Criança e de criação católica na década de 1980, como quase todo mundo eu apreciei um disco de grande sucesso na época, cujo tema era estória bíblica da arca de Noé. Um trabalho interessante e bem produzido, tanto que eu quis readquirir, anos mais tarde, a mesma obra em formato CD, como uma lembrança nostálgica. A primeira faixa narra poeticamente, numa composição de Chico Buarque e Toquinho, e interpretação de Milton Nascimento, a tão conhecida passagem do Antigo Testamento.

Era uma obra para o público infantil, e explorava inteligente e divertidamente os bichos: leões, tigres, macacos, gatos, corujas, abelhas… realmente uma boa temática para crianças. Mas algum tempo depois que eu não me considerava mais católico, e que, ironicamente e pela primeira vez, me interessei pela leitura do Antigo Testamento, veio a percepção de que a estória do Gênesis não era lá tão apresentável sequer para pessoas de alguma idade, que se dirá para crianças.

Ora, resumidamente, a estória conta que, certa ocasião, Deus estaria bastante aborrecido por uma humanidade muito pecadora, e pediu a Noé que construísse uma arca em terra firme e para ela levasse sua família e um casal de cada espécie animal. O bravo Noé levou pra lá pares das bilhões de espécies existentes, não esquecendo sequer os pinguins nem os ornitorrincos, que graças a ele podemos ver até hoje. Para resolver o problema que tanto o enfurecia, assim que Noé terminou a tarefa, Deus fez chover em todo o planeta por 40 dias e 40 noites, matando afogados todos os que ficaram de fora da arca. Deus simplesmente comete ele mesmo um dos maiores genocídios já relatados, mesmo na ficção.

Com um pouco de senso crítico, essa estória só poderia ser ensinada a crianças como exemplo do que não fazer. Algo como:

Era uma vez um deus muito perverso que criou um planeta e colocou habitantes nele. Da forma como esse deus os fez, esses habitantes quase sempre agiam de forma diferente do que ele desejava. Então esse deus, que era muito rude, em vez de ter uma conversa com eles ou torná-los naturalmente agradáveis a ele, achou mais interessante escolher uma família para deixar viva e matar todos os demais. Deus mandou essa família entrar numa arca e inundou o planeta, e todos os que estavam fora da arca morreram afogados. Depois disso, essa família se multiplicou e deu origem novamente a uma numerosa humanidade que continuou não o agradando. E esse deus continuou elaborando métodos violentos muitas e muitas vezes para castigá-la, sem nunca conseguir que ela se comportasse como ele sempre quis, e viveu infeliz para sempre. Moral da estória: a violência não resolve problema algum.

De fato, a violência divina aparece repetidamente ao longo de praticamente toda a Bíblia, sem nunca chegar a um resultado satisfatório para Deus. Mesmo em passagens mais singelas, como na estória do profeta Jonas: Deus quis que ele fosse pregar a sua palavra em Nínive. Você adivinha o que acontecia lá? A população era muito pecadora – mais uma vez! Jonas não queria, a princípio, e Deus o convence fazendo um peixe grande engoli-lo e vomitá-lo na praia três dias depois. Nessa passagem, Deus me lembra Dom Corleone, o lendário chefe mafioso de O Poderoso Chefão. O que ele fez foi sequestrar Jonas, deixá-lo aterrorizado com a provável morte iminente por três dias, para passar o recado: “faça o que eu mandar, você não tem muita escolha”.

Como leitura educativa, essas estórias carecem de virtude.

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4 Comments

  1. uhuhul \o/ Aplausos para você Sérgio, excelente história e excelente exemplo das falsas virtudes bíblicas incrustradas na crianças logo cedo. Parabéns =)

    • Lewis
    • Posted 1 de abril de 2010 at 14:56
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    Valeu e, lembre-se, não seja como o deus bíblico: be happy :D

    • Nayana
    • Posted 3 de abril de 2010 at 0:23
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    Deus em toda a sua estória, deu sinais de que não tem benevolência alguma, genocídios, ameaças, coações… E quando somos crianças aprendemos que as pessoas que foram sacrificadas no dilúvio eram pessoas más e teimosas por não terem ouvido Noé. Mas e quanto às crianças que ficaram pra traz que tinham que seguir seus pais e que não tinham como escolher? Se deus existisse seria ele um grande sacana, que sempre manipulou seus “fieis” a seu bel prazer.

    • Hailton
    • Posted 23 de novembro de 2010 at 14:42
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    Nayana, e quem nos garante que a Bíblia é realmente a palavra de Deus? Pelo menos boa parte dela é obra unicamente dos homens. Certamente que, naquela época, os fanáticos “religiosos”, não tinham outra opção para obrigar aqueles povos semi-selvagens a crer em Deus e a seguir suas leis, senão é de fazê-los acreditar na idéia de um Deus terrível, capaz de tudo para castigar quem não o obedecesse. Então eles criavam essas estórias para amedrontar o povo, ou seja, não conseguiam seus propósitos pelo diálogo, então apelavam tentando fazê-os seguir as leis por medo. Creio num Deus justo, honesto, bondoso e imutáveis. Não nessa aberração alegórica que atribuem a ele em quase toda a Bíblia.