Monthly Archives: fevereiro 2010

por Daniel Quintão


“A farda modela o corpo e atrofia a mente” (Che Guevara)


Nascemos fardados, assim crescemos e nos misturamos ao meio social. Somos bilhões de filhos, pais, avós, todos unidos pela mesma causa, a sobrevivência cultural.

É enfadonha a sensação de manipulação e controle aos quais somos submetidos ao longo de nossas vidas. Quando crianças, estamos sujeitos à modelagem de nossos pais, expostos assim à absorção de suas crenças, preconceitos e modo de vida, sendo que posteriormente é a sociedade quem define nossas preferências e sonhos. Somos máquinas pré-programadas para absorver o mundo e compreendê-lo da melhor forma possível, cada um a seu modo. A uniformização de um modo geral de pensamento é a necessidade humana de formação de grupos para sua própria sobrevivência social. Quando nos adaptamos ao grupo, mesmo que inconscientemente, não fazemos mais do que proteger a nós mesmos da aleatoriedade de fenômenos incompreendidos em relação ao mundo e aos nossos sentimentos. Querendo ou não, somos abertos aos mais diversos tipos de influências e, baseados nelas, modificamos e visualizamos o mundo da forma que melhor nos convém.

Quando fardados, os soldados sentem-se mais poderosos, devido fazerem parte de um grupo que consideram forte, geralmente, “O melhor do melhor, senhor!”. É comum que morram por uma causa que desconhecem, guiados e incentivados por mentiras e/ou omissões, que os fazem sentir-se verdadeiros heróis, visualizando uma posterior recompensa. Acredite, quase todos morrem por desejarem uma simples medalha, que colocarão em uma moldura e pendurarão em suas salas e pela consciência de que serão eternamente lembrados por seus atos. O engano se dá no momento em que se esquecem de que nada fizeram isoladamente, sua morte não será escolha própria e de recompensa nenhuma desfrutará, vivo ou morto, a não ser o trauma ou o nada, pois soldados não são indivíduos, são massa sem nome, sem individualidade, apenas peças do jogo de um ser maior, o governo e o capitalismo.

O problema com tais vestes, as fardas, é a reverência ao ego, que tira de nós a capacidade de raciocínio em troca do engrandecimento pessoal instantâneo (inexistente). Quanto maior o número de estrelas (condecorações), maior a “burrocracia”. Ateísmo é tirar a farda, liberdade para se criar novas formas e cores, “desuniforme” de todo sonhador racional. Religião é farda vistosa, reconhecida e pomposa, valorização estúpida de adornos imaginários, inválidos, umas iguais à outras, com diferentes bandeiras que disputam por soldados entre si.

Que farda você veste?

Notas
A frase utilizada inicialmente pode ser encontrada via WWW na URL <www.pensador.info>.

Referências bibliográficas

  • FREUD, Sigmund. A psicologia das massas e a análise do eu.
  • LANE, Silvia T. M. Psicologia social – O homem em movimento. 13ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

* * *

(artigo recebido em 10 de janeiro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

O Nobel de literatura irlandês George Bernard Shaw uma vez comparou, com sua forma peculiarmente bem humorada, a felicidade de um homem religioso à doce ilusão de um homem embriagado. Dizia ele que o fato de um homem religioso ser mais feliz do que um cético é equivalente ao fato de um homem bêbado ser mais feliz do que um homem sóbrio. E complementou: a felicidade advinda da credulidade é uma qualidade perigosa e barata.

Estas palavras não são postas sem propósito, pois os fiéis que bebem do sangue de Cristo parecem mesmo acometidos de certa embriagues. A etimologia da palavra “religião” é fruto de controvérsias, mas há quem defenda que ela advenha do termo latino religare (religio, na vulgata), que significa “religar”. Entretanto, o preço pago por essa conexão com um suposto ser superior nos é cara. Acreditar no sobrenatural necessariamente implica desconectar-se da realidade e ignorar todo o conhecimento científico sério.

Ébrias, as pessoas religiosas tendem a ser seletivas quanto ao conhecimento que entendem por válido. A sistemática é simples: tudo o que vai de encontro à ideia de deus deve ser descartado. Assim, com toda a paixão etílica que demonstram por suas próprias fantasias, continuam a se intoxicar de ilusões pueris, vivendo em uma realidade que lhes é particular.

Não é de se estranhar a paixão que demonstram ao entonar os hinos nas igrejas e templos, nas suas convulsões e exorcismos. George Shaw parece mesmo estar certo em sua analogia, a felicidade advinda da embriaguez da fé é perigosa e barata, aliena e demove dos fiéis qualquer senso de realidade. Não há como negar que até mesmo as crianças que esperam por Papai Noel a cada natal são mais felizes que aquelas que desafiam a sua existência.

Estamos dispostos a pagar o preço de tal ilusão? Não ponho em dúvida o caráter ou a inteligência daqueles que possuem fé em deus, mas até que ponto estamos dispostos a incentivar e ser governados por pessoas com a mente entorpecida por dogmas canônicos? Eleger um político religioso, para mim parece similar a eleger um político assumidamente alcoólatra. Uma atitude no mínimo temerária. Não é apenas a felicidade de quem tem fé que se equipara à embriaguez, mas também a sua capacidade de discernimento. É preciso tratar esse vício hereditário.

Este é o meu terceiro texto sobre o assunto “morte”. Pode até parecer que estou batendo na mesma tecla, mas é que o tema é complicado.
Complicado, porém não complexo. Temos dificuldade em aceitar a morte, pois ela parece fria demais. Mas compreender é fácil. Aliás, morte é um fenômeno desconcertantemente simples.

