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Em dezembro de 2007, em sua edição 2040, a Revista Veja publicou uma pesquisa que expõe o medo que boa parte do eleitorado brasileiro tem dos ateus. Segundo tal pesquisa, apenas 13% dos eleitores votariam sem reservas em um candidato ateu para presidente do Brasil. Dos demais entrevistados, 25% declararam que votariam “dependendo da pessoa”, 3% declararam não saber ou não quiseram responder, e 59% declararam que simplesmente não votariam em um ateu para a presidência da República.

Sem adentrar a questão da exatidão de tal pesquisa, é interessante notar que uma expressiva parte dos eleitores do Brasil não votaria em um candidato ateu. É mais da metade do eleitorado. É importante também levar em conta que um quarto dos eleitores, ao declarar que votariam em um ateu “dependendo da pessoa”, expressaram alguma reserva quanto ao ateísmo do candidato. Assim sendo, mais de 80% do eleitorado brasileiro vê o ateísmo como um atributo negativo em alguém que concorra a um cargo público eletivo.

Obviamente, os candidatos e seus respectivos partidos sabem disso. Em qualquer eleição se gasta muito dinheiro e, como em qualquer grande investimento, investidores sérios procuram obter o máximo de informações possíveis para garantir um bom retorno do que foi investido. Tudo aquilo que o eleitor considera defeito é cuidadosamente escondido na elaboração da propaganda, e nenhum candidato a presidente que pretenda vencer a eleição seria tolo a ponto de declarar abertamente que não acredita em deus.

Isto nos remete ao episódio nacionalmente conhecido das eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. Durante um debate, o então candidato a prefeito Fernando Henrique Cardoso titubeou ao ser perguntado se acreditava ou não em deus. FHC perdeu as eleições, e muito se discute se o resultado teria sido diferente caso ele tivesse respondido com firmeza que acreditava em deus. Mas é certo que o vacilo em responder uma pergunta tão direta certamente foi visto por muitos eleitores como uma confissão de descrença. Posteriormente, em suas propagandas eleitorais na televisão, FHC negou ser ateu e maconheiro, mas isto não evitou sua derrota naquele pleito (o programa pode ser visto em http://www.youtube.c…h?v=uyvWXZDlhNY ). É interessante notar que FHC, no mesmo discurso, falou de duas coisas que o eleitorado reputa igualmente ruins: o uso de entorpecentes e o ateísmo, como se ser ateu fosse algo socialmente tão reprovável quanto ser usuário de entorpecentes. Isso para não mencionar a comparação entre ateísmo e desrespeito ao sentimento religioso, que é um lamentável preconceito.

Se FHC é ou não ateu, só ele pode dizer. Para nós ateus é difícil pensar que alguém possa ser “ex-ateu”, mas na fauna humana encontra-se de tudo. Se FHC se atrapalhou para responder uma pergunta tão direta, pode-se pelo menos dizer que sua fé em alguma divindade não era a mesma da maioria do eleitorado paulista na época. De qualquer forma, alguns anos depois ele foi eleito presidente do Brasil e ninguém parecia mais se importar com o que FHC pensava acerca de deus. O assunto simplesmente não vinha à tona

Mas se, para um político, declarar-se ateu, de forma aberta, ostensiva, é uma espécie de suicídio eleitoral, a atitude contrária, ou seja, declarar-se fiel a alguma religião, rende votos. A ironia é notar que boa parte dos muitos políticos brasileiros envolvidos em escândalos de corrupção, e mesmo em diversos outros crimes, faz parte do grupo que usa o discurso religioso como alavanca para obtenção de votos. Em 1993, deus estava na boca do deputado envolvido no escândalo dos anões do orçamento, que atribui seus mais de cinquenta prêmios na loteria em menos de um ano à ajuda divina. Também estava na boca dos envolvidos nos recentes escândalos envolvendo o governo do Distrito Federal.

De tudo isto, só se pode concluir que a crença ou a descrença em deus não diz nada quanto à honestidade do candidato. Honestidade e desonestidade podem acompanhar igualmente a fé ou a incredulidade, e não há motivos para se temer um candidato ateu por causa do seu ateísmo, assim como não há motivos para se confiar em um candidato religioso em razão de sua religiosidade. Mesmo assim, enquanto a imagem do ateu como ímpio e como sujeito sem valores éticos e morais estiver presente no imaginário popular, o eleitor ainda terá medo de votar em ateus, e os candidatos ateus ainda terão medo de declarar publicamente seu ateísmo.

