Monthly Archives: abril 2010

Localizada entre o rio Danúbio e as geladas montanhas de Cárpatos, ergue-se a fria e solitária região de Wallachia. Aparentemente esquecida pelo tempo, a região localizada ao sul da Romênia foi testemunha de determinantes conflitos históricos que livraram o leste europeu de um possível domínio Turco.

Entretanto, não é por estes conflitos que a região é principalmente conhecida, mas pela fama nebulosa que circunda um de seus mais notórios governantes, Vlad III, imortalizado pelo folclore romeno e posteriormente difundido globalmente pelo aclamado romance de Bram Stoker e as suas várias adaptações para o cinema.

Vlad III nasceu na Transilvânia e aos cinco anos de idade foi levado a Nuremberg, onde foi iniciado na Ordem do Dragão. O Voivoda exibia orgulhosamente o título de Draculea, significando“o filho do Dragão”; uma clara referência ao seu pai, Vlad II Dracul, conhecido como O Dragão, membro honorário da Ordem.

Com sua lealdade posta em dúvida entre os membros do Conselho Húngaro, Vlad II Dracul firmou um acordo com sultões turcos, prometendo pagar-lhes tributo e não oferecer resistência à sua expansão. Como garantia, O Dragão enviou seus dois filhos a Edirne, então capital do império Otomano, na condição de reféns.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

Vlad III em seu famoso desjejum entre as vítimas de empalamento. Ilustração do século XV: “O bosque dos empalados”. Autor desconhecido.

O que os jovens da Transilvânia não sabiam era que seu genitor tinha planos de sacrificá-los como parte de uma manobra protelatória política, obtendo assim os favores dos demais nobres húngaros. Vlad III e seu irmão Radu, o Belo, ficaram sob a custódia de Mehmed II, que, ao invés ordenar a morte dos dois jovens, como esperado, tinha planos de doutriná-los de acordo com os costumes islâmicos e mais tarde reinseri-los no poder, constituindo então um reino muçulmano no coração de Wallachia.

Os irmãos testemunharam a rigidez com que o sultão controlava seu povo. Relatos históricos nos mostram que Radu não demorou a converter-se ao islamismo, porém Vlad era constantemente punido pela sua insolência e recusa a abandonar o cristianismo. Ambos receberam treinamento em táticas de guerra, aprenderam a língua turca e estudaram profundamente o corão. O empalamento era algo praticado em larga escala na Turquia.

Descontentes com a posição que Vlad II Dracul assumira com relação aos Otomanos, Hunyadi liderou ataque ao principado de Wallachia, assassinando o então governante da região juntamente com seus filhos mais velhos. Esta ação fez com que os otomanos atacassem o sul da Romênia, com o objetivo principal de tornar líder Vlad III. Este governo, entretanto, não durou muito e logo João Hunyadi investiu novamente contra a região, depondo Vlad Ţepeş e substituindo-o por Vladislav II.

Acreditando ter dado o trono para um simpatizante do islamismo, os turcos prepararam-se para uma nova investida, marchando contra Constantinopla, hoje Istambul, com a intenção de eliminar a última resistência cristã no mediterrâneo.

Referência cristã no emblema da Ordem do Dragão. Inscrição: O Draconistarum ordeurs, Justus et Paciens. Representa a vitória de São Jorge sobre o Dragão, da cristandade sobre Satanás.

Referência cristã no emblema da Ordem. Traz a inscrição "O Quam Misericors est Deus, Justus et Paciens". (Ó quão misericordioso é Deus, justo e paciente).

Vlad fugiu para Moldavia, onde tinha a proteção do seu tio Bogdan II. Ali, Vlad Ţepeş teve a oportunidade de se encontrar com Hunyadi, um homem extremamente religioso e preocupado com a situação do país, e conseguiu convencê-lo de que não apenas conhecia profundamente os costumes e hábitos turcos, mas que sobretudo não havia se convertido ao islamismo, a exemplo do seu irmão. Hunyadi nomeou Vlad III seu conselheiro de guerra.

Em 1451, Constantinopla caiu nas mãos do império Otomano, que marcharam novamente, desta vez para Belgrado, com fins de dominar toda a região da Romênia. Com o apoio de Hunyadi, Vlad III liderou um pequeno exército contra Wallachia, assassinando Vladislav II e retomando o poder. Enquanto isso, Hunyadi liderava os seus homens para a Sérvia com a intenção de montar uma resistência.

Vlad III governou Wallachia com punhos de ferro. As punições eram exemplares; para todo tipo de delito havia penas severas, e a mais comum delas era o empalamento. Foi por causa desse modus operandi que ganhou o apelido de Vlad Ţepeş, ou Vlad, o Empalador.

Até os seus últimos dias de vida, Vlad lutou para manter Wallachia um reino cristão, e para isso matou não apenas os seus inimigos, mas também os seus conterrâneos subordinados. O medo presente na população da região era tamanho que diz-se ter existido um cálice de ouro no centro de sua capital sem que ninguém ousasse subtraí-lo. Era uma demonstração clara do seu poder de controle. Vlad provocou os otomanos, não pagando seus tributos e empalando qualquer muçulmano que se aproximasse do seu país. Mehmed então invandiu a Wallachia com aproximadamente 80 mil homens de armas.

