Der man hat einen gross Geist und ist so klein von Taten [1]

Capa do livro de John Cornwell: O Papa de Hitler.

Hoje quero escrever um texto um pouco diferente. No início desse mês relembrou-se os 65 anos da morte de Anne Frank. Este ano também foi o ano em que Miep Gies, a última sobrevivente que ajudou a jovem Frank a se esconder, morreu, aos 100 anos. Anne Frank, apesar da pouca idade, nos deixou um legado e um ensinamento de vida e através da maturidade adquirida através do sofrimento, hoje somos capazes de enxergar a intolerância e a barbárie humana através dos olhos de uma criança.

Eu não preciso discorrer sobre Anne Frank, muito menos sobre a crueldade e a estupidez derivada do fanatismo político e da perseguição cultural, étnica e religiosa. É redundante relatar as atrocidades ocorridas nos campos de concentração, das quais a jovem Frank foi testemunha. Tudo isso é dispensável, pois você, leitor, as conhece muito bem. Mesmo os seres doentos que ainda insistem em negar o holocausto, por puro preconceito racial, hão de convir quanto à desumanidade de tal regime político.

Muitos religiosos, hoje, gostam de atribuir a Hitler o status de ateu. Sabemos que não é bem verdade, basta ler o Mein Kampf para perceber que o Führer possuia, no mínimo, grande simpatia pela igreja católica. Chegava até mesmo a atribuir ao povo Judeu a culpa pelo suposto assassinato do filho de deus. Mas também é desnecessário abordar aqui a patológica mentalidade hitlerista, pois esta você também já conhece.

Talvez você já tenha sido capaz de antecipar o tópico o qual estou prestes a abordar. Certamente deve possuir uma opinião formada sobre o tema. Não é difícil adivinhar, considerando o teor deste sítio. Por que Pio XII, o papa católico da época, foi tão complacente com o nazismo? Claro que ele auferiu vantagens políticas fechando os olhos para o que estava acontecendo, ademais o Vaticano se encontrava em território inóspito, mas qual é a postura que se espera de um grande líder religioso em uma situação como esta?

Elite nazista nos corredores do Vaticano. O beijo de submissão ao anel papal.

É preciso esclarecer que na época (e como é comum que haja alternâncias a tal respeito) o vaticano possuía uma postura direitista. E apesar da tentativa de mascarar a situação, é amplamente conhecido o apoio da igreja ao regime alemão, ao menos dentro dos território ocupados. Não é difícil fazer uma defesa de tais cardeais e bispos, mas o Papa, o representante de deus na Terra (segundo a mitologia católica) se abster de ajudar milhares de judeus que caminham para a morte? E se fossem cristãos, e mais especificamente católicos, como teria agido Pio XII?

Em 1933 foi assinada a Reichskonkordat entre o Vaticano e a Alemanha, no qual se assegurou o direito de todos os católicos em território alemão. Isso mesmo: (apenas) todos os católicos. No mesmo ano, Hitler declarou:

“O Governo Nacional deverá considerar como seu dever, em primeiro lugar para reviver no país o espírito de unidade e cooperação. Ela irá preservar e defender os princípios básicos sobre os quais nossa nação foi construída. Ele respeita o cristianismo como o fundamento da nossa moralidade nacional e da família como a base da vida.” [2]

Não se trata apenas de um fato histórico digno de causar náuseas naqueles que possuem um pouco de sensibilidade e conhecimento básico da história do mundo, mas de algo que vem sendo deliberadamente mascarado e negado pelo vaticano e seus pupilos de todos os graus. Apesar de negar as acusações, o vaticano manteve todos os arquivos referentes a guerra trancafiados por todos esses anos.

Até que o professor da Universidade de Cambridge, até então católico e conhecido pelo seu livro sobre João Paulo II, ganhou

Pio XII assinando a Reichskonkordat

Pio XII assinando a Reichskonkordat

acesso à biblioteca do Vaticano. Motivo: patrocinar um livro que limparia de vez o nome de Pio XII e qualquer traço sobre seu envolvimento com o regime nazista, antes ou durante a guerra. O que a cúpula máxima da Igreja católica desconhecia era o que estaria por vir: John Cornwell acabou por publicar um livro rico em detalhes sobre a participação e colaboração direta do Papa junto ao nazismo. Em seu livro intitulado “O Papa de Hitler”, John apresenta evidências convincentes de que não só a Igreja fechou os olhos para o massacre massivo de judeus, como participou ativamente em decisões politicas e estratégias militares.

É importante mencionar que Pio XII tornou-se papa durante o regime do Terceiro Reich, em 1939, e não sem propósito. Era preciso um Papa com visão política, capaz de reunificar a Igreja e restabelecer a força do catolicismo, sem contudo desagradar o governo que ameaçava toda a Europa da época. É com a reflexão de um pensamento egoístico, frio, calculista e excepcionalmente maquiavélico que deixo você , leitor, refletir. As imagens falarão por si só, em memória de um tempo em que a humanidade foi esquecida em detrimento de poder político, em que a intolerância religiosa virou regra e o cheiro da morte já não causava estranheza às elites burocráticas.

  1. “O homem tem grande espírito, mas são tão mesquinhas as suas ações”. Poema encontrado no livro de Anne Frank
  2. HITLER, Adolf. My New World Order, Proclamation to the German Nation at Berlin, February 1, 1933) Sem tradução para o português.

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One Comment

    • Lewis
    • Posted 24 de março de 2010 at 13:14
    • Permalink

    Kosmic, excelente texto!

    A ICAR sempre foi unha e carne com o poder vigente, e na época do nazismo isso não foi diferente. Muito importante ressaltar esse fato histórico.

    A omissão e a contra-propaganda quanto a isso são tão fortes que até se popularizou essa ideia de que Hitler seria ateu. Que propósitos nobres podem ser sustentados em cima de uma mentira?