Em tempos de eleições, partidos políticos mobilizam as massas para a militância em favor de seus candidatos. Tentando vender a ideia de que seu partido tem a solução para todas as mazelas do dia-a-dia, seus vendedores saem em busca de clientes.

Para encher os corações dos fieis de certezas, políticos e pastores utilizam-se das mesmas técnicas. As promessas de um futuro melhor são suas preferidas e o que pedem em troca é muito pouco. Apenas sua fidelidade, seu voto e seu dinheiro.

Comícios, onde as massas se juntam para ouvir as promessas de um futuro melhor sob a bandeira do partido, são idênticos aos cultos, onde pastores desafiam a racionalidade prometendo os céus para os crentes. Assemelham-se até mesmo no modo de se expressar, com o qual tentam, com discursos fortes e forrados de certezas, cobrir as suas contradições.

De terroristas a testemunhas de Jeová, é fácil lembrar pessoas que morreram por conta de suas certezas; somos muito facilmente manipuláveis por elas. Líderes políticos e religiosos sabem como utilizá-las e, muitas vezes, eles mesmos não compartilham das certezas que vendem.

Costumamos aceitar muito mais facilmente argumentos que corroborem nossas crenças, os aceitamos como corretos a priori. O contrário também é verdadeiro e bem mais evidente, quando demonstramos certa resistência diante de evidências contrárias ao que acreditamos.

A convicção ocorre quando colocamos nossas crenças acima de qualquer dúvida. Para mantermo-nos minimamente razoáveis, nada deveria ser elevado a este patamar. Afinal, dada a nossa condição limitada, podemos estar errados com relação a qualquer coisa, especialmente aquelas nas quais não há evidências convincentes.

É interessante observar a reação dos crentes políticos quando confrontados com a evidência de que seu candidato ou partido preferido possui algumas das falhas criticadas em seus adversários. As desculpas vindas dos candidatos costumam ser das mais abusadas, desde o dinheiro para o panetone até o “eu não sabia”.

As respostas acima podem parecer um insulto à inteligência daqueles acostumados a questionar, porém, para um crente político, uma resposta como essa é muito mais do que suficiente.

“Talvez a maior tragédia da história humana tenha sido o sequestro da moralidade pela religião.”[1]

Se alguém se der ao trabalho de notar se as pessoas que frequentam o noticiário policial, ou mesmo as pessoas que não chegam a tanto, mas são conhecidas e mais aparecem por atitudes de mau caratismo; se alguém prestar atenção ao fato de essas pessoas terem ou não religião e quanto se dedicam a ela, talvez se surpreenda ao perceber que muitas têm religião e algumas se dedicam bastante. Políticos corruptos, ladrões de todas as estirpes, pequenos ou grandes sonegadores de impostos, a proporção de pessoas religiosas nesses grupos é algo parecida com a proporção na população em geral.

Em vários casos, os próprios líderes religiosos acabam sendo autores de notórios crimes às vezes até propiciados pelas atividades que exercem. Recentemente, pastores da Igreja Mundial, tentaram aproveitar o prestígio da sua imagem e livre acesso a um morro de Niterói para fazer tráfico de armas. O casal líder máximo da Igreja Renascer, famosa por ter vultuosa arrecadação, foi preso ao tentar entrar nos E.U.A. com uma quantia de dólares sem a declaração legalmente prevista, escondidos dentro de uma Bíblia. Ao redor de todo o mundo padres desviam sua sexualidade reprimida pelo celibato para alguns desafortunados coroinhas que neles confiam, e a igreja de que são membros vez por outra se preocupa mais em ocultar os casos para manter uma imagem santa do que em punir os padres criminosos e evitar mais vítimas.