Nos textos anteriores, falei de como a ilusão da vida eterna era tentadora e da visão de um ateu sobre a eternidade. Mas não cheguei a falar da morte em si. Sempre quis falar da morte, pois existe uma ideia muito triste e negativa dela. Morte, no conceito popular, atrai ideias como:

Tudo o que está sobre este prato foi vivo algum dia. Essa é apenas uma maneira apetitosa de se enxergar a morte.

defunto, velório, caixão, escuridão, frieza, tristeza, perda, algodãozinho nas narinas, túmulo, despedida, enterro, herança (se for rico), saudade e mais tristeza. Muita tristeza, pois morte seria algo triste. Esse texto é um esforço meu para mostrar um lado mais amplo do conceito “morte” que, antes de ser triste, é bem irônico e simples.

Simples, pois entendemos “morte” como o término da vida. Esta última sim, é complexa. A vida é o inexplicável fenômeno da ordem surgindo e se sustentando em meio ao caos, é a reprodução e perpetuação, é a transformação rápida e explosiva, é o casulo da consciência. É o aglomerado de moléculas ricas em carbono, hidrogênio e oxigênio, entre outros. Moléculas essas muitíssimo mais complexas do que qualquer outra já encontrada. E a morte é o fim de tudo isso. Banalmente simples.

Sob o ponto de vista de um indivíduo que ama a própria vida, a morte parece inconcebível. Mas se formos imaginar uma entidade capaz de analisar o mundo tal como é e filosofar sobre ele, a vida certamente a assustaria muito mais. Os olhos da suposta entidade correriam pelo universo avistando estrelas, planetas, cometas, buracos negros, tudo isso intermediado por longos períodos de um vazio imenso. Depois de milhões de anos essa entidade pensadora certamente estaria muito entediada. Mas, se por alguma improbabilidade histórica, ela viesse a repousar seus olhos sobre a Terra e ver o que paira sobre sua superfície, tenho certeza de que ficaria chocada. Suas minúcias, seus milagres, sua rapidez a deixariam perguntando “o que diabos é isso que está na superfície, afinal?”. Sequer repararia que essas criaturas morrem algum dia. Coisa prosaica é estar morto, sem consciência, sem graça, sem ação. Certamente seriam necessários outros milhões de anos para digerir a ideia de que existe vida. Coisa que não seria necessário para entender a morte; afinal, aquela coisa inexplicável se tornou mais parecida com tudo o que ele tinha visto durante milhões de anos.

Edelgard, antes e depois do falecimento. Fotografia de Walter Schel.

Mas tem algo de irônico na morte. Entendendo a morte como a perda da vida, fica a impressão de que uma é o oposto da outra. Uma ideia mais engraçada do que parece, à primeira vista. Schopenhauer, em uma observação muito perspicaz, certa vez assim disse: “(…) Após a morte você será o que era antes de nascer.”*. A menos que você tenha péssimas lembranças de sua época “pré-vida”, a morte não parece ser algo tão ruim assim. Enquanto a vida é um espectro que abrange desde o sofrimento angustiante ao prazer intenso, a morte é tranquila, neutra. Nem mais, nem menos. Sem felicidade, sem tristeza, sem prazer, sem dor, sem glória, sem fracasso, sem amor nem ódio, ganhos ou perdas. Estar morto é, antes de tudo, atingir a paz. “Paz” é a palavra que se associa a “morte” de maneira mais adequada. Muito mais adequada do que “defunto” e “tristeza”, por exemplo. Até porque a tristeza fica por parte dos entes queridos que se mantiveram vivos, o morto não sente nada.

Aliás, a paz me lembra outro ponto irônico relacionado à morte. Havia lido em algum lugar que “neste milênio a humanidade atingirá a paz eterna”. Sim, era alguma bobagem esotérica. Mas a relação morte-paz me fez pensar mais fundo sobre essa mensagem. De repente, ela não me pareceu tão inatingível assim. Não consigo pensar em outro tipo de paz plena para humanidade que não consista em um extermínio em massa.

Falei algumas ironias sobre a morte e tentei enfatizar que ela é mais banal do que triste. Em resumo, tudo o que eu fiz até agora foi menosprezá-la. Mas estaria sendo injusto. A grande ironia da morte também é o seu aspecto mais importante. Como eu disse, a vida vista como um bem pessoal parece ser o extremo oposto da morte. Mas a morte tem um papel diferente para a vida de uma maneira geral, a vida como o fenômeno global que consiste em plantas, animais, fungos e certos microorganismos se reproduzindo constantemente. Ecologicamente falando, a morte não é o oposto, mas sim parte constituinte e fundamental da vida. Morrer é abrir espaço, transferir energia, servir de comida, ferramenta ou até mesmo lar. É dar a oportunidade a outros. Não reclame da morte, se não fosse por ela, você sequer teria nascido. Não haveria recursos, espaço para que alguém como você surgisse e se prosperasse. Em outras palavras, morrer é bem importante… Para a vida, é claro.

Esquema representando uma carcaça de baleia. Uma morte representando vida em exuberância.

*SCHOPENHAUER, Arthur. “On the indestructibility of our essential being by death“, 2. In: ______. Essays and aphorisms. Trad. de R. J. Hollingdale. Londres: Penguin Books, 1970, p. 67.