Vlad não possuia mais do que 40 mil homens, mas organizou uma resistência psicológica. Atacava constantemente os otomanos enquanto dormiam, tornando-se famoso o episódio “Ataque Noturno“, onde pelo menos 15 mil otomanos foram mortos. Tudo o que os turcos encontraram ao invadir a Romênia foi uma floresta de corpos empalados e um trono vazio. Sem dinheiro para continuar a sua resistência, Vlad III foi unir-se ao seu aliado Matthias Corvinus, na esperança de conseguir convencê-lo a defender o seu principado. Matthias, entretanto, ordenou a prisão de Vlad.

Após ter se tornado cativo na Húngria, foi libertado a pedido do próprio Papa, para que voltasse à Wallachia, onde asseguraria que o cristianismo predominasse sobre o islamismo. Temendo a volta ao poder pelo seu carrasco líder, populares atacaram e mataram Vlad Ţepeş, expondo sua cabeça em uma alta estaca.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Pio II. O Papa que ajudou a criar e patrocinou a Ordem do Dragão.

Os casos bárbaros e as lendas que circundam a figura do Empalador são muitas; seria preciso escrever um livro completo para detalhar suas façanhas cruéis. Não vou me ocupar desta tarefa. Na verdade, tenho a impressão que este texto está se tornando longo e enfadonho. Por isso termino este capítulo da Ordem do Dragão, que narra a história de um de seus mais emblemáticos líderes, com uma simples reflexão.

O papa Pio II, então governante na época, não apenas acobertou as crueldades ocorridas no Cárpatos, mas deu efetivo apoio, chegando a patrocinar financeira e ideologicamente a criação e o combate armado por parte da grande Ordem. Não apenas aprovou, mas viu estes esforços como um exemplo a ser seguido, o que mais tarde influenciaria a criação de uma nova ordem na Espanha. Mas este é assunto para o nosso próximo texto.

É assim que se expressava o amor cristão durante a Idade Média: Através de inquisições e empalamentos. É este o papel do Vaticano, e de seu Praetorium Excelsior, enquanto portadores do legado histórico conferido pela religião abraâmica? Talvez ainda exista um pouco da Idade das Trevas, em forma tênue, vagando entre os palácios do Vaticano.

      Para saber mais:

      • FLORESCU, Radu. Drácula: Uma biografia de Vlad, o Empalador, 1431-1476. Nova York: Hawthorn Books, 1973.
      • _________. Drácula: As várias facetas do Príncipe; Sua vida e sua Época. Boston: Brown and Company, 1989.
      • STOICESCU, Nicolae. Vlad, O Empalador. Bucareste: Universidade da Romênia, 1978.
      • TREPTOW, Kurt W., ed. Dracula: Artigo sobre a vida nos tempos de Vlad Tepes In Monografias do Leste Europeu. no. 323, Nova York: Editora da Universidade de Columbia, 1991.

      Observando os seres vivos em nosso planeta, pode-se concluir muita coisa. Uma das mais óbvias é a de que eles demonstram uma variedade absurda de formas. Isso é um fato escancarado. Sabemos que existem cachorros, baratas, lambaris, caramujos, macieiras e repolhos. Conseguimos identificar cada um desses sem a menor dificuldade. Na verdade, a nossa capacidade de identificação vai ainda mais longe. Não apenas podemos diferenciar uma cobra de um tatu, como sabemos existir diferentes tipos de cobras, agrupamos cobras e tatus em classes distintas e chegamos a agrupar diferentes famílias e gêneros de cobras.

      Outra coisa que podemos concluir ao observar os seres vivos envolve o seu material genético e, ao passo que para observar a biodiversidade precisamos apenas de um par de olhos, para se observar o material genético é necessária uma enorme carga de conhecimento em diversas áreas. Povos indígenas possuem um vocabulário extenso referente às várias espécies de animais de sua região, mas certamente não sabem nada sobre o material genético deles. Falo sobre as moléculas responsáveis por armazenamento de informação presentes em nossas células. A mais importante delas seria o ácido desoxirribonucléico, mais conhecido por sua sigla em inglês: DNA. Pois um fato muito intrigante relacionado a essa mesma molécula é a de que ela está presente em praticamente todos os seres vivos. E quando eu falo “praticamente todos” eu estou excluindo certos vírus, apenas (lembrando que sequer há consenso quanto à inclusão dos vírus entre os seres vivos). Ou seja, todo o resto possui DNA. Nós (seres humanos), leões, lampreias, formigas, lesmas, vermes, esponjas do mar, pés de alface, musgos, jacarandás, cogumelos, bolores, amebas, algas e bactérias, só para citar alguns. E esse DNA possui uma estrutura bem definida, a diferença entre o DNA de um jacarandá, de um verme e de uma bactéria se resume ao arranjo das bases nucleotídicas e de como essa molécula está disposta na célula. Em nós, por exemplo, o DNA está arranjado em grupos menores, repletos de proteínas, principalmente histona, conhecidos como cromossomos. Mas em certas bactérias, como a Escherichia coli, esta molécula encontra-se arranjada em um formato circular.

