Enganar-se é aceitável? Ampliemos um pouco nosso contexto: dizer a verdade é aceitável? Ser sempre indiscriminadamente honesto não chegaria a ser imoral? Até mesmo estúpido? Por exemplo, imaginemos que estejamos diante de um paciente terminal. Ele nos pergunta se vai morrer; respondemos que sim, e não tardará muito; ele nos pergunta se alguém chorará por sua morte; pensamos em dizer algo confortante, mas lembramos nosso compromisso com a verdade, sendo forçados a confessar que não, ninguém o amava; morrerá como viveu, sozinho, e depois será esquecido. Nesse caso, que benefícios há na verdade? Ao que parece, nenhum; há apenas um sentimento de honra, semelhante ao de um guerreiro que morre com as armas em punho e os dentes cerrados. A diferença é que não há guerra alguma acontecendo.

Claro que a verdade pode ser muito útil. Por exemplo, para alguém que depende da lucidez para ser mais competitivo no mundo, a razão pode se justificar como uma ferramenta de sobrevivência. Nunca estar errado é um ótimo meio de assegurar que venceremos todas as disputas possíveis. Aqui, por mais que a verdade pareça desagradável, ela cumpre um fim; sentimo-la como uma feroz aliada, e torna-se temível um homem que jamais se engana. Contudo, todo pacto com um demônio tem seu preço. E o preço de uma temível honestidade é não termos controle sobre ela. Seremos honestos, doa a quem doer, como bestas selvagens da racionalidade. Isso não parece um compromisso exagerado? Porque, para além do exemplo acima, a verdade tem pouca utilidade; mais ainda, quando voltada ao nosso íntimo, ela parece um fardo, mostrando-nos uma realidade que nunca conseguiremos aceitar plenamente. Então por que permanecemos de olhos abertos diante de uma vista que nos horroriza? Não seria possível a perturbadora ideia de termos nascido sem pálpebras? Pois não sabemos dizer por que somos assim; até onde podemos perceber, não parece ter sido uma escolha.

É comum pensarmos que, se alguém atravessa a vida manifestando essa honestidade quase heroica perante o mundo, deve haver nisso algum motivo, já que, se não houvesse benefício algum, seria mais fácil simplesmente inventar qualquer teoria espúria para o mundo e dormir dentro dela. Mas, para nós, realmente seria mais fácil? Aqueles que se sentem irresistivelmente atraídos pela verdade podem escolher enganar-se? Não é essa integridade uma espécie de vício que, por acaso, tem o rótulo de virtude? Por isso mesmo, tal inépcia não deveria ser vista como um tipo de fraqueza, como uma incapacidade de mentir suficientemente bem? Enfim, uma sobriedade nascida não da coragem, mas da incompetência. Gostaríamos de ter medalhas por permanecermos acordados, mas tudo o que temos é insônia.

Se fôssemos livres, se pudéssemos escolher, qual seria a situação mais desejável? Idealmente, pensando na diminuição da dor e no aumento do sucesso, a lucidez deveria ser total para o lado de fora — para o mundo social competitivo — e mínima para o interior, para nossas vidas pessoais. O problema é que não conseguimos fechar os olhos quando, ao fim do dia, voltamos para casa; somos vítimas disso que podemos descrever como um desassossego intelectual. Desnecessário dizer que essa lucidez que não consegue controlar-se causa uma grande quantidade de sofrimento, que seria facilmente evitável se conseguíssemos escolher quando abrir ou fechar os olhos. Mas não conseguimos, e talvez apenas por isso sejamos honestos. Permanecemos absolutamente sinceros, mas não entendemos muito bem o porquê. Não se trata de virtude; seríamos os últimos a negá-lo. Parece uma lealdade verdadeiramente cega ao Inútil.

CIORAN, Emile. Breviário de decomposição. Trad. José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1989.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
PESSOA, Fernando. O livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

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4 Comments

    • Wallace
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 10:21
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    De fato, a honestidade completa levaria a muito mais problemas que a desonestidadezinha de cada dia.
    Sem mentir pra nós próprios constantemente, muitos, nem estariam aqui, pois talvez fosse último lugar em que quíséssemos estar, como acontece comigo.
    Mas enquanto estiver em muito lucro com o corpo, vale a pena esse prejuízo pequeno com a alma (ou mente, ou Eu, do que quer que vc a chame), ela é resistente. Ele não será muito duradouro, e dá pra se entorpecer os pensamentos de que estou perdendo tempo precioso fazendo algo completamente vazio com o assalto da mente pelos barulhos da sociedade…

    • Wallace
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 10:26
    • Permalink

    Ops, esqueci de adicionar: um elogio aos titulos interessantes dos seus textos, são bem bolados. ;)

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 11:48
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    Pior que sim.

    Essa sinceridade do cético é muito mais uma incapacidade de se enganar do que uma virtude em lutar pela verdade.

    Luta-se pela verdade devido a dificuldade em se conviver com mentiras. Muitas delas bem confortáveis.

    • Renata Osti
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 12:23
    • Permalink

    A mentira não é um demônio.
    Muitas vezes é preciso saber calar. Outras vezes é preciso dizer, mas não a verdade. Instala-se a mentira ? Não. Digo isso porque as questões envolvidas vão muito além da verdade e da mentira. No juízo que se faz de uma situação há que se considerar não apenas “a lealdade consigo mesmo”.