Morte:

  1. Uma terrível verdade exige uma grande ilusão
  2. O breve e o eterno
  3. A simplicidade inconcebível

Se um professor de história, em uma aula sobre a Grécia de antes do século VIII a.C., começar a falar sobre Aquiles, Odisseu ou Heracles como quem fala de Alexandre, de Carlos Martel ou do Marechal Deodoro, ou seja, como quem fala de pessoas de carne e osso, será visto, no mínimo, com estranheza. Muitos de seus colegas historiadores pensarão que este professor está ficando doido, como se estivesse tratando Asterix e Obelix como homens tão reais quanto Júlio César. Após as famosas descobertas arqueológicas de Heinrich Schliemann no século XIX, sabe-se que existiu uma cidade grandiosa onde hoje é a Turquia que, provavelmente, identifica-se com a Troia dos poemas homéricos. Mas dizer que tais descobertas confirmam a historicidade de heróis como Aquiles ou Odisseu equivale a dizer que os personagens gauleses de Uderzo e Goscinny existiram porque os romanos realmente conquistaram a Gália.

Contudo, se este mesmo professor de história, seguindo rigorosamente o texto de alguns livros didáticos de ensino fundamental e médio publicados no Brasil, disser que há três mil e duzentos anos um homem chamado Moisés libertou o povo hebreu escravizado no Egito e conduziu este povo durante vários anos por regiões desérticas como a Península do Sinai, e se disser que este povo, após tal andança, sob o comando de um chefe militar chamado Josué, conquistou a região hoje chamada de Palestina, poucas pessoas, inclusive seus colegas historiadores, acharão tal aula absurda. Por quê?

No Ocidente, sob o peso de séculos de hegemonia cultural cristã, as pessoas acham normal pensar que os relatos da Bíblia são históricos e não míticos. Mesmo entre pessoas não religiosas, é comum pensar que a narrativa bíblica, despojada de seus elementos miraculosos, como a passagem pelo Mar Vermelho ou a interrupção do movimento aparente do Sol através do céu, reflete acontecimentos históricos, e que os personagens mencionados em tais narrativas existiram, ao contrário do que se pensa sobre os semideuses gregos. Afinal, por muitos séculos a cristandade acostumou-se a pensar em Moisés, Josué ou Sansão como figuras históricas, e em seus feitos milagrosos e fantásticos como eventos reais que expressavam a intervenção divina na história.

Entre os séculos IV e III a.C., um grego chamado Euêmeros tornou-se célebre por sua interpretação racional dos antigos mitos de seu povo. Em sua obra Hierà Anagraphé, que chegou à nossa época apenas em alguns fragmentos, Euêmeros propõe explicar a origem dos mitos à luz da razão, lançando a hipótese de que deuses e heróis nada mais eram do homens que se destacaram por seus feitos no passado. Com o passar do tempo, a admiração das pessoas pelas obras destas figuras ilustres, e o culto à memória deles, fez com que fossem gradativamente divinizados.

A proposta de Euêmeros é um notável passo em direção a uma visão racional e dessacralizada do mundo, dos mitos e da História. Esta forma de encarar figuras míticas tornou-se inclusive conhecida como “evemerismo”. Assim, uma análise “evemerística” de uma personagem mitológica, a “evemerização” dela, é o ato de propor uma visão racional da figura em estudo, deixando de lado os elementos sobrenaturais que acompanham o herói, semideus ou deus em questão. Contudo, tal atitude pode se revelar um obstáculo a uma análise objetiva da origem do mito, pois a propositura de uma explicação evemerística para a personagem mitológica ou religiosa pode ser apenas um desejo de se preservar algo de uma tradição religiosa cujas origens possuem poucas fontes históricas disponíveis. Basta pensarmos na seguinte situação: nós não vemos hoje a menor necessidade de postular ou de investigar um “Odisseu histórico”, ou um “Perseu histórico”. Mas, para os antigos gregos, cuja civilização passou por um processo de racionalização desde os tempos de Homero (outra figura possivelmente lendária) aos tempos de Euêmeros, optar por dizer que seus heróis um dia existiram, mesmo que como homens comuns, seria melhor do que admitir que tais figuras não possuíam qualquer historicidade.

Voltemos à figura de Moisés. A Bíblia, no livro de Êxodo, pelo menos nas traduções mais populares na nossa língua, afirma claramente que Deus concedeu poderes a Moisés. Poderes. Algo que o diferencia dos demais mortais e o aproxima de figuras como os semideuses gregos. Com tais poderes, segundo a Bíblia, Moisés derrotou uma das maiores potências militares e políticas do século XIII a.C., o Egito. É um relato cujos elementos miraculosos equivalem a qualquer mito que narra intervenções divinas na História, como os deuses tomando partido por um ou outro lado na guerra de Troia. No entanto, como seria possível “evemerizar” tal narração? Retirando-se os elementos miraculosos do Êxodo, resta a difícil tarefa de explicar como um povo desarmado e escravizado, sem recorrer à sublevação violenta, de repente deu as costas aos seus antigos senhores e fugiu do Egito. Sigmund Freud, em sua obra Moisés e o Monoteísmo, tenta dar uma explicação “evemerística” para o Êxodo. Para Freud, resumindo superficialmente, Moisés era um egípcio importante, provavelmente de origem nobre, partidário do faraó Amenófis IV, que mudou seu nome para Akenaton e estabeleceu a mais radical reforma religiosa da história do Egito antigo, instituindo o monoteísmo, em clara afronta ao poder dos sacerdotes de Amon. A reforma de Akenaton não sobreviveu ao faraó. Freud propõe então que Moisés tenha sido um dos seguidores do monoteísmo de Akenaton que, aproveitando-se do breve período de caos político surgido logo após a morte do faraó, liderou um povo de escravos semitas que vivia no Egito e impôs a ele sua religião.

