Mito é uma palavra que deriva do grego Mithós (μυθος) e tem por definição moderna “coisa ou pessoa que não existe, mas se supõe real. Quimera”. Eu particularmente adoro mitos, você não? Em suas entrelinhas, os mitos nos dizem tantas coisas sobre épocas passadas e suas crenças populares ou manobras políticas. Hoje quero propor uma reflexão sobre um mito cristão sempre presente na irrisória tentativa de justificar a origem do mal, a ausência de evidências para deus, o pecado, a tentação, etc. É o mito do livre-arbítrio.

Quero começar propondo uma rápida reflexão: imagine que neste momento você se encontra acorrentado em um porão, em um local que você desconhece, enquanto observa uma grotesca criatura se aproximar portando de um pequeno lança-chamas. Esta enigmática figura, então, revela suas intenções:

– Quero te fazer uma proposta. Sei que você possui uma bonita casa e um carro luxuoso. Eu, por outro lado, tenho esse maçarico e estes documentos. Reconheces? São os documentos dos teus bens! Assina-os e passa tudo para o meu nome, ou queimarei cada centímetro do teu corpo com este meu utensílio e, ao terminar, usarei um determinado antídoto para reconstruir tua estrutura, para que possa repetir o processo ainda outra vez, e para sempre.

Tudo bem, talvez esta horrenda cena seja um pouco surreal, mas o é por motivos hiperbólicos e de mera analogia. Ainda assim, não é difícil imaginar qual seria a sua reação. Você abriria mão de todos os seus bens, ficaria sem nada… e vale lembrar que essa é uma perda razoável (para dizer o mínimo). Entretanto, se você é portador de algum bom senso, não hesitaria em abrir mão de tudo em troca do seu conforto e segurança, suponho.

Mas me permitam tornar esta cena ainda mais pitoresca; vamos imaginar que uma terceira figura adentra aquele porão. Uma pessoa que lhe parece atraente, com trajes limpos e rosto gentil. Esta também lhe propõe algo:

– Acalma-te, pois trago a outra face deste acordo. Percebo que estás preocupado com a perda dos teus bens, mas tais preocupações são supérfluas. Ao assinar estes documentos, estarás garantindo morada junto a uma ilha paradisíaca, onde não se conhece dor nem sofrimento, onde não terás preocupações. Mas há uma ressalva, esta é uma aquisição futura e a termo, e só irás desfrutar de tais benefícios dentro de alguns anos. Basta que assines, nada mais.

Agora este bizarro contrato que nos parecia absurdamente coercitivo se tornou tentador, não? Existe alguma chance de um ser em plena consciência escolher não assinar o acordo? Ora, mesmo que houvesse uma desconfiança quanto à veracidade desta nova proposta, o nosso primeiro interlocutor parecia bastante real, e também os seus instrumentos de tortura. Há aí uma escolha?

O ponto em que quero chegar é que a ideia do livre-arbítrio não é apenas absurda em todos os seus aspectos, mas quando analisamos friamente do que se trata, percebemos rapidamente que não há liberdade de escolha, há uma persuasão colossal. De um lado a danação eterna, com enxofre, torturas e sofrimentos eternos, do outro uma vida de prazeres e ausência de preocupações. Meus caros amigos, não seriamos razoáveis em não pactuar com deus e toda a sua farsa contratual, mesmo desconhecendo a autenticidade de suas palavras, o medo do inferno já representa ameaça suficiente.

E assim conclui-se a mitologia do livre-arbítrio: uma tentativa até então bem-sucedida de obliterar a real liberdade de escolha dos indivíduos, plantando-lhes o medo horrendo das coisas mundanas (que levam ao inferno) e ainda ter a capacidade de ser um argumento tão flexível que pode ser usado para justificar quase tudo: deus permite que exista o mal para que os homens possam saber diferenciar das coisas boas, e fazer suas escolhas. O demônio existe para que os homens comparem-no e escolham a deus. E esse maniqueísmo de boteco, travestido em pompa, tem atravessado os séculos e aprisionado os fiéis nessa escravidão a que dão o nome de liberdade.

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11 Comments

    • Lari
    • Posted 27 de fevereiro de 2010 at 12:33
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    “maniqueísmo de boteco” hahahaha
    E ele existe até nas religiões que não têm inferno, sem contar que acabam jogando isso contra a própria pessoa: “Você vai escolher seguir o BEM ou o MAL? Certo ou errado? A escolha é sua…”
    Não é uma escolha livre se já está condicionado o que você deveria fazer.

