Monthly Archives: abril 2010

Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da   Ordem do Dragão.
Segismundo da Hungria, Sagrado Imperador Romano e fundador da Ordem do Dragão.

O ano é 1408. Preocupados com a expansão dos turcos, o papa reúne-se com nobres de toda a Europa para discutir estratégias de contenção do expansionismo islâmico. Dessa congregação e fruto do gênio do rei Segismundo da Hungria, é fundada a Societas Draconistrarum. Composta inicialmente por 21 nobres, a ordem tinha representantes das mais notórias famílias húngaras, com destaque para os Bathory, dos quais fazia parte Elizabeth Bathory, conhecida por banhar-se em sangue de mulheres jovens e belas, na tentativa de restaurar a sua própria beleza e juventude, e a família Bethlen, representada por Gabriel Bethlen, que provocou guerras calcadas em motivos religiosos.

A verdade é que a ordem lutou contra os turcos e caiu nas graças do Vaticano, sendo conferido ao rei Segismundo o título canônico de Sagrado Imperador Romano. Em 1410 Segismundo uniu forças com outra ordem beligerante católica, a Ordem Germânica dos Cavaleiros Teutônicos, ou Ordo domus Sanctæ Mariæ Theutonicorum Hierosolymitanorum, contra o rei Władysław II Jagiełło, que resultou na batalha de Grunwald, considerada por muitos historiadores como uma das maiores batalhas envolvendo Cavaleiros Católicos da Idade Média.

Para nós que crescemos aprendendo sobre a história das inquisições e das cruzadas, o banho de sangue proporcionado pelo expansionismo cristão, especificamente da Igreja Católica Romana, não mais impressiona. Os mesmos senhores que por vários anos estiveram à frente da única fonte de referência aos textos cristãos provocaram inúmeras guerras e matanças, tudo em nome de deus e em nome da fé na doutrina de Saulo de Tarso. Mas hoje pretende-se acreditar que a história do cristianismo nada tem a ver com as instituições modernas, e o passado parece tão distante e nebuloso que ignoramos conscientemente os massacres em nome de uma ignorância confortante.

Ademais, comete falta grave aos olhos dos cordeiros católicos abordar a história de sangue e mentiras que tornou possível a construção deste grandioso e secular instituto religioso, ignorando-se os séculos de matanças e perseguições, de doutrinações e punições, de pederastia e ignorância, de controle e resistência à ciência, provocados por esta grandiosa máquina de fazer dinheiro e gerar ilusões. Custo a acreditar que existam fieis que ainda levem a sério uma instituição predatorial como esta, que alimenta a segregação religiosa e incentiva a ignorância, através de atitudes homofóbicas, e anti-progressistas, com  o exemplos bizarro da proibição moral do uso da camisinha, com direito a palestras no continente africano, infestado pelo vírus da AIDS.

Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.
Emblema da Ordem do Dragão, baseado no mito do ouroboros.

Aparentemente a Igreja ainda não se libertou de seus laços históricos, nem tampouco aprendeu com seus erros. Ainda há demonstrações explícitas do seu anti-semitismo latente, enquanto escondem crianças vítimas de abusos sexuais embaixo de suas batinas. Os fantasmas da Ordem do Dragão ainda circulam pelos corredores do vaticano, nos lembrando da sede de sangue que banhou os mármores das suas igrejas históricas.

Afirma-se que o ocidente é cristão por vontade de uma força divina, manifestada por revelações. A verdade é que foi a espada quem assegurou que os reis europeus mantivessem suas coroas e sua principal arma de controle das massas: o cristianismo. Não que estes líderes estivessem livres das garras alienantes desta religião oriunda do deserto. De fato a maioria deles era profundamente religiosa. Nos meus próximos dois textos tratarei de algumas dessas importantes figuras históricas, e tentarei abordar, ainda que de forma simplista, algumas das estratégias e métodos mais grotestos e menos divulgados dentre os utilizados pela cristandade durante a Idade das Trevas.

