I

Tenho um ótimo negócio para você: um fusca por cem reais. Ok, talvez você nem esteja procurando um carro pra comprar no momento, e se estiver muito provavelmente nem é um fusca, que há tempos deixou de ser um sonho de consumo quando se fala de automóveis. Mesmo assim é uma oferta tentadora, aparentemente tão generosa que cabem perguntas a respeito. É de brinquedo esse fusca? Eu respondo: não, é um automóvel de verdade, desses em que você entra, dá a partida e pode sair dirigindo. É regular? Qual o estado de conservação? É totalmente regular, a documentação está em meu nome, e zero quilômetro, sem nenhuma avaria e totalmente funcional.

Agora ficou ainda mais estranho. É muito improvável haver um fusca zero quilômetro à venda. Desde 2003 não se fabricam mais, isso no mundo todo. E alguém que conservou um sem andar e em perfeitas condições normalmente pediria mais de cem reais por ele. Você nem estava procurando um fusca, mas a oferta é inegavelmente tentadora, se for verdadeira. As minhas condições para a venda são bem simples: preciso dos cem reais hoje ainda, mas só posso entregar o carro daqui a um mês. Não é nada realmente incômodo para um negócio tão bom. Tudo bem, as condições são aceitáveis, mas como é possível – e até muito provável, dada a generosidade da oferta – que você entregue o dinheiro e nunca receba o fusca, é bom ter algumas garantias. Pode ser, digamos, firmar o contrato de compra e venda, registrar em cartório, e pedir documentos que comprovem a existência do carro, a regularidade da documentação, e ainda que deem uma razoável certeza de onde eu possa ser encontrado daqui a um mês. Curioso é que, nesse caso, talvez se gaste mais com a comprovação disso tudo do que os cem reais pedidos pelo fusca. Mas mesmo assim o negócio ainda é muito bom.

Até aqui eu devo ter prendido a sua atenção ao negócio e, possivelmente, o seu interesse em fechá-lo. Basta agora convencê-lo de que ele é verdadeiro. Se está interessado em fechá-lo, é porque gostaria que fosse. Eu não ofereço a comprovação da forma como você pediu. Não tenho agora a documentação do carro, nem a minha que pode indicar onde eu poderei ser encontrado com razoável certeza. Em vez disso, ofereço o seguinte: você quer que o negócio seja verdadeiro, não é? Pois se acreditar bastante, se acreditar verdadeiramente, ele será.

Nesse ponto eu já espero, sinceramente, que você perceba que toda essa conversa é um grande papo furado, que eu não tenho fusca nenhum pra vender e, se tivesse, não deveria vendê-lo por cem reais. Mais do que isso, espero que não fique tentado a dar os cem reais apostando na chance de eu estar falando a verdade, já que “não é tanto dinheiro assim”, dependendo do seu ponto de vista.

É flagrante a diferença entre a forma como a maioria das pessoas pensa sobre questões da vida prática e questões religiosas. Essa diferença é, na verdade, questão crucial para boa parte das religiões, em especial as religiões populares no Brasil. É bem aceita a ideia de que é uma boa coisa alertar pessoas próximas – seja na educação de filhos, ou em conversas com pais, marido ou esposa, ou amigos – para que não sejam ingênuas a ponto de querer comprar um fusca por cem reais. E chega a ser ofensivo pedir o mesmo raciocínio, fazer exatamente o mesmo alerta, quanto a assuntos religiosos.

Na educação religiosa, somos orientados desde pequenos a ter fé. E, quando questionamentos surgem em nossas cabeças, a orientação é ter mais fé. Fé, não escondem os religiosos, é acreditar mesmo diante da ausência de evidências. Fé foi o que eu pedi na minha (espero) malsucedida negociação do fusca. O que você diria se eu pedisse mais fé?

E por 90, vai?

 

O argumento da fé
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13 Comments

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Dan Quintão
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 0:38
    • Permalink

    Boa jogada, Sérgio! Eu nunca pensei numa comparação tão direta e cômica como essa.
    Gostaria que muito daqueles fiéis “bitolados” lessem este seu texto (quem sabe não dá uma “luz”, né?).
    Só uma pergunta: Por 90 eu topo, mas só se o dízimo, digo, a parcela, for de 10 vezes no carnê…

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Dan Quintão
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 1:13
    • Permalink

    Errata: “pergunta” troca por “observação”.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 2:04
    • Permalink

    Hehehe

    Excelente texto.