      Pois é a união desses dois fatos, um mais evidente, o outro bem mais escondido, que são o assunto de meu texto. A interpretação desses dois fatos representa o choque da intuição com a descoberta. Em seu último texto, o Bruno falou sobre o mito do elo perdido. Pois esse mito é fruto de uma idéia errada, rígida demais que tínhamos de “espécies”. Para exemplificar, pense no que certos criacionistas dizem:

      “Porque lagarto é lagarto, gaivota é gaivota e humano é humano. Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota.” (frase minha, ilustrando o que eu realmente leio e escuto de muitos criacionistas)

      Essa frase demonstra claramente a ignorância dessas pessoas no que se refere ao ambiente natural. Na verdade, ela demonstra a ignorância em dois pontos. No primeiro dele, a idéia que uma espécie não tem nada a ver com a outra. A primeira vista, parece ser uma constatação óbvia, mas não é sequer verdadeira. Sabemos diferenciar um lambari de um atum, mas somente um sistemata experiente diferencia certos lambaris um do outro. Imaginamos que as espécies possuem um lugar fixo, separadas uma das outras, só que essa idéia desmorona quando paramos para analisar cada espécie dentro de um mesmo grupo. Esse equívoco, essa falta de conhecimento sobre o que estão falando, também permite que os mesmos criacionistas soltem frases semelhantes como: “Eu reconheço a microevolução, mas acho a macroevolução um absurdo”. A crença é a de que existe uma diferença qualitativa entre as duas, sendo a “microevolução” a variação genética dentro de uma espécie e a “macroevolução” a especiação propriamente dita. No texto do Bruno ele mostra um caso de “espécies em anel”, que seria o das gaivotas do ártico. Tem ainda outro, tão didático quanto, que seria o das salamandras californianas Ensatina (imagem). Esses exemplos demonstram cabalmente que essa distinção entre “micro” e “macroevolução” só existe na cabeça de alguns desinformados.

      O outro equívoco criacionista não é menos grosseiro. “Você não vê um lagarto evoluindo para uma gaivota”. E não vê mesmo. Até porque, isso supostamente não deveria ocorrer. Peguemos uma única espécie de lagarto e uma de gaivota, digamos, uma iguana verde (Iguana iguana) e a gaivota prateada que já estamos familiarizados (Larus argentatus). Pois bem, a primeira vista podemos dizer que elas são muito diferentes. Mas essas diferenças não se comparam às semelhanças, ainda mais patente aos olhos entre essas duas espécies. Ambos possuem pulmões, um par de olhos, fêmur, crânio diápsido, fígados e cérebro, por exemplo. Na realidade, eu poderia usar páginas e mais páginas para ilustrar as semelhanças entre os dois, seja ela de natureza morfológica, metabólica ou mesmo comportamental. Não precisaria de tantas páginas assim para falar das diferenças, que seriam relativamente escassas. Acontece que essas duas espécies são exemplares atuais de uma história muito mais antiga. A gaivota prateada e a iguana verde representam, cada uma, populações de indivíduos muito assemelhados entre si, localizados em clados separados. Esses clados, também conhecidos como ramos, lembram o gráfico de um pedigree, só que em escala muito maior. Um clado pode representar um agrupamento a nível de gênero, como Larus, por exemplo, no qual estariam inseridas a maioria das gaivotas. Mas também pode representar uma classe, como a das aves. Assim como existe um clado que agrupa a gaivota e todas as suas parentes aves com os lagartos e cobras, conhecido como Sauropsida, hoje dividido entre os Lepidosauria (lagartos, cobras e tuataras) e os Archosauria (crocodilos, aves e os extintos dinossauros).

      Acontece que o conceito de espécie é nebuloso. Seria um arranjo de indivíduos semelhantes e nada mais do que isso. Caso nenhuma espécie tivesse se extinguido, seria inviável agrupar os seres vivos em “espécies”. Durante milênios tratamos esses indivíduos como representantes de grupos fixos e bem caracterizados, sem relação histórica um com o outro. Hoje temos o DNA, presente em quase tudo o que entendemos por vida, todos com uma estrutura bem definida. Sabemos que as espécies não são muito mais do que nuances entre o genoma de uma população e de outra. O quadro inverte, o que antes era a obviedade da diferença, hoje é a obviedade da origem comum.

      Um cérebro complexo e adaptável significa uma vantagem evolutiva incrível no quesito “intelecto”. Mas apesar de nossa espécie – Homo Sapiens – possuir óbvia vantagem intelectual, o mesmo não acontece quando olhamos pelo lado da “força bruta”, por exemplo. Portanto compreenda que, quando me refiro à espécie humana, trato como “superior” apenas sua capacidade intelectual, já que somos inferiores a outros seres em diversos outros aspectos.

      Surge com esse “dom”, porém, a capacidade de imaginar, criar e reformar. Adaptamo-nos a quase todo ambiente porque adaptamos o ambiente a nós. Entre adaptações, criações e repaginações, surgem teorias e pseudo-teorias, mas não é especificamente sobre isso que falaremos.

