III

Se a fé não tem a capacidade de realmente prover o objeto de desejo que a produz, ou que a justifica, cabe de qualquer forma questionar se existe algum mal em tê-la. A fé traz conforto, alterando, ao menos psicologicamente, uma realidade demasiadamente incômoda para algo nada incômodo ou até mesmo agradável. Quando o seu corpo parar de se mexer por si mesmo e começar a apodrecer, como acontece com todo mundo algum dia, você não estará morto, mas sim continuará a viver em um outro lugar onde o seu corpo não será necessário. E aquelas pessoas queridas que você viu morrerem um dia, aquelas que deixaram uma saudade quase insuportável, você poderá ter a companhia delas outra vez.

Usamos outras coisas assim no dia a dia, e não são necessariamente ruins. A anestesia suprime uma dor física demasiadamente grande, e é fundamental para o sucesso de quase todas as cirurgias. É não só útil como muito benéfica, e os benefícios vão além da supressão da dor, já que em grande parte das vezes o usuário pode viver bastante mais tempo por ter tido uma cirurgia bem sucedida. Ou mesmo um ato simples como o de tomar refrigerante. Fazer isso não traz nenhum benefício físico: podemos nos hidratar bebendo simplesmente água e as calorias nós normalmente já consumimos em excesso em outros alimentos, tanto que uma parte das pessoas prefere a versão dietética. Mas proporciona um pequeno prazer – um efeito puramente psicológico – com o qual podemos considerar a vida um pouco melhor.

O mesmo se pode dizer de preferir a vida com fé – por que não? Se é um alento, um conforto que dá à pessoa a possibilidade de se preocupar menos com um problema que de toda maneira é inevitável, e isso não muda independente de quanta preocupação se dedique a ele. Não há um mal intrínseco nessa postura, mas vale para a fé a regra que convém para praticamente qualquer coisa: “use” com moderação. Manter os pés no chão – ou a cabeça na realidade que não dá indícios para os acontecimentos pretendidos com fé – permite colher o conforto que proporciona sem prejuízos colaterais.

O problema é que a as religiões mais populares exploram a necessidade, a busca pelo conforto emocional num mundo onde coisas ruins acontecem e as tendências que todo mundo ocasionalmente tem à irracionalidade, para fazer um apelo exacerbado ao argumento autossustentado – e vazio – da fé. Conquistam massas com esse recurso que atrofia a capacidade crítica das pessoas e com isso conseguem transmitir ideias e explorá-las, mesmo com promessas baseadas em mundos que ninguém nunca viu e à troca de vantagens absolutamente mundanas, sem praticamente nenhum questionamento. E rebanhos de religiosos cedem 10% de suas rendas a igrejas que não cogitam o trabalho de prestar contas – isso quando não são mais afoitas e pedem contribuições mais vultuosas aos seus fiéis, como carros, imóveis e outros bens ofertados a um deus inexplicavelmente materialista; oferecendo em troca um duvidoso paraíso de felicidade ao mesmo tempo em que os ameaça com o fogo de um suposto inferno caso não contribuam satisfatoriamente. Mais impressionante do que haver líderes religiosos que usem de uma retórica assim é haver fiéis que se comportem de acordo e achem tudo perfeitamente normal. Isso só se explica com muita fé.

 

O argumento da fé
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One Comment

    • Rulphus
    • Posted 14 de março de 2010 at 20:32
    • Permalink

    Ao sugerir que o ateísmo muitas vezes é movido por razões ignóbeis, certos teístas não descartam a existência da descrença sincera, e apesar de discernir tal fato, insistem, persistem, em fugir.

    Os teístas, principalmente cristãos, que mais atacam os ateus, são vitimados também pelos seus argumentos, eis que as coisas horríveis que acontecem neste mundo, o mal e o sofrimento, propõem um sério desafio intelectual e moral.

    Quando coisas terríveis acontecem, catástrofes naturais, guerras e terrorismo, parece que elas são mais facilmente explicadas pela ausência de Deus no mundo, do que por sua presença. Mas o que poucos percebem é que o mal e o sofrimento revelam-se também num problema emocional.

    O sofrimento, além de destruir mentes, destrói corações. Quando se é acometido por uma trajédia individual ou coletiva, não se quer uma teoria para explicar o fato, mas sim algo que traga conforto.

    O ateísmo tem a melhor explicação para este mal e sofrimento, mas não oferece consolo. Porém, o teísmo, que não tem uma boa explicação, e por vezes nenhuma, oferece uma melhor forma para se conformar.

    Prefiro a consciência do que a ilusão, esta é minha escolha.


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  1. By O argumento da fé on 20 maio 2011 at 4:29 pm

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