Por Gustavo dos Anjos

Estava tranquilo no meu quarto jogando uma desafiadora partida de tênis no meu recém comprado videogame. Recebi uma cruzada de esquerda que me deixou em posição muito desfavorável na partida. Utilizando os novos recursos que havia aprendido no complexo controlador do jogo, me recuperei do revés a ponto de me deixar próximo de um golpe vencedor. Pensei, parei, preparei e quando percebi, um súbito grito de desespero me tirou completamente a atenção. Perdi o jogo. Minha frequência cardíaca se alterou instantaneamente. Os gritos continuavam e não havia sinal de que iriam parar. Corri para ver qual deveria ser o motivo tão aterrorizante para justificar tamanha histeria. Não era nada de mais. Algo extremamente corriqueiro. Uma barata. Quando menos percebi, já tinha despejado uma quantidade imensa de inseticida nela. Nesse instante, uma vida havia se extinguido. E a culpa era minha.

Por que temos tanta facilidade em matar determinados animais em comparação a outros? Parecemos ter um instinto protetor paterno para com os cachorros e um instinto assassino para com os mosquitos. Amamos os pássaros, mas nem tanto os ratos. Pisamos sem hesitar em uma formiga, mas somos processados criminalmente caso o alvo seja um elefante. Por que existe essa evidente diferenciação de tratamento? Certas indiferenças são chocantes se pararmos um minuto para pensar. Será que a vida de uma borboleta é mais valiosa que a de uma sequoia? A resposta não é simples e estamos longe de encontrar um explicação satisfatória. Esse breve texto tem o objetivo de apenas levantar alguns pontos para reflexão sobre a questão, jamais visa a esgotar os complexos e interdisciplinares argumentos que emergem desse debate.

Inegavelmente, uma vertente de possíveis explicações para essa constatação tem fundamentação religiosa. As doutrinas mais representativas gostam de defender a tese de que o homem é um ser superior aos demais seres vivos. Nossa prepotência é tão assustadora que não apenas nos consideramos melhores que os demais seres como somos os únicos feitos à imagem e semelhança do próprio deus. Que, aliás, é nosso pai. Nessa ótica, toda a diversidade de vida se faz presente para única e exclusivamente servir como suporte a nossa existência. Os adeptos a esse modo de pensar são, desde crianças, treinados para subjugar todos os demais seres vivos em sua volta. Não é muito difícil inferir que, quando adultos, essas mesmas pessoas transformem esses ensinamentos em algum tipo de agressividade contra animais.

Sem medo de errar, é possível afirmar que o criacionismo é uma poderosa forma de perpetuar essa relação desequilibrada entre humanos e demais seres. Negar a evolução é negar a inexorável conexão que todos os seres vivos possuem entre si. É como quebrar o elo de parentesco, desvinculando por completo os seres humanos dos demais seres. Uma vez isolados, podemos, com mais segurança, dizer que somos, de fato, diferentes, melhores, superiores. Descendemos de deus, nunca de um grotesco ser unicelular. Sacrifícios são permitidos em nome da purificação do ser superior. Mas não vamos jogar toda a culpa nas religiões. Ao menos, nessa questão específica, outros fatores também são importantes e devem ser considerados.

Evolução. Talvez exista alguma influência genética evolutiva que nos leva a ter propensão a desenvolver comportamentos mais agressivos com determinados seres vivos. Como, por exemplo, evitar o contato com animais que transmitem doenças, pode ser uma vantagem competitiva na corrida pela sobrevivência. Manter um maior grau de relacionamento com certos animais pode ser benéfico para a formação de um sociedade, divisão do trabalho. Entretanto, me faltam mais elementos para desenvolver essa tese. De qualquer forma, vale a pena mencioná-la.

Beleza é um fator unânime. Consideramos determinados padrões físicos como belos e não gostamos de matar a beleza, definitivamente. Atuando exatamente como efeito contrário, o fator repulsão também influencia nosso relacionamento com outros seres. Insetos em geral não são companhia agradáveis para a maioria das pessoas.

Cultura ou aprendizado. Certamente um ponto fundamental nessa reflexão. Boa parte de nossa interação com outros seres vivos parece se alterar de acordo com características diversas relacionadas ao que se genericamente chama de “cultura”. E nesse aspecto, as variáveis a se considerar podem ser muitas: local de nascimento, religião, clima, família, riqueza, sexo, período histórico, filosofias, como o vegetarianismo, entre outros. Essa constatação pode ser facilmente comprovada quando confrontamos os costumes dos povos do Oriente com os do Ocidente. Comer carne de cavalo, cérebro de macaco, escorpião e grilos é algo que causa embrulho no estômago até dos mais resistentes. Apenas mencionar no Ocidente que alguém vai matar um cachorro para cozinhar sua carne no jantar é motivo suficiente para provocar manifestações enfurecidas em praça pública. Cozinhar uma vaca, nem tanto.

