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Em 1977, como parte do programa de exploração interplanetária batizada de Voyager,foi lançada na direção de Saturno a sonda Voyager I. Após completar a sua missão, em 1990, uma última foto foi tirada em direção ao planeta Terra, a uma distância de 6.4 bilhões de quilômetros. Esta fotografia ganhou fama e foi batizada de Pale Blue Dot (ou pálido ponto azul), que mais tarde inspirou a confecção de um livro homônimo do brilhante astrônomo norte-americano Carl Sagan, que na época fazia parte do projeto e havia solicitado que a imagem fosse capturada pela sonda.

Na imagem acima, destacada pelo círculo azul, o planeta Terra se apresenta como um insignificante ponto no universo. Olhos desavisados nem ao menos perceberiam sua presença. Não há nada de especial neste ponto luminoso, exceto para nós, que o habitamos. Este é o planeta no qual residimos e que serviu de testemunha para todos os feitos da humanidade. Não conhecemos (ainda) outra forma de vida, senão aquela que aflorou em solo terrestre.

Para nós, seres humanos, é fácil imaginar que todo o universo gira em torno de nossa jovem existência, de nosso planeta tão rico em vida, e tão facilmente desprezamos o fato que nada temos de especial neste colossal universo, senão o fato de que fomos afortunados o suficiente para proporcionar, em dado momento, que a célula primordial viesse a existir.

Dentre tantos planetas, só a Terra possui vida; logo deve ter sido obra de uma inteligência superior, diriam os crentes. Entretanto, sabemos que não é bem assim. Dentre bilhões de planetas que flutuam no nosso universo, não é nada impressionante o fato de a vida ter aflorado em ao menos um deles. Imagine que mesmo se a chance fosse de um em um milhão, ainda assim haveria uma alta porcentagem de favorecimento a alguns desses planetas.

É muito provável, ainda, que existam outros sistemas onde tal fato também se deu. Não é descartada a possibilidade de outros planetas que carregam em seu solo alguma espécie de vida extraterrena, que pode ser, ou não,similar ao que conhecemos por vida. Seja qual for a situação, nossa possibilidade de comunicação com tais seres se vê separada por anos-luz.

Me parece extremamente pretensioso que se atribua à uma força inteligente e infinitamente superior a criação de tudo o que existe, que deliberadamente o fizera com a única finalidade de servir de nicho para um grupo de humanoides, com a intenção de que estes últimos louvassem e erguessem templos em homenagem a este criador vaidoso e ciumento.

Entretanto, como nos lembra bem Carl Sagan, apesar de insignificante, este é o nosso planeta. É tudo o que temos. Não conhecemos ainda meios de migração para outros planetas, e não há qualquer previsão que torne tal acontecimento possível. É preciso cuidar do que temos, pois é o único que temos, e deixar de lado todas as futilidades e puerilidades metafísicas criadas por desocupados religiosos, inconformados com uma existência simples na Terra, e que sob a pretensão de serem vistos como humildes servos de um ser maior, criam a ilusão de uma vida póstuma, elevada e superior.

III

É normal uma pessoa religiosa estufar o peito para falar sobre a crença dos grandes gênios da humanidade. Alguns nomes logo vêm à mente. Isaac Newton é o primeiro. Físico, pai do cálculo e teólogo, para orgulho dos teístas. Galileu, um dos homens que desafiou a igreja, também acreditava em deuses. Einstein, muito citado em fontes não confiáveis pela internet como sendo autor de diversas frases, boa parte delas com alto teor religioso, também acreditava em algum deus (embora muito diferente do que a versão da grande maioria dos teístas). Da Vinci, Blaise Pascal e Kepler são outros nomes de grandes gênios crentes em deus.

