coisas sobre épocas passadas e suas crenças populares ou manobras políticas. Hoje quero propor uma reflexão sobre um mito cristão sempre presente na irrisória tentativa de justificar a origem do mal, a ausência de evidências para deus, o pecado, a tentação, etc. É o mito do livre-arbítrio.

Quero começar propondo uma rápida reflexão: imagine que neste momento você se encontra acorrentado em um porão, em um local que você desconhece, enquanto observa uma grotesca criatura se aproximar portando de um pequeno lança-chamas. Esta enigmática figura, então, revela suas intenções:

– Quero te fazer uma proposta. Sei que você possui uma bonita casa e um carro luxuoso. Eu, por outro lado, tenho esse maçarico e estes documentos. Reconheces? São os documentos dos teus bens! Assina-os e passa tudo para o meu nome, ou queimarei cada centímetro do teu corpo com este meu utensílio e, ao terminar, usarei um determinado antídoto para reconstruir tua estrutura, para que possa repetir o processo ainda outra vez, e para sempre.

Tudo bem, talvez esta horrenda cena seja um pouco surreal, mas o é por motivos hiperbólicos e de mera analogia. Ainda assim, não é difícil imaginar qual seria a sua reação. Você abriria mão de todos os seus bens, ficaria sem nada… e vale lembrar que essa é uma perda razoável (para dizer o mínimo). Entretanto, se você é portador de algum bom senso, não hesitaria em abrir mão de tudo em troca do seu conforto e segurança, suponho.

Mas me permitam tornar esta cena ainda mais pitoresca; vamos imaginar que uma terceira figura adentra aquele porão. Uma pessoa que lhe parece atraente, com trajes limpos e rosto gentil. Esta também lhe propõe algo:

– Acalma-te, pois trago a outra face deste acordo. Percebo que estás preocupado com a perda dos teus bens, mas tais preocupações são supérfluas. Ao assinar estes documentos, estarás garantindo morada junto a uma ilha paradisíaca, onde não se conhece dor nem sofrimento, onde não terás preocupações. Mas há uma ressalva, esta é uma aquisição futura e a termo, e só irás desfrutar de tais benefícios dentro de alguns anos. Basta que assines, nada mais.

Agora este bizarro contrato que nos parecia absurdamente coercitivo se tornou tentador, não? Existe alguma chance de um ser em plena consciência escolher não assinar o acordo? Ora, mesmo que houvesse uma desconfiança quanto à veracidade desta nova proposta, o nosso primeiro interlocutor parecia bastante real, e também os seus instrumentos de tortura. Há aí uma escolha?

O ponto em que quero chegar é que a ideia do livre-arbítrio não é apenas absurda em todos os seus aspectos, mas quando analisamos friamente do que se trata, percebemos rapidamente que não há liberdade de escolha, há uma persuasão colossal. De um lado a danação eterna, com enxofre, torturas e sofrimentos eternos, do outro uma vida de prazeres e ausência de preocupações. Meus caros amigos, não seriamos razoáveis em não pactuar com deus e toda a sua farsa contratual, mesmo desconhecendo a autenticidade de suas palavras, o medo do inferno já representa ameaça suficiente.

E assim conclui-se a mitologia do livre-arbítrio: uma tentativa até então bem-sucedida de obliterar a real liberdade de escolha dos indivíduos, plantando-lhes o medo horrendo das coisas mundanas (que levam ao inferno) e ainda ter a capacidade de ser um argumento tão flexível que pode ser usado para justificar quase tudo: deus permite que exista o mal para que os homens possam saber diferenciar das coisas boas, e fazer suas escolhas. O demônio existe para que os homens comparem-no e escolham a deus. E esse maniqueísmo de boteco, travestido em pompa, tem atravessado os séculos e aprisionado os fiéis nessa escravidão a que dão o nome de liberdade.

Em se tratando de plurais, os agnósticos formam um grupo bastante heterogêneo. No mínimo tão heterogêneo quanto nós, ateus. Antes que o meu texto seja mal interpretado, não chamo os agnósticos, todos eles, de “sem opinião”. O time dos “sem opinião” se refere a um grupo dentro do grupo. Um tipo particular de agnóstico muito comum e muito irritante.

