Este é o meu terceiro texto sobre o assunto “morte”. Pode até parecer que estou batendo na mesma tecla, mas é que o tema é complicado.
Complicado, porém não complexo. Temos dificuldade em aceitar a morte, pois ela parece fria demais. Mas compreender é fácil. Aliás, morte é um fenômeno desconcertantemente simples.

Nos textos anteriores, falei de como a ilusão da vida eterna era tentadora e da visão de um ateu sobre a eternidade. Mas não cheguei a falar da morte em si. Sempre quis falar da morte, pois existe uma ideia muito triste e negativa dela. Morte, no conceito popular, atrai ideias como:

Tudo o que está sobre este prato foi vivo algum dia. Essa é apenas uma maneira apetitosa de se enxergar a morte.

defunto, velório, caixão, escuridão, frieza, tristeza, perda, algodãozinho nas narinas, túmulo, despedida, enterro, herança (se for rico), saudade e mais tristeza. Muita tristeza, pois morte seria algo triste. Esse texto é um esforço meu para mostrar um lado mais amplo do conceito “morte” que, antes de ser triste, é bem irônico e simples.

Simples, pois entendemos “morte” como o término da vida. Esta última sim, é complexa. A vida é o inexplicável fenômeno da ordem surgindo e se sustentando em meio ao caos, é a reprodução e perpetuação, é a transformação rápida e explosiva, é o casulo da consciência. É o aglomerado de moléculas ricas em carbono, hidrogênio e oxigênio, entre outros. Moléculas essas muitíssimo mais complexas do que qualquer outra já encontrada. E a morte é o fim de tudo isso. Banalmente simples.

Sob o ponto de vista de um indivíduo que ama a própria vida, a morte parece inconcebível. Mas se formos imaginar uma entidade capaz de analisar o mundo tal como é e filosofar sobre ele, a vida certamente a assustaria muito mais. Os olhos da suposta entidade correriam pelo universo avistando estrelas, planetas, cometas, buracos negros, tudo isso intermediado por longos períodos de um vazio imenso. Depois de milhões de anos essa entidade pensadora certamente estaria muito entediada. Mas, se por alguma improbabilidade histórica, ela viesse a repousar seus olhos sobre a Terra e ver o que paira sobre sua superfície, tenho certeza de que ficaria chocada. Suas minúcias, seus milagres, sua rapidez a deixariam perguntando “o que diabos é isso que está na superfície, afinal?”. Sequer repararia que essas criaturas morrem algum dia. Coisa prosaica é estar morto, sem consciência, sem graça, sem ação. Certamente seriam necessários outros milhões de anos para digerir a ideia de que existe vida. Coisa que não seria necessário para entender a morte; afinal, aquela coisa inexplicável se tornou mais parecida com tudo o que ele tinha visto durante milhões de anos.

Edelgard, antes e depois do falecimento. Fotografia de Walter Schel.

Mas tem algo de irônico na morte. Entendendo a morte como a perda da vida, fica a impressão de que uma é o oposto da outra. Uma ideia mais engraçada do que parece, à primeira vista. Schopenhauer, em uma observação muito perspicaz, certa vez assim disse: “(…) Após a morte você será o que era antes de nascer.”*. A menos que você tenha péssimas lembranças de sua época “pré-vida”, a morte não parece ser algo tão ruim assim. Enquanto a vida é um espectro que abrange desde o sofrimento angustiante ao prazer intenso, a morte é tranquila, neutra. Nem mais, nem menos. Sem felicidade, sem tristeza, sem prazer, sem dor, sem glória, sem fracasso, sem amor nem ódio, ganhos ou perdas. Estar morto é, antes de tudo, atingir a paz. “Paz” é a palavra que se associa a “morte” de maneira mais adequada. Muito mais adequada do que “defunto” e “tristeza”, por exemplo. Até porque a tristeza fica por parte dos entes queridos que se mantiveram vivos, o morto não sente nada.