Segundo o meu último texto, esse fato não interessa. Não entendam isso como uma tentativa de desvio ao fato de que muitos cientistas brilhantes acreditavam em deus. Na verdade, muitos outros cientistas brilhantes não acreditavam em nenhum e isso também não faz diferença alguma. Esse meu texto não vai atacar a validez da defesa apologética na qual os grandes gênios aparecem como evidência de que deus existe. Essa defesa já começa inválida por se tratar de simples falácia do apelo à autoridade. Quero falar sobre a relação entre a crença e suas experiências, uma ideia fundamental que parece ser sistematicamente ignorada por muitos teístas. Para tal eu focarei em Newton, visto que ele é o mais óbvio expoente de cientista crente em deus.

Newton acreditava – muito – em deus. Não resta a menor dúvida quanto a isso. De fato, ele era um teólogo. A faceta de Newton que não nos ensinam na escola inclui teologia e alquimia dentro das atividades deste cientista britânico. Essa mesma faceta é muito lembrada com orgulho pelos defensores da “ciência amiga de deus” de que eu falei no meu último texto. Como a relação deus e ciência é tão repleta de ironias, é óbvio que existe mais uma por trás da teologia de Newton. Não sei se os apologistas nunca pararam para pensar sobre isso por preguiça ou conveniência, mas o fato é que existem ótimos motivos pelos quais Newton não é conhecido por sua teologia e alquimia. Ao contrário do Newton físico, matemático e filósofo natural, a sua contraparte teológica e alquimista não colaborou muito (ou nada) para a humanidade. O cálculo de Newton e suas leis fundamentais revolucionaram a física, mas a alquimia e teologia foram irrelevantes. Seria interessante se Newton não tivesse desperdiçado tanto tempo na busca de uma pedra filosofal ou de um deus bondoso, talvez saísse mais um ou dois postulados.

Mas o ponto mais importante não é esse. Não faz muito sentido divagar sobre o que Newton teria descoberto caso investisse mais tempo em seus estudos sobre a natureza. Newton, como cada ser humano, era uma criatura cujos conhecimentos dependiam intimamente de sua experiência. Antes de ser um filósofo/físico/teólogo de grande calibre ele era um filósofo/físico/teólogo do século XVII – XVIII. Não há como dissociar Newton de seu tempo da mesma maneira que não há como dissociar uma ideia de sua época, visto que a primeira é um reflexo da última.

Um exemplo de como muitos apologistas falham miseravelmente ao dissociar um pensamento de sua experiência está no criacionismo. É comum ver criacionistas defendendo que os principais gênios, como os que eu citei no primeiro parágrafo, eram todos criacionistas. Mais uma vez vamos um pouco além, ignorando o fato de que o argumento é apenas uma falácia, para analisar a sua validade.

Antes de nos perguntarmos por que Newton, Galileu e Pascal eram criacionistas, devemos nos perguntar como eles se tornariam evolucionistas. Sabemos como Darwin se tornou um. Entre os principais fatores está nada menos do que uma viagem ao redor do mundo com frequentes paradas, incluindo na América do Sul, onde Darwin servia primariamente como geólogo mas também coletava espécimes diversos. Wallace, o co-autor da teoria darwinista estava na Malásia quando chegou, de maneira independente, à mesma ideia central que Darwin. Antes de ir para a Malásia Wallace estudou e coletou durante anos na bacia Amazônica, um lugar que muitos brasileiros sequer conhecem. E fez isso em pleno século XIX. Há de se considerar a experiência destes dois naturalistas. Como que Newton chegaria à mesma conclusão que Darwin e Wallace? Estudando prismas? Observando uma maçã cair? Ou então Galileu deveria ter descoberto algo sobre a evolução das espécies olhando as estrelas através de seu telescópio.

Nem Newton, nem Galileu, nem Darwin ou mesmo eu e você tiramos nossas conclusões do nada. O que chamamos de grandes gênios são pessoas que sugam lições de suas experiências com a voracidade que um tolo não conseguiria. Mas a informação chega para todos com a mesma intensidade, a única diferença está em quem a acolhe. Uma maçã caindo foi o suficiente para inspirar Newton a postular algo sobre a gravidade, mas nem mesmo todas as maçãs do mundo caindo simultaneamente fariam com que um homem, preguiçoso ou temeroso em pensar, concluísse qualquer coisa.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

Um dos aspectos mais polêmicos, e não por coincidência também um dos mais fascinantes, da saúde pública é a área de economia da saúde, que define de que modo os recursos disponíveis para a saúde serão aplicados.

