Um dos aspectos mais polêmicos, e não por coincidência também um dos mais fascinantes, da saúde pública é a área de economia da saúde, que define de que modo os recursos disponíveis para a saúde serão aplicados.

A vida é um bem finito, ou seja, não importa quanto recurso investiremos nela, ainda assim, iremos morrer. Sempre ouvimos dizer que a vida não tem preço, mas é interessante observar que todos nós, vez por outra, colocamos um valor para as nossas vidas. Um exemplo bastante evidente disso é o adicional de risco que muitos profissionais recebem por sujeitar-se a trabalhos arriscados. Digamos que um eletricista aceite trabalhar em fios de alta tensão e, pelo risco, aceita um adicional de R$ 200 mensais. Ao avaliarmos as taxas mensais de acidentes fatais nesta profissão descobrimos que ocorrem em 1 para cada 1000 trabalhadores (exemplo fictício). Neste caso, o trabalhador coloca a sua vida em um risco de 0,1% por R$ 200, o que seria equivalente a assumir que a sua própria vida vale algo em torno de R$ 200.000.

Quando falamos de políticas públicas de saúde, a ideia de valoração da vida ganha contornos um pouco mais complexos e diretos. O orçamento destinado à manutenção da saúde das pessoas é limitado; por este motivo, os administradores de saúde precisam fazer escolhas que, grosso modo, definem aqueles que vão viver e aqueles que não vão.

Imaginemo-nos como ministros da saúde de um pequeno país com apenas R$ 100 para gastos com saúde. Em nosso país existem dois pacientes com câncer terminal cujo tratamento custaria R$ 45 cada. Além destes, temos um orfanato com 25 crianças com diarreia cujo tratamento custaria R$ 2 cada. Neste caso, a maneira mais inteligente de dispor nossos recursos seria tratar as crianças e um dos pacientes com câncer, não havendo alternativa além de deixar um deles morrer.

Os sistemas de saúde funcionam mais ou menos desta maneira, porém de maneira bastante mais complexa. Não existem médicos, leitos e medicamentos em quantidade suficiente para atender a todos os pacientes. Assim, a vida deles fica sujeita às decisões dos  médicos e enfermeiros. Da mesma forma, em nível nacional, definem-se quais campanhas serão ou não financiadas; assim, de maneira indireta são escolhidos quais doentes receberão maior ou menor atenção.

Seria desastroso um administrador, que com recursos limitados, decidisse não poupá-los para salvar a vida de seus doentes. O custo de tratar alguns poucos seria suficiente para tratar milhões com doenças simples, porém fatais.

Vale a leitura deste artigo, do Ministério da Saúde, no qual é citado o caso da Hepatite C, que é prevalente em 1% na população, ou seja, 1,9 milhões de pessoas no Brasil possuem essa doença. Caso fosse decidido tratar 25% destas pessoas com o tratamento mais eficaz, o Interferon Peguilado, custando R$ 52 mil por pessoa, seriam gastos 64% do total do orçamento do Ministério da Saúde. Não sendo possível tratá-los, o Ministério da Saúde os ignora.

Com todas estas circunstâncias, observamos que a vida real no mundo da assistência à saúde é bastante dura. Mesmo com todos os recursos as pessoas vão continuar morrendo; não há saídas.

Diante deste cenário desolador, surge um dos campos mais férteis e lucrativos para novas ideias. Com tratamentos revolucionários e incrivelmente abrangentes, os Charlatões da Saúde conseguiram, aproveitando-se da credulidade e ignorância da população, formar impérios milionários. Mais sobre eles em meu próximo artigo.

Be Sociable, Share!

4 Comments

    • Diego
    • Posted 27 de março de 2010 at 0:45
    • Permalink

    Muito bem escrito.
    Mas fazer o que, o mundo é cheio de decisões complicadas…
    Lendo seu artigo eu penso naqueles comentários sobre os gastos com as olímpiadas por exemplo, de por que não gastar aquela verba com a saúde… Mas isso renderia um longa discussão xD

  1. O Interferon Peguilado R$ 52 mil por pessoa? Que absurdo !

    Casos de hepatite Brasil:
    – Norte: 2,1%
    – Nordeste: 1%
    – Centro-Oeste: 1,2%
    – Sudeste: 1,4%
    – Sul: 0,7%
    Fonte: http://www.hepcentro.com.br/hepatite_c.htm

    Realmente, a indústria farmaceutica é uma mafia, lucrando fortunas descaradamente com a desgraça dos outros. Por enquanto só os EUA começaram a reparar a necessidade do governo investir em pesquisas genéticas. Fo#am-se os embriões, estamos falando de pessoas não de sementes aqui !

    Bom trabalho Bruno,parabéns !

  2. Casos de hepatite Brasil:
    – Norte: 2,1%
    – Nordeste: 1%
    – Centro-Oeste: 1,2%
    – Sudeste: 1,4%
    – Sul: 0,7%
    Fonte: http://www.hepcentro.com.br/hepatite_c.htm

    O Interferon Peguilado R$ 52 mil por pessoa? Que absurdo !

    Realmente, a indústria farmaceutica é uma mafia, lucrando fortunas descaradamente com a desgraça dos outros. Por enquanto só os EUA começaram a reparar a necessidade do governo investir em pesquisas genéticas. Fo#am-se os embriões, estamos falando de pessoas não de sementes aqui !

    Bom trabalho Bruno,parabéns !

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/03. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Bruno Teixeira
    • Posted 6 de abril de 2010 at 9:19
    • Permalink

    Be Happy,

    Não querendo ficar defendendo a insústria farmacêutica, mas o interferon é uma molécula extremamente complexa e por este motivo bastante cara.

    Trata-se de uma proteína com 165 aminoácidos que é produzida via engenharia genética. Segue abaixo uma representação.
    http://bit.ly/9cZ9D5

    Inclua-se aí a carga tributária brasileira que muitas vezes chega a quase 40% do valor do medicamento.