  1. Por uma questão de ignorância, eu por muito tempo achei essa discussão
    sobre livre-arbítrio uma verdadeira perda de tempo. Afinal, ao pé da letra “livre” “arbítrio” todo mundo tem, não é? As pessoas pensam, fazem o que bem entendem (respeitando-se os limites geográficos, físicos, financeiros etc.), de forma que discutir se essa faculdade humana existe ou não sempre soou absurdo aos meus ouvidos. Entretanto, um belo dia me esbarrei com a curiosidade sobre o tema, e então pesquisei um pouco a respeito, descobrindo que se trata(wiki) de uma “crença ou doutrina filosófica que defende que a pessoa tem o poder de escolher suas ações”, e que, em religião, significaria que a “divindade onipotente não teria como impor seu poder sobre a vontade e as escolhas individuais.”. Meu queixo cai. Doutrina filosófica? Ah, O homem e o seu tesão natural pelas interpretações, atribuições de significado a tudo o que o rodeia! A religião cristã, em exemplo, como todo mundo sabe, “atesta” a existência do supremo divino, senhor de tudo e de todos, e pra cada inevitável brecha nessa explicação então ela inventou…ou melhor…”patenteou” a liberdade humana para fazer o que bem entender, chamando isso de “livre arbítrio”, pra que quando alguém chegar e perguntar “padre, se deus é bom e pode tudo, por que é que a filhinha de 4 anos de minha vizinha foi violentada com um cabo de vassoura pelo próprio padastro?”, o padre, triunfante, doutrinar “ao Homem, minha filha, Deus deu o livre arbítrio”. Fim da equação.
    Se o livre arbítrio, em uma interpretação literal da expressão, existe? É claro que sim. Vai lá e pula do prédio, puxe o gatilho, espera o vermelho pra atravessar e vê se alguma mão celeste vem te impedir. Agora, “livre-arbítrio” enquanto prerrogativa do homem por força de liberação divina? ABSOLUTAMENTE NÃO!

    • Red Guy 32
    • Posted 5 de março de 2010 at 20:36
    • Permalink

    Por que Deus nos deu o livre arbítrio? Para que nós pudéssemos amá-lo. Se não houvesse escolha, não haveria amor. E não haveria graça nenhuma também. Não existe persuasão alguma nesse “contrato” e sim uma liberdade de escolha. Então pq as pessoas escolhem o mal? Por ser mais fácil seguir o caminho maligno do que o benéfico. Pelo menos nesse mundo. É sua escolha encarar as consequências no ambiente pós-morte. Se houvesse realmente uma persuasão colossal, o mundo seria um lugar bem melhor para se viver, pois existiria bem menos mal. Deus cria o homem para ter um relacionamento com ele e isso só é possível com o livre arbítrio. Se algumas pessoas decidem ir para o outro lado, Deus sofre, mas permite, pois aquele que escolheu o mal precisa sofrer as consequências de sua escolha errônea. Isso acaba gerando o sofrimento de inocentes e realmente me parte o coração, mas num mundo em que o mal impera, ninguém está a salvo.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 6 de março de 2010 at 9:03
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    “Não existe persuasão alguma nesse “contrato” e sim uma liberdade de escolha.”

    Quando um bandido coloca uma arma em sua cabeça, e lhe diz “me dê o seu celular, ou te estouro os miolos”, você realmente está tendo uma escolha?

    Se houvesse realmente uma persuasão colossal, o mundo seria um lugar bem melhor para se viver, pois existiria bem menos mal”

    Essa afirmação seria verdadeira, se a religião fosse suficiente para fazer do mundo um lugar melhor. A verdade é bem o contrário. O Brasil é um dos países com maior número de cristãos do mundo, e extremamente violento e caótico. A Noruega, Dinamarca, Suécia, etc… tem uma média de 77% de irreligiosos em sua população, e são países extremamente pacíficos.

    “mas num mundo em que o mal impera, ninguém está a salvo.”

