III

É normal uma pessoa religiosa estufar o peito para falar sobre a crença dos grandes gênios da humanidade. Alguns nomes logo vêm à mente. Isaac Newton é o primeiro. Físico, pai do cálculo e teólogo, para orgulho dos teístas. Galileu, um dos homens que desafiou a igreja, também acreditava em deuses. Einstein, muito citado em fontes não confiáveis pela internet como sendo autor de diversas frases, boa parte delas com alto teor religioso, também acreditava em algum deus (embora muito diferente do que a versão da grande maioria dos teístas). Da Vinci, Blaise Pascal e Kepler são outros nomes de grandes gênios crentes em deus.

Segundo o meu último texto, esse fato não interessa. Não entendam isso como uma tentativa de desvio ao fato de que muitos cientistas brilhantes acreditavam em deus. Na verdade, muitos outros cientistas brilhantes não acreditavam em nenhum e isso também não faz diferença alguma. Esse meu texto não vai atacar a validez da defesa apologética na qual os grandes gênios aparecem como evidência de que deus existe. Essa defesa já começa inválida por se tratar de simples falácia do apelo à autoridade. Quero falar sobre a relação entre a crença e suas experiências, uma ideia fundamental que parece ser sistematicamente ignorada por muitos teístas. Para tal eu focarei em Newton, visto que ele é o mais óbvio expoente de cientista crente em deus.

Newton acreditava – muito – em deus. Não resta a menor dúvida quanto a isso. De fato, ele era um teólogo. A faceta de Newton que não nos ensinam na escola inclui teologia e alquimia dentro das atividades deste cientista britânico. Essa mesma faceta é muito lembrada com orgulho pelos defensores da “ciência amiga de deus” de que eu falei no meu último texto. Como a relação deus e ciência é tão repleta de ironias, é óbvio que existe mais uma por trás da teologia de Newton. Não sei se os apologistas nunca pararam para pensar sobre isso por preguiça ou conveniência, mas o fato é que existem ótimos motivos pelos quais Newton não é conhecido por sua teologia e alquimia. Ao contrário do Newton físico, matemático e filósofo natural, a sua contraparte teológica e alquimista não colaborou muito (ou nada) para a humanidade. O cálculo de Newton e suas leis fundamentais revolucionaram a física, mas a alquimia e teologia foram irrelevantes. Seria interessante se Newton não tivesse desperdiçado tanto tempo na busca de uma pedra filosofal ou de um deus bondoso, talvez saísse mais um ou dois postulados.

Mas o ponto mais importante não é esse. Não faz muito sentido divagar sobre o que Newton teria descoberto caso investisse mais tempo em seus estudos sobre a natureza. Newton, como cada ser humano, era uma criatura cujos conhecimentos dependiam intimamente de sua experiência. Antes de ser um filósofo/físico/teólogo de grande calibre ele era um filósofo/físico/teólogo do século XVII – XVIII. Não há como dissociar Newton de seu tempo da mesma maneira que não há como dissociar uma ideia de sua época, visto que a primeira é um reflexo da última.

Um exemplo de como muitos apologistas falham miseravelmente ao dissociar um pensamento de sua experiência está no criacionismo. É comum ver criacionistas defendendo que os principais gênios, como os que eu citei no primeiro parágrafo, eram todos criacionistas. Mais uma vez vamos um pouco além, ignorando o fato de que o argumento é apenas uma falácia, para analisar a sua validade.

Antes de nos perguntarmos por que Newton, Galileu e Pascal eram criacionistas, devemos nos perguntar como eles se tornariam evolucionistas. Sabemos como Darwin se tornou um. Entre os principais fatores está nada menos do que uma viagem ao redor do mundo com frequentes paradas, incluindo na América do Sul, onde Darwin servia primariamente como geólogo mas também coletava espécimes diversos. Wallace, o co-autor da teoria darwinista estava na Malásia quando chegou, de maneira independente, à mesma ideia central que Darwin. Antes de ir para a Malásia Wallace estudou e coletou durante anos na bacia Amazônica, um lugar que muitos brasileiros sequer conhecem. E fez isso em pleno século XIX. Há de se considerar a experiência destes dois naturalistas. Como que Newton chegaria à mesma conclusão que Darwin e Wallace? Estudando prismas? Observando uma maçã cair? Ou então Galileu deveria ter descoberto algo sobre a evolução das espécies olhando as estrelas através de seu telescópio.

Nem Newton, nem Galileu, nem Darwin ou mesmo eu e você tiramos nossas conclusões do nada. O que chamamos de grandes gênios são pessoas que sugam lições de suas experiências com a voracidade que um tolo não conseguiria. Mas a informação chega para todos com a mesma intensidade, a única diferença está em quem a acolhe. Uma maçã caindo foi o suficiente para inspirar Newton a postular algo sobre a gravidade, mas nem mesmo todas as maçãs do mundo caindo simultaneamente fariam com que um homem, preguiçoso ou temeroso em pensar, concluísse qualquer coisa.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

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5 Comments

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 29 de março de 2010 at 0:15
    • Permalink

    Pessoal, kd os textos ad hoc?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 29 de março de 2010 at 2:50
    • Permalink

    Os textos ad hoc precisam de colaboradores.
    Como você, por exemplo.

    • carue
    • Posted 18 de abril de 2010 at 23:53
    • Permalink

    (Seria interessante se Newton não tivesse desperdiçado tanto tempo na busca de uma pedra filosofal ou de um deus bondoso, talvez saísse mais um ou dois postulados.)
    uhauhahauhuahuahuahauhauhauhau

    • Prado
    • Posted 27 de agosto de 2010 at 14:48
    • Permalink

    Deus é simplesmente Senhor de tudo e de todos.

    • thais ferreira
    • Posted 19 de novembro de 2010 at 21:19
    • Permalink

    se você acredita tanto, alias não acredita tanto em Deus, porque perde seu tempo querendo provar algo de que você tem certeza?! criticou Newton por perder tempo estudando teologia e não ter feito algo mais produtivo (ao seu ver), e está fazendo o mesmo, querendo provar aos outros algo nada produtivo, quem sabe você não tem capacidade para estudar e formular idéias mais proveitosas para humanidade e para você mesmo?! ta no tempo de agir, e parar de correr atrás da pedra filosofal também.
    Newton pelo menos tinha algo sobre oque estudar, e em que crer, tinha uma fé pra sustentar e o fez com êxito como alguns ainda fazem hoje, e você ? o que tem ? tempo o suficiente para tentar provar que a fé alheia é falsa, você dedica mais tempo a Deus que alguns próprios teístas. hipócritas ! :/
    criticam tanto nós que temos uma fé, enquanto como ateus não lhes restam nada, acho que é esse o grande motivo dessa frustração total e impulso para tentar destruir o que o universo total afirma em exatidão e grandeza: a existencia de Deus!
    A gravidade explica os movimentos dos planetas, mas não pode explicar quem colocou os planetas em movimento. Deus governa todas as coisas e sabe tudo que é ou que pode ser feito.
    Isaac Newton


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