A vida é um bem finito, ou seja, não importa quanto recurso investiremos nela, ainda assim, iremos morrer. Sempre ouvimos dizer que a vida não tem preço, mas é interessante observar que todos nós, vez por outra, colocamos um valor para as nossas vidas. Um exemplo bastante evidente disso é o adicional de risco que muitos profissionais recebem por sujeitar-se a trabalhos arriscados. Digamos que um eletricista aceite trabalhar em fios de alta tensão e, pelo risco, aceita um adicional de R$ 200 mensais. Ao avaliarmos as taxas mensais de acidentes fatais nesta profissão descobrimos que ocorrem em 1 para cada 1000 trabalhadores (exemplo fictício). Neste caso, o trabalhador coloca a sua vida em um risco de 0,1% por R$ 200, o que seria equivalente a assumir que a sua própria vida vale algo em torno de R$ 200.000.

Quando falamos de políticas públicas de saúde, a ideia de valoração da vida ganha contornos um pouco mais complexos e diretos. O orçamento destinado à manutenção da saúde das pessoas é limitado; por este motivo, os administradores de saúde precisam fazer escolhas que, grosso modo, definem aqueles que vão viver e aqueles que não vão.

Imaginemo-nos como ministros da saúde de um pequeno país com apenas R$ 100 para gastos com saúde. Em nosso país existem dois pacientes com câncer terminal cujo tratamento custaria R$ 45 cada. Além destes, temos um orfanato com 25 crianças com diarreia cujo tratamento custaria R$ 2 cada. Neste caso, a maneira mais inteligente de dispor nossos recursos seria tratar as crianças e um dos pacientes com câncer, não havendo alternativa além de deixar um deles morrer.

Os sistemas de saúde funcionam mais ou menos desta maneira, porém de maneira bastante mais complexa. Não existem médicos, leitos e medicamentos em quantidade suficiente para atender a todos os pacientes. Assim, a vida deles fica sujeita às decisões dos  médicos e enfermeiros. Da mesma forma, em nível nacional, definem-se quais campanhas serão ou não financiadas; assim, de maneira indireta são escolhidos quais doentes receberão maior ou menor atenção.

Seria desastroso um administrador, que com recursos limitados, decidisse não poupá-los para salvar a vida de seus doentes. O custo de tratar alguns poucos seria suficiente para tratar milhões com doenças simples, porém fatais.

Vale a leitura deste artigo, do Ministério da Saúde, no qual é citado o caso da Hepatite C, que é prevalente em 1% na população, ou seja, 1,9 milhões de pessoas no Brasil possuem essa doença. Caso fosse decidido tratar 25% destas pessoas com o tratamento mais eficaz, o Interferon Peguilado, custando R$ 52 mil por pessoa, seriam gastos 64% do total do orçamento do Ministério da Saúde. Não sendo possível tratá-los, o Ministério da Saúde os ignora.

Com todas estas circunstâncias, observamos que a vida real no mundo da assistência à saúde é bastante dura. Mesmo com todos os recursos as pessoas vão continuar morrendo; não há saídas.

Diante deste cenário desolador, surge um dos campos mais férteis e lucrativos para novas ideias. Com tratamentos revolucionários e incrivelmente abrangentes, os Charlatões da Saúde conseguiram, aproveitando-se da credulidade e ignorância da população, formar impérios milionários. Mais sobre eles em meu próximo artigo.

Criança e de criação católica na década de 1980, como quase todo mundo eu apreciei um disco de grande sucesso na época, cujo tema era estória bíblica da arca de Noé. Um trabalho interessante e bem produzido, tanto que eu quis readquirir, anos mais tarde, a mesma obra em formato CD, como uma lembrança nostálgica. A primeira faixa narra poeticamente, numa composição de Chico Buarque e Toquinho, e interpretação de Milton Nascimento, a tão conhecida passagem do Antigo Testamento.