A semelhança com nossas afeições físicas também exerce relevante influência. Os seres com formas “humanoides” (não gosto desse termo, é evolutivamente incorreto, mas que se encaixa bem para o propósito dessa reflexão) são mais suscetíveis a nossa adoração. Animais com rosto, membros e tronco que se assemelham com as proporções humanas são usualmente os preferidos. Ademais, um sistema nervoso desenvolvido é motivo decisivo no momento de decidirmos qual lado defender. Na média (eu disse na média), ninguém gosta de ver um animais sofrer. Ouvir gemidos de dor então, nem se fala. Detestamos.

Nem pretendo entrar no debate acerca de nossa relação com os vegetais. Porque aí as coisas vão se complicar ainda mais. Só como aperitivo, parece existir uma dificuldade enorme para que as pessoas entendam que os vegetais também são seres vivos. O abismo entre seres humanos e vegetais se mostra intransponível para a compreensão do ser humano médio. Mas esse assunto merece uma futura reflexão específica.

O que podemos concluir de toda essa breve exposição? Nada de definitivo. De qualquer forma, esses são apenas alguns elementos que podem nos ajudar a entender o porquê de nos comportamos de forma diferenciada perante os demais seres vivos. Não podemos ficar indiferentes ao fato que, inconscientemente ou conscientemente, matamos uma formiga sem o menor remorso enquanto que julgamos a vida de elefante mais valiosa. Eu, ao menos, não consigo.

(artigo recebido em 22 de dezembro de 2009)

Nota: para participar como autor ad hoc, envie seu texto para udmg@ateus.net. O material ficará disponível a todos os membros titulares para peer review e estará sujeito a críticas e sugestões antes de ser publicado (em data que seguirá a ordem de recebimento dos materiais). Para maiores informações a respeito, faça aqui o download do ‘Guia de padronização’, em formato PDF.

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6 Comments

    • Rulphus
    • Posted 16 de abril de 2010 at 0:12
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    Ótimo artigo. Humildemente faço duas considerações, sendo uma crítica e outra indicativa. Pois bem, tomo a liberdade de criticar “seu novo video game”, pô…pois rsrsrs, esse joguinho de tênis é meio ultrapassado e muito limitado…rsrsrs. Aproveito também pra indicar a facilidade de “procriação” e “multiplicação” dos insetos e demais seres vivos “chacinados, como motivo importante na decisão terminativa. Se começarmos a matar elefantes com a mesma ênfase dada aos ratos, baratas e congêneres,…os coitados vão ser extintos…rsrsrs.

    Abraço Fraternal.

    • Wallace
    • Posted 16 de abril de 2010 at 13:44
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    Gostei também do texto. É um tema que eu nunca havia explorado nos meus pensamentos co mdetalhes. Suas inferencias, embora não comprovadas de fato, fazem sentido. Gostamos do que se parece conosco, ou bonito para nós, como mamíferos, aos insteos a repugnancia é quase inevitavel pra baratas ,aranhas e etc…

    • Red Guy 32
    • Posted 16 de abril de 2010 at 18:29
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    Texto muito opinativo, mas válido. Só lhe digo uma coisa: se a formiga tivesse a chance de nos esmagar, ela não hesitaria.

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 16 de abril de 2010 at 18:39
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    A idéia, como informo algumas vezes no decorrer do texto, é apenas para fazermos uma reflexão. Não tem valor científico e nem tão pouco foi baseado em pesquisas. E quanto a hipótese de uma formiga esmagar um humano caso fosse maior, não tenho tanta certeza disso. E obrigado pelos comentários.

    • Felipe
    • Posted 20 de abril de 2010 at 18:42
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    Explica isso para um vegetariano, daqueles radicais, que não comem carne nem qquer produto animal, porque “é tirar uma vida” ou “fazer sofrer sem necessidade um animalzinho!”. Qualquer outro reino que nao seja dos animais não pode ser considerado vida? Protozoarios, bacterias, amebas, fungos e principalmente vegetais são menos “vivos” que nos?

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 20 de abril de 2010 at 19:56
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    Felipe, aparentemente, vegetais não têm rosto e não gritam de dor !!!!!