I

Ateus são figuras estereotipadas. Um exemplo é a imagem do ateu cientificista. Claro, como todos os outros estereótipos atribuídos a nós, ateus, este não passa de mais uma bobagem. Ateus não [necessariamente] creem que a ciência possui resposta para todas as questões. Falando por mim, vejo o método científico como uma poderosa ferramenta para se compreender fenômenos naturais, mas termina aí. Não existe nenhum motivo muito evidente para que eu baseie minhas concepções de moral e visão de mundo inteiramente na ciência. Não trato as descobertas científicas com a mesma fé ardorosa que um cientificista o faria ou como um crente devoto trataria seu livro sagrado.

Como esses dois conceitos, ateísmo e ciência, vieram a ficar tão interligados é o cerne deste texto. Imagino que a responsável por essa associação no imaginário popular não seja o ateísmo em si, mas sim a mitificação da ciência. Falarei brevemente não da história da ciência, mas da história de como o grande público leigo viu a ciência moderna durante todos esses anos.

Fazendo um resumo porco desta história, a ciência começou sendo vista como um incômodo curioso e rebelde, desafiando dogmas centrais na sociedade ocidental. Isso já começa a conferir à “ciência” uma aversão à idéia de “fé”. Galileu é uma das figuras mais importantes desta época. Depois de incomodar, a ciência cresceu e começou a surpreender. Nos fins do século XVII e durante boa parte dos séculos XVIII e principalmente XIX tivemos grandes gênios. Newton, Lavoisier, Darwin, Tesla e Faraday, para citar alguns. Descobertas que alavancaram a tecnologia, a economia e até mesmo a própria maneira de interpretar o mundo, radicalmente. Até a primeira metade do século XX surgiam eventuais gênios, como Einstein, Watson e Crick. Parecia mesmo que tudo podia ser respondido de maneira lógica e sem apelo ao sobrenatural através do método científico. Depois disso ela cresceu exponencialmente tanto em termos de cientistas quanto de publicações. A quantidade de informação nova publicada anualmente ficou colossal. Porém, isso não refletiu em reviravoltas impactantes como as de épocas anteriores. Muito pelo contrário. A ciência decepcionou. Esperávamos cura para o câncer, colonizações no espaço, maior longevidade, carros voadores. Mas, no fim, parece que os avanços se limitaram ao meio virtual.

Jetsons - Versão cartunesca de como algumas pessoas imaginavam o final do século XX

A razão pela qual se associa normalmente ateísmo com ciência é porque esta começou a ser vista exatamente como ela não é, ou seja, detentora de todas as verdades. É de se convir que um método baseado essencialmente na dúvida, no ceticismo e no debate não pode se dar ao luxo de ser visto como infalível e absoluto. Este é um bom exemplo de como o público acaba por ver as coisas de maneira diametralmente oposta ao que realmente são.

Não só a ciência começou a ser vista como deidade, mas também foi vista como uma deidade que fazia acontecer, ao contrário dos muitos outros deuses que eram misteriosos demais e eficientes de menos. Também era natural que as pessoas começassem a perceber o quanto essa “ferramenta milagreira” que era o método científico dispensava deuses e orações. Surgia uma nova fé: a fé nos milagres da ciência, a fé cientificista. Uma deidade a qual valia a pena acreditar. Como o cientificismo consiste em acreditar que tudo pode ser explicado através de teorias naturais, o número de ateus consequentemente aumentou. Muitos chegaram a pensar que a fé em deuses teria um fim próximo. Ledo engano. As pessoas se desiludiram com a ciência tão violentamente que, além da fé no sobrenatural ter aumentado, criou-se uma aversão descabida à ciência. Leigos passaram a ver muitos dos cientistas como arrogantes, partindo do pressuposto que estes pretendiam se aproximar a(os) deus(es). Arrogantes, é claro, pois os cientistas eram pobres seres incapazes que ainda não se deram conta disso. É por isso que existe hoje uma confusão entre “curiosidade” e “presunção”, “humilde” e “ignorante”, e “douto” e “arrogante”. Na minha opinião, essa é uma situação um pouco triste. O ser humano é uma criatura naturalmente curiosa e não existe nada de condenável em querer entender o mundo ao seu redor, nada de presunçoso em conhecê-lo.