Era uma obra para o público infantil, e explorava inteligente e divertidamente os bichos: leões, tigres, macacos, gatos, corujas, abelhas… realmente uma boa temática para crianças. Mas algum tempo depois que eu não me considerava mais católico, e que, ironicamente e pela primeira vez, me interessei pela leitura do Antigo Testamento, veio a percepção de que a estória do Gênesis não era lá tão apresentável sequer para pessoas de alguma idade, que se dirá para crianças.

Ora, resumidamente, a estória conta que, certa ocasião, Deus estaria bastante aborrecido por uma humanidade muito pecadora, e pediu a Noé que construísse uma arca em terra firme e para ela levasse sua família e um casal de cada espécie animal. O bravo Noé levou pra lá pares das bilhões de espécies existentes, não esquecendo sequer os pinguins nem os ornitorrincos, que graças a ele podemos ver até hoje. Para resolver o problema que tanto o enfurecia, assim que Noé terminou a tarefa, Deus fez chover em todo o planeta por 40 dias e 40 noites, matando afogados todos os que ficaram de fora da arca. Deus simplesmente comete ele mesmo um dos maiores genocídios já relatados, mesmo na ficção.

Com um pouco de senso crítico, essa estória só poderia ser ensinada a crianças como exemplo do que não fazer. Algo como:

Era uma vez um deus muito perverso que criou um planeta e colocou habitantes nele. Da forma como esse deus os fez, esses habitantes quase sempre agiam de forma diferente do que ele desejava. Então esse deus, que era muito rude, em vez de ter uma conversa com eles ou torná-los naturalmente agradáveis a ele, achou mais interessante escolher uma família para deixar viva e matar todos os demais. Deus mandou essa família entrar numa arca e inundou o planeta, e todos os que estavam fora da arca morreram afogados. Depois disso, essa família se multiplicou e deu origem novamente a uma numerosa humanidade que continuou não o agradando. E esse deus continuou elaborando métodos violentos muitas e muitas vezes para castigá-la, sem nunca conseguir que ela se comportasse como ele sempre quis, e viveu infeliz para sempre. Moral da estória: a violência não resolve problema algum.

De fato, a violência divina aparece repetidamente ao longo de praticamente toda a Bíblia, sem nunca chegar a um resultado satisfatório para Deus. Mesmo em passagens mais singelas, como na estória do profeta Jonas: Deus quis que ele fosse pregar a sua palavra em Nínive. Você adivinha o que acontecia lá? A população era muito pecadora – mais uma vez! Jonas não queria, a princípio, e Deus o convence fazendo um peixe grande engoli-lo e vomitá-lo na praia três dias depois. Nessa passagem, Deus me lembra Dom Corleone, o lendário chefe mafioso de O Poderoso Chefão. O que ele fez foi sequestrar Jonas, deixá-lo aterrorizado com a provável morte iminente por três dias, para passar o recado: “faça o que eu mandar, você não tem muita escolha”.

Como leitura educativa, essas estórias carecem de virtude.

Segundo a etimologia da palavra, respectus, em latim, quer dizer “consideração”, “atenção”[1]. É a origem de nossa palavra em português para “respeito”. Antes de dar uma definição do verbete, acho necessário dizer o que não é respeito.

Em primeiro lugar, quem ou o quê deve ser respeitado? Juridicamente[2], as pessoas têm liberdade constitucional à manifestação do pensamento (Constituição Federal, art. 5º, IV), à inviolabilidade de consciência e de crença (CF, art. 5º, VI) e à livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (CF, art. 5º, IX). É uma pequena amostra do extenso rol de direitos e garantias fundamentais elencados em nossa Carta Magna.

No caput do famigerado artigo 5º, é possível perceber que todos esses direitos são destinados aos indivíduos. Eles têm plena capacidade de exercê-los até onde a lei os restringe, como com a vedação ao anonimato do inciso IV e o direito de resposta, redação do inciso V. Em poucas palavras, os indivíduos têm todo o respeito estatal às suas convicções, mas toda e qualquer palavra ou opinião que seja externada é passível de crítica e sanções, caso haja abuso.

