II

O filme A Vida de Brian narra a estória de um homem comum, que teria vivido cerca de 2.000 anos atrás em algum lugar no oriente médio, e vez por outra era tido por um messias e seguido por centenas e centenas de pessoas, ávidas por ouvir palavras de sabedoria. Em uma das cenas, ele tenta usar o próprio prestígio, conseguido por puro acidente, para tentar desfazer a confusão: “vocês devem pensar por si mesmos, não sigam ninguém”, aconselha à multidão de seguidores, que vibra com o conselho mas não o assimila. O filme é uma comédia, cheia de personagens caricatos e escrachados, a multidão é um deles.

Século XXI, em algum lugar da América do Sul. Desta vez uma cena real: uma dona de casa vê uma mancha no vidro da janela e tenta removê-la com álcool. A mancha não sai. Mas, com ajuda da cunhada, por pareidolia, reconhece a imagem popularmente atribuída à “Nossa Senhora” católica. O fenômeno logo é conhecido também pelo marido, vizinhos, e se espalha até virar notícia em todo o Brasil. Nos dias seguintes, uma multidão se aglomera em frente à janela manchada, ávida pela graça de ver também a santa e com esperança de que aquilo terá algum efeito positivo em suas vidas.

Não farei considerações a respeito de a mancha ser apenas uma mancha ou a manifestação de uma semi-divindade, ou sobre a possibilidade de ter algum efeito prático na vida de quem pôde presenciar o fenômeno. Tendo em vista que eu sou ateu, elas são facilmente dedutíveis. O que pretendo evidenciar nesse episódio é a facilidade com que o conhecimento do fenômeno se propagou e provocou comoção em centenas de pessoas.

A esmagadora maioria da população brasileira tem uma vida nada tranquila. A educação e o sistema de saúde são ainda um tanto precários, altos níveis de violência assustam boa parte das grandes cidades, e o salário médio é bastante baixo. Apesar de ser um povo tido por alegre, não se nega que enfrenta muitas dificuldades e que a alegria vem de uma boa louvável capacidade de adaptação e improviso, e um dos apoios em que as pessoas costumam usar para alívio de uma realidade dura, aqui como em vários lugares do mundo, é a religião. Numa famosa citação, Karl Marx afirmava: “A miséria religiosa é ao mesmo tempo expressão de miséria real e protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o alento de uma situação desalentada. É o ópio do povo.”[1]

De fato o brasileiro é, também, um povo bastante religioso. O catolicismo veio na bagagem da dominação portuguesa e predominou na mente da quase totalidade da população até o século passado, quando só passou a perder terreno significativo para outras vertentes do cristianismo que se mostraram igualmente ou mais eficientes em tocar a disposição à fé que sempre fez parte e sempre foi valorizada na nossa cultura. De fato, no imaginário popular, ter fé está associado a ser uma pessoa com boas atitudes ou, no mínimo, boas intenções, enquanto a falta de fé não raro é vista como uma desilusão com a vida, tristeza, sinal de más intenções ou uma deficiência, como a ausência de algo essencial para a vida.

No nosso país, o misticismo é tido como normal e, culturalmente, não costuma ser questionado. Por isso, o fenômeno da aparição de uma mancha assemelhada a uma santa na janela foi relatado pela imprensa ora com entusiasmo – perseguindo a audiência de uma população religiosa – ou ora como um fenômeno pitoresco mas absolutamente normal. Na reportagem referenciada no segundo parágrafo, o questionamento sobre o fenômeno chegou apenas a se seria uma das aparições milagrosas da santa – tomando por premissa que, senão essa, outras ocorreram ou ocorrem. É por isso que a pergunta costuma ser feita na forma invertida: “por que você não acredita em Deus?” em vez de “por que você acredita?”.

Referências

[1] MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843).

Be Sociable, Share!

5 Comments

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 21 de abril de 2010 at 15:58
    • Permalink

    Muito bom!

    • Posted 21 de abril de 2010 at 17:14
    • Permalink

    Os porquês são muitos, o cristianismo está fundamentado em sua plena totalidade na fé, e não muito em evidências. Portanto a melhor pergunta a ser feita como disse nosso amigo Sérgio é “Por que você acredita em Deus?” e não “por que você não acredita ?”,
    O Conceito de FÉ, segundo o Aurélio é o seguinte:
    A primeira virtude teologal: adesão e anuência pessoal a Deus, seus desígnios e manifestações.
    Firmeza na execução de uma promessa ou de um compromisso. Crença, confiança. Asseveração de algum fato. Testemunho autêntico que determinados funcionários dão por escrito acerca de certos atos, e que tem força em juízo.
    E como Paulo mesmo explicou em um dos seus livros a fé é o firme fundamento, das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêem,
    Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.
    (hebreus 11 : 6)
    “o capitulo 11 de Hebreus na integra é bem claro em relação a condição que se precisa para aceitar o ideal cristão, que a fé)
    Continuando… Como o dragão não deixa pegadas na farinha não emite calor pelas suas chamas para serem captados por raios infravermelhos, e não adere à tinta, como é que eu vou acreditar que tem um dragão na sua garagem? Se questionarmos um pouco certo que encontraremos alguns pontos que aparentemente se contradizem, e acaba a duvidar da existência de um ser superior. Porem dentro do que está formulado por mim mesmo dentro de minha mente eu acredito que as coisas não explicadas hoje, possam vir a serem explicadas, de alguma forma que anda desconhecemos, mas que pelo menos eu busco muito entender. Portanto Sérgio a minha resposta sobre o porque eu acredito em Deus é simplesmente pelo fato de algumas ocorrências evidentes e inegáveis que eu pressenti em mim mesmo, é pessoal. E pode ter certeza já me deparei muitas vezes com questões que me fariam ser Ateu, por falta de evidencias, mas eu continuo acreditando que elas podem e serão explicadas quando alguém sensível o bastante conseguir compreender a simples essência da existência.
    Eu defendo a idéia que de se você não vê nada que te possa ligar a alguma coisa é melhor que não ultrapasse aquilo, e seja Cícero consigo mesmo isso é o mais importante.
    Valeu galera, desculpe por tomar o tempo de quem leu o texto e achou que foi perca de tempo lendo, gostei do site, essa é a primeira de muitas visitas que pretendo fazer.
    “Posso não concordar com nenhuma palavra que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las” (Voltaire)

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/09. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Jairo Moura
    • Posted 21 de abril de 2010 at 17:47
    • Permalink

    Deixemos o espaço de comentários para comentários. Caso ensejem escrever textos para publicação, usem o e-mail de contato udmg@ateus.net

  1. Muito bom esse texto!

    • andrea
    • Posted 21 de outubro de 2010 at 20:44
    • Permalink

    A filosofia e tudo quando me pergunto,isso é uma coisa de loucos e só os loucos se entendem…
    me add no email de contato yara_21quintinohotmail.com