      IV

      No meu quarto e último texto sobre a relação deus/ciência, falarei sobre uma ideia interessante. A ideia dos magistérios não-interferentes, defendida pelo falecido Stephen Jay Gould, também conhecida como NOMA (do inglês Non-Overlapping MAgisteria). Uma ideia que, a meu ver, coloca ambas, ciência e religião, em seus respectivos lugares. Mas já adianto que é uma ideia polêmica, mesmo entre os ateus. Aproveito essa polêmica aqui para salientar que opiniões expressadas por cada um de nós, autores do “Um deus em minha Garagem”, são pessoais e não necessariamente refletem as opiniões de todos os ateus.

      Mas no que consiste essa ideia? Bom, antes acho que cabe esclarecer o que seriam “magistérios”. “Magistério” foi um termo que S. J. Gould buscou de um conceito da igreja católica, o magisterium, que seria a “autoridade do ensinamento católico” [1]. Ao defender o NOMA, Gould usa o conceito de “magistério” como um suporte apropriado que permite ensinar e discutir questões pertinentes ao seu próprio escopo. Ou seja, que a ciência se limite a explicar fenômenos naturais sem se intrometer em questões morais, e que a religião sirva de guia para a moralidade sem pretender explicar o mundo natural. Cada qual na sua área. Perceba, no entanto, que isso não significa uma separação total entre ciência e religião, mas apenas uma divisão de tarefas.

      Considerando as necessidades do intelecto humano, a ideia dos magistérios não-interferentes parece promissora. Queremos entender o mundo assim como ter uma boa orientação moral. Quanto à orientação moral, a ciência não tem muito a oferecer. Mas – e é aí que eu começo a achar a ideia do NOMA frágil demais – a religião nos oferece menos ainda. Seja lá de onde vem o nosso senso de moral, certamente não é da religião.

      Eu concordo sim, que cada uma deve ficar em seu devido lugar. Essa ideia fica mais clara quando pensamos no absurdo que é a tentativa de se incluir criacionismo no ensino das escolas. Pois isso é justamente um magistério interferindo noutro. Outro exemplo do magistério da religião metendo o bedelho onde não é chamado é a polêmica que surgiu sobre pesquisa com células embrionárias. Só que esse exemplo é capcioso, pelo menos para o NOMA que Gould defendia. Ao mesmo tempo em que essa polêmica demonstrou claramente o erro que é misturar ciência com religião, ela demonstrou que isso era inevitável. As ideias de moral obtidas através da religião só serviram para atrapalhar o progresso do saber e do bem-estar. De onde essas ideias de “certo ou errado” foram tiradas é um assunto que não pode ser ignorado. Como e por que certos religiosos concluíram que uma “alma” entra em cena no momento da fecundação é um mistério, e é um absurdo essa ideia ser admitida alegando que devemos respeitar o posicionamento moral-espiritual de seus defensores.

      Óbvio que o oposto também acontece. Como o que conhecemos por “falácia naturalista”. Um exemplo simples dessa falácia seria: “O chimpanzé macho bate na fêmea, logo, eu tenho o direito de bater em mulheres, visto que somos todos primatas”. É um caso típico de non sequitur. Mas tenho dificuldades em dizer se é o magistério da ciência que está afetando o da religiosidade ou se estamos falando de mero cientificismo. Alguns poderiam dizer que o exemplo mais dramático de quando um povo depositou sua base moral na ciência (e errou) é o nazismo. Na verdade, estaríamos falando mais especificamente da eugenia, um princípio calcado na genética, segundo o qual devemos eliminar os indivíduos mais fracos dentro de uma população para favorecê-la como um todo. A questão é: que ciência é essa? Se a humanidade se desenvolveu e floresceu principalmente devido à espetacular habilidade social encontrada nos humanos, por que seria cientificamente plausível jogar toda essa habilidade fora para nos auto-controlarmos como cães de corrida? Não é de ciência que estamos falando aqui, mas sim de algo totalmente deturpado, tendencioso e, em última análise, incoerente.

      Agora, se eu concordo ou discordo com o NOMA, minha resposta é a seguinte: em parte. Vejo que a ciência fica muito melhor quando se limita a investigar os mecanismos da natureza. O meu problema reside no papel da religião. Ao passo que a ciência fez um trabalho excepcional dentro de seu escopo, mesmo considerando seus deslizes, a religião deixou e ainda deixa muito a desejar.