Mas o que isso realmente nos diz? Diz-nos que eu, enquanto indivíduo destinatário de direitos e garantias fundamentais, posso muito bem pensar que sou Napoleão Bonaparte. Diz-nos também que, caso eu externe esse pensamento e seja uma ameaça à vida e à ordem social, posso sofrer intervenção psiquiátrica. Grosso modo, equivale a dizer que eu sou respeitado; minhas ideias absurdas não. Elas precisam de respaldo e autossustentação para que sejam consideradas.

Analisemos, então, o que quer dizer um cristão, por exemplo, respeitar algum membro de outra religião ou de nenhuma: “respeito solenemente a sua vontade de passar a eternidade no inferno por não professar a religião verdadeira que garante uma passagem direta para o céu”. Agora vejamos como um ateu respeita um religioso: “respeito carinhosamente a sua infantilidade religiosa que tanto me faz rir, com todas as suas atitudes ridículas e suas bajulações a um ser imaginário com quem todos dizem se comunicar e de quem todos dizem obter respostas, em casos que poderiam muito bem ser clínicos, caso não fossem culturais”. Tudo isso dito com um sorriso amarelo de quem não sabe ao certo o que realmente quer dizer “respeito”.

O verdadeiro respeito pode e deve passar pela integridade intelectual. Pensemos: o que é uma reunião ecumênica? O fato de líderes religiosos de diferentes crenças se reunirem só demonstra a praticidade política de sua representatividade. A mensagem passada é a de que não queremos que nossos fieis se degladiem entre si, pois um banho de sangue é desnecessário, vez por outra. No entanto, em suas ideologias dissonantes e contraditórias, todos buscam abocanhar o maior número de pessoas para sua causa — que, diga-se de passagem, é a única certa e verdadeira. A imagem mais nítida de uma reunião assim é a de pessoas que, com uma mão, dão efusivas saudações e juram fidelidade e fraternidade, mas que seguram uma arma carregada e pronta para atirar, na mão que ficou escondida atrás de seu corpo.

As pessoas merecem, sim, todo o respeito que podemos conceder; e criticar suas ideias, por mais que o equívoco geral diga o contrário, é a forma mais honesta e sincera que temos para tal.

Notas:

[1] Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0

[2] Constituição Federal. Disponível em <http://www.planalto….tui%C3%A7ao.htm> Acesso em 06 de março de 2010.

A visão mais comum que se tem dos ateus é a de indivíduos carentes de espiritualidade; ou seja, como se fossem indivíduos aos quais falta uma espécie de sensibilidade que diz respeito exclusivamente à esfera religiosa. Mas o que é exatamente esse sentimento? E por que não tê-lo deixa os demais tão desconfiados? Ao que parece, pela simples razão de que tendemos a excluir os que são diferentes. Não é uma explicação que enaltece os ateus, mas parece ser bastante simples, óbvia e observável, satisfazendo ao menos o critério da Navalha de Occam.

Traçando um paralelo, imaginemos um indivíduo que não possui amigos. Além disso, suponha-se, para todos os fins, que somos seres sociáveis. Qual costuma ser nossa reação diante de um eremita confesso? Geralmente algo que não está muito distante da que um religioso teria diante de um ateu. Mas pensemos por ora no caso do eremita. Mesmo que — talvez inspirados por boas maneiras antropológicas — relutemos em confessá-lo, temos a clara impressão de que, pelo fato de o indivíduo não possuir um círculo social, sua vida paira oca sobre o abismo do absolutamente nada.

Na tentativa prematura de construir uma imagem de sua vida sem possuir qualquer dado a respeito, partiremos de vários preconceitos sem sentido, como, por exemplo, o de que ele é infeliz — mesmo que vejamos que ele é feliz. Obviamente, também pressuporemos que saibamos perfeitamente bem do que ele precisa — algo que invariavelmente coincide com o que nós próprios precisamos. Enfim, seja qual for o argumento que apresentemos em favor do ermitão, o indivíduo em geral se recusa a admitir que seja possível a alguém levar sozinho uma existência completa e satisfatória — ainda que ela esteja diante dele em carne e osso.

