Segundo a etimologia da palavra, respectus, em latim, quer dizer “consideração”, “atenção”[1]. É a origem de nossa palavra em português para “respeito”. Antes de dar uma definição do verbete, acho necessário dizer o que não é respeito.

Em primeiro lugar, quem ou o quê deve ser respeitado? Juridicamente[2], as pessoas têm liberdade constitucional à manifestação do pensamento (Constituição Federal, art. 5º, IV), à inviolabilidade de consciência e de crença (CF, art. 5º, VI) e à livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (CF, art. 5º, IX). É uma pequena amostra do extenso rol de direitos e garantias fundamentais elencados em nossa Carta Magna.

No caput do famigerado artigo 5º, é possível perceber que todos esses direitos são destinados aos indivíduos. Eles têm plena capacidade de exercê-los até onde a lei os restringe, como com a vedação ao anonimato do inciso IV e o direito de resposta, redação do inciso V. Em poucas palavras, os indivíduos têm todo o respeito estatal às suas convicções, mas toda e qualquer palavra ou opinião que seja externada é passível de crítica e sanções, caso haja abuso.

Mas o que isso realmente nos diz? Diz-nos que eu, enquanto indivíduo destinatário de direitos e garantias fundamentais, posso muito bem pensar que sou Napoleão Bonaparte. Diz-nos também que, caso eu externe esse pensamento e seja uma ameaça à vida e à ordem social, posso sofrer intervenção psiquiátrica. Grosso modo, equivale a dizer que eu sou respeitado; minhas ideias absurdas não. Elas precisam de respaldo e autossustentação para que sejam consideradas.

Analisemos, então, o que quer dizer um cristão, por exemplo, respeitar algum membro de outra religião ou de nenhuma: “respeito solenemente a sua vontade de passar a eternidade no inferno por não professar a religião verdadeira que garante uma passagem direta para o céu”. Agora vejamos como um ateu respeita um religioso: “respeito carinhosamente a sua infantilidade religiosa que tanto me faz rir, com todas as suas atitudes ridículas e suas bajulações a um ser imaginário com quem todos dizem se comunicar e de quem todos dizem obter respostas, em casos que poderiam muito bem ser clínicos, caso não fossem culturais”. Tudo isso dito com um sorriso amarelo de quem não sabe ao certo o que realmente quer dizer “respeito”.

O verdadeiro respeito pode e deve passar pela integridade intelectual. Pensemos: o que é uma reunião ecumênica? O fato de líderes religiosos de diferentes crenças se reunirem só demonstra a praticidade política de sua representatividade. A mensagem passada é a de que não queremos que nossos fieis se degladiem entre si, pois um banho de sangue é desnecessário, vez por outra. No entanto, em suas ideologias dissonantes e contraditórias, todos buscam abocanhar o maior número de pessoas para sua causa — que, diga-se de passagem, é a única certa e verdadeira. A imagem mais nítida de uma reunião assim é a de pessoas que, com uma mão, dão efusivas saudações e juram fidelidade e fraternidade, mas que seguram uma arma carregada e pronta para atirar, na mão que ficou escondida atrás de seu corpo.

As pessoas merecem, sim, todo o respeito que podemos conceder; e criticar suas ideias, por mais que o equívoco geral diga o contrário, é a forma mais honesta e sincera que temos para tal.

Notas:

[1] Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0

[2] Constituição Federal. Disponível em <http://www.planalto….tui%C3%A7ao.htm> Acesso em 06 de março de 2010.

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6 Comments

    • Marina Mendes
    • Posted 25 de março de 2010 at 9:29
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    Olá Jairo,

    Uma reunião ecumênica, sob o meu ponto de vista, não carrega esta marca de dubiedade “uma mão com efusiva saudação e outra escondida pronta a atirar”.
    Penso que, é o mais evoluído que se possa ter em termos de religião. (tanto que muitos lideres religiosos não topam fazer)
    Acho que é uma idéia excelente tentar que as pessoas não se degladiem e que não precisam mudar de religião, para ter uma relativa concórdia com a outra religião.
    Criticar as idéias é excelente, honesto e tal…mas o que adianta a crítica não construtiva, a crítica repetitiva? Será que a reunião ecumênica não é uma forma de olhar pelas semelhanças que cada religião tem entre si e não pelas diferenças?
    Acho que seria uma grande evolução das religiões se elas se fundissem, com tolerância, com aceitação…que houvesse uma relativa concórdia de postura, de coração, sem que com isso tenha que uma impor sua idéia a outra.
    O Budismo fala muito disso, de pegar como sustentáculo de uma sociedade as semelhanças e não as diferenças…
    Os ateus também deviam abrir a cabeça a esta idéia.. “religiosos ecumênicos” seriam bem mais tolerantes da gente conviver com eles.
    Tira a arma da mão Jairo!!