      Deus e a Ciência:

      1. A mitificação da ciência salvadora

      2. No quê os cientistas acreditam

      3. A crença dos grandes gênios

      4. Sobre os magistérios não-interferentes

      Como de costume, a Sra. Kami não dormira aquela noite. Realmente sentia muita falta do marido, falecido há três anos, razão de se sua depressão.

      Alguns andares abaixo, o Sr. Harbor tomava seu café, tranquilamente, pensando o quão verídica era a lei de Murphy. Resolveu testar. Dos cinco biscoitos, um caiu com o lado da geleia para cima, dois para baixo e outros dois bateram em seu pé antes de tocarem o chão, o que invalidou a experiência.

      Kami tomava seu segundo diazepam matinal, empurrado por um copo de leite morno (ela preferia assim), mas ainda sem efeito.

      Harbor lamentou ter desperdiçado os biscoitos. Não havia mais pacotes na despensa. Teria de sair para comprar mais; aproveitaria para fazer as compras.

      Do 12º andar, para Kami, tudo parecia tão insignificante e pequeno quanto sua vida miserável. Tentou ler um livro.

      “Pegar as chaves, os documentos e o dinheiro. Por que não deixo as chaves sempre no mesmo lugar?” – pensava Harbor. Focou-se em encontrar as chaves. Acendeu um Gudan, pra ajudar na memória – “Quanto mais relaxado, mais fácil de lembrar!”.

      Kami tentava a quinta ligação do dia para sua psicóloga – “A maldita desligou o celular! Para que pago essa vaca?” – Ligou a TV, desligou a TV, foi pegar um ar fresco na varanda. Curtia sua visão de insignificância.

      Já dentro do carro, na rua, o Sr. Harbor conferia os bolsos – “Droga! Esqueci o isqueiro…”. Estacionou o carro e resvalou no meio fio.

      Kami contemplava a vista com olhar vago.

      Aproximando-se do portão do prédio, o Sr. Harbor diminuiu os passos enquanto ria de seu pensamento – “É o vício que me mata! Hahaha!”

      Agora, Kami vislumbrava a paisagem em alta velocidade…

      Mulher belga salta para cometer suicídio e mata pedestre

      Segundo a mídia local, a idosa de 67 anos sofria de depressão desde a morte do marido

      Um trágico caso de suicídio ocorrido na última segunda-feira (22) ganhou repercussão nesta quarta-feira (24) em Bruxelas, na Bélgica.
      Uma mulher que se jogou de seu apartamento no 12º andar de um prédio da capital acabou matando um pedestre que estava na rua abaixo, informou a polícia.
      A mulher, de 67 anos, saltou da sacada e atingiu um homem de 72 anos que estava entrando no prédio. Ambos sofreram ferimentos graves e acabaram morrendo.
      Segundo a mídia local, a suicida sofria de depressão há três anos, desde a morte de seu marido.

      Fonte: http://noticias.r7.com/internacional/noticias/mulher-belga-salta-para-cometer-suicidio-e-mata-pedestre-20100324.html. Retirado em 25/03/2010.


      Comentário do autor: Adoro o senso de humor dos deuses.

      Notas:
      – Apenas a reportagem é um fato verídico.
      – Os nomes Kami (Kamikaze) e Harbor (Pearl Harbor) são uma referência ao ocorrido na base militar de Pearl Harbor, durante a Segunda Guerra Mundial.

      Eles são pessoas que prometem uma vida melhor, bem-estar, curas milagrosas e facilidade; a única coisa que querem em troca é um pouco do seu patrimônio. Não estou falando de pastores nem de outros líderes espirituais. Falo de pessoas ainda mais desprezíveis, que sem nenhum escrúpulo se aproveitam da ignorância da população para vender tratamentos e curas fantásticas que muitas vezes trazem ainda mais risco à saúde de suas vítimas.

      Os charlatões da saúde assumem várias faces para tirar dinheiro de um público despreparado para duvidar.