      Conhecemos (suponho) algumas teorias científicas, mas estas não são suficientes para explicar a origem de tudo; e conhecemos as “teorias” teístas, que sequer são teorias, mas dizem poder explicar essas origens. A discussão se torna infrutífera quando se chega no ponto alto do debate, que é quando se pergunta – O que criou o universo? – e “responde-se” – O que criou o criador?.

      Nessas horas é como “enfiar o ovo no fiofó da galinha e a galinha no ovo pelo fiofó” (e assim sucessivamente). Vêm as teorias e as teologias, mas ninguém se convence, nem para o lado do ovo, nem para o da galinha. Percebeu o que sobra?

      Tudo o que defendemos faz parte do nosso histórico de vida, nossas experiências e, se ainda acha que algo em você ou em mim é inato, não conseguirá passar dos movimentos básicos, como a habilidade de sugar, perceptível nos bebês.

      Há fatores definidores de nossas personalidades: a rigidez da criação, o ambiente familiar e social, a forma como somos tratados pelo meio social, cor, religião da família, deficiência, fatores genéticos e outros. Ou seja, genética e ambiente, sendo que um influencia no outro, porém o ambiente define a cultura, as normas e o comportamento, enquanto a genética define como será a reação a respeito disso tudo, sendo muitas vezes reprimida e substituída por outras ganas (desejos).

      Buscamos sempre a satisfação de nossos desejos, baseados no que o meio social valoriza. Desejos reprimidos geram desejos substituídos e estes substitutos são valores sociais aceitáveis e recompensados. Quando recompensados, seja de forma afetiva, financeira ou aumento da popularidade (essas não são as únicas), tem-se assim um reforço em relação a esse tipo de atitude, o que tende a torná-la mais frequente. A capacidade de criar e reformar torna essa atitude cada vez mais complexa, pois o “constante” começa a passar despercebido aos olhos humanos; isso a ponto de tornar-se algo tão complexo e necessitado de atenção que começa a transformar-se no que se quer “ouvir”, não no que se realmente é.

      O próprio pensamento a respeito do universo é o resultado de uma infinidade de processos pelos quais passamos e, ainda assim, desconhecemos. Sendo assim, talvez seja possível introduzir ideias teístas na ciência, excluindo-se a divindade, assim como é possível inserir ideias psicanalíticas no behaviorismo, excluindo-se o inconsciente. Mas pode ser que o resultado seja o “algo” que estava entre o ovo e a galinha.

      Não se preocupe em distinguir onde está, neste texto, o comportamentalismo e onde está a teoria psicanalista, pois estão, de certa forma, fundidos (para desespero do bom entendedor). Lembre-se do caminho que estamos tomando: o caminho do meio, um equilíbrio utópico e desconexo, seja abordado através de teorias, religiões ou atitudes. Mas, afinal, qual o limite?

       O principal ponto fraco da Teoria da Evolução, segundo os criacionistas, é o fato de nunca ter sido encontrado o Elo Perdido. Evidentemente os criacionistas estão corretos: nenhum elo perdido foi encontrado. O que falta então para toda comunidade cética se curvar aos argumentos criacionistas?

       Para começar, faltaria definirmos o que exatamente um criacionista espera por um elo perdido. Uma mistura exata de homem e chimpanzé? Uma mãe chimpanzé segurando seu filho humano? Talvez um criacionista mais bem preparado diria: um fóssil que represente exatamente o momento em que houve a separação da espécie humana e dos chimpanzés.

       Até pouco tempo atrás se definia espécie como um grupo de indivíduos capazes de reproduzir entre si gerando descendentes férteis. Ou seja, duas espécies diferentes não poderiam ser capazes de cruzar entre si. O que levaria o criacionista a concluir que, no momento em que surgiu o primeiro homem, ele não poderia encontrar nenhuma parceira, afinal, só haveria “chimpanzeias”, fato que o levaria a extinção.

       O primeiro ponto importante a ser considerado é que a especiação não ocorre em apenas uma geração e com um único indivíduo. A especiação é um evento que envolve grandes populações, em espaços geográficos extensos e em milhares de gerações. Uma descoberta relativamente recente que nos ajuda a compreender a complexidade deste evento são as espécies em anel.

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      As duas simpáticas gaivotas acima apresentam diferenças bastante claras. Além disso, elas não cruzam entre si, o que seria suficiente para as classificarmos como duas espécies distintas. Mais curioso, porém, é o fato de que a gaivota prateada (frente) pode cruzar com gaivotas do continente americano, que por sua vez são capazes de cruzar com outras gaivotas, que num ciclo de cruzamentos que dá a volta no pólo norte chega novamente ao norte da Europa com uma espécie capaz de cruzar com a gaivota de asa escura (atrás). Ou seja, as duas espécies distintas de gaivotas apresentam algo como um gradiente interespécies.

       Entre humanos e chimpanzés ocorre algo bastante parecido, porém com uma pequena diferença: as espécies intermediárias estão mortas. Não é necessário apelar para o vasto registro fóssil para evidenciar essa transição; basta observarmos as inúmeras evidências genéticas que já a comprovaria sem a necessidade de qualquer fóssil.

       Uma segunda corrente de argumentos criacionistas é a que afirma que o registro fóssil é incompleto e, portanto, não pode ser considerado como prova da transição.