Antes de falar deste grupo, vou falar dos agnósticos no geral. Agnóstico é aquele que admite não possuir conhecimento o suficiente para ter convicção de que deus existe, ou de que ele não existe. Agora, se você é um leitor esperto, deve ter percebido que “ateísmo” e “agnosticismo” não são posicionamentos excludentes dentro de uma mesma mente pensante. Não acreditar em algo não significa ter convicção de que este algo não exista. Eu mesmo sou um ateu, e posso ainda ser definido como agnóstico. Mas vá explicar isso para o pessoal “sem opinião”…

Mas quem são esses gajos, afinal? Bom, para começar, todos se definem como agnósticos. Eles o fazem de tal modo que fica fácil criar uma aversão (injusta) aos agnósticos em geral, mesmo que esse grupo possua pessoas muito mais lúcidas que a média da população. O diferencial do time dos “sem opinião” está, obviamente, no esforço destes em não tomar partido algum na questão da existência de deus(es).
Esses agnósticos se baseiam em certas premissas, todas equivocadas.

A primeira delas. “Descrer na existência de deus é crer convictamente que este não existe”.  Falso. Existe a crença e a descrença. Assim como existe a convicção. Crer em alguma coisa é agir sob o pressuposto de que esta coisa exista. Descrer é o oposto. Crer convictamente é ignorar qualquer evidência que derrube a sua crença.

Para ilustrar esse exemplo, imagine uma porta. Agora eu lhe digo que, atrás desta porta, existe um leão faminto que não vai pensar duas vezes antes de devorá-lo. A questão é que você quer abrir essa porta. Existem duas escolhas. Você crê no que eu digo, ou descrê. Logicamente.
A crença de que o leão existe vai se refletir nos seus atos. É muito improvável que você vá incauto em direção à porta, sendo que você acredita na existência do leão espreitador. Certamente você sequer se aproximará da porta, ou caso vá em direção a ela, o fará com muita cautela. Isso é a crença, no seu modelo de mundo, o leão está lá, e é sensato tomar bastante cuidado.

Você pode descrer. Neste caso você abrirá a porta sem o menor receio. Ou talvez com um pouco de receio, é verdade, mas ainda assim abrirá. Você pode discutir comigo, tentar ser razoável. Um leão atrás da porta emitiria algum barulho, ou mesmo calor. Ou poderia me perguntar, e seria uma pergunta muito pertinente: “o que um leão estaria fazendo atrás daquela porta, afinal?”. Eu poderia inventar qualquer coisa. Poderia até mesmo dizer que um simples humano como você não seria capaz de compreender as minúcias da fome do leão.

Uma crença convicta no leão seria se, mesmo sem qualquer evidência a favor do bicho, você ainda ficasse com medo. Impediria qualquer um de se aproximar da porta e gritaria aos quatro cantos que “ali tem um leão!” e que “todos deveriam se manter afastados da porta o máximo possível!”. Poderia também crer convictamente que o leão não está ali, o que é diferente de simplesmente descrer. Porque você ignoraria a priori qualquer evidência corroborando o leão faminto.

Esse equívoco manifesta-se de maneira mais óbvia na seguinte afirmação, muito comumente pronunciada por este subgrupo peculiar de agnósticos:
“Eu não acredito, mas eu também não desacredito.”
Uma pérola, em minha opinião. Assemelha-se a dizer “Eu não conheço, mas eu também não desconheço.” ou “Eu não confio, mas também não desconfio.”! No entanto, é muito normal ler ou ouvir essa frase em discussões por aí afora. De maneira geral, eu tomo essa frase como um diagnóstico de que o sujeito em questão faz parte mesmo do timinho dos “sem opinião”.

A outra premissa é a de que crer e descrer em deus(es) são posições de mesmo mérito intelectual. Discordo totalmente.
Peguemos o exemplo do leão atrás da porta. Qual a chance de ter um leão atrás da porta, sendo que você está em um recinto fechado, dentro de uma zona altamente urbanizada, com um oceano atlântico te separando da savana africana? Cinqüenta por cento? Certamente que não. Fica óbvio que a crença e a descrença, neste caso, não fazem parte de extremos opostos de igual plausibilidade. Pois bem, o mesmo acontece com deus. Quais são as evidências de que existe algum deus? Eu desconheço. E isso que eu já li muita coisa, das mais absurdas às mais sofisticadas defesas da existência do “papaizão”.