      Sempre me vem à mente aquele livro Medicina Alternativa de A a Z. Seus vendedores apareciam em vários canais da TV oferecendo tratamentos simples e baratos para todos os tipos de doenças. Para se ter uma ideia da irresponsabilidade, eles recomendavam o uso de uma mistura de mel de abelhas, suco de alho e sopa de cebola para o tratamento de broncopneumonia, uma doença que, se não tratada rapidamente, pode levar à morte.

      Conforme revelado pela revista Veja, o autor do livro, o Dr. Carlos Nascimento Spethmann sequer existe. O livro, na verdade, foi escrito por dois homens sem a menor qualificação profissional para tal e, pior, ligados à Igreja Adventista do Sétimo Dia. Até 2005, faturaram 40 milhões de reais.

      Outro caso que vale ser citado é o da homeopatia, que em seus mais de 200 anos de existência ainda é incapaz de produzir evidências da sua capacidade de curar. Além dos pacientes, os próprios homeopatas acreditam na capacidade de cura. Gloria Sam nasceu com eczema, uma doença simples e facilmente tratável. Só havia um problema: seu pai era um homeopata praticante que insistiu, até a morte de Gloria, em utilizar homeopatia para curá-la.

      Ainda mais revoltante é a campanha lançada pela Igreja da Cientologia, através de sua afiliada CCHR (Comissão dos Cidadãos para Direitos Humanos em inglês) para desacreditar o tratamento psiquiátrico. Aproveitam-se da ignorância do público e tentam, com informações imprecisas e edições grosseiras de vídeo, convencer o paciente de que a psiquiatria é charlatanismo. O interesse da Igreja nisso é promover o tratamento com o seu e-meter, cobrando taxas que podem chegar a U$ 8.000. O e-meter não passa de um instrumento que mede a resistência elétrica do corpo, já tendo sido proibido o seu uso para a prática médica nos EUA e Europa.

      Outra prática que se tornou comum ultimamente é a Medicina Ortomolecular, que promete a cura de diversas enfermidades pela simples reeducação alimentar. Segundo eles, é possível recuperar o “equilíbrio” do corpo consumindo o alimento certo. Nesta reportagem do Fantástico, a repórter vai a vários consultórios contando a mesma história. Ela faz um exame que, além de proibido, não tem qualquer valor científico. Em cada um dos consultórios ela recebeu um diferente diagnóstico, incluindo um de “problemas espirituais”. O preço do tratamento chegava a R$ 4,1 mil.

      A morte é certa para todos. O melhor que pode ser feito em relação a isso é tentar postergá-la ao máximo. Aliada à falta de informação, a disposição das pessoas em gastar dinheiro com sua saúde gera um terreno fértil para os charlatões da saúde apresentarem seus métodos fáceis, rápidos e “garantidos”.

      Curandeirismo e charlatanismo são considerados crimes para os quais prevêem-se de 3 meses a 2 anos de prisão. Mas num país onde só vão presos aqueles que não podem pagar por um advogado, os charlatões nada precisam temer.  Afinal, dinheiro não lhes falta.

      I

      Pouca gente no Brasil entende que o universo seja criado uma vez a cada dia do deus da criação – que corresponde a 4,3 bilhões de anos do nosso calendário usual – e, ao fim do dia, esse deus adormece e tudo é consumido pelo fogo. Mas o deus da criação acorda de novo no dia seguinte e repete toda a criação, até completar 100 anos. Após esse período, ele e todos os outros deuses deixarão de existir e, junto com o resto do universo, serão dissolvidos em seus elementos constituintes [1].

      Fora da cultura hindu, essa narração de como o deus Brama interfere no universo parece não fazer sentido. Segundo a mitologia hindu, ainda, Brama, Vixnu e Xiva – deuses da criação, da conservação e da destruição, respectivamente – são a parte cognoscível pelo homem do Brâman, o Absoluto. No entanto essa compreensão sobre o universo e como ele é regido por deuses também só se deu dentro da cultura hindu.

