Mircea Eliade, em seu livro O sagrado e o profano, conta a história de uma tribo de caçadores e coletores nômades que venerava um poste de madeira. Este poste sagrado representava o eixo cósmico. Segundo as tradições daquele povo, um ser divino, em tempos míticos, após ter fundado as instituições da tribo, subiu por aquele poste e desapareceu no céu. Desde então, a tribo passou a carregar o poste sempre consigo por suas andanças em busca de alimento. O tal pedaço de madeira era tão importante para aquele povo que até mesmo a direção que deveriam seguir em seu nomadismo era determinada pela inclinação do poste.

Prosseguindo em sua narrativa, Eliade conta que em uma ocasião o poste sagrado se quebrou. Para aquela tribo, isto representou o fim do mundo, literalmente. Em sua visão de mundo, condicionada por seus mitos e suas tradições religiosas, após a quebra do poste, não havia mais cosmos, não havia mais uma realidade ordenada, não havia mais sentido na vida. Apenas caos. A consequência foi que todas as pessoas da tribo, após vaguearem por algum tempo, simplesmente se sentaram no chão e lá ficaram, até morrer.

Esta história, para quase todos os membros de nossa sociedade, tem um aspecto tragicômico. É terrível pensar que várias pessoas permaneceram no mesmo lugar esperando a morte chegar, com fome e sede. Mas esta situação não deixa de inspirar uma impressão de absurdo, e mesmo de ridículo, em nossas mentes. Como é possível que um grupo de seres humanos pense que o mundo acabou só porque um poste de madeira se quebrou? Será que aquelas pessoas não seriam capazes de constatar que a vida poderia prosseguir normalmente sem o tal poste sagrado? Não poderiam ter elas experimentado levar a vida como antes? O filósofo que narra esta história, ao longo da mencionada obra, tenta mostrar as diferenças fortes nas visões de mundo do homem religioso e do homem profano. Não é minha intenção falar sobre este tema aqui. Quero apenas fazer uma comparação com uma situação que me parece análoga à narrada.

Na nossa sociedade e em nosso tempo, nem todos os indivíduos fazem da religião o centro de suas vidas. Talvez possamos até dizer que a maior parte das pessoas, mesmo que declarem ter uma religião, vivem quase todo o tempo sem sequer pensar sobre ela, lembrando-se ocasionalmente que existem coisas como igreja, culto, missa, padres ou pastores apenas quando alguém casa ou morre. Da mesma forma que existem pessoas que declaram beber “socialmente”, muita gente só pratica sua religião “socialmente”. Mesmo assim, nós ateus sabemos que é bastante comum que muitas pessoas, tanto as religiosas autênticas quanto as que praticam a religião “socialmente”, reajam como se estivessem escandalizadas quando alguém declara que não acredita em qualquer deus. Tais pessoas expressam uma espécie de reação de repulsa diante da escolha do ateu de viver sem a crença em entes sobrenaturais. Daí surgem as indefectíveis perguntas: “como você explica então a existência do mundo?” ou “que sentido você vê na vida sem deus?”

Eu sou capaz de apostar que a maioria das pessoas que fazem estas perguntas iria achar absurda a história da tribo que se deixou morrer só por causa do poste quebrado. Mas, será que as perguntas que elas fazem ao ateu não se parecem com a atitude dos nômades do poste quebrado? Achar estranho que alguém viva sem aceitar algum tipo de deus como explicação da existência ou como sentido da vida me parece semelhante à atitude de alguém que acha que o mundo acabaria se sua crença se revelar errada. Se você, caro leitor, é religioso, pense nisso antes de fazer aquelas perguntas a nós ateus. Nós apenas constatamos que a inexistência de divindades não é o fim do mundo…

Referências:
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008 (a história da tribo encontra-se nas páginas 35 e 36).

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7 Comments

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/10. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 25 de fevereiro de 2010 at 14:37
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    Muito bom esse artigo Betão. Tenho certeza que qualquer crente “social” que o leia, mesmo coberto de auto-desculpas para validar o seu “próprio” deus em detrimento de outras estórias divinas, pensará um pouco na questão.

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 25 de fevereiro de 2010 at 15:23
    • Permalink

    A resposta mais provável de um crente atual para essa sua história seria: “Como pode você comprar um pedaço de madeira com o meu deus? Eles eram apenas tribos primitivas que ainda não tinham encontrado a verdadeira fé. Ou seja, a minha”.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/10. O diretório pai possui permissão de escrita?
      RicardoRamos
    • Posted 25 de fevereiro de 2010 at 15:46
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    O que prova então meu caro MEV, que as crenças destituidas de razão são cegas mesmo, independente por parte de quem ou quando se acredita ou se acreditou.

    Eu ainda acho qua os crentes “sociais” (porém, pessoas inteligentes) se sentem desconfortáveis quando tem que pensar sobre temas como do artigo acima.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/10. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 25 de fevereiro de 2010 at 16:45
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    Isso de certa forma nos lembra daquela máxima de Joseph Campbell:

    “Mitologia é o nome que damos às religiões dos outros.”

    Talvez seja muita infelicidade dos católicos. Mas pelo que eu me lembro, estes também veneram um pedaço de madeira. No caso, uma cruz.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/10. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Sérgio Rodrigues
    • Posted 25 de fevereiro de 2010 at 20:22
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    Frequentemente, quando algum crente fica sabendo que você é ateu, faz esse tipo de pergunta: “mas então a sua vida não tem sentido?”, ou “por que você não sai por aí matando e estuprando, já que não vai ser castigado (?!?)”.

    E é coisa tão simples que é difícil explicar, como é que a gente consegue viver normalmente sem ter um poste-guia-eixo-do-universo ou coisa que o valha.

  1. Dudu: “Talvez seja muita infelicidade dos católicos. Mas pelo que eu me lembro, estes também veneram um pedaço de madeira. No caso, uma cruz.”

    Hahahaha
    Muito bem lembrado.

  2. o deus da minha vida nao e um deus de madeira ou pedra ele e real e apesar de vcs nao acreditarem nele ele os ama mesmo assim a ponto de lhes dar o ar que vcs respiram jesus ama vcs bjs