Convém não generalizar. Assim como a proporção de religiosos entre os criminosos guarda similaridade com a proporção na população toda, felizmente a recíproca também é verdadeira. A infelicidade é que algumas religiões, notadamente as religiões cristãs, se auto-declarem os únicos guias confiáveis para a moralidade. É simplesmente escabrosa a imagem que essas religiões tentam passar a respeito dos ateus. Normalmente somos acusados de incapacidade de fazer qualquer distinção entre bem e mal e, a partir dessa premissa, sermos responsáveis por todo o tipo de comportamento reprovável que existe na sociedade. Esse tipo de afirmação é mais um que requer o exercício alienante da fé, pois não encontra qualquer apoio nos fatos. As atitudes reprováveis são esmagadoramente cometidas pela esmagadora maioria religiosa da população. E os ateus têm noção de moralidade tanto quanto qualquer pessoa religiosa.

Vejo com bons olhos a intenção das religiões de guiarem moralmente seus fiéis. Isso propicia dedicação ao assunto e, consequentemente, seu desenvolvimento. Vejo também certa incoerência ao usarem para isso um livro recheado de violência e atitudes pueris na maior parte das vezes perpetradas pelo personagem principal, mas isso é assunto para outro artigo. O maléfico é a desonestidade de atacar gratuitamente quem não segue uma religião e o preconceito que surge disso. Preconceito leva a atitudes erradas em qualquer direção, seja a de um ateu que possa ser desmerecidamente punido quanto a de um religioso ganhar mais confiança do que merece, muitas vezes dos seus pares ou seguidores. Uma pessoa deve ser julgada por suas atitudes reais e não pelas que somos levados a crer com base na religiosidade ou falta dela.

Notas:

[1] CLARKE, Arthur C. Greetings, Carbon-Based Bipeds!: Collected Works 1934-1988. New York: St. Martin’s Press, 1999.

A igreja, de um modo geral, sempre prosperou quanto mais poder social exerceu. Foi controlando a vida das pessoas, suas ações e pensamentos, que foram capazes de moldar a sociedade a seu gosto (duvidoso). Nas pequenas aldeias e vilas, era um trabalho razoavelmente fácil e foi uma das funções mais proeminentes da confissão individual. Até hoje, em cidades do interior de nosso país, não é difícil ver como tudo gira em torno daquela igreja e daquela pracinha.

No entanto, é muito mais difícil controlar a vida de pessoas em uma grande cidade, principalmente com a rotatividade de fieis: não dá simplesmente para decorar todos os nomes de pessoas que frequentam sua igreja, nem lembrar de seus pecados. É aqui que entram as pequenas dissidências eclesiásticas: as igrejas evangélicas e pentecostais acabam por assumir o papel outrora dominante da Igreja Católica. Elas dispõem, geralmente, de uma congregação menor, mais intimista, onde todos se conhecem e sabem da vida de todos.

É por conta desse atual cenário que, por vezes, parece haver uma discriminação maior nas igrejas protestantes. É por isso que vemos discursos mais inflamados de pastores contra homossexuais e é por isso que tantos prometem curas milagrosas para este comportamento. Não importa se a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade do seu rol de doenças[1]; para os crentes, é um desvio da obra de Deus e deve ser “curada”.

Diante de toda a opressão que o cristianismo ainda exerce sobre os homossexuais, há duas saídas principais: eles podem abandonar a igreja ou combater a própria sexualidade. Há, obviamente, diversos outros caminhos não tão radicais: desde buscar igrejas mais lenientes até fundar igrejas somente para homossexuais [2].

Aqueles que buscam respaldo na Bíblia para criticar os homossexuais encontrarão três principais passagens [3]:

“Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é” (Levítico 18:22);

“Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles” (Levítico 20:13);

“Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro” (Romanos 1:26-27).

Apesar da ilusão de que católicos têm uma posição mais branda sobre a homossexualidade, o atual papa Bento XVI já deu diversas declarações que mostram exatamente o contrário: “Salvar gays é tão importante quanto salvar florestas” [4]; ou ainda “Papa critica projeto de lei britânico contra a discriminação de homossexuais” [5].

É difícil traçar um paralelo entre ateísmo e homossexualidade, mas, indubitavelmente, boa parte dos indivíduos que não busca igrejas que os aceitem como são acaba por se tornar ateia ou professar algum tipo de crença que não seja baseada no deus judaico-cristão. De qualquer forma, não é difícil perceber como o rígido controle social, em uma sociedade na qual a apostasia não é punível com morte ou segregação, pode prejudicar o número de fieis de determinada congregação.