       Para discutirmos esse argumento, contaremos com a ajuda do Rei Pelé em nosso próximo artigo.

      II

      O filme A Vida de Brian narra a estória de um homem comum, que teria vivido cerca de 2.000 anos atrás em algum lugar no oriente médio, e vez por outra era tido por um messias e seguido por centenas e centenas de pessoas, ávidas por ouvir palavras de sabedoria. Em uma das cenas, ele tenta usar o próprio prestígio, conseguido por puro acidente, para tentar desfazer a confusão: “vocês devem pensar por si mesmos, não sigam ninguém”, aconselha à multidão de seguidores, que vibra com o conselho mas não o assimila. O filme é uma comédia, cheia de personagens caricatos e escrachados, a multidão é um deles.

      Século XXI, em algum lugar da América do Sul. Desta vez uma cena real: uma dona de casa vê uma mancha no vidro da janela e tenta removê-la com álcool. A mancha não sai. Mas, com ajuda da cunhada, por pareidolia, reconhece a imagem popularmente atribuída à “Nossa Senhora” católica. O fenômeno logo é conhecido também pelo marido, vizinhos, e se espalha até virar notícia em todo o Brasil. Nos dias seguintes, uma multidão se aglomera em frente à janela manchada, ávida pela graça de ver também a santa e com esperança de que aquilo terá algum efeito positivo em suas vidas.

      Não farei considerações a respeito de a mancha ser apenas uma mancha ou a manifestação de uma semi-divindade, ou sobre a possibilidade de ter algum efeito prático na vida de quem pôde presenciar o fenômeno. Tendo em vista que eu sou ateu, elas são facilmente dedutíveis. O que pretendo evidenciar nesse episódio é a facilidade com que o conhecimento do fenômeno se propagou e provocou comoção em centenas de pessoas.

      A esmagadora maioria da população brasileira tem uma vida nada tranquila. A educação e o sistema de saúde são ainda um tanto precários, altos níveis de violência assustam boa parte das grandes cidades, e o salário médio é bastante baixo. Apesar de ser um povo tido por alegre, não se nega que enfrenta muitas dificuldades e que a alegria vem de uma boa louvável capacidade de adaptação e improviso, e um dos apoios em que as pessoas costumam usar para alívio de uma realidade dura, aqui como em vários lugares do mundo, é a religião. Numa famosa citação, Karl Marx afirmava: “A miséria religiosa é ao mesmo tempo expressão de miséria real e protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o alento de uma situação desalentada. É o ópio do povo.”[1]

      De fato o brasileiro é, também, um povo bastante religioso. O catolicismo veio na bagagem da dominação portuguesa e predominou na mente da quase totalidade da população até o século passado, quando só passou a perder terreno significativo para outras vertentes do cristianismo que se mostraram igualmente ou mais eficientes em tocar a disposição à fé que sempre fez parte e sempre foi valorizada na nossa cultura. De fato, no imaginário popular, ter fé está associado a ser uma pessoa com boas atitudes ou, no mínimo, boas intenções, enquanto a falta de fé não raro é vista como uma desilusão com a vida, tristeza, sinal de más intenções ou uma deficiência, como a ausência de algo essencial para a vida.

      No nosso país, o misticismo é tido como normal e, culturalmente, não costuma ser questionado. Por isso, o fenômeno da aparição de uma mancha assemelhada a uma santa na janela foi relatado pela imprensa ora com entusiasmo – perseguindo a audiência de uma população religiosa – ou ora como um fenômeno pitoresco mas absolutamente normal. Na reportagem referenciada no segundo parágrafo, o questionamento sobre o fenômeno chegou apenas a se seria uma das aparições milagrosas da santa – tomando por premissa que, senão essa, outras ocorreram ou ocorrem. É por isso que a pergunta costuma ser feita na forma invertida: “por que você não acredita em Deus?” em vez de “por que você acredita?”.

      Referências

      [1] MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843).

      Um dos argumentos a favor da inexistência de um Jesus histórico[1], mesmo sem os poderes sobrenaturais, é a falta de escritos do filho de Deus. Em análises linguísticas, podemos perceber que, sempre que há uma referência com discurso direto do “cordeiro de Deus” (João 1:29), ele invariavelmente fala sobre a vida na terra com frases humanistas do calibre de “Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (João 13:34) ou “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mateus 5-39). Todas elas podem ser traçadas a outras personagens mais antigas, como Buda ou Confúcio. Para os que buscam essa visão do Novo Testamento como a narrativa de um homem comum, é de costume atribuir à fantasia dos escritores os milagres mais absurdos, como a ressurreição dos mortos; os outros, com muita boa vontade, são atribuídos a bloqueios psicológicos dos enfermos.

      A falta de textos do próprio Jesus torna difícil a sua definição, tendo em vista todas as contradições entre os Evangelhos[2], sendo o seu caso mais famoso o da genealogia do Redentor (Lucas 3:23-28 e Mateus 1:1-16). Sob essa análise, a pluralidade de fontes autoexcludentes e assaz imaginárias colocam Jesus em pé de igualdade com Héracles e outros semideuses gregos, os quais não sabemos dizer se realmente existiram em forma humana ou se foram simplesmente mitos criados e repassados culturalmente.