Sem querer criticar as hipóteses psicanalíticas que Freud expõe na referida obra, na qual ele tenta mostrar como certas ideias aplicáveis a indivíduos se adequam a grupos humanos, o livro Moisés e o Monoteísmo é um bom exemplo de evemerização. Freud parece querer salvar a hipótese da existência histórica de uma figura muito importante para o judaísmo e o cristianismo. Entretanto, muitos dos argumentos utilizados por Freud para sustentar a existência histórica de Moisés estão francamente ultrapassados e, naturalmente, pelos avanços da arqueologia e da história, hoje sabemos muito mais sobre as origens do judaísmo do que em 1938, data da publicação do livro. Sabe-se hoje que, nos períodos e lugares usualmente propostos para a permanência dos hebreus no deserto, não há qualquer sinal da estada de um povo. Nada foi encontrado na Península do Sinai que pudesse indicar uma jornada de quarenta anos de milhares de pessoas rumo à Palestina. Não há também qualquer indício da presença de um povo culturalmente homogêneo, como os hebreus, como escravos no Egito, apesar das evidências de intenso tráfego de pessoas de diversas origens, principalmente semitas, que habitavam sazonalmente o Egito em tempos de escassez em suas terras.

Tudo isto indica que tentativas de se buscar o “Moisés histórico” parecem ser tão promissoras quanto uma busca por um “Aquiles histórico”, ou um “Heracles histórico”. Moisés parece ser uma figura de historicidade tão plausível quanto os mencionados semideuses helenos. Mesmo assim, folheando vários livros didáticos brasileiros, de ensino fundamental e médio, encontraremos lá Abraão, Jacó, Moisés ou Josué, todos devidamente “evemerizados”. Tão inverossímeis quanto seus correspondentes gregos.

Referências:

Sobre Euêmeros e evemerismo:

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

KURY, Mário da Gama. Dicionário de mitologia grega e romana. 6ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

A obra de Freud mencionada:

FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Sobre as pesquisas arqueológicas e históricas mais recentes:

FINKELSTEIN, Israel e SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003

Nos Julgamentos de Nuremberg que se sucederam ao Holocausto, nos quais diversos oficiais nazistas foram julgados, quando inquiridos das motivações para a matança sistemática de inocentes a resposta era sempre a mesma: estávamos seguindo ordens.

Essa resposta, é claro, não convenceu nenhum dos juízes envolvidos nos processos; afinal, pessoas normais não aceitam esse tipo de ordem. Estes oficiais, para os juízes, eram psicopatas e mereciam ser castigados por isso. Porém, não foram apenas os altos oficiais os envolvidos nesta chacina, milhares de soldados também executaram inocentes; é possível que todos fossem psicopatas, ou, de fato, estavam apenas seguindo ordens?

Em 1961, o psicólogo Stanley Milgram iniciou um experimento que responderia essa pergunta.

Milgram selecionou voluntários para um experimento de memória e aprendizado. Neste experimento o voluntário assumia o papel de professor, sua função era a de fazer perguntas para outro participante (denominado aluno) utilizando um microfone. Para cada reposta incorreta, o professor deveria aplicar um choque elétrico que era aumentado em 15 volts de cada vez. Não havia contato visual, porém, os gritos e protestos do aluno podiam ser ouvidos. Ao lado do voluntário, ficava o experimentador que tentava, utilizando-se de sua autoridade científica, fazer com que o voluntário continuasse a aplicar os choques.

O que os voluntários não sabiam, é que o aluno era um ator e os barulhos que ouviam eram de uma gravação. O intuito do experimento era, na verdade, saber até onde os voluntários iriam, quantos deles aplicariam o choque fatal de 450 volts? Surpreendentemente, entre 61 e 65% dos voluntários “matava” o aluno. Era perfeitamente visível que os voluntários não se sentiam confortáveis com aquilo, também era visível que eles tinham plena consciência do que faziam. Ainda assim, continuavam.

Houve variações deste teste em que o voluntário recebia ordens do experimentador por telefone. Neste caso, a participação caiu para 21%, o que demonstrou a importância da presença da autoridade.

Incluo abaixo um documentário no qual o experimento foi refeito pela BBC.

httpv://www.youtube.com/watch?v=0PassGyF8X8

Parte 2

Parte 3

Muitos dos voluntários afirmaram que a principal motivação para terem ido até o final era a ideia de estarem fazendo aquilo em nome de um bem maior, no caso, para o avanço da ciência.

Não havia, para os voluntários de Milgram, nenhum tipo de ameaça; e, mesmo assim, a maioria foi até o fim. É provável que a colaboração atinja quase 100% se os voluntários fossem, de alguma maneira, ameaçados do mesmo modo que, provavelmente, os oficiais nazistas eram. Apenas para termos uma ideia, segundo o artigo 387 do código penal militar brasileiro, em tempos de guerra, a recusa ao cumprimento de uma ordem pode ser punida com a morte por fuzilamento.

Obviamente, não quero, com este texto, justificar as ações tomadas pelos oficiais nazistas. Vale a pena, porém, observarmos o quão facilmente podemos ser levados a atos contrários às nossas convicções morais e éticas, basta que peçam do modo certo.

Essa nossa predisposição à autoridade foi descoberta há pouco tempo pela ciência, mas certamente é conhecida há muito tempo por líderes de todo o tipo, de militares a religiosos.

No caso dos extremistas islâmicos, por exemplo, a autoridade observadora é substituída por uma autoridade divina onisciente, os alunos devem aprender sobre a verdade de Alah, caso contrário, serão punidos. Os resultados, como sabemos, são bombásticos.