      Da mesma forma, antes que fosse fácil a troca de informações em nível mundial, o deus de que estamos habituados a falar – tanto que a praxe é grafá-lo como ‘d’ maiúsculo do título; o deus judaico-cristão-muçulmano, não se revelou aos hindus. A eles também, provavelmente, pareceria exótica e inverossímil a narração bíblica da criação do universo e como é regido pelo deus que seria único mas auxiliado por forças semi-divinas como o diabo e, em breve passagem, o messias filho desse deus. Melhor, aliás, designá-lo por deus abraâmico, pois esse termo remete à sua origem de fato única. Causa alguma confusão que Deus, o mesmo cultuado pelos judeus, cristãos e muçulmanos, a um grupo ainda esteja por enviar o prometido messias, ao outro já tenha enviado, junto com um Novo Testamento; e ao terceiro, tenha enviado também um último profeta e prometido 72 virgens aos mártires religiosos.

      É difícil deixar de enxergar inconsistências mesmo dentro das estórias religiosas ensinadas na nossa própria cultura. Historicamente, o deus abraâmico deu origem a ramificações conflitantes. As características desse deus são inconsistentes. Ele seria onipotente e teria dado livre arbítrio aos seres humanos, mas seria ao mesmo tempo onisciente, o que não permite nenhuma das duas coisas. Ele teria superpoderes e uma inteligência muito superior à humana, mas frequentemente age com violência dominado pela ira. E a narrativa bíblica é permeada por informações que, com o advento da ciência, se revelaram erradas, como a separação do dia e noite antes da criação do sol, a terra plana e o surgimento de todas as espécies de seres vivos quase ao mesmo tempo.

      Racionalmente, a pergunta tão comum feita aos ateus parece estar invertida. Deus é algo muito difícil de acreditar.

      Referências

      [1] <http://pt.wikipedia.org/wiki/Trimurti> Acesso em 4 abr. 2010.

      Todos sabemos que o deus judaico-cristão carece de evidências físicas. Não fosse verdade, seria objeto de estudo de alguma área científica. É o sonho de qualquer apologista poder apontar com seus dedos sedentos de confirmação uma prova irrefutável da existência de seu tão querido criador e redentor. Não bastaria mais do que isso para converter todos aqueles ateus que simplesmente não veem motivos para viver suas vidas baseados em um suposto deus dentre tantos outros que já apareceram.

      Na falta das tão sonhadas evidências físicas e objetivas, cabe à retórica estabelecer argumentos plausíveis para a existência de deus(es). E é aqui o único patamar de discussão aceitável para tal hipótese. Também é aqui o poço mais fértil das falácias humanamente possíveis, desde apelos à autoridade (ad verecundiam) e à antiguidade (ad antiquitatem), até apelos à maioria (ad populum) e à violência (ad baculum). Dentre todos esses subterfúgios, existe um que é particularmente interessante: o do motor imóvel (κινούμενον κινεῖ [1072b] – ou Primum Movens, em latim)[1].

      Este conceito tem origem em Aristóteles e foi concebido como o deus judaico-cristão por São Tomás de Aquino, em sua obra Summa Theologica[2]. Em poucas palavras, para Aristóteles, o começo de todo o movimento era um motor imóvel, perfeito em si mesmo. Usando uma falácia hoje conhecida como Magister dixit (o mestre disse), variante do apelo à autoridade (ad verecundiam), Aquino não demora em estabelecer um paralelo entre o motor imóvel de Aristóteles e o deus criador e redentor cristão, assim como descrito na Bíblia, aproveitando todo o prestígio do famoso helênico para os seus propósitos bem menos nobres.

      Em uma tarefa intelectual muitas vezes impetrada tanto por ateus quanto por religiosos, a regressão infinita nos dá duas respostas intuitivas: ou tudo sempre existiu ou tudo teve um começo. Baseados em nossa percepção diária de começo e fim das coisas observáveis (conceito indutivo duvidoso, mas útil em nossa jornada), tendemos a seguir a linha de raciocínio que deduz um começo para o universo. Na busca de uma causa inteligente por trás dele, os religiosos postulam um ser superior, que fugiria à regra que tanto teimam em respeitar: a de que toda consequência tem uma causa. Para eles, deus seria a causa incausada, o motor imóvel. E não hesitam em clamar Aristóteles – através de Aquino – para corroborar sua visão, por mais que nunca tenham lido a obra em que o filósofo grego cunha seus termos ou aquela na qual o teólogo cristão os explora no seu sentido mais conhecido. É uma tática repetida desde a Idade Média e que funciona particularmente bem em nossa época: na dúvida, Aristóteles (filósofo pré-cristianismo) confirma o deus cristão.