    Um abração da
    Marina

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 25 de março de 2010 at 13:14
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    Marina Mendes, há exclusividade de ideias. Se temos duas opiniões concorrentes, as duas podem estar erradas, mas nunca certas ao mesmo tempo. Deixei claro no texto que é uma reunião política — um cessar fogo estratégico. No mais, “tolerância” e “aceitação” só são palavras aceitas dentro do próprio círculo religioso. Para os que estão fora dele, há “ódio” e “guerra”, mesmo que ideológica. De resto, não tenho arma nenhuma em minha mão, nem o poder político de incitar quem a tenha, diferentemente das religiões organizadas, sejam elas grandes ou pequenas.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 26 de março de 2010 at 2:42
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    Por acaso hoje passei duas horas e meia ouvindo um escritor falar sobre a ideia dos sete céus no Sofismo e no Judaísmo. Na verdade, a palestra dele se resumiu a uma série de pregações ecumênicas, se me permitem colocar nesses termos. O que se pode extrair dessas duas horas e meia foi uma tentativa infrutífera de tentar defender a junção de toda e qualquer forma religiosa a partir de um princípio místico (como o próprio colocou) como forma de conciliar os mais diferentes pontos de vista das religiões. É uma forma moderna, razoavelmente efetiva, de se eliminar a discordância entre aqueles que insistem em uma ilusão terminal. Sim, pois me parece que a religião descobre aos poucos o seu estado e sabe que fim a espera, e tenta desesperadamente, com todos os recursos possíveis, sobreviver à razão e à informação. Talvez eu escreva um texto sobre esse tema. Essas quase três horas de verborragias infundadas, travestidas em cientificidade e vomitadas por alguém que se investe de certa autoridade me deixou enjoado.

    • Marina Mendes
    • Posted 26 de março de 2010 at 9:16
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    Então, penso eu, que qualquer “cessar fogo”, ainda que estratégico, qualquer tentativa, “razoavelmente efetiva” como colocou o Victor, ainda é melhor do que nada.
    Não poderíamos reconhecer: Beleza, não acreditamos em Deus,sermos honestos e sinceros em exprimirmos esta opinião, mas vocês ai (que acreditam) brigando menos, acusando menos e reprimindo menos um ao outro é melhor do que o contrário.Ainda que seja “uma tentativa de sobreviver à razão e a informação”.
    Quem aceita o ecumenismo, de alguma forma, é mais razoável, do que este bando de religioso fanático que só vê no seu caminho a salvação e vive desrespeitando os outros.
    E, quanto a arma , disse no sentido figuradíssimo,repetindo a palavra usada no texto inicial, mas eu acredito de verdade que a partir do momento que o autor do texto é um formador de opinião, alguma influência no mundo ele exerce. A nossa liberdade de expressão não deixa de ser a nossa arma!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 26 de março de 2010 at 10:04
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    Marina, acabou de cair na falsa dicotomia. Não há somente essas duas opções: há o “cessar fogo” laico-secularista que independe de qualquer religião. Na verdade, tende a abolir as diferenças criadas por elas. Esse sim é um bom prospecto para a humanidade. Quem aceita o ecumenismo é bom político e nada além disso. Se a minha liberdade é a minha arma, então não pretendo “abaixá-la”, pois é justamente a livre expressão que eu defendo no texto e o direito consagrado à crítica e à sua resposta. É uma arma que pertence a todos e que deveria ser usada universalmente.

    • Marina Mendes
    • Posted 26 de março de 2010 at 10:27
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    Jairo,

    Faço das suas palavras, as minhas, a partir do Se…

    Marina