Nesta semana desejo abordar um assunto repetido e já bastante discutido, o qual tem me tirado substancialmente a paciência para debater ou conversar com crentes: a ineficácia dos argumentos racionais perante as cansativas e repetitivas falácias. Navegando na rede por sites céticos e científicos, e em especial pelo Ateus.net, nos deparamos constantemente com crentes, registrados nos fóruns de debates, árduos em exporem seus pensamentos crédulos e tentando a todo custo nos explicar a “lógica” de suas crenças e demonstrar que não há falácia alguma em suas descabidas retóricas. Quanto a presença de crentes em fóruns céticos, vejo até mesmo com “bons olhos”, uma vez que isto incita inúmeras discussões sobre diversos assuntos (insanos) religiosos abrindo naturalmente tantas portas para nós, céticos, argumentarmos com o máximo de racionalidade possível e, quem sabe, trazer alguma inocente “alma” para as raias da razão. Mas o esgotado problema a que me refiro reina em torno da total inutilidade justamente sobre o uso da razão e também do desprezo em relação à exposição da lógica. Para todo e qualquer assunto religioso devidamente refutado pelo cético, o crente sempre (desonestamente) ignora a lógica e responde com uma besteira qualquer tentando vergonhosamente validar sua fantasiosa crença.

Uma das maiores distorções da realidade nos debates entre crédulos e incrédulos, e que está no meu “topo de lista” sobre as coisas mais covardes e desonestas que os crentes costumam se pautar, é a insistência na não compreensão relativa ao “ônus da prova” e seu inadequado uso. Abandonei diversos debates, tanto em fóruns virtuais como em calorosas conversas pessoais com colegas ou com gente estranha, no momento em que a desonestidade de meus interlocutores chegou a este nível. É absolutamente inadmissível que a questão primária do “ônus da prova” não seja assimilada pelo crente debatedor, tamanha a facilidade de compreensão sobre o seu real sentido. Mesmo uma inocente criança, ao contar estorinhas para os pequenos amigos no recreio escolar, é capaz de compreender isso. Mas as insanidades dos crentes superam a lógica e a razão, portanto é de se esperar que eles não vejam absurdo algum na inversão do ônus. Porém, este fato nos tira a boa e agradável sensação de um debate produtivo. Isso nos faz parecer que estamos conversando com loucos:

“Prove para mim que você realmente recebe a visita de duendes no seu quarto todas as noites conforme está alegando”

“ Prove você que eu estou mentindo e que eles não existem. Afinal, é você que não está acreditando em mim!!”

É curioso como o esdrúxulo exemplo acima faz parte da rotina dos absurdos “argumentos” usados pelos crentes, e mais curioso ainda é o fato de que, mesmo ao lerem este exemplo no qual eu substituo a palavra alvo de sua cega crença (“deus” por “duendes”), ainda assim não entendem a simples e infantil lógica a quem de fato pertence o “ônus da prova”. Quando se trata do deus deles, insistem descaradamente na inversão do ônus, tornando qualquer debate inútil e sem propósito.

As falácias são velhas conhecidas no “universo” dos crédulos, e não existe ilusão alguma por parte dos céticos/ateus que num debate entre crentes e descrentes elas fiquem de fora, mesmo porque, sem o uso das famigeradas falácias, como eles defenderiam as contradições, ironias, fantasias, insanidades e aberrações contidas nas tantas raligiões e seitas que povoam o planeta? Mas seguindo com rigor o velho ditado que diz “há limite para tudo”, estamos caminhando para o esgotamento máximo no que tange discutir ou debater com crentes. Enquanto o tempo passa cadenciosamente e a ciência progride deixando cada vez um espaço menor para a existência de seres celestiais ou similares, “usurpando” dos crentes a possibilidade de reação plausível, a desonestidade que habita o conteúdo das explicações e/ou refutações promovidas por eles, os crentes, estão se tornando cada vez mais falaciosas e possivelmente, num prazo não tão longo, elas estarão superando o próprio significado da palavra “falácia”. Ultrapassarão tal categoria e adentrarão no território da mais pura desonestidade intelectual, tanto para si como para seus interlocutores. Uma falácia já é isso, mas eles estão indo além!

Ateus, céticos, cientistas, sábios…não são detentores da verdade absoluta e nem é disso que se trata a questão. Isso é irrelevante. O problema reside na distorção da lógica, no descaso para com a razão e na tentativa de explicar insanamente, desesperadamente e cegamente, o que ainda não se sabe, tornando uma conversa, um debate ou uma discussão, num circo de loucos e malucos que sequer compreendem um conceito tão banal e primário como o contido na expressão “ônus da prova”. E se entendem, a desonestidade por parte deles é ainda maior.

Iniciei o texto comentando sobre perder a paciência para debater ou conversar com crentes, e não há, de forma alguma, a pretensão de postular nenhuma razão absoluta a meu favor, tanto em assuntos religiosos quanto em quaisquer outros. Apenas expor uma situação que está tornando os debates entre crentes e descrentes absolutamente desleal e injusto por parte do primeiro grupo. Os crentes estão encurralados e desesperados; procuram sítios céticos para “checarem” sua própria fé e promovem um “show de horrores” com tópicos, respostas e refutações extremamente desonestas, transformando qualquer debate num covarde apelo à insensatez.

Não é de se admirar que conflitos são inevitáveis quando existe algum tipo de escassez, seja ela de recursos naturais, de recursos humanos ou a falta de pura e simples sensatez (o que evidencia um atributo preocupante da atualidade: tudo pode ser pretexto para se iniciar um achaque — incluindo-se, aqui, as desculpas mais simplórias —). É o caso dos conflitos atuais que, por todo o mundo, fazem com que inocentes sejam alvos de insurreições que não se permitem mitigar. São verdadeiras disputas religiosas (que se iniciam como batalhas intestinas — e intestinais —) como as insurgências islâmicas no Magrebe, na Nigéria, nas Filipinas, no Oriente Médio, como a violência declarada entre xiitas e sunitas no Paquistão, como as agitações muçulmanas no sul da Tailândia1; 2.

