II

O meu fusquinha inverossímil tem uma grande vantagem: não precisa se amarrar aos limites da realidade. Na minha empreitada de vendedor imaginário, eu o ofereci a um comprador que disse que iria gastar muito mais, mas preferia um carro moderno; de fato estava prestes a comprar um super-esportivo muito potente, que faz de 0 a 100 em apenas cinco segundos. Falei pra ele que o fusca é superior, é mais potente que um fórmula um e faz de 0 a 100 em bem menos de cinco segundos. Um segundo interessado disse que gosta é de escutar música clássica no carro, e prefere um modelo luxuoso e ultra silencioso, e odeia esses modelos muito potentes, porque fazem um barulho dos diabos. Disse a ele que não se preocupasse, o fusca era o mais silencioso dos carros. E uma senhora, por fim, ponderou que era uma péssima ideia um carro tão potente quanto silencioso, pois o que seus donos costumam fazer é abusar da confiança e se esborrachar em um poste. Tranquilizei-a também: o meu adorável fusquinha é o mais seguro dos carros, ninguém nunca se envolve em acidentes com ele. Agora essa estória exacerbou. Se antes o fusca era somente muito improvável, passou definitivamente a pertencer ao mundo da magia.

Alguém apontará uma falha notável na minha analogia do fusca com os benefícios que as religiões prometem à troca de fé: eu sou só um mortal comum, não mais – e tomara que não menos – que os mais de seis bilhões que habitam hoje o planeta. Como qualquer um deles, eu não tenho a possibilidade de entregar esse carro. No caso das promessas religiosas, elas seriam cumpridas por um ser mais poderoso do que eu. Quão mais poderoso? Infinitamente. Esse ser é, simplesmente – como isso pudesse ser simples – onipotente.

Esse ser tem ele próprio algumas inconsistências, a começar pelo fato de um ser que tudo pode realmente pode tudo, com exceção de existir. Segundo as religiões mais populares, ele está muito acima da capacidade e do entendimento humano, é único e se revela pela fé. Mas, se está acima das capacidades humanas, por que tem sentimentos e comportamentos tão humanos, como amor e ódio, destruição de coisas materiais e vidas por acessos de raiva e desejo de vingança, preferência por algumas pessoas e rejeição por outras? E, se é único, por que se revela de formas diferentes a povos que habitam lugares diferentes, e até mesmo de formas diferentes a pessoas diferentes dentro de um mesmo povo? Dos diversos deuses do hinduísmo, da mitologia greco-romana ou das tribos indígenas das Américas ao deus único do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, do dar a outra face ensinado na bíblia por quem seria o filho de deus à invasão do Iraque, segundo o então presidente dos E.U.A, George W. Bush, inspirada por esse mesmo filho de deus, das Católicas pelo Direito de Decidir que defendem a laicidade do Estado ao papa Joseph Ratzinger a constranger políticos católicos que não defendem a proibição total e irrestrita ao aborto, nota-se uma diversidade imensa na forma como os deuses ou o deus único se “revelam” a pessoas diversas.

Seriam essas características de um ser real e externo à mente de cada pessoa, ou um ser criado pela própria imaginação, induzido por uma vontade inerente e por apelos à fé? Não seria o apelo à fé pura simplesmente um apoio ao autoengano? Para quem não toma a fé como um valor fundamental para a vida, isso parece bastante evidente, e o clamor por fé não seria mais do que uma forma até mesmo simplória de delegar ao fiel a tarefa de se convencer. Ora, por que as promessas feitas pelas religiões, que o deus professado por elas cuidará de cumprir, coincide exatamente com o que queremos? A começar pelo desejo mais forte de quase todo ser humano, aliás a quase todo ser vivo complexo o bastante para ter desejos, que é o de não morrer. No mundo real, é notável que todo ser vivo um dia morre, e que todos nós somos seres vivos. A conclusão é tão direta quanto incômoda, e o que as religiões oferecem é o alento a esse incômodo: “na verdade” o ser humano não morre; em vez disso vai para outra vida. Vai para uma outra existência que pode ser mais interessante ou simplesmente para a felicidade eterna, conforme a vertente religiosa que se escolha.

Esse tipo de afirmação deveria, em princípio, ser passível de comprovação, digamos alguma comunicação inequívoca com alguém que já passou pela morte, a comprovar que continua vivo em algum outro lugar. O que as religiões oferecem em lugar dessa comprovação é um misto de ora que esses sinais se dão – mas que nunca resistem a uma análise científica – e ora que não se dão porque o ser criador de tudo não quer, por razões reconhecidamente inexplicáveis – o argumento de que estão além da compreensão humana. Estranhamente, para ter isso que elas oferecem e é exatamente o que você deseja, na falta de argumentos palpáveis, pedem para que você tenha fé. Mas será que o simples acreditar, por mais intenso que seja, é capaz de criar um paraíso de vida eterna e feliz mais é de criar um fusquinha mágico?

 

O argumento da fé
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2 Comments

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/08. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 3 de março de 2010 at 14:03
    • Permalink

    Belo texto, Sérgio. Fusquinha neles.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/08. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 4 de março de 2010 at 9:11
    • Permalink

    Ótimo texto lewis, e feliz aniversário.


One Trackback/Pingback

  1. By O argumento da fé on 16 maio 2011 at 1:54 pm

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