Em dezembro de 2007, em sua edição 2040, a Revista Veja publicou uma pesquisa que expõe o medo que boa parte do eleitorado brasileiro tem dos ateus. Segundo tal pesquisa, apenas 13% dos eleitores votariam sem reservas em um candidato ateu para presidente do Brasil. Dos demais entrevistados, 25% declararam que votariam “dependendo da pessoa”, 3% declararam não saber ou não quiseram responder, e 59% declararam que simplesmente não votariam em um ateu para a presidência da República.

Sem adentrar a questão da exatidão de tal pesquisa, é interessante notar que uma expressiva parte dos eleitores do Brasil não votaria em um candidato ateu. É mais da metade do eleitorado. É importante também levar em conta que um quarto dos eleitores, ao declarar que votariam em um ateu “dependendo da pessoa”, expressaram alguma reserva quanto ao ateísmo do candidato. Assim sendo, mais de 80% do eleitorado brasileiro vê o ateísmo como um atributo negativo em alguém que concorra a um cargo público eletivo.

Obviamente, os candidatos e seus respectivos partidos sabem disso. Em qualquer eleição se gasta muito dinheiro e, como em qualquer grande investimento, investidores sérios procuram obter o máximo de informações possíveis para garantir um bom retorno do que foi investido. Tudo aquilo que o eleitor considera defeito é cuidadosamente escondido na elaboração da propaganda, e nenhum candidato a presidente que pretenda vencer a eleição seria tolo a ponto de declarar abertamente que não acredita em deus.

Isto nos remete ao episódio nacionalmente conhecido das eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. Durante um debate, o então candidato a prefeito Fernando Henrique Cardoso titubeou ao ser perguntado se acreditava ou não em deus. FHC perdeu as eleições, e muito se discute se o resultado teria sido diferente caso ele tivesse respondido com firmeza que acreditava em deus. Mas é certo que o vacilo em responder uma pergunta tão direta certamente foi visto por muitos eleitores como uma confissão de descrença. Posteriormente, em suas propagandas eleitorais na televisão, FHC negou ser ateu e maconheiro, mas isto não evitou sua derrota naquele pleito (o programa pode ser visto em http://www.youtube.c…h?v=uyvWXZDlhNY ). É interessante notar que FHC, no mesmo discurso, falou de duas coisas que o eleitorado reputa igualmente ruins: o uso de entorpecentes e o ateísmo, como se ser ateu fosse algo socialmente tão reprovável quanto ser usuário de entorpecentes. Isso para não mencionar a comparação entre ateísmo e desrespeito ao sentimento religioso, que é um lamentável preconceito.

Se FHC é ou não ateu, só ele pode dizer. Para nós ateus é difícil pensar que alguém possa ser “ex-ateu”, mas na fauna humana encontra-se de tudo. Se FHC se atrapalhou para responder uma pergunta tão direta, pode-se pelo menos dizer que sua fé em alguma divindade não era a mesma da maioria do eleitorado paulista na época. De qualquer forma, alguns anos depois ele foi eleito presidente do Brasil e ninguém parecia mais se importar com o que FHC pensava acerca de deus. O assunto simplesmente não vinha à tona

Mas se, para um político, declarar-se ateu, de forma aberta, ostensiva, é uma espécie de suicídio eleitoral, a atitude contrária, ou seja, declarar-se fiel a alguma religião, rende votos. A ironia é notar que boa parte dos muitos políticos brasileiros envolvidos em escândalos de corrupção, e mesmo em diversos outros crimes, faz parte do grupo que usa o discurso religioso como alavanca para obtenção de votos. Em 1993, deus estava na boca do deputado envolvido no escândalo dos anões do orçamento, que atribui seus mais de cinquenta prêmios na loteria em menos de um ano à ajuda divina. Também estava na boca dos envolvidos nos recentes escândalos envolvendo o governo do Distrito Federal.

De tudo isto, só se pode concluir que a crença ou a descrença em deus não diz nada quanto à honestidade do candidato. Honestidade e desonestidade podem acompanhar igualmente a fé ou a incredulidade, e não há motivos para se temer um candidato ateu por causa do seu ateísmo, assim como não há motivos para se confiar em um candidato religioso em razão de sua religiosidade. Mesmo assim, enquanto a imagem do ateu como ímpio e como sujeito sem valores éticos e morais estiver presente no imaginário popular, o eleitor ainda terá medo de votar em ateus, e os candidatos ateus ainda terão medo de declarar publicamente seu ateísmo.

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9 Comments

  1. “Eu adoro ir à missa. Às vezes, vejo pela TV. Tenho um rosário na minha cabeceira e acho que a religião está fazendo falta”.

    Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à revista Playboy, agosto de 2006 (Flávia Alessandra, pra facilitar a pesquisa).

    Nota relevante: na ocasião, ele não era candidato. Mais ainda, declarou expressamente que nunca mais seria candidato. Ou seja, não agiu com intenções eleitorais, para esconder algo. E não era um debate político, mas uma entrevista.

    Fernando Henrique Cardoso é católico. Apostólico romano.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/04. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Humberto Quaglio
    • Posted 21 de março de 2010 at 10:17
    • Permalink

    Olá conrado,
    Obrigado pela informação. Eu não havia lido a entrevista que você mencionou. Mas ainda assim continuo em dúvida quanto à religião de FHC. Mesmo não sendo candidato, ele nunca vai deixar de ser um homem público e é natural que queira zelar por sua imagem, ainda mais levando-se em conta o fato de que ele ainda atua politicamente, escrevendo artigos, como fez recentemente para criticar o governo, ou apoiando correligionários. Além disso, muita gente como FHC costuma se preocupar com a imagem que vai deixar para a posteridade…
    Um abraço.

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 21 de março de 2010 at 10:44
    • Permalink

    Marina Silva, crente declarada. Isso pode.

    http://ceticismo.net/2009/08/11/eu-tenho-medo-de-marina-silva/

  2. Uma pena, pois aqueles que pregam a tolerância, são os primeiros a perseguir e esteriotipar a diversidade…
    Os “crentes” seriam os primeiros a sentir o gosto do enxofre, caso toda essa falácia mitológica existisse!

    • Marina Mendes
    • Posted 22 de março de 2010 at 9:02
    • Permalink

    Eu não teria problema nenhum em votar em uma ateu, desde que a proposta dele fosse razoável.
    Agora, tem um detalhe, ele não poderia fazer disso seu carro-chefe, se viesse com estes papos chatos de tirar cruz de repartição, de incluir ateu no questionario do IBGE, ai eu saia correndo.
    A falta de religião não devia fazer ninguem perder voto por estes simples fato (mas faz, e faz muito), e nem a religião deveria fazer com que alguém ganhasse voto.

    • carue
    • Posted 19 de abril de 2010 at 0:27
    • Permalink

    Eu votaria ate num mórmon que defende tirar cruz de repartição e incluir ateu no questionario do IBGE.
    1- Ele não estaria legislando pela maioria e sim pela igualdade.
    2- Estaria demonstrando o desapego ao populismo.

    • Carlos
    • Posted 4 de junho de 2010 at 21:14
    • Permalink

    #Marina

    A parte dos símbolos religiosos até é discutível, eu sinceramente acho isso desnecessário…mas não entendi exatamente qual o problema de se incluir “ateu” no questionário do IBGE.

    Se a pergunta se refere a ‘qual sua religião’, porque diabos (risos) a opção “nenhuma / ateu / agnóstico” deve ser omitida?

    • Abdias Antunes
    • Posted 26 de agosto de 2010 at 15:59
    • Permalink

    Humberto Quaglio disse: “Para nós ateus é difícil pensar que alguém possa ser “ex-ateu”, mas na fauna humana encontra-se de tudo.”
    Há, porém, algo que não se encontra entre os animais: o sentimento de gratidão. Esse sentimento exclusivo do homem, bem que poderia levar algum ateu a repensar a sua crença (ou a falta dela) em Deus. Ora, se recebemos um presente inusitado, exclusivo, o nosso cérebro, por exemplo, impossível de ter sido produzido por uma criatura palpável, nossa gratidão deveria nos induzir a perscrutar o universo invisível para dar garças, em busca do originador da magnífica dádiva, um ser superior, o Criador, Deus.
    Conforme disse certo advogado antigo: “Cada casa é construída por alguém, mas quem construiu todas as coisas é Deus.”

    • Mauro Bartolomeu
    • Posted 30 de agosto de 2010 at 17:01
    • Permalink

    Caro Humberto, eu, ao contrário da maioria, SÓ votaria num candidato ateu. Conhece algum?


One Trackback/Pingback

  1. […] Quem tem medo de candidatos ateus? Em dezembro de 2007, em sua edição 2040, a Revista Veja publicou uma pesquisa que expõe o medo que boa parte do eleitorado brasileiro tem dos ateus. Segundo tal pesquisa, apenas 13% dos eleitores votariam sem reservas em um candidato ateu para presidente do Brasil. Dos demais entrevistados, 25% declararam que votariam “dependendo da pessoa”, 3% declararam não saber ou não quiseram responder, e 59% declararam que simplesmente não votariam em um ateu para a presidência da República. via deusnagaragem.ateus.net […]