A primeira impressão que nos surge é a de que, das três etapas de desenvolvimento de uma sociedade (selvageria, barbárie e civilização), a última dificilmente é alcançada; e quando a ela se chega, nela não se permanece. Não é de se espantar que “o homem está sempre em estado selvagem. O que são os perigos da floresta e da pradaria comparados aos choques e conflitos diários do mundo civilizado? Enlace sua vítima no bulevar ou trespasse sua presa em florestas desconhecidas, não é ele o mais perfeito predador?”3. E, para nosso caso, tal predação resume-se a uma desculpa tão anêmica quanto as ideias que a fundamentam: aos islâmicos, se o todo-poderoso Alá está em todos os lugares e é o alicerce de tudo, a nós, contudo, tal ubiquidade não é um de Seus atributos: é, sobretudo, uma característica da ignorância de seus seguidores. Mas muitos conflitos deflagrados por muçulmanos radicais não ocorrem por acaso; tenhamos, de antemão, o fato de que uma das mais importantes fontes de conflito é a religião4, sendo a violência uma de suas partes integrantes5; por conseguinte, corrobora-se a ideia de que “todas as religiões são, em seu mais profundo nível, sistemas de crueldades”6.

Crueldades, atrocidades, truculências apontadas nos bastidores das guerras religiosas que, por sua persistência, trazem a impressão de que não são travadas para serem ganhas, mas para serem conservadas — como se o sangue inimigo, sempre a escorrer, fortificasse a idolatria e dela retirasse alento. Para sermos estatísticos notemos que, “segundo estimativas de um acadêmico, em todos os momentos do período de 1950–96, os conflitos religiosos constituíram 33–47% de todos os conflitos”7. Ainda que tais subversões preencham várias linhas dos anais da História, tais conflitos não estão tão distantes de nosso tempo e de nosso espaço; se tomarmos por base o século XXI, observaremos que “o conflito no Afeganistão, na Caxemira, no Sri Lanka e em um número de Estados do Oriente Médio, ligado com o aumento do extremismo religioso, reforçou a visão de que há uma estreita e forte ligação entre a religião e o conflito. O conflito religioso não é, naturalmente, exclusivo à atualidade, mas existiu em várias formas na maior parte da História conhecida”8.

Não é por acaso que o Islamismo — e, ouse-se dizer, o Cristianismo, o Judaísmo e outras sandices similares — configura-se como obstáculo para o crescimento individual, social, científico e cultural dos povos, eternizando modelos enlatados de compreensão da realidade, perpetuando conveniências atrasadas, frases feitas, respostas prontas e idiotias doentias; isso tudo, saliente-se, a partir de uma distorção emocional conhecida como “fé”, sentimento de rebanhos alucinados que se submetem, com genuflexão mas sem reflexão, a um cão pastor que os controle — e dele imitando o rosnar. Tanto assim que não se pode deixar de confirmar que, merecedoramente, os seguidores das principais religiões monoteístas do mundo foram (e ainda são) ligados à violência radical9. O Islã, mais precisamente, “aceita o uso da violência para defender a fé em uma doutrina de guerras justas, a última etapa do jihad (que deve ser traduzida como esforço da fé, não como guerra sagrada)”10. Um esforço ameaçador, diga-se, que faz dos infiéis vítimas de homens-bomba, esta espécie de possíveis impassíveis que dificilmente bradarão, a plenos pulmões, Debelatum est! — não enquanto a religião islâmica entender a intolerância como um modo de suprir sua fraqueza teórica; nesse caso, o único grito que será ouvido será um estrondoso Allah Akbar! Mas talvez seja possível entender (sarcasticamente) essa problemática ao notar que, em linhas gerais, para um católico o Paraíso é um encontro de parentes em um clube de campo, mas para um islâmico é uma despedida de solteiro em um bordel repleto de virgens. E, como se nota pelos jornais, a tentação é grande.

Seja como for, tal esforço da fé significa, nas palavras de um islâmico, “opor-se à [sic] tudo quanto desagrada a Allah; e sob ponto [sic] de vista exógeno, ele (Jihad) significa combater o kurf – a incredubilidade[sic]/descrença com as palavras [com base no conhecimento da religião Islâmica] e acções”11. “Combater”, palavra da qual nem os próprios islâmicos estão protegidos, haja vista “o primeiro significado de jihad: a batalha não deve ser travada apenas contra os incrédulos, mas também contra os próprios muçulmanos, para anunciar ao mundo o selo da profecia e alcançar o Estado islâmico mundial”12. Visto isso, temos um cenário lamentável em que, quanto mais a humanidade progride, mais “a repressão cala fundo na alma dos que experimentam a secularização como agressiva e distorce sua visão religiosa, fazendo-a violenta e intolerante”13. Podemos, destarte, salientar o que se segue: “O que assistimos hoje? A um fundamentalismo sem fundamento. O que torna isso perigoso? Ninguém mostrar nada de fundamental”14.

Do que vimos até aqui, em um apanhado de estudos e dados preocupantes, podemos compreender a gravidade da situação. Um panorama que — se mudar — não mudará tão cedo; um quadro social em que a religião islâmica torna-se a cada dia uma desculpa mais forte e menos coerente para o assassínio de cidadãos inocentes, porque “infiéis”. Nesse ínterim, o que podemos aceitar a princípio é que “uma religião que coage a consciência não tem direito a ser tolerada”15. (Mas não deve haver preocupação quanto a isso: mesmo contrários que somos e contrariados que estamos, não nos explodiremos em lugares públicos para reafirmarmos nossas ideias.)