O religioso fanático tem uma visão romantizada das coisas. Visão essa na qual o mundo é um palco e o seu teste de fé é negar a realidade, sonhar com o além-vida e converter os infieis para a sua crença. O ateu fanático também vê as coisas de maneira exagerada. Sendo ele o paladino defensor da razão, a única virtude que um ser humano pode ter. Assim como esses dois, o agnóstico também pode ser fanático. Evidentemente, é esse o caso dos “sem opinião”. Eles também têm uma visão romântica do mundo, em que este está em uma guerra ideológica entre teístas e ateus e eles, os agnósticos, são os únicos seres sábios e iluminados que se distanciaram desse conflito para pensar livremente a respeito do mundo. Todos os três exemplos de fanáticos se mostram como pessoas simplórias. Estão sempre na constante tentativa de se destacar dos demais, colocando todos no mesmo saco e eles, como seres acima de qualquer debate.

Mas tem algo pior no time dos “sem opinião”. Uma desvantagem adicional. Ao passo que ateus e teístas, mesmo os fanáticos, têm ao menos sobre o que se posicionar, os “sem opinião” sequer têm isso. Como eu disse anteriormente, é um esforço constante em não tomar partido. São pessoas inteligentes o suficiente para admitir que religiosidade e racionalidade não conseguem conviver juntas. Percebem que deus é algo que foge à lógica e à razão. Mas têm medo de admitir que não acreditam em deus. Claro, pois, se algum deus existir, eles estarão seriamente lascados.

Não ter opinião é algo perdoável somente sob o estado da ignorância. Mas à medida que nos informamos mais sobre um assunto, é recomendável nos posicionarmos. Ter opinião não é sinal de fanatismo, mas sim de sinceridade frente aos seus conhecimentos. De que adianta termos conhecimento, se não colaboramos para melhorá-lo?

Mircea Eliade, em seu livro O sagrado e o profano, conta a história de uma tribo de caçadores e coletores nômades que venerava um poste de madeira. Este poste sagrado representava o eixo cósmico. Segundo as tradições daquele povo, um ser divino, em tempos míticos, após ter fundado as instituições da tribo, subiu por aquele poste e desapareceu no céu. Desde então, a tribo passou a carregar o poste sempre consigo por suas andanças em busca de alimento. O tal pedaço de madeira era tão importante para aquele povo que até mesmo a direção que deveriam seguir em seu nomadismo era determinada pela inclinação do poste.

Prosseguindo em sua narrativa, Eliade conta que em uma ocasião o poste sagrado se quebrou. Para aquela tribo, isto representou o fim do mundo, literalmente. Em sua visão de mundo, condicionada por seus mitos e suas tradições religiosas, após a quebra do poste, não havia mais cosmos, não havia mais uma realidade ordenada, não havia mais sentido na vida. Apenas caos. A consequência foi que todas as pessoas da tribo, após vaguearem por algum tempo, simplesmente se sentaram no chão e lá ficaram, até morrer.

Esta história, para quase todos os membros de nossa sociedade, tem um aspecto tragicômico. É terrível pensar que várias pessoas permaneceram no mesmo lugar esperando a morte chegar, com fome e sede. Mas esta situação não deixa de inspirar uma impressão de absurdo, e mesmo de ridículo, em nossas mentes. Como é possível que um grupo de seres humanos pense que o mundo acabou só porque um poste de madeira se quebrou? Será que aquelas pessoas não seriam capazes de constatar que a vida poderia prosseguir normalmente sem o tal poste sagrado? Não poderiam ter elas experimentado levar a vida como antes? O filósofo que narra esta história, ao longo da mencionada obra, tenta mostrar as diferenças fortes nas visões de mundo do homem religioso e do homem profano. Não é minha intenção falar sobre este tema aqui. Quero apenas fazer uma comparação com uma situação que me parece análoga à narrada.