Assim, mesmo que o solitário leve uma vida aparentemente mais agradável que a nossa, isso só pode ser uma consequência do fato de que indivíduos iludidos são mais felizes, pois alguém que não concorda conosco só pode estar errado. Julgamos que, como sua vida não se encaixa no padrão que preestabelecemos como o único válido para alcançar uma satisfação que nós próprios nunca alcançamos — e nem por isso nos sentimos inclinados a pô-la em xeque —, o melhor que temos a fazer é nos protegermos desse indivíduo com todas as forças pelo simples fato de ser diferente; ou seja, mesmo que não tenha nos ameaçado em nada, o simples fato de ele ser diferente já é, para nós, uma ameaça implícita, que nos deixa tensos diante da possibilidade de não sermos o centro do universo.

Der man hat einen gross Geist und ist so klein von Taten [1]

Capa do livro de John Cornwell: O Papa de Hitler.

Hoje quero escrever um texto um pouco diferente. No início desse mês relembrou-se os 65 anos da morte de Anne Frank. Este ano também foi o ano em que Miep Gies, a última sobrevivente que ajudou a jovem Frank a se esconder, morreu, aos 100 anos. Anne Frank, apesar da pouca idade, nos deixou um legado e um ensinamento de vida e através da maturidade adquirida através do sofrimento, hoje somos capazes de enxergar a intolerância e a barbárie humana através dos olhos de uma criança.

Eu não preciso discorrer sobre Anne Frank, muito menos sobre a crueldade e a estupidez derivada do fanatismo político e da perseguição cultural, étnica e religiosa. É redundante relatar as atrocidades ocorridas nos campos de concentração, das quais a jovem Frank foi testemunha. Tudo isso é dispensável, pois você, leitor, as conhece muito bem. Mesmo os seres doentos que ainda insistem em negar o holocausto, por puro preconceito racial, hão de convir quanto à desumanidade de tal regime político.

Muitos religiosos, hoje, gostam de atribuir a Hitler o status de ateu. Sabemos que não é bem verdade, basta ler o Mein Kampf para perceber que o Führer possuia, no mínimo, grande simpatia pela igreja católica. Chegava até mesmo a atribuir ao povo Judeu a culpa pelo suposto assassinato do filho de deus. Mas também é desnecessário abordar aqui a patológica mentalidade hitlerista, pois esta você também já conhece.

Talvez você já tenha sido capaz de antecipar o tópico o qual estou prestes a abordar. Certamente deve possuir uma opinião formada sobre o tema. Não é difícil adivinhar, considerando o teor deste sítio. Por que Pio XII, o papa católico da época, foi tão complacente com o nazismo? Claro que ele auferiu vantagens políticas fechando os olhos para o que estava acontecendo, ademais o Vaticano se encontrava em território inóspito, mas qual é a postura que se espera de um grande líder religioso em uma situação como esta?

Elite nazista nos corredores do Vaticano. O beijo de submissão ao anel papal.

É preciso esclarecer que na época (e como é comum que haja alternâncias a tal respeito) o vaticano possuía uma postura direitista. E apesar da tentativa de mascarar a situação, é amplamente conhecido o apoio da igreja ao regime alemão, ao menos dentro dos território ocupados. Não é difícil fazer uma defesa de tais cardeais e bispos, mas o Papa, o representante de deus na Terra (segundo a mitologia católica) se abster de ajudar milhares de judeus que caminham para a morte? E se fossem cristãos, e mais especificamente católicos, como teria agido Pio XII?

