A visão mais comum que se tem dos ateus é a de indivíduos carentes de espiritualidade; ou seja, como se fossem indivíduos aos quais falta uma espécie de sensibilidade que diz respeito exclusivamente à esfera religiosa. Mas o que é exatamente esse sentimento? E por que não tê-lo deixa os demais tão desconfiados? Ao que parece, pela simples razão de que tendemos a excluir os que são diferentes. Não é uma explicação que enaltece os ateus, mas parece ser bastante simples, óbvia e observável, satisfazendo ao menos o critério da Navalha de Occam.

Traçando um paralelo, imaginemos um indivíduo que não possui amigos. Além disso, suponha-se, para todos os fins, que somos seres sociáveis. Qual costuma ser nossa reação diante de um eremita confesso? Geralmente algo que não está muito distante da que um religioso teria diante de um ateu. Mas pensemos por ora no caso do eremita. Mesmo que — talvez inspirados por boas maneiras antropológicas — relutemos em confessá-lo, temos a clara impressão de que, pelo fato de o indivíduo não possuir um círculo social, sua vida paira oca sobre o abismo do absolutamente nada.

Na tentativa prematura de construir uma imagem de sua vida sem possuir qualquer dado a respeito, partiremos de vários preconceitos sem sentido, como, por exemplo, o de que ele é infeliz — mesmo que vejamos que ele é feliz. Obviamente, também pressuporemos que saibamos perfeitamente bem do que ele precisa — algo que invariavelmente coincide com o que nós próprios precisamos. Enfim, seja qual for o argumento que apresentemos em favor do ermitão, o indivíduo em geral se recusa a admitir que seja possível a alguém levar sozinho uma existência completa e satisfatória — ainda que ela esteja diante dele em carne e osso.

Assim, mesmo que o solitário leve uma vida aparentemente mais agradável que a nossa, isso só pode ser uma consequência do fato de que indivíduos iludidos são mais felizes, pois alguém que não concorda conosco só pode estar errado. Julgamos que, como sua vida não se encaixa no padrão que preestabelecemos como o único válido para alcançar uma satisfação que nós próprios nunca alcançamos — e nem por isso nos sentimos inclinados a pô-la em xeque —, o melhor que temos a fazer é nos protegermos desse indivíduo com todas as forças pelo simples fato de ser diferente; ou seja, mesmo que não tenha nos ameaçado em nada, o simples fato de ele ser diferente já é, para nós, uma ameaça implícita, que nos deixa tensos diante da possibilidade de não sermos o centro do universo.

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6 Comments

  1. Excelente Cancian. Quisera eu ter a capacidade de expor uma idéia minha de maneira tão transparente e compacta. Texto pequeno, porém cheio de conteúdo! Muito bom. =)

    • Wallace
    • Posted 24 de março de 2010 at 12:40
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    Eu sinto na pele com a solidão pode ser boa companheira, realmente entendo a comparação com o eremita, de fato quero ser um embora não possa, por agora. Me é estranho ver as pessoas tão necessitadas de passar horas falando sobre nada com outras. Me sinto bem com conversas esparsas e com poucas pessoas. E é aí que vejo em mim próprio o exemplo do erro de me considerar “mais” do que os outros, e acabo caindo na esfera do “não ligo”, apenas deixo cada um na sua. Demora pra sumir a idéia de que estamos na mesma, não há superior a ninguém. Alguns nunca a perdem.

    • Wallace
    • Posted 24 de março de 2010 at 12:45
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    Correção: “sumir a idéia de que NÃO estamos na mesma, pois Não há ninguém superior”
    confundi os trecos ;)

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 24 de março de 2010 at 15:10
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    Tenho uma outra analogia sobre isso, em menor proporção. Ter filhos. Parece que muita gente não consegue compreender com um casal escolhe NÃO ter filhos.

    Ver um casal sem filhos provoca em algumas pessoas as mesmas sensações expressas no texto do Cacian. Falta de sentido, infelicidade, vazio. Como pode alguem não querer ter filhos? Se ambos são saudáveil, pq não têm filhos? E por aí vai.

  2. Estavas sendo ironico não é mesmo Cancian? Pois para quem não te conhece, pareceu que nesse artigo você estava defendendo atos hostis contra os ateus… Faltou tornar seu sarcasmo explicito ao final do texto na minha opinião, mas foi um ótimo texto, parabéns !

    • Zan
    • Posted 2 de abril de 2010 at 17:25
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    Creio que ser ateu é como ser homossexual ou uma mulher que gosta de sexo. Por mais que você se esforce p/ ser uma pessoa boa, isto é, mesmo que você trabalhe, ganhe bem, não prejudique ninguém, ajude a família, tenha filhos saudáveis, seja inteligente e talentoso, as pessoas sempre ficarão com a pé atrás a seu respeito. Elas sempre pensarão que tudo não passa de fachada para que sua ‘máscara’ não caia. Se for homossexual, é promíscuo, pedófilo e aidético. Se for mulher que gosta de sexo, é vagabunda, prostituta, mal caráter que envergonha a família e não serve p/ ser nem esposa e nem mãe. E se for ateu, vc corre o risco de ser tudo isto ai em cima e mais um pouco…E se vc for algum dos tipos citados acima e dizer que é feliz, ninguém vai acreditar…Ou seja, a ideia de que é possível ser feliz “fora do convencional” assusta as massas (além de “desprestigiar” um pouco a “felicidade verdadeira” que julgam ter encontrado).