Na nossa sociedade e em nosso tempo, nem todos os indivíduos fazem da religião o centro de suas vidas. Talvez possamos até dizer que a maior parte das pessoas, mesmo que declarem ter uma religião, vivem quase todo o tempo sem sequer pensar sobre ela, lembrando-se ocasionalmente que existem coisas como igreja, culto, missa, padres ou pastores apenas quando alguém casa ou morre. Da mesma forma que existem pessoas que declaram beber “socialmente”, muita gente só pratica sua religião “socialmente”. Mesmo assim, nós ateus sabemos que é bastante comum que muitas pessoas, tanto as religiosas autênticas quanto as que praticam a religião “socialmente”, reajam como se estivessem escandalizadas quando alguém declara que não acredita em qualquer deus. Tais pessoas expressam uma espécie de reação de repulsa diante da escolha do ateu de viver sem a crença em entes sobrenaturais. Daí surgem as indefectíveis perguntas: “como você explica então a existência do mundo?” ou “que sentido você vê na vida sem deus?”

Eu sou capaz de apostar que a maioria das pessoas que fazem estas perguntas iria achar absurda a história da tribo que se deixou morrer só por causa do poste quebrado. Mas, será que as perguntas que elas fazem ao ateu não se parecem com a atitude dos nômades do poste quebrado? Achar estranho que alguém viva sem aceitar algum tipo de deus como explicação da existência ou como sentido da vida me parece semelhante à atitude de alguém que acha que o mundo acabaria se sua crença se revelar errada. Se você, caro leitor, é religioso, pense nisso antes de fazer aquelas perguntas a nós ateus. Nós apenas constatamos que a inexistência de divindades não é o fim do mundo…

Referências:
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008 (a história da tribo encontra-se nas páginas 35 e 36).

Mesmo entre os cristãos mais devotos, felizmente não encontramos hoje em dia pessoas dispostas a seguir os preceitos bíblicos ao pé da letra. De outra forma, teríamos pessoas apoiando a escravidão (Efésios 6:5), apedrejando quem trabalha aos sábados (Números 15:35), apedrejando adúlteros (Levitício 20:10) etc.

Por que isso não ocorre hoje em dia? Bem, dizem os crentes que a bíblia serviu a um propósito de um povo bárbaro e primitivo. Com o avanço social dos hebreus, o deus “olho por olho” foi substituído, com Cristo, pelo deus “paz e amor”, o deus “dê a outra face”. Ora, já temos aí algo de estranho, pois Jesus afirma claramente que nada das leis dos profetas haveria de ser mudado com ele (Mateus 5:17-19).

Há uma passagem muito interessante em que Satã provoca Davi a fazer um censo de Israel (I Crônicas 21:1), e em outra passagem referente ao mesmo evento quem solicita o censo a Davi é Deus (II Samuel 24:1).

Diante das evidentes contradições da bíblia, o que dizem os defensores desta? “A bíblia não se contradiz em questões doutrinárias”. Afinal, deveríamos ou não apedrejar adúlteros? Jesus disse que só aqueles que não tinham pecados (João 8:7), já no trecho de Levitício que vimos acima, não há nenhuma restrição. Se Jesus era um homem sem pecados, por que não foi ele o primeiro a jogar uma pedra? Moisés não teria hesitado.

A covarde saída tomada pelos crentes é a Exegese Bíblica, que é o termo que designa as formas corretas de se interpretar os ensinamentos bíblicos. Segundo algumas correntes cristãs, existem duas formas de exegese. A exegese por revelação, isto é, quando a correta interpretação da bíblia é revelada diretamente pelo Espírito Santo. O que nos deixa aberta a questão de quem é mais lunático, quem afirma ter recebido tal revelação, ou quem acredita nela. Vale lembrar que a questão da Infalibilidade Papal, dogma católico, é largamente apoiada neste tipo de interpretação.

A segunda forma de exegese, a exegese racional, é a mais interessante de ser analisada, uma vez que busca-se interpretar a bíblia sob a ótica do povo ao qual o ensinamento destinou-se, ou seja, povos bárbaros e ignorantes, e infelizmente parece-me que a situação não mudou muito de lá pra cá.