Por mais que a religião cristã paute seus ensinamentos no sofrimento, muitos já perceberam que ele não é realmente necessário e simplesmente vivem suas vidas sem a preocupação masoquista de agradar a deus(es) preocupado(s) demais com o que se faz na vida privada.

Notas:
[1] World Health Organization. ICD-10. Disponível inglês em <http://www.who.int/c…en/bluebook.pdf> Acesso em 28. fev 2010.

[2] Igreja da Comunidade Metropolitana

[3] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/art…rituras/biblia/> Acesso em 28 fev. 2010.

[4] Salvar gays é tão importante quanto salvar florestas, diz Bento 16

[5] Papa critica projeto de lei britânico contra a discriminação de homossexuais

Pensemos no caso dos direitos dos ateus. O que ateus podem exigir da sociedade? O direito de ser irrelevantes. Parece estranho, então exemplifiquemos. Um ateu pode apenas exigir que, digamos, ao ir a uma frutaria, tenha o direito de escolher o suco que bem entender, bebê-lo, pagá-lo, receber o troco, colocá-lo no bolso e partir sem ser questionado sobre os porquês de sua descrença na origem divina do universo. Sendo razoáveis, isso é tudo o que podemos esperar. Não queremos, enquanto ateus, receber descontos na compra de laranjadas, ou que se cobre mais de religiosos. Queremos simplesmente ser vistos como cidadãos comuns, que a sociedade tenha tolerância quanto ao ateísmo, de modo que o fato de sermos ateus seja tão irrelevante quanto o fato de outrem ser religioso.

No mais, se nossa descrença diz respeito à religião, só faz sentido que sejamos tratados diferentemente no que diz respeito à religiosidade. É perfeitamente lógico que não possamos, por exemplo, nos casar em igrejas ou participar de grupos de oração. Sendo ateus, aceitamos tais implicações com a maior boa vontade, pois simplesmente fazem sentido. Em tais questões não haveria sentido em exigir igualdade. Pelo contrário, seria absurdo esperar que ateus, no tocante à fé, fossem tratados como religiosos, assim como seria absurdo esperar que indivíduos feiosos fossem tratados como belos no tocante à beleza. Ateus devem ser tratados como ateus; religiosos como religiosos; feiosos como feiosos; belos como belos. Mas tudo em seu devido contexto. Nessa situação, o preconceito surgirá apenas se permitirmos que as coisas se misturem. Por exemplo, se acreditarmos que, pelo fato de um indivíduo ser ateu, também é feio. Apenas isso seria um preconceito, isto é, uma generalização indevida.

Não temos fé, e não damos a mínima se a Igreja considera o ateísmo errôneo para com os profetas. Porém, enquanto ateus, não queremos ser julgados pelo que não tem relação alguma com religiosidade. Não queremos ser forçados a mentir sobre nossas opiniões em entrevistas de emprego, durante conversas, e assim por diante. Esperamos que um indivíduo, ao declarar-se ateu, não cause espanto algum, que os demais não reajam com perplexidade, dizendo: pelos céus, ele é ateu! Ao dizer que somos ateus, esperamos que os demais recebam tal afirmação com naturalidade, sem espanto, assim como ninguém se espanta ao ouvir que certo indivíduo é católico, evangélico ou espírita. É apenas nesse sentido que entendemos a igualdade, e exigir mais que isso seria injusto para com os demais. Para percebê-lo, basta pensar do seguinte modo: para os ateus, a vida não tem sentido. Isso é problema de quem? Problema dos ateus. Se somos ateus, problema nosso, e não importa se tal fato nos entristece ou desmotiva. Isso não é culpa dos religiosos.

Agora, para ilustrar tal situação perante a sociedade, suponhamos que a consciência da ausência de sentido nos cause depressão. Isso nos dará o direito de exigir que recebamos medicação gratuita para tratá-la? Teremos o direito de exigir que a sociedade custeie a manutenção de uma instituição voltada exclusivamente aos ateus com o nobre fim de amenizar os dissabores de uma existência sem sentido? Poderemos exigir que ateus devam cumprir jornadas de trabalho mais curtas por viverem angustiados? Será justo processar um padre que se recuse a casar, perante os olhos de Deus, um casal de ateus? Podemos ser ateus, mas é ridículo exigir compensações da sociedade pelo fato de a existência não ter sentido e isso nos entristecer, e o mesmo se aplica aos demais: não podem exigir compensação da sociedade por um problema que só diz respeito a eles próprios.

por Gustavo dos Anjos

Fiel: Alô…

Call Center: Seja bem-vindo ao serviço de atendimento do divino. Esta é uma gravação; e com o intuito de estar agilizando e facilitando o seu atendimento, a seguir aperte o numero correspondente à sua necessidade…
Fiel: Alô, alô…Queria falar com Deus!!

