Não se passou ainda muito tempo desde que a internet começou a se popularizar. No Brasil, somente a partir de 1995 tornou-se possível ao público contratar os serviços de provedores de acesso à rede e conectar-se ao ciberespaço. Mas, desde então, os hábitos de milhões de pessoas se modificaram radicalmente, e hoje o acesso à internet é indispensável para muitas pessoas, especialmente no campo profissional. Logo no início da popularização da internet no Brasil, na segunda metade da década de 1990, tornou-se lugar-comum a ideia de que a rede promove ao mesmo tempo integração e isolamento. Inúmeras vezes já foi dito que hoje há muita gente que conversa todos os dias com pessoas do outro lado do mundo, mas não sabe sequer o nome de seus vizinhos.

Esta ideia é expressa, geralmente, como uma espécie de reprovação ao comportamento de quem cultiva mais relacionamentos virtuais do que reais. Condena-se tais relacionamentos como algo que promove o distanciamento entre as pessoas, ou a reclusão, ou hábitos antissociais. Talvez, em certa medida, esta ideia tenha algum fundamento. Fala-se em pessoas viciadas em internet, que não têm outra vida além da tela de um computador. Mas esses casos são uma insignificante minoria, e a internet, na verdade, revelou-se um poderoso instrumento de aproximação de pessoas que possuem algum tipo de afinidade, mas que jamais se encontrariam fora do ciberespaço. Os ateus são um bom exemplo.

Sou ateu desde antes da popularização da internet no Brasil. Acessei a rede pela primeira vez quando estava na universidade, em 1996. Antes disso, acho que conhecia pessoalmente no máximo uns dois ou três ateus. O isolamento era então muito grande. Imaginemos a seguinte situação: um católico praticante tem à sua disposição, em qualquer lugar do país, igrejas para frequentar e, consequentemente, sempre encontrará um grupo de pessoas com quem tenha afinidade. Se um cristão deseja conversar com alguém que compartilhe de suas crenças, facilmente encontrará interlocutores. Se este cristão se mudar de cidade, não terá dificuldades para encontrar outro grupo. Os ateus, antes da internet, dificilmente encontravam pessoas com a mesma cosmovisão, exceto, talvez, em cidades grandes de alguns países onde alguns grupos já se haviam organizado. Este isolamento era agravado pela forte oposição e até mesmo hostilidade que muita gente ainda tem ao ateísmo. O ateu, além de se sentir isolado, sofria maior pressão social para não manifestar seu pensamento, e manifestar publicamente ateísmo, mesmo que de forma corriqueira, em simples conversas, poderia trazer aborrecimentos para a vida social do descrente. Ser parte de uma minoria que desperta algum tipo de hostilidade sempre gera este tipo de pressão sobre o indivíduo.

É, portanto, inegável que a internet tenha ajudado, e ainda esteja ajudando, a mudar tal situação. Para quem queria encontrar interlocutores ateus e discutir assuntos relacionados a ateísmo ou religião, sem ouvir o discurso hostil contra os descrentes que, infelizmente, é tão comum, o ciberespaço é o “lugar” ideal, e é também uma ferramenta que reduz a sensação de isolamento. Mas, além disto, há outro aspecto importante a se considerar: a internet não só tornou muitos ateus visíveis uns para os outros, mas também ajudou, e muito, a tornar o ateísmo visível para a sociedade. Se, a cada dia, mais e mais pessoas acessam a internet e se inserem no mundo virtual, mais e mais pessoas também se deparam com os ateus, não somente com indivíduos isolados, à mercê da hostilidade e reprovação social, mas também como grupo que tem voz e se expressa sobre tudo que lhe interessa, principalmente sobre religião e política. É claro que os ateus, como grupo, também são hostilizados e recebem críticas. Mas tais hostilidades apenas aumentam a nossa visibilidade e mostram que, a cada dia, nos tornamos mais difíceis de sermos ignorados.

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4 Comments

    • Wallace
    • Posted 13 de março de 2010 at 0:14
    • Permalink

    De fato, esse é um dos benefícios do que eu considero umas das maiores invenções de todos os tempos. Ás vezes me relembro disso…ao brasil chegou algo que nesses 15 anos mudou mais a sociedade que muitas invenções anteriores em 50 anos. Qual será a próxima invenção a mudar, em ainda menos tempo, mais radicalmente a sociedade? Difícil imaginar…. mais com certeza haverá…

    • Victor Alves
      Victor Alves
    • Posted 13 de março de 2010 at 17:10
    • Permalink

    É bem verdade Beto. O aumento de informações, e por tornar-se cada vez mais difusa, possibilita atingir públicos que jamais leriam ou se questionariam sobre o assunto. Acaba com o monopólio das autoridades ditatoriais de informações. Quando me perguntam: “mas e o que você faz para mudar isto?”, eu respondo prontamente: “espalho ideias…”. Como diz o provérbio, todo pouquinho adiciona.

  1. Muito importante a net como meio de informação,e visualização de um universo oculto e paralelo”o mundo ateísta”. Sem dúvida um advento decisivo. Mas vale lembrar que essa liberdade de expressão, caso ocorra uma nova inquisição, caso uma monarquia teocrática se instale no governo da nova ordem mundial, ficará super fácil o controle, a detecção dos ateus e sua localização, bem como seu nível de ameaça ao Estado teocrático, ao instalar uma busca ou perseguição. Se isso acontecer, coisa da qual eu não duvido, o que fazemos hoje será usado contra nós amanhã.

    • TEODORIO DE QUEIROZ
    • Posted 17 de março de 2010 at 10:20
    • Permalink

    sou ateu desde quando nasci,minha mãe é quem me apareceu com a ideia de que existia um Deus lá no céu e eu quase acreditei nisso.onde moro só existe praticamente eu, ateu dclarado. sempre sofri torturas psicológicas daqueles que se dizem os donos da verdade.Mas depois da internet,comecei a ler e ouvir opiniões de outros ateus principalmente como essa que acabo de ler.Parabéns! Matéria em alto nível.