Utilizando a exegese “racional”, com um pouco de criatividade, pôde-se justificar os atos mais covardes e cruéis da história das religiões. Entre ele citemos as cruzadas, nas quais milhares de soldados vestindo a cruz vermelha, a serviço do Papa, foram enviados para trazer Jerusalém, a terra santa, para o poder dos “justos”. Pode-se citar também a inquisição, em que milhões foram mortos por não professarem a fé tida como verdadeira pelos cristãos. Podemos citar também o apoio irrestrito à escravidão. E a lista pode ir muito mais longe.

Hoje, baseando-se em questões de exegética, o Papa defende os valores da família, proibindo em qualquer situação o uso da camisinha. Esta política trouxe efeitos catastróficos em países como a África do Sul, onde ainda hoje se espalha a ideia de que a camisinha ajuda a disseminar a AIDS.

Em uma coisa temos que concordar com os exegetas: a bíblia reflete o pensamento de um povo primitivo; falta-lhes apenas compreender que deus é mais uma dessas ideias primitivas que não sobrevivem ao tempo.

I

Tenho um ótimo negócio para você: um fusca por cem reais. Ok, talvez você nem esteja procurando um carro pra comprar no momento, e se estiver muito provavelmente nem é um fusca, que há tempos deixou de ser um sonho de consumo quando se fala de automóveis. Mesmo assim é uma oferta tentadora, aparentemente tão generosa que cabem perguntas a respeito. É de brinquedo esse fusca? Eu respondo: não, é um automóvel de verdade, desses em que você entra, dá a partida e pode sair dirigindo. É regular? Qual o estado de conservação? É totalmente regular, a documentação está em meu nome, e zero quilômetro, sem nenhuma avaria e totalmente funcional.

Agora ficou ainda mais estranho. É muito improvável haver um fusca zero quilômetro à venda. Desde 2003 não se fabricam mais, isso no mundo todo. E alguém que conservou um sem andar e em perfeitas condições normalmente pediria mais de cem reais por ele. Você nem estava procurando um fusca, mas a oferta é inegavelmente tentadora, se for verdadeira. As minhas condições para a venda são bem simples: preciso dos cem reais hoje ainda, mas só posso entregar o carro daqui a um mês. Não é nada realmente incômodo para um negócio tão bom. Tudo bem, as condições são aceitáveis, mas como é possível – e até muito provável, dada a generosidade da oferta – que você entregue o dinheiro e nunca receba o fusca, é bom ter algumas garantias. Pode ser, digamos, firmar o contrato de compra e venda, registrar em cartório, e pedir documentos que comprovem a existência do carro, a regularidade da documentação, e ainda que deem uma razoável certeza de onde eu possa ser encontrado daqui a um mês. Curioso é que, nesse caso, talvez se gaste mais com a comprovação disso tudo do que os cem reais pedidos pelo fusca. Mas mesmo assim o negócio ainda é muito bom.

Até aqui eu devo ter prendido a sua atenção ao negócio e, possivelmente, o seu interesse em fechá-lo. Basta agora convencê-lo de que ele é verdadeiro. Se está interessado em fechá-lo, é porque gostaria que fosse. Eu não ofereço a comprovação da forma como você pediu. Não tenho agora a documentação do carro, nem a minha que pode indicar onde eu poderei ser encontrado com razoável certeza. Em vez disso, ofereço o seguinte: você quer que o negócio seja verdadeiro, não é? Pois se acreditar bastante, se acreditar verdadeiramente, ele será.

Nesse ponto eu já espero, sinceramente, que você perceba que toda essa conversa é um grande papo furado, que eu não tenho fusca nenhum pra vender e, se tivesse, não deveria vendê-lo por cem reais. Mais do que isso, espero que não fique tentado a dar os cem reais apostando na chance de eu estar falando a verdade, já que “não é tanto dinheiro assim”, dependendo do seu ponto de vista.

É flagrante a diferença entre a forma como a maioria das pessoas pensa sobre questões da vida prática e questões religiosas. Essa diferença é, na verdade, questão crucial para boa parte das religiões, em especial as religiões populares no Brasil. É bem aceita a ideia de que é uma boa coisa alertar pessoas próximas – seja na educação de filhos, ou em conversas com pais, marido ou esposa, ou amigos – para que não sejam ingênuas a ponto de querer comprar um fusca por cem reais. E chega a ser ofensivo pedir o mesmo raciocínio, fazer exatamente o mesmo alerta, quanto a assuntos religiosos.