Aliás, a paz me lembra outro ponto irônico relacionado à morte. Havia lido em algum lugar que “neste milênio a humanidade atingirá a paz eterna”. Sim, era alguma bobagem esotérica. Mas a relação morte-paz me fez pensar mais fundo sobre essa mensagem. De repente, ela não me pareceu tão inatingível assim. Não consigo pensar em outro tipo de paz plena para humanidade que não consista em um extermínio em massa.

Falei algumas ironias sobre a morte e tentei enfatizar que ela é mais banal do que triste. Em resumo, tudo o que eu fiz até agora foi menosprezá-la. Mas estaria sendo injusto. A grande ironia da morte também é o seu aspecto mais importante. Como eu disse, a vida vista como um bem pessoal parece ser o extremo oposto da morte. Mas a morte tem um papel diferente para a vida de uma maneira geral, a vida como o fenômeno global que consiste em plantas, animais, fungos e certos microorganismos se reproduzindo constantemente. Ecologicamente falando, a morte não é o oposto, mas sim parte constituinte e fundamental da vida. Morrer é abrir espaço, transferir energia, servir de comida, ferramenta ou até mesmo lar. É dar a oportunidade a outros. Não reclame da morte, se não fosse por ela, você sequer teria nascido. Não haveria recursos, espaço para que alguém como você surgisse e se prosperasse. Em outras palavras, morrer é bem importante… Para a vida, é claro.

Esquema representando uma carcaça de baleia. Uma morte representando vida em exuberância.

*SCHOPENHAUER, Arthur. “On the indestructibility of our essential being by death“, 2. In: ______. Essays and aphorisms. Trad. de R. J. Hollingdale. Londres: Penguin Books, 1970, p. 67.

Morte:

  1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
  2. O breve e o eterno
  3. A simplicidade inconcebível
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10 Comments

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 18 de fevereiro de 2010 at 4:04
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    Ótimo texto.

    De fato Dudu, temos sim dificuldade em aceitar a morte, ateus ou religiosos. Temos medo de acabar o nosso tempo de vida, temos medo de perder aqueles que amamos…a morte ainda parece fria e misteriosa, e é difícil aceitar a realidade biológica: a morte gera vida, e todo fim possibilita um novo começo.

    É mesmo difícil aceitar que aquele corpo de um determinado corpo, a vida se expirou, e agora resta apenas a matéria em decomposição (ou seria recomposição?). Entretanto, para alguns, por mais difícil que seja aceitar a realidade (e nunca nos enganamos quanto a isso, todos nós conhecemos o nosso destino), não parece razoável criar paraísos imaginários, para que a ilusão nos sirva de consolo. Como comentou o Tomaz, no seu texto anterior, para mim também a morte serve como eterna lembrança de que só nos resta essa vida, e por isso devemos aproveitar o máximo dela.

    Talvez muito da problemática religiosa gire em torno do medo do além-tumulo, e das fantasias que se criou em torno disso. Como disse Dawkins uma vez: “nós vamos morrer, e isso faz de nós especiais. A maioria das pessoas nunca vão morrer, pois nunca nascerão (…)”.

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 18 de fevereiro de 2010 at 9:33
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    Não é apenas a morte que é algo complexo de ser entendido. A própria vida é algo que não conseguimos compreender plenamente.

    Se as pessoas não conseguem nem sequer encontrar um significado para a vida, quando mais sobre a morte. Que ainda nem aconteceu para essas pessoas.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 18 de fevereiro de 2010 at 14:36
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    Gustavo

    Na verdade, a vida é que é absurdamente complexa. A morte é simples, é o fim da vida.

    Entender a morte é fácil. Aceitá-la é que é difícil.
    Quando eu vejo alguém que morreu em algum acidente de carro, por exemplo, com apenas 25 anos, eu tenho uma dificuldade enorme em aceitar isso. 25 anos!
    De vez em quando a pessoa em questão tinha uma vida inteira pela frente, poderia ter aproveitado tanto… E sua vida se interrompe de uma maneira estúpida dessas.

