por Gustavo dos Anjos

Muita gente argumenta que a fé se sustenta pelo simples ato de acreditar. Que não é necessário qualquer tipo de evidência para que alguém possua fé. Não concordo em absoluto. Observando a realidade cotidiana, o comportamento das pessoas se volta justamente para o lado contrário. Todos buscam evidências, fatos, acontecimentos que de alguma forma, mesmo que ilusoriamente, comprovem sua fé.

Isso ocorre simplesmente porque é assim que nos comportamos em todos os demais aspectos de nossas vidas. Quando recebemos alguma acusação infundada, solicitamos imediatamente provas. Quando somos proibidos de fazer algo que gostaríamos, logo queremos saber o porquê. Mesmo as crianças nunca ficam satisfeitas com a famosas resposta: porque sim e ponto final. Os seres humanos parecem ter uma vontade insaciável de quererem entender e explicar tudo em sua volta. E por que seria diferente quando o assunto é a fé? Esse é o ponto, não acho que seja diferente.

A todo instante, as pessoas procuram reforçar a sua fé baseadas nos eventos ao seu redor, por mais banais que sejam. Criam mecanismos próprios para que, de alguma forma, sua fé seja racionalmente comprovada, que sua fé tenha alguma relação com a realidade que vivem. Diferentemente das alegações usuais, as pessoas não se conformam com apenas a promessa de verdade, elas querer ver, sentir, tocar, entender a fé. Ou seja, de alguma forma a fé vai ter que se materializar, descer do seu patamar superior e interagir com a realidade tangível.

O crescimento assustador das igrejas evangélicas nada mais é, ao meu ver, do que o surgimento de uma forma eficiente de se mostrar às pessoas de fé que suas convicções são verdadeiras. Facilitam o trabalho da busca pelas tão desejadas evidências. Ao comparecerem aos cultos, o que as pessoas procuram são, nada mais, nada mesmo, motivos que reforcem suas crenças. E, inegavelmente, as igrejas estão tendo sucesso nessa tarefa.

O principal problema disso tudo é a honestidade. Quando um crente diz que hoje obteve um sinal de que Deus existe, alegando que escapou de um grave acidente de carro, dificilmente está sendo honesto consigo mesmo. A necessidade emocional de encontrar um reforço positivo é tão grande que qualquer evento se torna forte evidência do que se procura. Isso é tão poderoso que uma simples vitória em uma partida de futebol é motivo para uma euforia sobrenatural generalizada. Quantas vezes já não escutamos um discurso de agradecimento começar com Deus? E isso vale para qualquer área da vida. Desde um banal graças a Deus até um complexo comportamento de autoflagelação. Se as pessoas parassem para se perguntar e refletir, talvez Deus tivesse que ter um pouco mais de trabalho para emitir seus sinais. Não custa nada se perguntar: estou sendo honesto? Isso foi realmente trabalho da fé?

Vale lembrar que o oposto não se confirma. Um acontecimento negativo qualquer raramente possui o mesmo poder de influência. Ser assassinado brutalmente não se constitui em evidência de nada. Apenas mostra que não foi esse o momento para se reforçar a fé. Basta esperar o próximo momento mais oportuno e conveniente. Parece existir um claro desequilíbrio de medidas nessa relação. Um evento positivo é razão suficiente para realimentar a fé de qualquer crédulo desiludido. Mas um evento negativo é apenas um evento negativo, sem grande poder para abalar a fé de alguém.

Não entrei, propositalmente, na discussão acerca da veracidade dessas alegadas evidências. O foco aqui é tentar entender como determinados fatos atuam como reforço da fé, sejam eles verdadeiros ou falsos. Portanto, não faz o menor sentido afirmar que a fé é simplesmente o ato de acreditar sem evidências. A realidade cotidiana mostra que as pessoas buscam, a todo instante, algo em que possa sustentar sua fé. Eventos banais do dia a dia se tornam poderosos instrumentos para que indivíduos, talvez inconscientemente, reforcem sua fé. Estamos no automático, programados culturalmente e historicamente (talvez geneticamente) para realizar essa busca.

Vejam que natureza bela!! Evidência irrefutável da existência de Deus.

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(artigo recebido em 10 de janeiro de 2010)

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