Na educação religiosa, somos orientados desde pequenos a ter fé. E, quando questionamentos surgem em nossas cabeças, a orientação é ter mais fé. Fé, não escondem os religiosos, é acreditar mesmo diante da ausência de evidências. Fé foi o que eu pedi na minha (espero) malsucedida negociação do fusca. O que você diria se eu pedisse mais fé?

E por 90, vai?

 

O argumento da fé
Parte I
Parte II
Parte III

Nas linhas a seguir, proporemos (mais) um agravo contra o modo de pensar religioso. Para tanto, tematizaremos nosso discurso a partir do conceito de Deus ex machina (em tradução literal, “Deus surgido da máquina”). A expressão latina advém do grego clássico (ἀπὸ μηχανῆς θεός), tendo sua origem no teatro helênico. Referia-se a um artificial, improvável, imprevisto elemento cênico, evento ou personagem inserido repentinamente em uma peça a fim de resolver o emaranhado da trama teatral.

No teatro grego, sobretudo nas tragédias de Eurípedes, havia muitas peças que, ao invés de serem concluídas com eventos humanamente possíveis, reais, concluíam-se com o surgimento de um deus que descia ao local da encenação por meio de um dispositivo rústico, parecido com uma grua. Esse deus, então, conectava todas as pontas soltas da história, explicando um ou outro acontecimento, de maneira que tal intromissão inesperada tinha o intuito de garantir o nexo da peça. Atualmente, aplica-se a expressão para apontar o desenvolvimento de uma história na qual não se leva em consideração sua coerência interna, sendo, pois, inverossímil o suficiente para que o autor termine-a com uma circunstância improvável — ainda que, na ficção, mais tolerável.

Tendo-se em mente os traços histórico-culturais acima, voltemos agora ao nosso século. Se nos for permitida uma comparação, podemos dizer que, no universo religioso, há uma atmosfera teatral que não fica atrás das mais notáveis tragicomédias gregas: há um roteiro (a Bíblia), personagens (os anhos), enredo (a vida), riso (a adoração), pranto (o desencanto), atores (os seres humanos), palco (o mundo) e encenação (o meio social). Paralelamente a esse fato, não é de se admirar que ainda hoje temos a conservação do artifício Deus ex machina a resolver dificuldades lógicas aparentemente insolúveis: quando diante de uma lacuna abismal, o que espera o crente a não ser a manifestação de seu deus, emaranhado no cordame que o desce até a ribalta para que conecte os pontos e traga nexo à estória de sua existência?

Nas querelas entre irreligiosos e religiosos, de modo mais — ou menos — previsível, muito do que se debate não passa de discussão inócua, ação de zigue-zagues retóricos em que, pela via do discurso, os advogados de Deus espalham suas caganitas argumentativas. Curiosamente, conclusões são alcançadas; conclusões que não têm o desejo de serem logicamente válidas, mas sim a pretensão de durar, para o bem — como acredita — ou para o mal — como ocorre. Os crentes e seus ataques especulativos são, pois, uma espécie de páreo de caramujos às voltas com o defeito da alienação; são portadores de uma doença crônica que espalha suas chagas pelo ar, disseminando raciocínios que, conquanto incoerentes, sempre seduzem os anêmicos; são, para resumir, arautos da fé que inevitavelmente empregam, nas discussões, a má-fé (uma expressão que poderíamos considerar como redundante).

DIAZ, Daniel Martin. Deus ex machina. Óleo sobre madeira. s/d.

Se atualmente resgata-se a artificialidade dessa espécie de desfecho explicativo absurdo — útil às artes cênicas, mas leviano nas artes reais —; se dificilmente podemos evitar que empreguem tal intervenção; se, diante da realidade, não nos é possível refutar a tese freudiana de que é impraticável ao homem viver apartado de sua crença, pois “a ilusão é estrutural e ineliminável”1, ao menos façamos o que nos é possível e rebatizemos o conceito com a denominação de Deus ex illusione (“Deus surgido da ilusão”), a fim de evidenciarmos com maior precisão a índole de seu uso por aqueles que não sabem ser outra coisa senão marionetes.