Call Center: Se você deseja estar verificando o saldo devedor da última fatura do seu dízimo, aperte o numero 1. Se você deseja estar comprando um terreno no paraíso, confira nossos planos promocionais apertando o numero 2. Se você deseja estar falando com um dos nossos atendentes, aperte o numero 3.

Fiel: # 3.

Call Center: Aqui é a assessoria angelical falando, no que posso ajudá-lo?

Fiel: Tenho algumas questões que gostaria de tratar diretamente com Deus. Sempre fui um seguidor assíduo do nosso Senhor e espero que esse meu desejo possa ser atendido. É possível?

Call Center: Pode me adiantar o assunto? Talvez não seja necessário falar com o todo-poderoso.

Fiel: Pois bem, vou direto ao ponto. Queria saber qual o motivo para o criador de tudo e de todos ter enviado o temporal de ontem que alagou e destruiu toda a minha casa.

Call Center: Infelizmente esse assunto não compete à Deus. Tente falar com o Diabo.

Fiel: Então, deixe eu falar sobre minha demissão do mês passado. Sabe, foram trinta anos na mesma empresa e agora não sei como arrumar outro trabalho. Já estou cansado de me ajoelhar, estou desesperado. Minha família está passando fome.

Call Center: Irmão, não podemos lhe ajudar nesse caso. Lúcifer é quem está por trás de sua desgraça.

Fiel: Entendi. Queria também reclamar do porquê da demora em atender minhas preces. Minha mãe está doente já faz mais de um ano e nada de melhora. Toda semana compareço pontualmente aos sermões do padre Bento.

Call Center: Nesse caso, o Satanás está de alguma forma interferindo no bem-estar de seu ente querido.

Fiel: Quer dizer então que toda as frustrações e desgraças da minha vida também devem ser culpa do belzebu?

Call Center: É bem provável.

Fiel: Que estranho!!! Existe alguma coisa nesse mundo cuja responsabilidade pode ser atribuída a Deus?

Call Center: Mas é claro que sim, irmão. Já parou para pensar no porquê de a natureza ser tão bela e perfeita? Já agradeceu, hoje, por você ter sido agraciado com a sua vida? Ou iluminado pela bondade e perfeição dos homens?

Fiel: Já entendi tudo. Pode me passar para o departamento financeiro?

Call Center: Por quê?

Fiel: Quero cancelar meu contrato.

Call Center: …

Fiel: Alô, alô… Estranho, acho que a ligação caiu.

* * *

(artigo recebido em 06 de janeiro de 2010)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

Apesar das evidências que dão suporte às ideias de Darwin, uma porção considerável dos cristãos insiste em defender com unhas e dentes as fábulas do gênesis bíblico. Isso não é nenhuma novidade, e essa resistência aos fatos ― notória principalmente entre os protestantes, no universo cristãos ― tornou-se tabu. “Ensine a controvérsia”, eles dizem. É como defender o ensino oficial de que o holocausto pode mesmo não ter existido, ou que o mundo é plano e encontra suporte no casco de tartarugas gigantes ou ainda que as pirâmides do Egito foram construídas por seres alienígenas.

Design de camisetas que satirizam o movimento Teach The controversy.

Design de camisetas que satirizam o movimento Teach The controversy.

Mas não é exatamente sobre criacionismo que quero tratar hoje, mas sim sobre a implicância de determinada ignorância no mundo prático. Que mal pode ter? Deixe que os cristãos tenham suas fantasias sobre homens vindo do barro. O que não se percebe é a carga de dano potencial de que tais ideologias estão carregadas. Nos Estados Unidos ― um dos países mais poluidores do mundo ― há várias correntes religiosas que negam a existência do Aquecimento Global, e professa que mesmo que o planeta esteja se degradando, pouco importa pois Jesus voltará a tempo para julgar a humanidade e restabelecer a ordem. Mas nem todas as denominações protestantes americanas negam a existência do Aquecimento Global, algumas acreditam que Deus é o responsável pela mudança climática como forma de nos alertar e alterar o nosso comportamento.

