Breve etimologia: Homo (homem) é cognato da palavra latina humus (terra). Adão significa tanto “homem” quanto “barro”. No hebraico bíblico temos ‘Adam (homem) e ‘adamah (terra, barro).
Um equívoco maior do que atribuir obras naturais a um ser imaginário é se autodenominar “homem”, criando rótulos para não apenas se distinguir, mas também para definir as espécies por status (abstratos), meras criações do Homo sapiens para colocar-se acima dos demais seres, porém nem sempre condizente com sua real situação.
Assim como os seres míticos, o homem não existe enquanto ser, pois não é palpável, imutável, estável e nem mesmo provável. Não é o mesmo em todo lugar, nem possui características próprias. Não é natural, apenas um produto artificialmente criado pelo meio.
“Humano” é um termo adotado não apenas para a classificação de uma espécie, mas também para a visualização do outro através de conceitos pessoais, sendo este último consequência ambiental, cultural e genética, que definem a “visão de mundo” das espécies, em especial o Homo sapiens.
O Homo sapiens não criou deuses e seus respectivos poderes fantásticos apenas para a explicação do desconhecido, mas também para sustentar um mito anterior a tudo isso que foi desenvolvido — ele mesmo — justamente por sua capacidade de abstração e ampliação de um sistema cognitivo cada vez mais avançado. Distorce-se o sentido (sur)real desta palavra para benefício próprio, visto que “é de ilusões que se vive o homem”, sendo que esta frase deixa bem claro que o homem não vive, apenas se vive, o que é bem diferente e óbvio.
Este abstrato ser, o homem, necessita de pilares para sustentar o termo que é. Segmentações complexas e dificilmente descartáveis tornaram-se indispensáveis para a definição de grupos sociais (e talvez por isso torna-se um ser tão discrepante).
Entre os pilares de sustentação do homem podemos citar três como principais:
Mythos: Pilar imprescindível para a sustentação de uma postura soberana, sádica e divina, perante outras espécies, raças e culturas. Por exemplo, o catolicismo, que defende que somos imagem e semelhança de um deus poderosíssimo, ou o simples fato de associarmos inteligência com ateísmo, podendo ser esta a mitificação de uma postura/ideologia. O conceito de mitificação se estende para além do horizonte da imaginação, pois quando condicionado não se vê a própria falha, se é que podemos chamar de falha.
Mea Gloria: Pilar que sustenta uma característica básica de todo ser vivo, inclusive as plantas: a competição. Foi transformado pelo Homo sapiens, deixando de ser algo necessário para sua sobrevivência genética e passando a suster sua sobrevivência memética e um suposto posicionamento social (abstrato e mutável). Resume-se na fusão entre necessidades básicas, como a alimentação e a sobrevivência, e necessidades fúteis, como o Mc Lanche Feliz e a vida eterna.
Sapere Idiota: Advém de conceitos externos do individuo, baseado (novamente) em termos abstratos. Origina, além dos pilares citados anteriormente, tantos outros com explicações extensas e complexas, e tudo isso para justificar a insolubilidade nos conceitos que a espécie tem impregnada em si. Pode ser entendido como o conjunto de falácias somado ao medo do fracasso existencial (o desconhecimento, a submissão, a solidão, a morte etc.)
Fato é que, extinguindo-se toda a abstração desnecessária para a compreensão da espécie Homo sapiens, como valores culturais absorvidos e interpretação pessoal do outro e do ambiente, volta-se ao que realmente é o estado “cru” do ser, despido de glórias e mitos (uma clara utopia). Se assim se faz, chegar-se-á a uma única conclusão: a humanidade é a maior invenção do homem, que por sua vez não passa de um avatar utilizado por nossa espécie.
Talvez uma ínfima parte do Genesis esteja certa: nós viemos do barro, terra (subentende-se o lodo). Um ser simples, sem ornatos.
Eis aqui o Homo sapiens, tão homem quanto um vegetal.
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(artigo recebido em 10 de janeiro de 2010)
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