Essa decepção quanto aos milagres da ciência acabou por criar muitos dualismos em nossa cultura, alguns deles falsos. Temos “fé” de um lado e “razão” de outro. Um dualismo que impede muitos fervorosos de ponderar sobre suas crenças e muitos racionais de possuir segurança em suas convicções. Tudo bem que “fé” e “razão” são conceitos diferentes, mas também não são excludentes. Fé é uma forte crença e razão é a dedução lógica de certas premissas. Apesar de as duas não serem “grandes amigas”, elas não se tratam de ideias opostas uma à outra. Além desse dualismo tem-se “crentes” e “cientistas/ateus”, o que é patético. Eu como ateu ouço com relativa frequência perguntas do tipo “Ué, mas você não é ateu? Não é um cientista?”.

Mas muito pior do que o simples equívoco de associar ateísmo com cientificismo é a condenação do livre pensar. Existe hoje um abismo entre as descobertas científicas e a carga de conhecimento da população, mesmo a da elite intelectual. Falo isso baseado na rejeição que a teoria neodarwinista da evolução biológica encontra em muitos círculos. Essa rejeição é fruto da criação desse dualismo entre fé e razão. Muitos querem enxergar uma guerrinha entre sua fé e as novas descobertas da ciência, como se a última estivesse tão somente preocupada em ocupar o lugar de seu deus ou deuses. Pessoas mais elucidadas sabem que a ciência é apenas um método (poderoso) de entender o mundo natural e que a crença no sobrenatural não deve fugir do escopo pessoal. Deus e ciência não são dois generais se enfrentando em um campo de batalha. São apenas duas coisas que não interagem entre si, ou que ao menos não deveriam interagir. Mas falarei desse aspecto noutro texto.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

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2 Comments

    • Wallace
    • Posted 14 de março de 2010 at 0:31
    • Permalink

    Estava lendo exatamente sobre isso há pouco tempo atrás. Inclusive poostei num tópico recente do Átila uma crítica ao cientificismo, que é visivelmente errado e insustentável. É frequente entre os neo-ateus a falsa dicotomia entre a fé e a razão. Pura bobagem alimentada por um desejo igualmente bobo. Acaba acontecendo o seguinte: Ao mesmo tempo em que alguns que tem fé veem a ciencia como inimiga, alguns que não tem fé não admitem que a ciencia confirme qualquer coisa relativa a religiões ou acham que qualquer coisa fora do escopo científico simplesmente não existe,ignorando que há áreas do conhecimento fora do âmbito da ciência perfeitamente válidas…

    • Reinaldo Faria Tavar
    • Posted 19 de novembro de 2010 at 1:01
    • Permalink

    Concordo com tudo isso.
    Vai de encontro às minhas convicções mais íntimas.
    Postei irresponsavelmente, em um site qualquer, o seguinte:
    O grande erro das discussões sobre existência ou inexistência de deuses está na colocação da Ciência num dos pólos.
    Kepler e Darwin não convencerão mentes duais,racionais e emotivas.
    A Ciência apenas aponta imperfeitamente quem são os homens superiores que podem influir.
    E os seus homens geralmente são especialistas em determinada área, que não alcançam a plenitude intelectual e racional de muitos anônimos.
    Não será a ciência que convencerá neste tema, embora, para tal ela tenha contribuição.
    Da inexistência de deuses se convence pela razão pura.
    À medida que a humanidade for se desprendendo de seus medos e esperanças vãs, incertos, antigos, vai surgindo a independência total da razão ante a emoção.
    Aflorada a razão pura, torna-se o homem, por momentos, mais do que mero humano, e os mistérios que o afligem serão descortinados.
    Uns alcançarão, outros já alcançaram tal descortínio.
    Muitos são bem conhecidos, outros parmanecerão, infelizmente, no anonimato.


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