Nas linhas a seguir, proporemos (mais) um agravo contra o modo de pensar religioso. Para tanto, tematizaremos nosso discurso a partir do conceito de Deus ex machina (em tradução literal, “Deus surgido da máquina”). A expressão latina advém do grego clássico (ἀπὸ μηχανῆς θεός), tendo sua origem no teatro helênico. Referia-se a um artificial, improvável, imprevisto elemento cênico, evento ou personagem inserido repentinamente em uma peça a fim de resolver o emaranhado da trama teatral.

No teatro grego, sobretudo nas tragédias de Eurípedes, havia muitas peças que, ao invés de serem concluídas com eventos humanamente possíveis, reais, concluíam-se com o surgimento de um deus que descia ao local da encenação por meio de um dispositivo rústico, parecido com uma grua. Esse deus, então, conectava todas as pontas soltas da história, explicando um ou outro acontecimento, de maneira que tal intromissão inesperada tinha o intuito de garantir o nexo da peça. Atualmente, aplica-se a expressão para apontar o desenvolvimento de uma história na qual não se leva em consideração sua coerência interna, sendo, pois, inverossímil o suficiente para que o autor termine-a com uma circunstância improvável — ainda que, na ficção, mais tolerável.

Tendo-se em mente os traços histórico-culturais acima, voltemos agora ao nosso século. Se nos for permitida uma comparação, podemos dizer que, no universo religioso, há uma atmosfera teatral que não fica atrás das mais notáveis tragicomédias gregas: há um roteiro (a Bíblia), personagens (os anhos), enredo (a vida), riso (a adoração), pranto (o desencanto), atores (os seres humanos), palco (o mundo) e encenação (o meio social). Paralelamente a esse fato, não é de se admirar que ainda hoje temos a conservação do artifício Deus ex machina a resolver dificuldades lógicas aparentemente insolúveis: quando diante de uma lacuna abismal, o que espera o crente a não ser a manifestação de seu deus, emaranhado no cordame que o desce até a ribalta para que conecte os pontos e traga nexo à estória de sua existência?

Nas querelas entre irreligiosos e religiosos, de modo mais — ou menos — previsível, muito do que se debate não passa de discussão inócua, ação de zigue-zagues retóricos em que, pela via do discurso, os advogados de Deus espalham suas caganitas argumentativas. Curiosamente, conclusões são alcançadas; conclusões que não têm o desejo de serem logicamente válidas, mas sim a pretensão de durar, para o bem — como acredita — ou para o mal — como ocorre. Os crentes e seus ataques especulativos são, pois, uma espécie de páreo de caramujos às voltas com o defeito da alienação; são portadores de uma doença crônica que espalha suas chagas pelo ar, disseminando raciocínios que, conquanto incoerentes, sempre seduzem os anêmicos; são, para resumir, arautos da fé que inevitavelmente empregam, nas discussões, a má-fé (uma expressão que poderíamos considerar como redundante).

DIAZ, Daniel Martin. Deus ex machina. Óleo sobre madeira. s/d.

Se atualmente resgata-se a artificialidade dessa espécie de desfecho explicativo absurdo — útil às artes cênicas, mas leviano nas artes reais —; se dificilmente podemos evitar que empreguem tal intervenção; se, diante da realidade, não nos é possível refutar a tese freudiana de que é impraticável ao homem viver apartado de sua crença, pois “a ilusão é estrutural e ineliminável”1, ao menos façamos o que nos é possível e rebatizemos o conceito com a denominação de Deus ex illusione (“Deus surgido da ilusão”), a fim de evidenciarmos com maior precisão a índole de seu uso por aqueles que não sabem ser outra coisa senão marionetes.

Esperamos, no entanto, que não contem com nossos aplausos.

*   *   *

Notas

  1. FREUD, Sigmund. “Conferência XXXV: A questão de uma Weltanschauung”. In: Obras Completas. V. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
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9 Comments

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 2:03
    • Permalink

    T.h., seus textos são sempre sagazes e pertinentes, invejo a sua eloquencia a tratar de assuntos tão variados…ora triviais, ora complexos em demasia. Sentirei falta desses textos, alias sua presença no fórum e nesta revista deixará uma grande lacuna. Ainda tenho esperanças de que essa situação se reverta. Sua abordagem lucubras é insubstituível e outros bom textos virão de novos autores, mas estas leituras semanais que se mostram verdadeiras aulas de literatura e de filosofia/teatrologia grega já não mais farão parte desse espaço. Uma pena, algo verdadeiramente lamentável. Mas como disse, ainda tenho esperanças de que isso seja uma situação temporal.

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 10:55
    • Permalink

    Gostei bastante desse texto mesmo. Confesso que em alguns, a linguagem rebuscada acaba desviando um pouco a minha atenção do conteúdo. Não foi o caso desse.

    Que que passa?

    • Renata Osti
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 11:43
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    Perfeito.
    Simplesmente um texto perfeito em todos os aspectos.

    • Joanna DArc
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 17:16
    • Permalink

    TH, TH…

    Eu só consigo chorar… :(

    • Deia
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 18:08
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    Excelente texto th !! Nem todas as palavras que existem no mundo poderiam expressar a admiração que tenho por voce ! Sua falta nesse espaço será insubstituivel !! Um grande abraço,
    Deia

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 22 de fevereiro de 2010 at 18:15
    • Permalink

    Que texto bem montado. Que leitura agradável, sofisticada e objetiva (e “venenosa”).

    Repito o que já escrevi em outra ocasião a respeito dos textos do Thiago: eles deveriam extrapolar a revista eletrônica e serem inseridos como artigos nos jornais de grande circulação para atingir o maior número possível de leitores no país. Se por um lado iria chocar, irritar e enfurecer muitos crentes, por outro iria abrir uma “avenida” para os milhões de brasileiros indecisos (covardes?!?!) tentarem encontrar um caminho mais lógico e racional.

    TH, sabe perfeitamente sobre meu respeito e compreensão pela sua decisão em não escrever mais para nós, mas isso não exclui o profundo lamentar da minha parte.

    Espero poder voltar a ler artigos seus, seja aqui ou em outro local, o mais breve possível.

  1. Realmente, para quem vive de ilusões a verdade é um tapa na cara. Seria muito bom que textos elucidativos fossem regras no emaranhado internet, mas não é.

    T.H. espero que pense no quanto de vidas suas publicaçoes deixarão de afetar. Tenha em mente que cada texto seu equivale a zilhões de neuronios, de N pessoas, saindo da dormencia para ir a atividade.

    Suas idéias são muito importantes, espero que continue seu trabalho fantastico.

    • Rubens
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 0:25
    • Permalink

    Nem preciso elogiar a competencia e sagacidade do t.h. enquanto profissional na área de humanas. Mas gostaria que ele fizesse um último texto mostrando a frieza que “a rede” proporciona em um momento destes, pois apesar de não poder conhecê-lo (pessoalmente inclusive) se não fosse tal tecnologia, fez falta um encontro para tentar mudar a situação. Contudo não pesaria sobre os foristas o sentimento de impotencia causado pela ausencia virtual.

    • Cauê Beloni
    • Posted 28 de fevereiro de 2010 at 18:50
    • Permalink

    Muito boa comparação da arte teatral com a arte da vida; Espero ler mais do autor nesta revista. Abraço.