IV

No meu quarto e último texto sobre a relação deus/ciência, falarei sobre uma ideia interessante. A ideia dos magistérios não-interferentes, defendida pelo falecido Stephen Jay Gould, também conhecida como NOMA (do inglês Non-Overlapping MAgisteria). Uma ideia que, a meu ver, coloca ambas, ciência e religião, em seus respectivos lugares. Mas já adianto que é uma ideia polêmica, mesmo entre os ateus. Aproveito essa polêmica aqui para salientar que opiniões expressadas por cada um de nós, autores do “Um deus em minha Garagem”, são pessoais e não necessariamente refletem as opiniões de todos os ateus.

Mas no que consiste essa ideia? Bom, antes acho que cabe esclarecer o que seriam “magistérios”. “Magistério” foi um termo que S. J. Gould buscou de um conceito da igreja católica, o magisterium, que seria a “autoridade do ensinamento católico” [1]. Ao defender o NOMA, Gould usa o conceito de “magistério” como um suporte apropriado que permite ensinar e discutir questões pertinentes ao seu próprio escopo. Ou seja, que a ciência se limite a explicar fenômenos naturais sem se intrometer em questões morais, e que a religião sirva de guia para a moralidade sem pretender explicar o mundo natural. Cada qual na sua área. Perceba, no entanto, que isso não significa uma separação total entre ciência e religião, mas apenas uma divisão de tarefas.

Considerando as necessidades do intelecto humano, a ideia dos magistérios não-interferentes parece promissora. Queremos entender o mundo assim como ter uma boa orientação moral. Quanto à orientação moral, a ciência não tem muito a oferecer. Mas – e é aí que eu começo a achar a ideia do NOMA frágil demais – a religião nos oferece menos ainda. Seja lá de onde vem o nosso senso de moral, certamente não é da religião.

Eu concordo sim, que cada uma deve ficar em seu devido lugar. Essa ideia fica mais clara quando pensamos no absurdo que é a tentativa de se incluir criacionismo no ensino das escolas. Pois isso é justamente um magistério interferindo noutro. Outro exemplo do magistério da religião metendo o bedelho onde não é chamado é a polêmica que surgiu sobre pesquisa com células embrionárias. Só que esse exemplo é capcioso, pelo menos para o NOMA que Gould defendia. Ao mesmo tempo em que essa polêmica demonstrou claramente o erro que é misturar ciência com religião, ela demonstrou que isso era inevitável. As ideias de moral obtidas através da religião só serviram para atrapalhar o progresso do saber e do bem-estar. De onde essas ideias de “certo ou errado” foram tiradas é um assunto que não pode ser ignorado. Como e por que certos religiosos concluíram que uma “alma” entra em cena no momento da fecundação é um mistério, e é um absurdo essa ideia ser admitida alegando que devemos respeitar o posicionamento moral-espiritual de seus defensores.

Óbvio que o oposto também acontece. Como o que conhecemos por “falácia naturalista”. Um exemplo simples dessa falácia seria: “O chimpanzé macho bate na fêmea, logo, eu tenho o direito de bater em mulheres, visto que somos todos primatas”. É um caso típico de non sequitur. Mas tenho dificuldades em dizer se é o magistério da ciência que está afetando o da religiosidade ou se estamos falando de mero cientificismo. Alguns poderiam dizer que o exemplo mais dramático de quando um povo depositou sua base moral na ciência (e errou) é o nazismo. Na verdade, estaríamos falando mais especificamente da eugenia, um princípio calcado na genética, segundo o qual devemos eliminar os indivíduos mais fracos dentro de uma população para favorecê-la como um todo. A questão é: que ciência é essa? Se a humanidade se desenvolveu e floresceu principalmente devido à espetacular habilidade social encontrada nos humanos, por que seria cientificamente plausível jogar toda essa habilidade fora para nos auto-controlarmos como cães de corrida? Não é de ciência que estamos falando aqui, mas sim de algo totalmente deturpado, tendencioso e, em última análise, incoerente.