Esperamos, no entanto, que não contem com nossos aplausos.

*   *   *

Notas

  1. FREUD, Sigmund. “Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung”. In: Obras Completas. V. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

Enganar-se é aceitável? Ampliemos um pouco nosso contexto: dizer a verdade é aceitável? Ser sempre indiscriminadamente honesto não chegaria a ser imoral? Até mesmo estúpido? Por exemplo, imaginemos que estejamos diante de um paciente terminal. Ele nos pergunta se vai morrer; respondemos que sim, e não tardará muito; ele nos pergunta se alguém chorará por sua morte; pensamos em dizer algo confortante, mas lembramos nosso compromisso com a verdade, sendo forçados a confessar que não, ninguém o amava; morrerá como viveu, sozinho, e depois será esquecido. Nesse caso, que benefícios há na verdade? Ao que parece, nenhum; há apenas um sentimento de honra, semelhante ao de um guerreiro que morre com as armas em punho e os dentes cerrados. A diferença é que não há guerra alguma acontecendo.

Claro que a verdade pode ser muito útil. Por exemplo, para alguém que depende da lucidez para ser mais competitivo no mundo, a razão pode se justificar como uma ferramenta de sobrevivência. Nunca estar errado é um ótimo meio de assegurar que venceremos todas as disputas possíveis. Aqui, por mais que a verdade pareça desagradável, ela cumpre um fim; sentimo-la como uma feroz aliada, e torna-se temível um homem que jamais se engana. Contudo, todo pacto com um demônio tem seu preço. E o preço de uma temível honestidade é não termos controle sobre ela. Seremos honestos, doa a quem doer, como bestas selvagens da racionalidade. Isso não parece um compromisso exagerado? Porque, para além do exemplo acima, a verdade tem pouca utilidade; mais ainda, quando voltada ao nosso íntimo, ela parece um fardo, mostrando-nos uma realidade que nunca conseguiremos aceitar plenamente. Então por que permanecemos de olhos abertos diante de uma vista que nos horroriza? Não seria possível a perturbadora ideia de termos nascido sem pálpebras? Pois não sabemos dizer por que somos assim; até onde podemos perceber, não parece ter sido uma escolha.

É comum pensarmos que, se alguém atravessa a vida manifestando essa honestidade quase heroica perante o mundo, deve haver nisso algum motivo, já que, se não houvesse benefício algum, seria mais fácil simplesmente inventar qualquer teoria espúria para o mundo e dormir dentro dela. Mas, para nós, realmente seria mais fácil? Aqueles que se sentem irresistivelmente atraídos pela verdade podem escolher enganar-se? Não é essa integridade uma espécie de vício que, por acaso, tem o rótulo de virtude? Por isso mesmo, tal inépcia não deveria ser vista como um tipo de fraqueza, como uma incapacidade de mentir suficientemente bem? Enfim, uma sobriedade nascida não da coragem, mas da incompetência. Gostaríamos de ter medalhas por permanecermos acordados, mas tudo o que temos é insônia.

Se fôssemos livres, se pudéssemos escolher, qual seria a situação mais desejável? Idealmente, pensando na diminuição da dor e no aumento do sucesso, a lucidez deveria ser total para o lado de fora — para o mundo social competitivo — e mínima para o interior, para nossas vidas pessoais. O problema é que não conseguimos fechar os olhos quando, ao fim do dia, voltamos para casa; somos vítimas disso que podemos descrever como um desassossego intelectual. Desnecessário dizer que essa lucidez que não consegue controlar-se causa uma grande quantidade de sofrimento, que seria facilmente evitável se conseguíssemos escolher quando abrir ou fechar os olhos. Mas não conseguimos, e talvez apenas por isso sejamos honestos. Permanecemos absolutamente sinceros, mas não entendemos muito bem o porquê. Não se trata de virtude; seríamos os últimos a negá-lo. Parece uma lealdade verdadeiramente cega ao Inútil.

CIORAN, Emile. Breviário de decomposição. Trad. José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
PESSOA, Fernando. O livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.