    Nossa…

    • Red Guy 32
    • Posted 12 de março de 2010 at 18:00
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    Quando o bandido coloca uma arma na sua cabeça, vc realmente não tem escolha. Mas não é isso que Deus faz. Se fosse assim, cada pecado que você comete teria um sofrimento imediato, o que obviamente não acontece. Deus é vagaroso em irar-se e rápido para perdoar.
    Não acredito que haja uma correlação imediata entre caos e religião, como vc diz. Se o Brasil é violento e a Noruega não, as questões são muito maiores do que dizer: “um possui religião e o outro não”.
    “mas num mundo em que o mal impera, ninguém está a salvo.”
    Realmente foi uma frase forte, mas foi para responder ao comentário de cima, em uma situação em que uma menina de 4 anos é violada com um cabo de vassoura. Isso não vem de Deus, mas dos homens, então estamos realmente num mundo em que o mal impera.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 13 de março de 2010 at 10:15
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    Eu não disse que o fato da Noruega não ser religiosa era a causa da ausência de crime, e a religiosidade a causa dos crimes no Brasil. Isso seria ridículo. Eu sei que você entendeu o que eu falei, mas acabou distorcendo tudo. O que eu tentei demonstrar foi que, apesar de irreligiosos, eles conseguem conviver pacificamente, o que mostra cabalmente que a ideia de que um lugar sem religião é um lugar necessariamente caótico.

    • Red Guy 32
    • Posted 13 de março de 2010 at 23:30
    • Permalink

    Sim, uma pessoa pode ser moral sendo ateia, assim como pode ser má sendo religiosa. Mas aquele que segue uma religião possui uma tendencia maior à moralidade. O exemplo que eu posso dar é daquelas pessoas que chegam ao fundo do poço por estarem com problemas de drogas, familiares ou econômicos e ao buscarem uma religião conseguem melhorar consideravelmente. Seria difícil para elas buscarem uma solução por fora, pois estão em um ambiente q não os ajuda.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 14 de março de 2010 at 11:00
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    “Mas aquele que segue uma religião possui uma tendencia maior à moralidade.”

    Sério? Mas baseado em que você afirma isso?

    Empiricamente falando, não é isso que eu percebo. Passei pouco mais de um ano visitando presídios da região para fazer minha pesquisa de conclusão de curso para a faculdade e nunca conheci nenhum ateu lá dentro. Só o que vemos é pastores explorando e iludindo os pobres e os desesperados, padres pedófilos, e por ai vai (a lista é longa).

    Não sei de onde você tirou essa ideia de que pessoas religiosas tem “uma maior tendência a moralidade” , mas no mundo em que eu vivo isso parece estar bem longe da realidade.

    • Red Guy 32
    • Posted 16 de março de 2010 at 12:17
    • Permalink

    Meu exemplo já foi dado (pessoas que chegam ao fundo do poço). Aquele que comete atos maldosos em nome de uma religião que professa está sendo hipócrita, pois não age segundo seus próprios ensinamentos.

    “Deus é a minha fortaleza e a minha força, e ele perfeitamente desembaraça o meu caminho.”
    2 Samuel 22;33.

    • Pedro França
    • Posted 19 de março de 2010 at 19:58
    • Permalink

    “O exemplo que eu posso dar é daquelas pessoas que chegam ao fundo do poço por estarem com problemas de drogas, familiares ou econômicos e ao buscarem uma religião conseguem melhorar consideravelmente.”

    Em linhas gerais, a melhor solução para pessoas com estresse emocional é o apoio psicológico e/ou psiquiátrico através de um profissional competente, juntamente com o apoio de familiares e amigos. Se o problema for drogas, a desintoxicação, mais o apoio psicológico e outros métodos, como mudança de círculo de amizades e ocupação da mente com trabalho/estudo funcionam melhor que orar. Se o problema é familiar, a psicologia familiar funciona melhor que orar. Se o problema é econômico, arrumar um novo trabalho, investir na educação ou reduzir custos funciona melhor que orar (e ter que entregar 10% do salário). Admito que fui muito simplista e ignorei certas complexidades, como condição social dos envolvidos e personalidades, mas a questão é de que há outras possibilidades que podem ser empregadas para tirar as pessoas “que chegaram ao fundo do poço”, sem para isso ter que ludibriá-las sobre um deus que as observa dia e noite, ansioso para puní-las caso elas não acreditem e obedeçam cegamente um livro cheio de contradições e inverdades.

    “Deus é a minha fortaleza e a minha força, e ele perfeitamente desembaraça o meu caminho.”
    2 Samuel 22;33.

    Já que deixou uma citação, permita-me deixar uma também:

    “O Unicórnio Invisível Cor-de-Rosa é meu alazão e meu companheiro de galopes, e ele perfeitamente trota pelo meu caminho.” – 7 Falafel 6;66

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 19 de março de 2010 at 20:09
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    Pedro disse tudo, eu não poderia ter colocado de forma melhor. Só não entendi ainda a conexão entre uma pessoa poder ser resgatada pela ilusão da religião quando está no fundo do poço, e o suposto dado de que religiosos teriam maior tendência à moralidade.