Agora, se eu concordo ou discordo com o NOMA, minha resposta é a seguinte: em parte. Vejo que a ciência fica muito melhor quando se limita a investigar os mecanismos da natureza. O meu problema reside no papel da religião. Ao passo que a ciência fez um trabalho excepcional dentro de seu escopo, mesmo considerando seus deslizes, a religião deixou e ainda deixa muito a desejar.

Deus e a Ciência:

1. A mitificação da ciência salvadora

2. No quê os cientistas acreditam

3. A crença dos grandes gênios

4. Sobre os magistérios não-interferentes

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3 Comments

    • BossGrave
    • Posted 12 de abril de 2010 at 20:27
    • Permalink

    Dudu, está parte final do seu texto (Vejo que a ciência fica muito melhor quando se limita a investigar os mecanismos da natureza.) seria uma critica a cientistas como Dawkins? Não vejo mau nenhum em naturalistas discordarem abertamente das religiões, as idéias “cima do muro” tipo as do Marcelo Gleiser é que dão margens para a cúpula religiosa achar que merecem algum respeito.

    • carue
    • Posted 18 de abril de 2010 at 23:28
    • Permalink

    No final do seu texto.
    (Agora, se eu concordo ou discordo com o NOMA, minha resposta é a seguinte: em parte. Vejo que a ciência fica muito melhor quando se limita a investigar os mecanismos da natureza.)
    Os mecanismos da natureza seriam os físicos como a evolução biológica já a questão moral e outras antropológicas e culturais a ciência teria dificuldade de debater?( foi +- esse o seu argumento?)
    Também acredito que seja uma critica a Dawkins no que diz respeito à relação que ele fez da evolução biológica com a evolução das idéias através da abordagem da memetica.
    Essa proposta soa como uma tentativa de manter uma lacuna para a religião ser justificável algo como: Não mexemos com o mundo natural e vcs não mexem no mundo espiritual (no sentido mais amplo da palavra, incluindo a soma das faculdades intelectuais como a moral).

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Eduardo Bitencourt
    • Posted 19 de abril de 2010 at 0:09
    • Permalink

    Interessantes essas colocações. Tanto do Boss quanto do Carue.

    Quem me conhece, sabe que eu defendo a biologia como caráter onipresente em nosso cotidiano, em nosso comportamento.

    Mas aí vem a conclusão. Se a biologia é uma fonte tão confiável para a compreensão de nosso comportamento, não seria interessante basearmos nossa moral nas descobertas científicas?

    Existe um problema. Confiar nas descobertas científicas é dar brecha ao cientificismo. A nossa moral precisa estar apoiada sobre algo sólido e estável. A ciência é sólida, porém muito dinâmica.

    Nós temos um senso de certo ou errado que precede o nosso conhecimento científico de suas causas.
    Para exemplificar. Suponhamos que publicaram um artigo mostrando que as crianças mal criadas devem ser mortas para o bem da população. Seus argumentos são muito fortes e lógicos, porém, ainda assim você se sente terrivelmente mal só de pensar em matar uma criança.
    Em qual você deve se fiar, na sua intuição ou no artigo?

    Claro que eu pintei uma versão caricata de “ciência”. Há quem alegue que seria um absurdo qualquer publicação concluir que devemos matar crianças. Mas o que eu quero dizer é que devemos tratar a ciência com um ceticismo elevado e devemos seguir o que entendemos por certo ou errado de maneira mais intuitiva, não devendo ser abordado com a mesma friza racionalista com que tratamos a ciência.

    O perigo, na verdade, não está em seguir a ciência, mas sim acabar por confudir esta com pseudociência. O exemplo mais claro que me vem a mente é, novamente, o nazismo e a eugenia.

    Vejo a ciência como um método que busca entender a realidade de maneira honesta. Só que no caminho podemos esbarrar com falsas “verdades comprovadas”. Se algo vai muito intensamente contra a sua intuição (no caso da moral, somente), então é interessante você rever os seus dados e se fiar na intuição.

    É um assunto espinhoso, esse da moral. Eu discuto bastante com os meus colegas e costumo ter essa visão pragmática. Tentamos interpretar o nosso comportamento de maneira racional, mas estamos estudando algo no qual nós mesmos somos partes centrais. Isso pode gerar erros terríveis e a cautela nunca é excessiva.


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