    A analogia foi muito boa!
    Só ressalto que, para muitas religiões, existe uma punição (que também exige fé) para aqueles que não aceitam os seus dogmas.
    Coisa que não existe na venda do fusca.

    Ou seja. Existe ainda mais charlatanismo em certas religiões!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 6:06
    • Permalink

    Também achei esse texto de estreia ótimo Lewis, se continuar assim, estamos em boas mãos.

    De fato há um ciclo vicioso que beira a ingenuidade, a grande balela da fé. Deus não dá provas da sua existência, pois quer que os homens tenha fé, sem que seja preciso ver-para-crer. O problema é que a promessa do paraíso parece bem mais tentadora do que a possibilidade de possuir um fusca, e o preço a ser pago é absurdamente alto, e parcelado em tantas vezes que se cria uma dívida para toda a vida.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 10:01
    • Permalink

    Mas penso que mesmo hoje em dia as pessoas não acreditam muito mesmo em assuntos relacionados à religião.
    O INRI Cristo serve de exemplo. Ele é humilhado na TV por todo tipo de pessoa, desde crentes até ateus… Por que será que ninguém quer comprar o fusquinha dele?

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 10:41
    • Permalink

    A grande diferença entre essa analogia da venda do fusca com as promessas das religiões é que nesse último caso, não há como reclamar mais. A recompensa será sempre após a morte, quando não é mais possível acionar a justiça ou sair na porrada com o falsário.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 17:25
    • Permalink

    Mas a questão (analogia) que o Lewis parece querer abordar não é o depois, mas sim o antes (ser cético para algumas coisas e para outras tantas tão descabidas quanto, ou mais ainda, não ser cético de maneira alguma).

    Ou seja; por que não acreditar na estória do fusca, enquanto se respeita e se acredita tanto em estórias muito mais absurdas e com potencial bem maiores de serem golpes psicológicos? (as religiões, por exemplo).

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Sérgio Rodrigues
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 18:40
    • Permalink

    Pessoal, valeu pelas boas vindas e elogios. É muito bom fazer parte da revista. Espero manter a ótima qualidade.

    Dudu, realmente as religiões vão mais longe, tanto nas ofertas, quanto nas ameaças e ainda na impossibilidade de verificação, como o ponto ressaltado pelo Gustavo.

    Teixeira, o Inri Cristo é um “case”. Não há dúvida de que não é sucesso de público, mas deve estar feliz da vida com o seu pequeno público cativo.

    Gostei muito dos comentários todos, vocês estenderam o texto, e a intenção é essa mesma. Acho bem mais interessante colocar perguntas do que respostas na cabeça do leitor.

    • Lewis
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 18:43
    • Permalink

    Achei esse texto sofrível :P

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 23 de fevereiro de 2010 at 21:19
    • Permalink

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    • Renata Osti
    • Posted 26 de fevereiro de 2010 at 14:39
    • Permalink

    Sérgio,

    excelente !!!

    Você tem um jeito de escrever que eu adoro: objetivo, direto e sem muitos “adornos”.
    O texto flui com uma leveza incrível !

    Parabéns !

    • leonardo
    • Posted 28 de fevereiro de 2010 at 11:44
    • Permalink

    gostei muito do texto!!!

    apesar de ser ateu!
    respeito muito qm naum eh!
    sei q os “crentes” na verdade usam sua fé para diminuir o sofrimento de suas vidas ,
    oq na verdade funciona ,curas milagrosas e tals ,achu eu, ser a força delas mesmas.
    o ser humano naum eh capas d acreditar na sua força mais sim na d algu q pensa ser maior q ele (“deus”).

    • José
    • Posted 12 de março de 2010 at 10:05
    • Permalink

    Gostei do texto. Parabéns.
    Depois que a gente paga esses 100 estamos a mercê da religião. “Me vê mais 100 aí que entrego o fusca”.

    @leonardo
    mas muitos destes sofrimentos são causados pela própria religião e o sentimento de culpa que ela proporciona.


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