      Há uma alegação comum entre cristãos de que Sócrates também não escreveu nada e que, por isso, não se poderia provar a sua existência. A princípio, a analogia faz sentido, caso seja tomada somente neste quesito. Contudo, outros aspectos comparáveis das duas personagens devem ser considerados: Sócrates aparece principalmente em uma fonte, a saber, Platão, além de umas poucas referências de autores posteriores; sua principal frase de efeito fora “Só sei que nada sei” (ἓν οἶδα ὅτι οὐδὲν οἶδα)[3], proferida durante o seu suposto julgamento.

      Sem afirmar a veracidade histórica de Sócrates, podemos seguir um outro caminho mais interessante, quer seja, o de analisar mais profundamente a analogia e sua validade. Entendamos o seguinte:

      1) Mesmo que Sócrates tenha sido uma figura inventada por Platão, seus ensinamentos e suas ações eram de pessoa comum, bem encaixada na camada da sociedade que supostamente habitara; Jesus era muito sábio e chamaria a atenção dos pescadores analfabetos e dos pobres que lhe escutavam os sermões;

      2) Todo o legado de Sócrates se restringe ao campo das ideias, na forma de conceitualização a partir da literatura vigente; tudo o que se espera de Jesus são milagres para esta vida e passe garantido para a próxima;

      3) Salvas as devidas correções sociais e tecnológicas, hoje em dia é possível reproduzir e levar adiante todas as ideias de Sócrates; por conseguinte, mesmo que não tenha existido, suas ideias foram concebidas por outro ser-humano com as mesmas limitações; Jesus, pelo contrário, faz de seus feitos algo intransponível para qualquer um de seus “irmãos” de carne e osso (por mais que pastores neopentecostais afirmem o contrário). E, convenhamos, com todas as explicações convergindo para o fato de que ele era a vontade de Deus na Terra, torna-se bastante plausível a ideia de que ele não existiu nem seus feitos realmente foram consumados em época alguma;

      Como bem sabemos, sem as devidas evidências, quase nada pode ser provado empiricamente. Assim, a discussão central deixa o âmbito da indagação “realmente existiram?” e dá muitos passos adiante com o questionamento “poderiam realmente existir?”. A analogia inicial só diz respeito à primeira pergunta e, dentro desse limite, é válida na comparação. A segunda pergunta, no entanto, destrói qualquer tipo de semelhança acidental (συμβεβεκός) entre os dois, encerrando mais uma tentativa sofrível de apologética cristã.

      Notas:

      [1] LA SAGESSE. Jesus Cristo Nunca Existiu. Disponível em <http://ateus.net/artigos/historia/jesus_cristo_nunca_existiu.php>. Acesso em 27 mar. 2010.

      [2] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/artigos/escrituras/biblia/>. Acesso em 28 fev. 2010.

      [3] PLATÃO (ΠΛΆΤΩΝ). Apologia de Sócrates (Απολογία Σωκράτους). Texto original em grego disponível em <http://el.wikisource.org/wiki/Απολογία_Σωκράτους>. Acesso em 28 fev. 2010.

      De um erro clássico I

      Em geral, pensamos na religião como a verdadeira guardiã da moralidade humana, sem a qual a sociedade se desintegraria. Acredita-se que, sem Deus, tudo é permitido. Por que pensamos dessa forma? Porque é mais fácil decorar chavões que pensar no assunto. Assim, tentemos entender por que a religião, em termos morais, é algo virtualmente inútil, possuindo, na prática, apenas um valor marginal. De início, percebamos que os valores morais defendidos por esta ou aquela religião fazem sentido. O fato, entretanto, é que, ao levá-los adiante, nunca conseguimos alcançar os resultados que prometem. Por quê? Porque partem de pressupostos falsos. Por idealizar o homem, os princípios morais que a religião elabora são algo impossível de ser posto em prática, pois dizem respeito a algo que não existe. Não há como esperar que valores feitos para espíritos funcionem para primatas. O que sinceramente poderíamos esperar da moralidade um macaco que se acredita dotado de uma alma eterna a ser julgada por um superchimpanzé imortal que mora na estratosfera?

      Ademais, na elaboração de tais princípios de sublime irrelevância, ela não apenas erra o alvo sistematicamente, como também nunca demonstra uma abordagem positiva. A religião não busca solucionar os problemas, mas evitar que surjam por meio da negação de nossa natureza. Busca nos acovardar perante o mundo e perante nós mesmos, desviando nossos olhares do presente e encorajando uma miopia passiva que nos será recompensada no além. Para ilustrar, vejamos a questão do seguinte modo: a função da moral é administrar os problemas sociais decorrentes do fato de sermos humanos. Qual é a solução religiosa? Desumanizar o ser humano, isto é, negá-lo, castrá-lo, torná-lo doente, i.e. espiritualizá-lo. Seu valor, portanto, é meramente negativo. Seus princípios não são respeitados por seres úteis ou racionais, mas por terem respaldo do criador dos céus e da terra, proporcionando algum sentimento de segurança àqueles que os seguem. Essa é a única utilidade da religião no âmbito moral. Trata-se de uma contribuição indireta, de um pretexto para agirmos moralmente, ainda assim, não como homens, mas como serviçais de fantasmas.