    A idéia de que vou morrer um dia me desagrada um bocado. Mas eu não consigo me iludir. É uma pena…

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 18 de fevereiro de 2010 at 16:42
    • Permalink

    Entendo que essa discussão sobre vida ou morte passa pela compreensão do que seja consciência. Para mim, vida e morte são igualmente complexas. Pq seria como absorver o conceito de inicio e fim da consciência. Se é que ela existe.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 18 de fevereiro de 2010 at 23:50
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    Pô Dudu, 23:39 agora…aqueles “seres” mortos no prato da foto me deram uma fome danada! ahahahahahaha…

    Muito bom o texto. Tratar este assunto é desafiador. Parabéns!!

  1. Cara, você tem se mostrado um especialista no assunto morte, a cada texto se superando.hehe
    Parabéns!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 20 de fevereiro de 2010 at 0:18
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    Hehehehe.

    Agradeço aos elogios.

    Mas veja só, Ricardo. Veja como a morte pode ser facilmente traduzida em felicidade! Ao menos felicidade gastronômica.

    • Lari
    • Posted 20 de fevereiro de 2010 at 22:19
    • Permalink

    Muito bom o texto, Dudu. Gosto da maneira como vc expõe um assunto tão “delicado” mostrando o quanto é natural.

    Mas quanto ao comentário de ser uma pena não se iludir… discordo. Já que vc não tem ilusões pra alimentar, pode passar o seu tempo de outras maneiras mais “construtivas” :P

  2. A meta de todas as religiões é o controle de massas, afirmando que existe alguma coisa após a morte, onde você será julgado por todos os seus atos em vida.
    Porque é desta forma ? ao longo da existência da humanidade, vários questionamentos tiveram como contrapartida respostas baseadas em argumentos que atendessem a todas as situações com argumentos inteligentemente calculados tipo.

    O que cria a necessidade de uma justiça divina após a morte ?

    1- na experiência de vida das pessoas, de uma forma geral, vê-se que muitos indivíduos cometem atrocidades e maldades e, a princípío nada lhes acontece em vida, a não ser a justiça dos homens que é falha.
    2- Assim sendo, há necessidade de se incultir algun terror na mente das pessoas, senão a barbárie seria desenfreada, e mesmo assim, com todo esse terror, as pessoas ainda continuam a cometer maldades, pouco se lixando para ao que vai ocorrer após a morte.
    De uma forma geral, existe uma matriz de comportamentos que nos é passada desde nosso nascimento por nossos pais e pelas pessoas que nos cercam, alem do que já vem conosco no DNA. Se você nascesse em uma tribo de canibais, comeria os prisioneiros na maior naturalidade, só existindo uma lei, a lei da sobrevivência e esta lei é ficar vivo.
    Entretando, e diante disso tudo, eu particularmente creio que um homem não precisa se um grande gênio para falar sobre qualquer assunto, porque no universo tudo pode ser explicado com um pouco de conhecimento e por analogia; e na minha forma de pensar, faço a seguinte proposição. Chego em casa em um estado de consciência desperta, tomo banho deito em minha cama e deixo a consciência de lado entrando em um estado de sono profundo, nesse estado deixo de existir como ser consciente. Após 8 horas acordo e passo a existir de novo, inclusive com a lembrança de que me deitei e acordei no mesmo local.
    Morrer é deitar aqui e acordar em outra realidade ! com certeza é isso que acredito.

    • Wilson Ramiro
    • Posted 29 de março de 2011 at 21:56
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    A foto da Edelgard é sinistramente interessante…

    Ainda em vida, ela já parecia ter duas visões do futuro, cobrindo a metade direita do rosto, na foto, me pareceu ser alguém com seus conceitos de vida e morte ainda sustentando sua segurança, cobrindo a parte esquerda do rosto, a pessoa que aparece, me pareceu muito diferente, não só na segurança quanto fisicamente, mas o que achei mais interessante é depois sem cobrir nenhuma parte do rosto, ainda assim ver os dois rostos, e compará-lo ao rosto morto. Creio que a reflexão sobre a morte pode nos ensinar muito sobre a vida.


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  2. By Morte – o breve e o eterno on 20 maio 2011 at 4:39 pm

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