      Vejamos algumas características do motor imóvel de Aristóteles: a única coisa que este ser faz é pensar eternamente; e só pode pensar na coisa mais perfeita que existe – o próprio pensamento; não poderia pensar sobre seres imperfeitos, como os seres-humanos (1072b); também não teria ação alguma na organização do cosmos: pelo contrário, tudo se organizaria ao seu redor, mas sem sua interferência, sendo apenas objeto de aspiração ou desejo. De longe, nenhuma semelhança com o deus intervencionista da maioria das religiões atuais. O ser aristotélico se aproximaria da visão deísta – e não teísta – de uma divindade: a de um ser que se manifestara no começo de tudo. Obviamente, é uma visão que tapa lacunas, mas não explica muita coisa, pois invoca uma variável ainda mais desconhecida (ignotus per ignotium).

      Outra faceta estrategicamente esquecida da interpretação cristã do argumento aristotélico é o das esferas geocêntricas[3]: segundo os teólogos medievais, os sete planetas vistos a olho nu (incluindo a Lua e o Sol) representariam as sete primeiras esferas, seguidas da oitava – ou firmamento – e da nona (uma esfera cristalina, para se adequar a Gênesis 1:7 – “E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi”[4]). A décima esfera seria o Primum Mobile, primeira esfera movida. Além de todas as outras esferas, estaria o Coelum Empyreum Habitacvlvm Dei (Céu Empíreo Habitáculo de Deus), onde estaria o próprio Primum Movens. Inútil dizer que tal abordagem é completamente descartável e, como não?, bisonha demais para merecer qualquer crédito, desde a fatídica constatação de que não somos o centro do sistema solar, nem da galáxia, muito menos do universo. Para Aristóteles, no entanto, o número total de esferas seria de quarenta e nove ou cinquenta e cinco (1073a), pulando sem maiores explicações para a afirmação de que, mesmo com tantas esferas, haveria somente um deus (ὁ Θεός, 1074a). É dessa divisão que surgem todas as classes de anjos e arcanjos para governar as esferas restantes. Uma bela demonstração de como funcionava o universo aristotélico na visão medieval pode ser encontrada em La Divina Commedia, de Dante Alighieri [5].

      Concluindo, mesmo que aceitássemos todas as premissas do argumento cosmológico para a existência de deus(es), jamais poderíamos usar Aristóteles para justificar a existência daquelas divindades que se preocupam com a humanidade, como em João 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê näo pereça, mas tenha a vida eterna”. É um passo grande demais para ser classificado como qualquer outra coisa senão non sequitur. Mas isso tudo só diz respeito à abordagem filosófica do problema. A ciência teria algo a dizer?

      Usada como base para o argumento de causalidade, a regressão de causas perdeu força com as leis da termodinâmica (séc. XIX) e da física quântica (séc. XX). As modernas teorias físicas estão cheias de exemplos de coisas movidas sem causa. É um dos temas do livro Hyperspace[6], de Michio Kaku, que cita moléculas de gás que podem quicar eternamente nas paredes de um contêiner, desde que haja conservação de massa e energia, sem a necessidade de um primeiro motor. Outro exemplo forte contra o argumento cosmológico é a teoria do Big Bang, segundo a qual ambos tempo e espaço tiveram início com a singularidade, tirando toda a viabilidade da pergunta “o que veio antes?” – tão fundamental para a argumentação de Aristóteles –, tornando-a comparável a “o que tem na Terra ao sul do Polo Sul?”.

      A retórica há muito deixou de ser um instrumento de interpretação da realidade. Sabendo das limitações da linguagem e dos instrumentos de persuasão (Cf. propaganda e publicidade), poucos são aqueles que conseguem afirmar honestidade neles. O método científico consegue extirpar consideravelmente bem todas as mazelas inerentes a seres hipócritas e carentes de autoafirmação. E é com ele que buscamos as melhores respostas para os nossos questionamentos mais íntimos. A todos aqueles que desejam enfiar uma divindade no mundo através de discursos, só resta a árdua tarefa de ir contra todo o conhecimento que já adquirimos desde que começamos a estudar a natureza pelo que ela é, antes do que pelo que queremos que ela seja.