Por fim, e por esses — e outros — motivos, seria de bom-tom que os sectários de Alá pensassem duas vezes antes de iniciarem seus pronunciamentos com o célebre “Em Nome de Allah, Clemente e Misericordioso” (grifos nossos). Haveria algo de sarcasmo nessa epígrafe? Os fatos16 e as estatísticas dizem que sim.

*   *   *

Notas

  1. The decade in international conflict. Global security. Stockholm International Peace Research Institute, Ploughshar, US State department. 2009.
  2. JONGMAN, A. J. World conflict and human rights map. PIOOM – Interdisciplinary Research Programme on Causes of Human Rights Violations. 2001/2002.
  3. BAUDELAIRE, Charles. Fusées – Mon coeur mis à nu. Paris: Gallimard, 1986. Apud BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo. Trad. de Hemerson Alves Baptista e Jose Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 220.
  4. One of the most important sources of conflict has been identified as violence carried out on the basis of culture, ethnicity and religion […].” [NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  5. “[…] violence is an integral part of religion”. JUERGENSMEYER, M. “Sacrifice and cosmic war”. Terrorism and political violence. Vol. 3. Número 3. 1991. Apud NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. p. 124-125. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  6. “[…] alle Religionen sind auf dem untersten Grunde Systeme von Grausamkeiten […]”. NIETZSCHE, F. W. Zur Genealogie der Moral. In: ______. Sämtliche Werke – Kritische Studienausgabe. Vol. 5. Giorgio Colli e Mazzino Montinari (orgs.). Berlim: De Gruyter, 1988.
  7. According to one scholar’s estimates, throughout the 46-year period 1950–96 religious conflicts constituted 33–47 per cent of all conflicts”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  8. Conflict in Afghanistan, Kashmir, Sri Lanka and a number of states in the Middle East, coupled with the rise of religious extremism, has reinforced the view that there is a close and strengthening linkage between religion and conflict. Religious conflict is not, of course, exclusive to the present day but has existed in various forms for much of known history”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  9. “[…] adherents of all the world’s major religions — Buddhism, Christianity, Hinduism, Islam, Judaism and Sikhism — have been linked to extremist violence”. NEIL J. “Islam, conflict and terrorism”. In: Sipri yearbook. 2006. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.sipri.org/yearbook/2006/02/02C>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  10. “[…] accepts use of violence to defend the faith in a doctrine of just wars, the ultimate stage of jihad (which should be translated as exertion for the faith, not as holy war)”. GALTUNG, Johan. Religions, hard and soft. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.aril.org/galtung.htm>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  11. WAHHAB, Mohammad Ben Abdul. Os três princípios básicos do Islão e suas evidências. Trad. De Mohammad Mbiavanga Fernando. 2003. Disponível na Internet (para download) via WWW. URL: <http://www.islamismo.org/tresprincipiosbasicos.doc>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  12. “[…] el primer sentido del yihad: el combate no se debe librar simplemente contra los infieles sino también contra los propios musulmanes, para anunciar al mundo entero el sello de la profecía y realizar el Estado islámico mundial”. ÉTIENNE, Bruno. El islamismo radical. Madrid: Siglo veintiuno de España Editores, 1996, p. 173. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=eUUSkG7gU08C&oi=fnd&pg=PA1&dq=islamismo&ots=Y2FAUdRVNh&sig=kbdicUK2ShM0jLZJ5uy21-HvDDc#v=onepage&q=&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  13. ARMSTRONG, Karen. Em nome de Deus – o fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. Trad. de Hildegard Feist. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, p. 406. Disponível (parcialmente) na Internet via WWW. URL: <http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=DwDosH8b0xwC&oi=fnd&pg=PA9&dq=islamismo&ots=N001fJdr_w&sig=ek8rJf4FsHtT8i-b5azkfSuiZZQ#v=onepage&q=islamismo&f=false>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  14. ABRAHÃO, T. H. Litterae Bellerophontis. São José do Rio Preto, 2008, p. 169.
  15. BAYLE, Pierre. Philosophical commentary on these words of Jesus Christ, Compel Them to Come in. Trad. de A. Godman Tannenbaum. Nova York: Peter Lang, 1987, p. 147. Apud FORST, Rainer. “Os limites da tolerância”. In: Novos Estudos – CEBRAP. Número 84, pp. 15–29. Julho de 2009. Trad. de Mauro Victoria Soares. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-33002009000200002&script=sci_arttext&tlng=in>. Acesso em 06 de fevereiro de 2010.
  16. Religious conflicts – A collection of news and information related to Religious Conflicts published by Tribune Company sources. Disponível na Internet via WWW. URL: <http://www.chicagotribune.com/topic/unrest-conflicts-war/civil-unrest/religious-conflicts/16003004.topic>.



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II

Por que há essa guerra tão tensa entre crentes e descrentes? Pensando em uma hipótese que condiga com nossa vida cotidiana, poderíamos dizer o seguinte: porque a maior parte dos homens não tem elasticidade mental suficiente para ver o mundo sob duas óticas distintas — e realmente não seriam necessárias mais que duas para revelar a grandeza oculta de nossa inanidade mental. Mas a maioria dos homens não consegue — nem quer — ter uma ótica pessoal e outra impessoal ao mesmo tempo; a ideia, de início, já não entra em suas cabeças, e mesmo se entrasse, daria trabalho demais. Além disso, também é algo ingênuo esperar que os homens construam elaboradas visões de mundo independentes com fins meramente diplomáticos. Não nos importamos tanto assim uns com os outros. Então, em vez de entender todos os lados, é mais comum escolhermos apenas um e passarmos a odiar os demais por não concordarem conosco. A razão de procedermos dessa maneira parece ser nossa necessidade primata de lutar por “algo”, mesmo que esse algo seja uma idiotice insípida; no fim, isso lembra um jogo de futebol; talvez uma imagem mais clara seja um cão que late para proteger suas crenças. Seja como for, o resultado é que vemos os demais com uma ótica preconceituosa e egocêntrica, medindo-os em função de nossos próprios princípios como se fossem os deles. Parece um equívoco, mas talvez a ideia seja exatamente essa; é muito discutível se conseguiríamos suportar o tédio de uma existência perfeitamente pacífica, sensata e justa.