Trata-se de uma tentativa de denegrir o conhecimento científico em detrimento da incapacidade dogmática religiosa. Como afirma Lawrence Krauss, físico e diretor da Origins Initiative, da Universidade Estadual do Arizona:

“Onde houver uma batalha sobre a evolução hoje, há uma batalha secundária para suavizar outros assuntos quentes, como o Big Bang, e, cada vez mais, a mudança climática. Trata-se de lançar dúvidas sobre a veracidade da ciência – dizer que essa é apenas mais uma visão do mundo, mais uma história, nem melhor nem mais válida que o fundamentalismo.”

Por ser um país religioso em sua essência, inúmeros projetos de leis ― alguns chegam mesmo a ser aprovados ― combatem o ensino das teorias científicas em escolas públicas. A assembleia legislativa de Kentucky não é exceção, e um exemplo disso é o projeto apresentado pelo deputado estadual Tim Moore, que pretende negar o efeito estufa e a ação do homem como capaz de alterar o ecossistema. “Nossos filhos estão sendo apresentados a teorias como se elas fossem fatos”, afirma o deputado, “especialmente no caso do aquecimento global, tem havido um ponto de vista politicamente correto na elite educacional que é muito diferente da ciência sólida”.

Nenhum ritual religioso foi capaz de salvar o povo Azteca do seu destino.
Nenhum ritual religioso foi capaz de salvar o povo Azteca do seu ocaso.

A ignorância e a relutância para aceitar fatos solidamente comprovados nem sempre podem ser encarados com inocência e complacência. Ao revés, há uma necessidade latente para que se combata esse tipo de ideologia danosa, muitas vezes hipócrita, que ainda hoje tenta impedir o avanço científico. Não precisamos mais da vigilância religiosa para nos dizer que a terra é o centro do universo, que a terra é plana ou que através de indulgências era possível comprar um terreno nos céus. Tais absurdos pertencem aos museus e livros de história, já não há mais espaço para essas puerilidades em nosso mundo hodierno. Justificar o aquecimento global como a vontade de deus, e acreditar ser possível reverter a situação através de oração e obediência religiosa é equivalente a sacrificar homens em pirâmides e esperar saciar a sede de sangue dos deuses. Todos nós sabemos como essa história termina.

I

Ateus são figuras estereotipadas. Um exemplo é a imagem do ateu cientificista. Claro, como todos os outros estereótipos atribuídos a nós, ateus, este não passa de mais uma bobagem. Ateus não [necessariamente] creem que a ciência possui resposta para todas as questões. Falando por mim, vejo o método científico como uma poderosa ferramenta para se compreender fenômenos naturais, mas termina aí. Não existe nenhum motivo muito evidente para que eu baseie minhas concepções de moral e visão de mundo inteiramente na ciência. Não trato as descobertas científicas com a mesma fé ardorosa que um cientificista o faria ou como um crente devoto trataria seu livro sagrado.

Como esses dois conceitos, ateísmo e ciência, vieram a ficar tão interligados é o cerne deste texto. Imagino que a responsável por essa associação no imaginário popular não seja o ateísmo em si, mas sim a mitificação da ciência. Falarei brevemente não da história da ciência, mas da história de como o grande público leigo viu a ciência moderna durante todos esses anos.

Fazendo um resumo porco desta história, a ciência começou sendo vista como um incômodo curioso e rebelde, desafiando dogmas centrais na sociedade ocidental. Isso já começa a conferir à “ciência” uma aversão à idéia de “fé”. Galileu é uma das figuras mais importantes desta época. Depois de incomodar, a ciência cresceu e começou a surpreender. Nos fins do século XVII e durante boa parte dos séculos XVIII e principalmente XIX tivemos grandes gênios. Newton, Lavoisier, Darwin, Tesla e Faraday, para citar alguns. Descobertas que alavancaram a tecnologia, a economia e até mesmo a própria maneira de interpretar o mundo, radicalmente. Até a primeira metade do século XX surgiam eventuais gênios, como Einstein, Watson e Crick. Parecia mesmo que tudo podia ser respondido de maneira lógica e sem apelo ao sobrenatural através do método científico. Depois disso ela cresceu exponencialmente tanto em termos de cientistas quanto de publicações. A quantidade de informação nova publicada anualmente ficou colossal. Porém, isso não refletiu em reviravoltas impactantes como as de épocas anteriores. Muito pelo contrário. A ciência decepcionou. Esperávamos cura para o câncer, colonizações no espaço, maior longevidade, carros voadores. Mas, no fim, parece que os avanços se limitaram ao meio virtual.