      Referências

      [1] ARISTÓTELES. Metafísica (Livro Λ). Original grego com tradução para francês disponível em <http://remacle.org/bloodwolf/philosophes/Aristote/tablemetaphysique.htm> Acesso em 14 mar. 2010.

      [2] AQUINO, Thomás de. Summa Theologica. Original em latim disponível em <http://www.corpusthomisticum.org/sth0000.html> Acesso em Acesso em 14 mar. 2010.

      [3] <http://en.wikipedia.org/wiki/Primum_Mobile> Acesso em 14 mar. 2010.

      [4] Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://ateus.net/artigos/escrituras/biblia/> Acesso em 14 mar. 2010.

      [5] ALIGHIERI, Dante. La Divina Commedia. Original italiano com tradução para inglês disponível em <http://etcweb.princeton.edu/dante/pdp/> Acesso em 14 de mar. 2010.

      [6] KAKU, Michio. Hyperspace: A Scientific Odyssey Through Parallel Universes, Time Warps, and the Tenth Dimension. New York: Oxford University Press, 1994.

      II

      Um exemplo que ilustra muito bem os verdadeiros interesses por detrás do discurso relativista são os criminosos que, por meio de artifícios legais quaisquer, buscam se inocentar de crimes dos quais sabem ser culpados: um comportamento relativista bastante típico. Claro que, se fossem inocentes, não teriam nada a perder com a verdade; pelo contrário, ajudariam a buscá-la por interesse próprio. Porém, como são culpados, dizer a verdade não convém: se quiserem permanecer livres, sua única chance está em confundir tudo o que se entende por verdade, ao menos no que diz respeito às evidências que os incriminam. Por isso nunca exibem qualquer interesse sincero em averiguar os fatos, sempre se limitando ao mínimo necessário para que saiam impunes. Assim, em vez de adotarem uma postura aberta, enfatizando uma irrestrita busca por evidências, simplesmente olham ao lado na esperança de que ninguém se dê ao trabalho de investigar mais a fundo — pois seria apenas questão de tempo até encontrarem indícios que os incriminam. Essa é a razão pela qual todos os culpados são estranhamente isentos de curiosidade: sabem muito bem o que será encontrado por detrás das aparências. Precisam, portanto, relativizar as evidências que apontam para sua culpa e também desestimular investigações posteriores a fim de evitar que sejam encontrados novos indícios, pois poderiam facilmente fragilizar, ou mesmo tornar indefensável, sua versão alternativa dos fatos segundo a qual são inocentes.

      Suponhamos que nos acusem de um crime qualquer. Por mais hediondo que seja esse crime, se não o cometemos, a realidade estará em nosso favor. Assim, se confrontados a esse respeito, em vez de nos defendermos com discursos delirantes, relativizando toda a realidade, atacando ferozmente nossos acusadores, plantando dúvidas traiçoeiras em cada argumento que nos dirigem, seremos, pelo contrário, os maiores interessados cooperar com qualquer investigação que se proponha, para que se chegue à verdade o mais rapidamente possível, e assim os indícios demonstrem nossa inocência. Então, se somos inocentes, nosso maior interesse estará em ser honestos, pois, por mais que se descubra a nosso respeito, isso apenas confirmará nossa versão dos fatos. Por isso o sinal distintivo da honestidade é a consciência tranquila. Esse interesse sincero na busca pela verdade é a exata postura de qualquer cientista: ele tem consciência de que ser honesto é um interesse pessoal porque seu objetivo é alcançar a verdade — e qualquer outro interesse que se insira nessa equação só poderá prejudicá-lo, razão pela qual todo indivíduo que não tenha nada a esconder com sua interpretação pessoal dos fatos sempre verá o relativismo como um inimigo, nunca como um aliado. Portanto, se a realidade está ao nosso lado, nada temos a esconder. Não importa que surjam novas pistas a serem investigadas, não importa que todos os cientistas do mundo investiguem a questão por décadas e décadas com as mais avançadas ferramentas tecnológicas — quanto mais se investigar, mais ficará comprovada nossa inocência.