No Brasil é notório que um considerável número dos ateus contemporâneos já foram religiosos um dia. Geralmente educados por famílias tradicionalmente cristãs, em algum momento de suas vidas — e pelos mais diversos motivos — eles se questionaram sobre a existência de um deus e de todas as outras coisas que a religião propõe. É interessante perceber que nem mesmo os mais devotos conseguem escapar de tais dúvidas, entretanto nem sempre chegam à mesma conclusão.

Através de efetivos instrumentos de manutenção da crença, as instituições religiosas desenvolveram uma perniciosa lógica cíclica, atribuindo tal dúvida como algo importante para a existência do próprio conceito de fé. Para estas dúvidas, adotam diferentes nomes: tentação, teste divino, desvio etc. Não é incomum ver o Livro de Jó ser invocado como exemplo de perseverança na fé, ou a fábula de Tomé, que precisou ver Jesus encarnado para crer em sua ressurreição.

A dúvida sobre a existência de um deus é natural, e nem mesmo os ícones da cristandade escapam. Madre Teresa de Calcutá, por exemplo, é tida como exemplo de perseverança e filantropia para os católicos; entretanto, até ela travou incessantes e furiosas batalhas contra a descrença. Em seu livroI loved Jesus in the night (sem tradução para o português), Teresa demonstra uma agonizante resistência contra o seu ateísmo natural. Sua hipocrisia religiosa hoje é tida como exemplo a ser seguido, e o livro tem sido publicado por editores cristãos.

Não é incomum histórias sobre padres que abandonaram a batina, mas é um outro tipo que me chama a atenção, e sobre o qual quero discorrer hoje. A história de Teresa de Calcutá me traz lembranças de um antigo professor de hermenêutica, que nos meus primeiros anos de faculdade me surpreendeu com sua inteligência e sagacidade. Este professor, que era padre católico, havia confessado em determinada oportunidade que tinha muitas dúvidas, e hoje poderia se encaixar facilmente no conceito de agnóstico.

Mas não se engane, este não é um caso incomum, poucos são os que emergem e tornam-se visíveis. Possivelmente o primeiro exemplo conhecido data de 1730, quando foi encontrado post mortem o manuscrito de Jean Meslier — proeminente padre católico francês, autor de inúmeras obras sobre filosofia e religião — intitulado “Memorias dos pensamentos e sentimentos de Jean Meslier: uma clara evidência da frívolidade e falsidade de toda as religiões do mundo” talvez tenha sido o primeiro livro com fortes embasamentos teóricos em defesa do ateísmo, ironicamente escrito por um padre.

Diferentemente de Madre Teresa, Jean Meslier já não mentia para si. Dedicou toda a sua vida para escrever secretamente tal obra, mas ainda assim continuou até os seus últimos dias a seguir rigorosamente os seus votos clericais. Seu assombroso intelecto nos presenteou com esta obra de grande significância, que exerceu influência sobre Voltaire e outros pensadores iluministas, com pensamentos que transpassam as barreiras do tempo, como a ideia de que “existindo ou não deus, os homens possuem uma obrigação moral para com outros homens, que perdurará enquanto for da sua natureza o convívio social”. Ainda assim, Meslier nunca tirou a sua batina.

Estes dois exemplos supracitados são os que mais me espantam. Já não são mais atingidos pelos mecanismos de manutenção da fé, são capazes de enxergar a puerilidade das crenças nas quais pautaram todas as suas vidas, entretanto continuam rotineiramente a exercer o que faziam desde o princípio: exaltar e reforçar ilusões em corações ignorantes e/ou desesperados. Creio ser uma analogia pertinente a de um casal de namorados que permanecem juntos por anos a fio, sem que haja qualquer sentimento maior entre os dois. O que os unia no princípio já não existe mais, mas por comodismo preferem permanecer juntos.

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One Comment

  1. Certa vez, no fórum Ateus.net, foi levantada a questão sobre o próprio papa católico, possuidor de muito conhecimento e estudos, nas entranhas de sua intimidade pensante, ser ateu. Eu não duvido nada. Na verdade, apesar de ser uma aberração para o católico comum, é o mais provável.