Dentre as inúmeras características que possui a deidade cristã, três se destacam: a onipresença, a onisciência e a onipotência. Em todos os casos, o radical “oni” deriva do latim omni, que significa literalmente “todos”, tornando-se dispensável explicar o seu significado. O que chama atenção é o poder que este prefixo romano atribui às palavras, dando-lhes propriedades que vão muito além da nossa imaginação.

Mas, então, de onde surgiram tais ideias? E para que servem?

Por volta de 1780, o jurista e filósofo inglês Jeremy Bentham elaborou uma teoria que, a priori, seria aplicada no sistema prisional, a qual deu a alcunha de panóptico (neologismo que deriva das palavras gregas pan, significando “todos” ou “por todos os lados”, e opticon, que significa “vigiado”, “observado”). Para o pensador, a sensação de estar sendo constantemente observado geraria um controle inigualável sobre o comportamento dos apenados. É importante frisar que os presos não necessariamente estariam sendo observados constantemente, mas era preciso suplantar em seus corações tal receio.

Panóptico

Esta mesma ideia foi, mais tarde, explorada por dois notórios escritores: Aldous Huxley, em seu romance Admirável mundo novo, e George Orwell em 1984. Em ambos os livros, de formas diferentes, o controle excessivo provocado pela vigilância estatal provoca a submissão desmedida e acaba por tornar-se mecanismo de padronização, anulando as individualidades. Para ser justo, é preciso dizer que ambos os livros vão além, como a exploração do controle através da sexualidade, o proposital empobrecimento vernacular e controle mediocrático, como forma de alienação em massa. Todos esses elementos combinados criaria uma sociedade de marionetes biológicas.

Em todos esses exemplos observamos uma similaridade sem precedentes com a ideia civilizatória cristã, apregoada pelo constante medo de estar sendo observado pelo big brother celestial, que nos julgará por cada pequena ação. Através da constante tensão ocasionada pela vigília desta deidade, as autoridades religiosas acabam por assumir uma papel paternalista, de guia espiritual capaz de redimir os pecados espiados por deus.

Há de se convir que tal forma de controle é extremamente eficiente, e o medo da observância é suficiente para que os fiéis se deixem controlar pela ideia panóptica de Bentham. Huxley e Orwell apenas reproduziram em suas obras modelos que já vem sendo explorados há milênios, e com grande sucesso. O Estado (aqui representado pela igreja) controla cada pensamento, dita as verdades e planta medo na população.

E assim como no livro 1984 o personagem O’Brien, representante do Partido, tenta fazer com que Winston afirme, através de torturas, ver quatro dedos onde na verdade existem cinco, os fieis são constantemente atormentados com o medo do inferno, e com o julgamento de suas ações pelo Rex Tremendae [1], tornando-se incapaz de discernir ficção de realidade.

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  1. Referência ao trecho do Requiem católico, no qual constantemente deus é posto como um rei absoluto, que julgará todas as coisas:

Quantus tremor est futurus/Quando judex est venturus/Cuncta stricte discussurus. – Quanto temor haverá então/quando o juiz vier/E julgar rigorosamente todas as coisas.

Lacrimosa dies illa/Qua resurget ex favilla/Judicandus homo reus. – Dia de lágima será aquele/No qual surgidos das cinzas/Os homens serão julgados como réus.

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3 Comments

  1. Muito bom. Lembro da primeira vez que eu li o admirável mundo novo, por obrigação imposta por um professor, eu não havia entendido nada, . dois anos depois quando entrei no ensino médio eu retomei a leitura e tudo começava a fazer sentido, quase as mesmas reflexões que você postou aqui.

  2. É isso aí. Controle da mente. Venho estudando profundamente a exploração do complexo R, a aplicação de arquétipos através de mitos, e possíveis códigos de mensgens subliminares nos métodos de doutrinação e nos textos chamados sagrados não só do cristianismo mas principalmente dos judaicos, que creio terem sido copiados pelo cristianismo romano. Quase que os mesmos métodos tenho encontrado no Islamismo. O que me espantou não foi nem os métodos discaradamente utilizados, mas, descobrir como é que homens tão antigos já conheciam a criptologia,a PNL(programação Neurolingüística,a hipnose em massa,e a linguagem subliminar,seria então um engano se referir a essas tecnologias como um produto da modernidade, mas uma tecnologia milenar, talvez fosse mais correto dizer que são produtos rescem divulgados ao público.Então esses segredos(tecologia)eram muito bem guardados pelas escolas de mistérios, essa era a sabedoria que só reis sacerdotes e militares teriam acesso, mantendo a hegemonia da dinastia vigente. O sagrado(aspécto místico seria um pano de fundo) teria sido criado para esconder o profano(controle da mente)?
    ZRM
    http://antiteismoportal.blogspot.com

  3. muito interessante essa sua idéia, inclusive a minha tese levanta essa questão, de que o panóptico é uma imago da onipresença, só que a nível visual (omnividência); desde que a oniaudiência, confessional, auricular, era já praticada pela igreja medieval, que como sabemos, foi a inventora do inquérito. Que grande poder têm, nessa civilização panóptica, as “imagens” visuais filmografadas!Não é toa que, segundo Gilbert Durand, nos EUA, país iconoclasta, o cinema tenha se transformado em neoidolatria…Sugiro que você prossiga nas suas reflexões, têm talento para pesquisador. Boa sorte!