Olhando ao nosso redor, vemos que isso se aplica a virtualmente todos, inclusive à maioria dos ateus, que costumam ver a religião com um preconceito quase incompreensível. Como o assunto nos interessa, investiguemos melhor esse particular. Tentemos ilustrar o que seria uma visão que considera ambos os lados dessa equação. Por exemplo, são poucos os que conseguem ter esclarecimento suficiente para ser ateus e, ao mesmo tempo, colher os benefícios práticos da espiritualidade. Talvez pareça, mas um ateu rezando não é algo contraditório. Ora, rezar funciona, rezar é meditar, e a meditação pode ser agradável; todos sabem disso; seria ridículo tentar negá-lo. Obviamente, indivíduos rezam porque querem se sentir bem, não porque querem estar certos; dentro disso, se precisam da figura divina, é simplesmente como uma imagem à qual o pensamento possa se fixar para alcançar seu objetivo, que é sempre algum benefício prático, alguma melhoria em sua qualidade de vida, que acreditam ser proveniente de seu relacionamento com deus. Mas é claro que não pode ser, pois deus não existe. E é claro que isso não importa ao religioso, pois seu objetivo é colher os benefícios da crença em deus, mesmo que isso envolva enganar-se. Por outro lado, o objetivo do ateu é simplesmente estar certo, mesmo que isso envolva aplicar seus conhecimentos fora de contexto, numa infeliz tentativa de apontar a inconsistência teórica de algo prático. O ateu diz que deus não existe, mas o religioso continua vendo os resultados de suas orações — e que importa fazer sentido, se o objetivo dele é alcançado? Aos olhos do religioso, o ateu parece estar falando algo completamente irrelevante; e está. Religiosos não estão preocupados com os fatos; se estivessem, seriam ateus; e ateus também procedem dessa maneira “irracional” em vários assuntos. Por exemplo, nunca nos incomodamos em procurar razões para justificar o amor que temos por entes queridos falecidos, que têm um status ontológico ao menos tão duvidoso quanto deus. Assim, na prática, gostamos de alguém que não existe mais, e até em nossas cabeças ateias isso faz algum sentido, demonstrando que as coisas não precisam existir “mesmo” para que gostemos delas. Não daríamos a mínima para um racionalista argumentando que não podemos gostar de nossos pais simplesmente porque eles já morreram. Esse exemplo talvez nos ajude a entender por que os religiosos também não se importam com a existência literal de deus. Isso significa que podemos entender que deus não existe, mas podemos também entender a razão prática pela qual se busca a crença em deus. Com isso, a aparente contradição do termo “ateu religioso” se dissolve, pois percebemos que rezar não é uma admissão tácita da existência de deus, mas simplesmente uma técnica de meditação monopolizada pelas religiões. O budismo parece um bom exemplo de uma vida religiosa que pode ser conduzida ateisticamente.

Assim como o religioso, o interesse do otimista é sentir-se bem; o do pessimista é estar certo. Cada qual tem objetivos distintos, mas lutam entre si como se estivessem disputando pelo mesmo espaço, configurando o desencontro que estamos tentando explicar. Ateus e religiosos dificilmente chegam a se comunicar nesse nível básico em que somos todos humanos; nenhum dos dois se coloca sinceramente no lugar do outro para avaliar seus objetivos, seus motivos pessoais, sua história, para então perceber que, naquela situação, provavelmente faria o mesmo. Quando, depois de nos colocarmos nela, conseguimos compreender a situação de outrem, tornamo-nos mais tolerantes quanto àquilo que à primeira vista nos parecia um defeito, pois passamos a compreender os valores alheios em função da vida alheia, não da nossa. Essa identificação com o outro num nível tão íntimo gera empatia, algo que talvez não seja grande coisa, mas ao menos ajuda a amenizar a porção ideológica do conflito. Dito isso, podemos concluir que o pessimismo e o otimismo não são equivalentes. O otimismo é parcial em função de nossa vida prática, enquanto a parcialidade do pessimismo coincide exatamente com a imparcialidade; ou seja, seu interesse consiste em não ter interesse, por assim dizer. Tanto quanto podemos perceber, essa é a razão pela qual pessimistas quase sempre estão certos em suas observações, mas ao mesmo tempo permanecem espantosamente cegos à vida prática à qual o otimismo se curva de um modo tão desnecessariamente patético. Então podemos dizer que sim, o pessimismo está com a razão, mas está somente com a razão. Ele faz sentido, mas de um modo tão imparcial que até nossos interesses pessoais acabam amputados, e assim a vida é tornada intolerável pelo tédio robotizado ao qual a razão pura nos conduz. O otimismo, por um lado, conduz a uma ingenuidade insustentável; o pessimismo, por outro, conduz a uma imparcialidade paralisante. Parecem opostos, mas são apenas vizinhos que não se dão bem. Na verdade, quando conseguimos abrigar em nossas mentes uma visão realista de ambos os lados, percebemos que não são sequer lados. São nosso cérebro. São nossos instintos, que nos farão lutar até o fim — enquanto nossa razão sonha com indiferenças perfeitas.

CIORAN, Emile M. Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
MENCKEN, Henry Louis. O livro dos insultos. Seleção, tradução e prefácio: Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos: ou como filosofar com o martelo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.