      Analisemos um pouco mais a questão. Sabemos que uma parcela considerável da população mundial é religiosa e acredita em divindades moralistas. Não parece estranho, entretanto, que vejamos como extremistas os que efetivamente seguem os princípios de sua religião? Na prática, os que governam suas vidas em função de tais princípios são considerados fanáticos alienados, doentes mentais. Porém, se a religião fosse algo realmente verdadeiro, não é exatamente isso o que deveríamos fazer? Mas não fazemos. Religiosos ou não, somos humanos, e nossa intuição prática nos diz que há algo de muito errado nos valores morais religiosos. Muito poucos, na vida real, levam tais princípios a sério. Como isso se explica? Vejamos: por que julgamos inadmissível que se coloque Deus acima da lei? Exatamente porque não tratamos Deus como algo real — não ao pé da letra —, e sim como algo que se escolhe, semelhante a um time de futebol ou a um partido político, ou seja, como um assunto pessoal e privado. Então, no fim das contas, tratamos Deus como aquilo que é: uma crença. Pois bem, isso significa que, em regra, não se acredita literalmente em Deus, acredita-se na crença em Deus. Afirmam acreditar em Deus, mas agem como se ele não existisse. Usemos o mito da criação para exemplificá-lo. Alguém realmente acredita que o mundo foi criado em seis dias? Sabemos que se trata de uma mentira óbvia; não apenas algo improvável, mas absolutamente ridículo, tanto que nem mesmo os fiéis da inerrância bíblica conseguem acreditar nisso literalmente, vendo-se forçados a elaborar sofisticadas interpretações simbólicas para justificar essa paspalhice que algum lunático tirou da cartola. Então por que respeitamos tais crenças? Por questão de boas maneiras. Pelo mesmo motivo que não dizemos às pessoas obesas que são obesas, aos paraplégicos que são paraplégicos, e assim por diante. Sabemos da verdade, mas não a dizemos simplesmente para não magoá-las, para não ferir seus sentimentos, pois viver já é duro o bastante, e não precisamos jogar à cara dos indivíduos suas limitações, defeitos e inépcias simplesmente porque isso é verdade. Não julgamos que estar certo é uma justificativa boa o suficiente para ser rude e grosseiro.

      Como qualquer dependente, aquele que precisa de crenças religiosas estapafúrdias para conseguir ser moral provavelmente tem problemas em lidar com a realidade. Não zombamos de suas crenças não porque elas nos inspirem qualquer respeito, mas simplesmente para poupá-los, para não tornar sua vida ainda mais difícil. Basta que imaginemos como seria nossa vida se dependêssemos de mentiras para viver em paz, se tivéssemos de defendê-las como se fossem verdades, mesmo sabendo perfeitamente bem que são mentiras, e isso nos dará uma ideia de como acreditar em besteiras deve ser difícil. Por exemplo, caso precisássemos acreditar que no céu vive um holograma suicida três-em-um; caso precisássemos acreditar que nossos entes queridos são vertebrados imortais. Como continuar a acreditar quando a realidade toda demonstra que estamos completamente errados? Nossa única alternativa viável seria não pensar muito no assunto — e é exatamente o que se faz. Isso porque, para qualquer indivíduo educado, deve ser extremamente perturbador ter de acreditar nessas asneiras. Então supomos que, se acredita em algo tão desvairado, deve ter bons motivos para isso — e como esses motivos são invariavelmente vergonhosos, temos a boa educação de deixá-los em paz com suas demências. O fato é que ninguém precisa de Deus porque ele não existe, mas da crença em Deus muitos precisam, e esse é o único motivo pelo qual respeitamos tais crenças. Claro que, pessoalmente, não temos dúvida alguma de que se trata de uma idiotice sem tamanho.

      Por Gustavo dos Anjos

      Estava tranquilo no meu quarto jogando uma desafiadora partida de tênis no meu recém comprado videogame. Recebi uma cruzada de esquerda que me deixou em posição muito desfavorável na partida. Utilizando os novos recursos que havia aprendido no complexo controlador do jogo, me recuperei do revés a ponto de me deixar próximo de um golpe vencedor. Pensei, parei, preparei e quando percebi, um súbito grito de desespero me tirou completamente a atenção. Perdi o jogo. Minha frequência cardíaca se alterou instantaneamente. Os gritos continuavam e não havia sinal de que iriam parar. Corri para ver qual deveria ser o motivo tão aterrorizante para justificar tamanha histeria. Não era nada de mais. Algo extremamente corriqueiro. Uma barata. Quando menos percebi, já tinha despejado uma quantidade imensa de inseticida nela. Nesse instante, uma vida havia se extinguido. E a culpa era minha.

      Por que temos tanta facilidade em matar determinados animais em comparação a outros? Parecemos ter um instinto protetor paterno para com os cachorros e um instinto assassino para com os mosquitos. Amamos os pássaros, mas nem tanto os ratos. Pisamos sem hesitar em uma formiga, mas somos processados criminalmente caso o alvo seja um elefante. Por que existe essa evidente diferenciação de tratamento? Certas indiferenças são chocantes se pararmos um minuto para pensar. Será que a vida de uma borboleta é mais valiosa que a de uma sequoia? A resposta não é simples e estamos longe de encontrar um explicação satisfatória. Esse breve texto tem o objetivo de apenas levantar alguns pontos para reflexão sobre a questão, jamais visa a esgotar os complexos e interdisciplinares argumentos que emergem desse debate.

      Inegavelmente, uma vertente de possíveis explicações para essa constatação tem fundamentação religiosa. As doutrinas mais representativas gostam de defender a tese de que o homem é um ser superior aos demais seres vivos. Nossa prepotência é tão assustadora que não apenas nos consideramos melhores que os demais seres como somos os únicos feitos à imagem e semelhança do próprio deus. Que, aliás, é nosso pai. Nessa ótica, toda a diversidade de vida se faz presente para única e exclusivamente servir como suporte a nossa existência. Os adeptos a esse modo de pensar são, desde crianças, treinados para subjugar todos os demais seres vivos em sua volta. Não é muito difícil inferir que, quando adultos, essas mesmas pessoas transformem esses ensinamentos em algum tipo de agressividade contra animais.

      Sem medo de errar, é possível afirmar que o criacionismo é uma poderosa forma de perpetuar essa relação desequilibrada entre humanos e demais seres. Negar a evolução é negar a inexorável conexão que todos os seres vivos possuem entre si. É como quebrar o elo de parentesco, desvinculando por completo os seres humanos dos demais seres. Uma vez isolados, podemos, com mais segurança, dizer que somos, de fato, diferentes, melhores, superiores. Descendemos de deus, nunca de um grotesco ser unicelular. Sacrifícios são permitidos em nome da purificação do ser superior. Mas não vamos jogar toda a culpa nas religiões. Ao menos, nessa questão específica, outros fatores também são importantes e devem ser considerados.

      Evolução. Talvez exista alguma influência genética evolutiva que nos leva a ter propensão a desenvolver comportamentos mais agressivos com determinados seres vivos. Como, por exemplo, evitar o contato com animais que transmitem doenças, pode ser uma vantagem competitiva na corrida pela sobrevivência. Manter um maior grau de relacionamento com certos animais pode ser benéfico para a formação de um sociedade, divisão do trabalho. Entretanto, me faltam mais elementos para desenvolver essa tese. De qualquer forma, vale a pena mencioná-la.

      Beleza é um fator unânime. Consideramos determinados padrões físicos como belos e não gostamos de matar a beleza, definitivamente. Atuando exatamente como efeito contrário, o fator repulsão também influencia nosso relacionamento com outros seres. Insetos em geral não são companhia agradáveis para a maioria das pessoas.

      Cultura ou aprendizado. Certamente um ponto fundamental nessa reflexão. Boa parte de nossa interação com outros seres vivos parece se alterar de acordo com características diversas relacionadas ao que se genericamente chama de “cultura”. E nesse aspecto, as variáveis a se considerar podem ser muitas: local de nascimento, religião, clima, família, riqueza, sexo, período histórico, filosofias, como o vegetarianismo, entre outros. Essa constatação pode ser facilmente comprovada quando confrontamos os costumes dos povos do Oriente com os do Ocidente. Comer carne de cavalo, cérebro de macaco, escorpião e grilos é algo que causa embrulho no estômago até dos mais resistentes. Apenas mencionar no Ocidente que alguém vai matar um cachorro para cozinhar sua carne no jantar é motivo suficiente para provocar manifestações enfurecidas em praça pública. Cozinhar uma vaca, nem tanto.

      A semelhança com nossas afeições físicas também exerce relevante influência. Os seres com formas “humanoides” (não gosto desse termo, é evolutivamente incorreto, mas que se encaixa bem para o propósito dessa reflexão) são mais suscetíveis a nossa adoração. Animais com rosto, membros e tronco que se assemelham com as proporções humanas são usualmente os preferidos. Ademais, um sistema nervoso desenvolvido é motivo decisivo no momento de decidirmos qual lado defender. Na média (eu disse na média), ninguém gosta de ver um animais sofrer. Ouvir gemidos de dor então, nem se fala. Detestamos.

      Nem pretendo entrar no debate acerca de nossa relação com os vegetais. Porque aí as coisas vão se complicar ainda mais. Só como aperitivo, parece existir uma dificuldade enorme para que as pessoas entendam que os vegetais também são seres vivos. O abismo entre seres humanos e vegetais se mostra intransponível para a compreensão do ser humano médio. Mas esse assunto merece uma futura reflexão específica.

      O que podemos concluir de toda essa breve exposição? Nada de definitivo. De qualquer forma, esses são apenas alguns elementos que podem nos ajudar a entender o porquê de nos comportamos de forma diferenciada perante os demais seres vivos. Não podemos ficar indiferentes ao fato que, inconscientemente ou conscientemente, matamos uma formiga sem o menor remorso enquanto que julgamos a vida de elefante mais valiosa. Eu, ao menos, não consigo.

      (artigo recebido em 22 de dezembro de 2009)

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