Jetsons - Versão cartunesca de como algumas pessoas imaginavam o final do século XX

A razão pela qual se associa normalmente ateísmo com ciência é porque esta começou a ser vista exatamente como ela não é, ou seja, detentora de todas as verdades. É de se convir que um método baseado essencialmente na dúvida, no ceticismo e no debate não pode se dar ao luxo de ser visto como infalível e absoluto. Este é um bom exemplo de como o público acaba por ver as coisas de maneira diametralmente oposta ao que realmente são.

Não só a ciência começou a ser vista como deidade, mas também foi vista como uma deidade que fazia acontecer, ao contrário dos muitos outros deuses que eram misteriosos demais e eficientes de menos. Também era natural que as pessoas começassem a perceber o quanto essa “ferramenta milagreira” que era o método científico dispensava deuses e orações. Surgia uma nova fé: a fé nos milagres da ciência, a fé cientificista. Uma deidade a qual valia a pena acreditar. Como o cientificismo consiste em acreditar que tudo pode ser explicado através de teorias naturais, o número de ateus consequentemente aumentou. Muitos chegaram a pensar que a fé em deuses teria um fim próximo. Ledo engano. As pessoas se desiludiram com a ciência tão violentamente que, além da fé no sobrenatural ter aumentado, criou-se uma aversão descabida à ciência. Leigos passaram a ver muitos dos cientistas como arrogantes, partindo do pressuposto que estes pretendiam se aproximar a(os) deus(es). Arrogantes, é claro, pois os cientistas eram pobres seres incapazes que ainda não se deram conta disso. É por isso que existe hoje uma confusão entre “curiosidade” e “presunção”, “humilde” e “ignorante”, e “douto” e “arrogante”. Na minha opinião, essa é uma situação um pouco triste. O ser humano é uma criatura naturalmente curiosa e não existe nada de condenável em querer entender o mundo ao seu redor, nada de presunçoso em conhecê-lo.

Essa decepção quanto aos milagres da ciência acabou por criar muitos dualismos em nossa cultura, alguns deles falsos. Temos “fé” de um lado e “razão” de outro. Um dualismo que impede muitos fervorosos de ponderar sobre suas crenças e muitos racionais de possuir segurança em suas convicções. Tudo bem que “fé” e “razão” são conceitos diferentes, mas também não são excludentes. Fé é uma forte crença e razão é a dedução lógica de certas premissas. Apesar de as duas não serem “grandes amigas”, elas não se tratam de ideias opostas uma à outra. Além desse dualismo tem-se “crentes” e “cientistas/ateus”, o que é patético. Eu como ateu ouço com relativa frequência perguntas do tipo “Ué, mas você não é ateu? Não é um cientista?”.

Mas muito pior do que o simples equívoco de associar ateísmo com cientificismo é a condenação do livre pensar. Existe hoje um abismo entre as descobertas científicas e a carga de conhecimento da população, mesmo a da elite intelectual. Falo isso baseado na rejeição que a teoria neodarwinista da evolução biológica encontra em muitos círculos. Essa rejeição é fruto da criação desse dualismo entre fé e razão. Muitos querem enxergar uma guerrinha entre sua fé e as novas descobertas da ciência, como se a última estivesse tão somente preocupada em ocupar o lugar de seu deus ou deuses. Pessoas mais elucidadas sabem que a ciência é apenas um método (poderoso) de entender o mundo natural e que a crença no sobrenatural não deve fugir do escopo pessoal. Deus e ciência não são dois generais se enfrentando em um campo de batalha. São apenas duas coisas que não interagem entre si, ou que ao menos não deveriam interagir. Mas falarei desse aspecto noutro texto.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes