Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da   Ordem do Dragão.
Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da Ordem do Dragão.

O ano é 1408. Preocupados com a expansão dos turcos, o papa reúne-se com nobres de toda a Europa para discutir estratégias de contenção do expansionismo islâmico. Dessa congregação e fruto do gênio do rei Segismundo da Hungria, é fundada a Societas Draconistrarum. Composta inicialmente por 21 nobres, a ordem tinha representantes das mais notórias famílias húngaras, com destaque para os Bathory, dos quais fazia parte Elizabeth Bathory, conhecida por banhar-se em sangue de mulheres jovens e belas, na tentativa de restaurar a sua própria beleza e juventude, e a família Bethlen, representada por Gabriel Bethlen, que provocou guerras calcadas em motivos religiosos.

A verdade é que a ordem lutou contra os turcos e caiu nas graças do Vaticano, sendo conferido ao rei Segismundo o título canônico de Sagrado Imperador Romano. Em 1410 Segismundo uniu forças com outra ordem beligerante católica, a Ordem Germânica dos Cavaleiros Teutônicos, ou Ordo domus Sanctæ Mariæ Theutonicorum Hierosolymitanorum, contra o rei Władysław II Jagiełło, que resultou na batalha de Grunwald, considerada por muitos historiadores como uma das maiores batalhas envolvendo Cavaleiros Católicos da Idade Média.

Para nós que crescemos aprendendo sobre a história das inquisições e das cruzadas, o banho de sangue proporcionado pelo expansionismo cristão, especificamente da Igreja Católica Romana, não mais impressiona. Os mesmos senhores que por vários anos estiveram à frente da única fonte de referência aos textos cristãos provocaram inúmeras guerras e matanças, tudo em nome de deus e em nome da fé na doutrina de Saulo de Tarso. Mas hoje pretende-se acreditar que a história do cristianismo nada tem a ver com as instituições modernas, e o passado parece tão distante e nebuloso que ignoramos conscientemente os massacres em nome de uma ignorância confortante.

Ademais, comete falta grave aos olhos dos cordeiros católicos abordar a história de sangue e mentiras que tornou possível a construção deste grandioso e secular instituto religioso, ignorando-se os séculos de matanças e perseguições, de doutrinações e punições, de pederastia e ignorância, de controle e resistência à ciência, provocados por esta grandiosa máquina de fazer dinheiro e gerar ilusões. Custo a acreditar que existam fieis que ainda levem a sério uma instituição predatorial como esta, que alimenta a segregação religiosa e incentiva a ignorância, através de atitudes homofóbicas, e anti-progressistas, com  o exemplos bizarro da proibição moral do uso da camisinha, com direito a palestras no continente africano, infestado pelo vírus da AIDS.

Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.
Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.

Aparentemente a Igreja ainda não se libertou de seus laços históricos, nem tampouco aprendeu com seus erros. Ainda há demonstrações explícitas do seu anti-semitismo latente, enquanto escondem crianças vítimas de abusos sexuais embaixo de suas batinas. Os fantasmas da Ordem do Dragão ainda circulam pelos corredores do vaticano, nos lembrando da sede de sangue que banhou os mármores das suas igrejas históricas.

Afirma-se que o ocidente é cristão por vontade de uma força divina, manifestada por revelações. A verdade é que foi a espada quem assegurou que os reis europeus mantivessem suas coroas e sua principal arma de controle das massas: o cristianismo. Não que estes líderes estivessem livres das garras alienantes desta religião oriunda do deserto. De fato a maioria deles era profundamente religiosa. Nos meus próximos dois textos tratarei de algumas dessas importantes figuras históricas, e tentarei abordar, ainda que de forma simplista, algumas das estratégias e métodos mais grotestos e menos divulgados dentre os utilizados pela cristandade durante a Idade das Trevas.

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      6 Comments

        • Jairo Moura
        • Posted 13 de abril de 2010 at 8:28
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        Crentes deviam pensar nessas passagens históricas antes de usarem o argumentum ad antiquitatem para defender a fé cristã.

        • Rulphus
        • Posted 15 de abril de 2010 at 19:09
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        Sou daqueles que dizem: “Céu meio ensolarado” ou então “copo meio cheio”…enfim, desses tempos de escuridão, pelo menos, podemos apreciar obras de arte em geral (esculturas, pinturas) e especificamente bons livros e interessantíssimos filmes.

        • Red Guy 32
        • Posted 16 de abril de 2010 at 18:31
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        Será que essas guerras sangrentas foram feitas em nome de Deus? Ou a religião foi apenas um bode expiatório para as lutas por dinheiro e poder que bem conhecemos?

        • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/06. O diretório pai possui permissão de escrita?
          Victor Alves
        • Posted 16 de abril de 2010 at 18:44
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        E não é até hoje? Religião sempre foi e sempre será um instrumento de alienação e disputa por poder. É por isso que vejo como vital necessidade a educação das pessoas, para que cada vez mais estas crendices ridículas e que causam tanto prejuízo sejam abandonadas aos poucos, até tornar-se extintas.

        • Posted 27 de abril de 2010 at 6:51
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        Parabéns Vitor, belo Texto…
        Jairo, isso que você disse é excepcional para todos, e, eu procuro dar muita ênfase nessas passagens históricas, na minha opinião o catolicismo não deveria ser considerada uma religião cristã nem fazer parte do que conhecemos hoje como cristianismo, pois é a mais contraditória entre todas, e a mais vil entre todas se formos analisar seus hábitos com o que está disposto no livro que todos os cristãos procuram seguir (Bíblia). Esse e outros inúmeros textos presentes nos livros de história expõe isso de forma tão Clara e especifica para todos. Eu não defendo “religião” pois como mostra o texto acima até hoje só trouxe sangue guerra etc… por isso não sigo nenhuma, sou portador de uma idéia própria um estilo meu de ser apenas alguém sem vínculos com grupos organizações ou sinônimos. Reconhecendo apenas que Deus existe.
        (Deixei um comentário na matéria “Porque você acredita em Deus” feita pelo Sérgio Rodrigues, que ajuda a entender minha posição no meio do cristianismo.)

        • Ivo Bitencourt
        • Posted 20 de maio de 2010 at 10:05
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        Não vou participar, porque a apresentação do blog é em fundo preto e as letras são muito pequenas, mas o tema é interessante.