Em 1933 foi assinada a Reichskonkordat entre o Vaticano e a Alemanha, no qual se assegurou o direito de todos os católicos em território alemão. Isso mesmo: (apenas) todos os católicos. No mesmo ano, Hitler declarou:

“O Governo Nacional deverá considerar como seu dever, em primeiro lugar para reviver no país o espírito de unidade e cooperação. Ela irá preservar e defender os princípios básicos sobre os quais nossa nação foi construída. Ele respeita o cristianismo como o fundamento da nossa moralidade nacional e da família como a base da vida.” [2]

Não se trata apenas de um fato histórico digno de causar náuseas naqueles que possuem um pouco de sensibilidade e conhecimento básico da história do mundo, mas de algo que vem sendo deliberadamente mascarado e negado pelo vaticano e seus pupilos de todos os graus. Apesar de negar as acusações, o vaticano manteve todos os arquivos referentes a guerra trancafiados por todos esses anos.

Até que o professor da Universidade de Cambridge, até então católico e conhecido pelo seu livro sobre João Paulo II, ganhou

Pio XII assinando a Reichskonkordat

Pio XII assinando a Reichskonkordat

acesso à biblioteca do Vaticano. Motivo: patrocinar um livro que limparia de vez o nome de Pio XII e qualquer traço sobre seu envolvimento com o regime nazista, antes ou durante a guerra. O que a cúpula máxima da Igreja católica desconhecia era o que estaria por vir: John Cornwell acabou por publicar um livro rico em detalhes sobre a participação e colaboração direta do Papa junto ao nazismo. Em seu livro intitulado “O Papa de Hitler”, John apresenta evidências convincentes de que não só a Igreja fechou os olhos para o massacre massivo de judeus, como participou ativamente em decisões politicas e estratégias militares.

É importante mencionar que Pio XII tornou-se papa durante o regime do Terceiro Reich, em 1939, e não sem propósito. Era preciso um Papa com visão política, capaz de reunificar a Igreja e restabelecer a força do catolicismo, sem contudo desagradar o governo que ameaçava toda a Europa da época. É com a reflexão de um pensamento egoístico, frio, calculista e excepcionalmente maquiavélico que deixo você , leitor, refletir. As imagens falarão por si só, em memória de um tempo em que a humanidade foi esquecida em detrimento de poder político, em que a intolerância religiosa virou regra e o cheiro da morte já não causava estranheza às elites burocráticas.

  1. “O homem tem grande espírito, mas são tão mesquinhas as suas ações”. Poema encontrado no livro de Anne Frank
  2. HITLER, Adolf. My New World Order, Proclamation to the German Nation at Berlin, February 1, 1933) Sem tradução para o português.

II

Existe um recurso muito comum utilizado pelos crentes que é a falácia da autoridade. Ela funciona da seguinte maneira: argumenta-se que a afirmação é correta, pois ela supostamente foi defendida por uma pessoa ilustre. Um exemplo: “Fulano disse que é assim, e como ele tem PhD em tal área (não interessa qual) então deve estar certo”.

Mas é aí que vem a parte engraçada. No último texto falei de como a “ciência” caiu no imaginário popular como inimiga da “fé” ou mesmo de “deus”. Muitas vezes a ciência e a tecnologia eram retratadas como algo contrário aos bons tempos em que as crianças jogavam peão e não video games, e se andava de carroça ao invés de carro. Ou então os cientistas eram os arrogantes sabichões contradizendo antigas culturas e tradições de pessoas humildes. Mas bastava um cientista defender a ideia de que a ciência corroborava a fé para que este se tornasse uma autoridade de confiança instantaneamente. E então vem a falácia de autoridade mais irônica que eu conheço. Muitos textos apologéticos são recheados de citações de bioquímicos, físicos, matemáticos e geólogos, como se as palavras destes possuíssem maior peso do que a de qualquer outra pessoa. Não é a eloquência de seus argumentos ou o quão suas ideias refletem o mundo natural mas meramente o fato de serem cientistas e dizerem que deus existe.

Se algum dia encontrarem um texto avulso, como os manuscritos do mar morto, revelando em alguns de seus versículos que as espécies derivadas evoluem de suas ancestrais, a teoria neodarwinista será alavancada de “inimiga da fé” para “evidência de que deus existe”. O número de criacionistas iria cair e, quem sabe, Darwin seria canonizado! Brincadeiras a parte, a verdade é que a ciência é menosprezada ou mitificada quando convém. Mas, afinal, a ciência apóia ou derruba deus? Para mim, a resposta é fácil. Nem um nem outro, a ciência não trabalha com deus. Mas para os que creem não só em deus como na ciência como sua aliada/inimiga, essa pergunta é muito pertinente.

Para resolver esse dilema, muitos apologistas apelaram para a ideia de “cientistas verdadeiros”. Conceito nebuloso esse, o de “cientista verdadeiro”. Nada menos do que outra falácia, apelidada de “Falácia do escocês de verdade”. Para exemplificar, suponhamos que eu diga o seguinte: escoceses não bebem vinho. Então ao entrar em um pub qualquer você encontra um escocês bebendo vinho, para o meu desagrado. Esse testemunho eu posso desmerecer afirmando que “Um escocês de verdade não bebe vinho”. E ficaria eu sem definir o que diabos seria um escocês de verdade. Vai ver que o sujeito que você encontrou no bar simplesmente nasceu na Escócia, mas não possuía todos os atributos de um “bom escocês”. Falácia; meu argumento foi derrubado no momento em que você avistou o escocês “no ato”.

Linus Pauling - O que falta para ele ser considerado um cientista de verdade?

Aqueles que não se encaixam no perfil carente de definições de um “cientista de verdade” decerto são pseudocientistas. Exemplos desses “pseudocientistas”? Bom, temos Francis Crick; Paul Dirac; Alan Turing; S. Weinberg; James Watson; Steven Pinker; Linus Pauling; Susan Greenfield; Ernst Mayr; John M. Smith; Sir Julian Huxley e, enfim, a lista é enorme. Vale lembrar duas coisas. Primeiro, a lista de cientistas que acreditam em deus também não é pequena. Segundo, muitos dos cientistas considerados como “não verdadeiros” ou “materialistas” se autodefinem como agnósticos e não como ateus, apesar de que F. Crick, por exemplo, se definir como “um agnóstico com forte inclinação para o ateísmo”. De onde a ideia de “cientistas verdadeiros” surgiu é assunto para o meu próximo texto. É um assunto grande, pois muitos dos maiores cientistas da história acreditavam em deus(es), o que é motivo para grande orgulho de muitos religiosos desinformados. Só que a crença desses grandes gênios é algo peculiar quanto à sua natureza, assim como a época na qual esses cientistas viveram deve ser analisada cuidadosamente.

Os nomes que eu citei anteriormente são de pessoas muito importantes para a humanidade, vale lembrar. Dizer que Watson e Crick, os descobridores da estrutura do DNA, não são “cientistas de verdade” é atestado de ignorância. Temos ainda Linus Pauling, ganhador do Nobel de química e também da Paz (deve ser muito chato para um fanático saber que um ateu ganhou o Nobel da paz). Fora outros, mais claramente ateístas, como Stephen Jay Gould, Richard Dawkins e Carl Sagan. Não sei o que falta para esses senhores e senhoras serem considerados cientistas de verdade. Mas os apologistas certamente sabem. Se ao menos eles demonstrassem qualquer sinal de crença, seriam eles considerados geniais.

Quanto à porcentagem de ateus, tem esse estudo de Edward J. Larson e Larry Witham [1] feito dentro da NAS (National Academy of Sciences). A grande maioria é ateia, com um número menor de agnósticos e um número menor ainda de tementes a deus. Não sei como essa porcentagem se representa em outros lugares, mas certamente é um dado interessante.

O ponto é que isso é irrelevante. O estudo de Larson e Witham não prova que “verdadeiros cientistas” são ateus. Mas certamente é um soco no estômago para aqueles que acreditam em uma “ciência verdadeira” na qual deus é constantemente demonstrado. Qualquer posicionamento em um debate deve ser avaliado pelo peso de seus argumentos, nunca por falácias como a da autoridade, onde algo proferido por um doutor deveria valer mais do que por um leigo.

Notas:

[1]Nature, Vol. 394, No. 6691, p. 313 (1998) © Macmillan Publishers Ltd.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes