Monthly Archives: maio 2010

Talvez você nunca tenha se perguntado sobre ela, mas a consciência é considerada o suprassumo de nossa existência. O fato de nos olharmos no espelho enquanto executamos o ritual de mutilação conhecido como barbear-se deixa boquiaberto quem se dedica a pensar sobre o assunto.

É por causa da consciência que você consegue emular a minha voz dentro de sua cabeça, como se estivéssemos conversando. É também por causa dela que é possível refletir abstratamente sobre o mundo ao nosso redor. É, realmente, uma ferramenta magnífica, mas não passa disso.

A consciência como a entendemos é um epifenômeno da matéria; um mecanismo extremamente útil e selecionado naturalmente como todos os outros traços dos quais dispomos. Um ser que pensa e faz escolhas tem uma vantagem muito grande em relação a outros seres cujos comportamentos são puramente genéticos. O tempo para que algo seja estampado no nosso código é simplesmente uma eternidade, se comparado com o tempo que levamos para aprender novas informações.

Mesmo assim, é um mecanismo relativamente recente na escala evolutiva. Tanto é que as decisões conscientes dizem respeito principalmente às situações novas. Conforme o mesmo problema se repete, a memória mecânica passa a agir. Eis a razão para que façamos coisas sem que percebamos. Convenhamos: seria um desperdício de energia pensar em todas as tarefas que executamos diariamente. De maneira extremamente pragmática, deixamos a consciência para o que ainda precisa dela.

Com o advento das neurociências e do eletroencefalograma [1], conseguimos mapear com uma boa margem de segurança as partes do cérebro que influenciam os comportamentos e verificamos como o estímulo em certas áreas pode mudá-los. Constatamos as mudanças de personalidade que advêm de traumas cerebrais [2] e induzimos experiências trancendentais, mostrando que são muito parecidas com transtornos de personalidade, como epilepsia [3] [4] [5].


Referências:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Eletroencefalografia

[2] http://super.abril.com.br/superarquivo/2003/conteudo_270373.shtml

[3] http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1563325-5603,00-ESTUDO+LIGA+VISOES+ANTES+DA+MORTE+A+ALTOS+NIVEIS+DE+CO+NO+SANGUE.html

[4] http://science.slashdot.org/story/10/04/03/2247213/Science-Attempts-To-Explain-Heaven?art_pos=7 [em inglês]

[5] http://super.abril.com.br/ciencia/eles-veem-espiritos-446853.shtml


Da insatisfação I: Como surgiu o universo?

Da insatisfação II: Como surgiu a vida na Terra?

Indivíduos inteligentes e racionais nunca escolheram ser incapazes de se dopar com ilusões infantis, bem como religiosos nunca escolheram ter fé. Nenhum dos dois tem a liberdade de mudar voluntariamente o modo como seu cérebro desde sempre se habitou a funcionar. Porém, como precisamos de ilusões para viver, cada qual, de acordo com sua inteligência, se vê obrigado a empregar métodos diferentes para suportar a existência.

É inútil insistir: não conseguimos ter fé. Nossa única alternativa passa a ser buscar consolo no esclarecimento, mas como? Só causa miséria a lucidez diante de um mundo miserável. Então, se não conseguimos contornar esse problema nos envolvendo com ilusões absurdas, passamos então a nos envolver com ilusões sensatas, que satisfazem nossa inteligência. Mentiras simplesmente não nos cativam, nos enojam. Assim, como não conseguimos nos iludir com falsidades, iludimo-nos com o seu oposto: a verdade. Encontramos no conhecimento o que os tolos encontram na fé, buscamos na honestidade o mesmo que os demais no engano, entendemos de olhos abertos como se consolam os vendados. Aprendemos a suportar a vida à nossa maneira. Se hoje temos uma consciência tranquila diante do fato de não precisarmos ter fé, isso ocorre porque nos bastam farmácias e bibliotecas. Nossos milagres estão em blisters. Concluímos em vez de acreditar, refletimos em vez de suplicar.

O fato é que nunca teríamos aceitado tão tranquilamente a morte de Deus se não dispuséssemos de meios seguros de substituí-lo. No lugar do jardim do Éden, colocamos o jardim da filosofia, e tanto um como o outro servem apenas para nos distrair, para esconder o desfiladeiro niilista. Sabemos que, em nossas vidas, a filosofia, a reflexão abstrata, cumpre o mesmo papel que a religião, e ambas as coisas não passam de meios de fugir da realidade. Reconhecemos que nem a filosofia nem a religião nos levarão a lugar algum, apenas nos distrairão do tédio. Parece pouco, mas basta. Somos humanos, e uma existência decente é tudo o que esperamos. Como temos farmácias, o autoengano tornou-se dispensável. Como temos inteligência, encontramos consolo na reflexão, e sentimo-nos plenos por podermos levar adiante nossa natural inclinação à honestidade.

Esta semana minha família comemorou o aniversário de nascimento da minha mãe. Até então, nada fora do padrão, mas foi um envelope esquecido em cima da mesa da sala que me chamou a atenção. Como já havia sido aberto e seu conteúdo restava depositado entre outros papéis, tomei a liberdade de me familiarizar com o conteúdo daquela intrigante carta. O motivo pelo qual o envelope me chamou a atenção: nele havia estampado um ou dois símbolos cristãos e um escudo, que achei representar uma arquidiocese.

O conteúdo da correspondência: uma mensagem padrão, contendo felicitações pela data, no primeiro parágrafo, e ocupava-se nos demais de ressaltar a importância do dízimo para a igreja, e como isso ajudaria a construir igrejas em lugares remotos do país. Apesar de os católicos terem fama de serem mais discretos quanto à cobrança do dízimo, esta mensagem me pareceu um tanto quanto desesperada. A carta tinha por remetente uma organização situada em São Paulo e registrada sob a alcunha de “Sociedade brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade” (TFP).

Boleto bancário - Clique para aumentar.

O mais interessante é que, acompanhado de tal carta, havia um boleto bancário solicitando a contribuição da quantia que variava entre 15 e 25 reais, podendo ser mais se o fiel assim o desejasse, para fomentar uma campanha de nome ridículo: “Vinde Nossa Senhora de Fátima, Não Tardeis!”. Acabei descobrindo que esta campanha existe há mais de uma década, e anualmente mais de três milhões de correspondências são enviadas para casas de todo o Brasil.

A organização utiliza-se de datas importantes para pedir contribuição financeiras, a exemplo do que fez no carnaval de 1997, enviando cerca de um milhão de correspondências, falando sobre os pecados carnais típicos dessa época.

Não é de hoje que tenho percebido a popularização da tecnologia para conquistar novos fiéis e arrecadar dinheiro para as igrejas, a exemplo do texto abordado em outra oportunidade, sobre a utilização de jogos eletrônicos para fidelizar a juventude. Entretanto, eu desconhecia que os templos religiosos ousaram ir tão longe. A revista Veja da primeira semana de abril trouxe a notícia de que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), do controverso Edir Macedo, haveria adquirido quase duzentas mil máquinas de cartão de crédito para a implementação do dízimo eletrônico.

Como em toda boa empresa, agora o dízimo pode ser pago através de cartão de crédito.

Entretanto, justiça seja feita, foi a Catedral Católica de Ribeirão Preto que encabeçou tal manobra no país. De forma mais

humilde, adquiriu máquinas para que os fiéis pudessem doar de bom grado seu dinheiro através de cartões de crédito ou depósitos na conta da igreja. Os equipamentos, que são benzidos, ganham popularidade também nas paróquias católicas do Brasil afora.

Com essa latente oportunidade de maximizar os lucros, não faltam oportunistas para lucrar com esse período de transição. Encontrei, por exemplo, uma empresa de Engrenharia de Software que projeta programas de computador com a missão de cobrar, registrar e até criar correspondências padrão, como aquela que minha mãe recebeu. Os criadores do programa se orgulham da possibilidade de “poder enviar automaticamente cartas padronizadas sem precisar digitar sequer uma linha de texto.”

Com a constante perda de fiéis por parte da Igreja Católica, me parece que a discrição que lhes era particular foi substituída pela necessidade de arrecadar, assim como as cestinhas que circulavam entre os que frequentavam tal estabelecimento estão perdendo lugar para as máquinas de cartão de crédito.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vrhQQLJRNIs

II

Certamente, todos nós concordamos que a teoria da evolução ainda encontra alguns problemas. É uma teoria forte, porém incompleta. Ainda não se sabe explicar a origem da reprodução sexuada ou da célula eucariótica. A explosão do cambriano e como a vida se originou são lacunas que perduram até hoje. O que alguns não sabem é que essa mesma teoria não está em conflito com a maioria das coisas que acreditam estar. Isso é algo engraçado. Vejo pessoas dizendo que a evolução contradiz a biogênese, a entropia, a estatística, o bom-senso, mas raramente vejo essas pessoas atacarem onde a teoria realmente ainda não explica. Um exemplo disso está em processos de convergência presentes na natureza que, segundo alguns, contradizem a aleatoriedade da evolução.

Pois bem, segundo essas pessoas, uma mesma característica não poderia surgir independentemente em duas populações diferentes pois seria improvável demais. Para um fenômeno que ocorre essencialmente ao acaso, não seria possível uma estrutura, como a asa, por exemplo, surgir mais de uma vez em táxons distintos. Essa alegação se baseia na estatística. Para os seus defensores, dizer que a asa surgiu em vários grupos diferentes equivale a defender que um mesmo apostador ganhou na mega sena mais de uma vez. O melhor adjetivo para descrever esse comportamento tipicamente criacionista é “afobado”. Nomeamos uma estrutura considerando uma ou mais características que supostamente a designam. No caso das asas, seriam estruturas que permitem um vôo ativo e independente. Isso significa que qualquer estrutura que obedeça a essas definições pode e deve ser chamada de “asa”, independente do modo pelo qual ela alcança essas propriedades. Só que isso não implica que essas estruturas devam ser idênticas.

As asas são um exemplo didático, e até bonito, de como a crença na evolução como fundamentalmente aleatória é falsa. Na natureza existem leis bem estritas: qualquer coisa que não funcione muito bem estará apenas consumindo energia e a seleção natural ceifará tudo o que não for útil o suficiente. O que não significa que ela não premie, e muito bem, os improvisos. Dentre todas as estruturas possíveis de existir, pouquíssimas permitem o vôo, mas os caminhos para chegar a essas estruturas são bem mais diversos do que imaginamos à primeira vista.

Desenho das asas de aves e insetos. Notem que as diferenças são muitas.

Para começar, vamos analisar os grupos vivos que possuem asa, que seriam as aves, os morcegos e os insetos (Os pterossauros assim como algum possível grupo portador de asa desconhecido e extinto ficam de fora). Quanto às asas, todas são estruturas chatas e alongadas, quase ovais, que possuem flutuabilidade, força propulsora e arrasto. Sob o ponto de vista funcional, elas podem ser bem parecidas, mas anatomicamente as diferenças são muito maiores. As das aves podem ser entendida como um braço de um dedo só (na verdade, ainda tem o polegar, formando a álula) e com penas. Os morcegos possuem membranas interdigitais enormes, sendo as asas as suas mãos estendidas, por isso o nome “quiróptero” (asa nas mãos). E temos as asas dos insetos, que são bem diferentes das anteriores. São membranas finas e vascularizadas e, ao contrário dos vertebrados, nos insetos os músculos estão inseridos apenas no tórax.

Fóssil de Archaeopteryx

Mas como essas asas vieram a surgir é que é a parte interessante. São caminhos muito diferentes levando para o mesmo modo de locomoção. A origem das asas nas aves remonta à sua ancestralidade com os dinossauros, mais especificamente os terápodos (o grupo do velociraptor e do tiranossauro), chegando à espécie considerada como a ave mais antiga, que seria o Archaeopteryx. Seriam terápodos pequenos, leves, as penas seriam escamas modificadas. Essas penas estariam presentes não só no Archaeopteryx, como também em alguns de seus ancestrais terrestres. A função das penas em um dinossauro que não voava, ainda que pequeno, é uma incógnita. Mas devemos lembrar que nem tudo possui uma função em termos de sobrevivência, podendo as penas servir como display, seja para assustar predadores ou atrair fêmeas. O que muitos não sabem é que existiu uma porção de dinossauros com penas. Alguns deles possuíam muitas penas nas pernas traseiras e certamente muitas dessas linhagens de répteis penados foi extinta. Voltando aos Archaeopteryx, eles eram dinossauros muito pequenos, do tamanho aproximado de um pé humano, e não se sabe ainda se eles voavam ou apenas planavam. A hipótese atual para o comportamento desse bicho é que ele realizava vôos baixos e curtos, certamente para capturar animais voadores como libélulas. É a conhecida hipótese terrícola. Além de ser uma hipótese mais plausível, eu particularmente gosto muito dela, graças a um detalhe: ela lembra muito o começo do vôo dentro de nossa própria civilização. Como os primeiros aviões, o Archaeopteryx também não realizava vôos elaborados e extensos. O 14-bis voou apenas alguns metros, somente depois surgiriam aviões capazes de voar durante horas, percorrer continentes ou atingir velocidades supersônicas. Com as aves essa história é semelhante. Hoje existem aves que atravessam o planeta, pairam no ar e realizam rasantes em altíssimas velocidades. Um começo humilde, pouca coisa mais do que um mero salto, para enfim o vôo e todas as suas possibilidades.

Dumbo: inspirado pela história de sucesso dos insetos?

Para os insetos, a origem das asas é completamente diferente. As membranas que hoje são usadas para o vôo, antes eram usadas como termorreguladoras. Esse mecanismo não é novo. Para resfriar a linfa, o inseto a espalhava por uma membrana fina e a sacudia velozmente aumentando a troca de calor entra a linfa e o meio. Elefantes fazem algo análogo, irrigando as orelhas com sangue e abanando-as. O que os elefantes não conseguem é utilizar essas orelhas para voar (ao menos os elefantes reais, desconsiderando, neste caso, o Dumbo). É uma pena que não possamos conhecer a compreensão de mundo de um inseto, pois seria engraçado imaginar o quão perplexo ficou o primeiro inseto encalorado em seu primeiro vôo. E algo tão versátil, útil e poderoso quanto as asas, nascendo de um mecanismo prosaico de termorregulação. É como se os helicópteros tivessem sido inventados por um fabricante de ventiladores. Você pode imaginar a cena.

O que há de mais moderno em termos de "asas".

O ponto é: muitas pessoas veem na funcionalidade e na beleza da natureza um projetista infinitamente sábio e onisciente por trás. Tanta convergência, tanta eficiência só pode ser interpretada como obra de um designer inteligente. Bobagem. Não interessa o quão perplexos fiquemos com a complexidade de nosso mundo, sempre existe uma ótima explicação. Uma explicação mais completa, plausível e elegante, que só pode ser obtida através de muito estudo e muita perspicácia (sempre com uma pitada de  criatividade). Poderíamos encerrar a questão das asas como prova cabal de que existe um deus por trás das espécies e que ele sabe o que está fazendo, mas morreríamos sem conhecer as suas histórias evolutivas, interessantes e belas por si mesmas, como as próprias asas que deram origem.

A vida exibe seu desprezo em relação à existência – conceito gerado pelo grau relativamente elevado da consciência humana.

Nada parece mais prático e razoável do que a possibilidade de alcançar a almejada glória, tão longe da vista até mesmo das aparentes intocáveis criaturas humanas, sedentas de aventuras, riquezas e histórias para contar. Acontece, então, de muitos sentirem estar tão distantes da satisfação pessoal que buscam na morte seus sonhos, depositando nela suas expectativas de plenitude, isso a ponto de viver a morte. Fazem da morte sua história de vida. Realmente não há nada mais curioso do que a possibilidade da inexistência. Difícil imaginar a inconsciência mas, pensando melhor, ainda mais difícil é encarar uma existência eterna.

Uma das vantagens da morte é que nela surge a possibilidade de ser o que se pensa, ou fingir ser o que nunca se foi. É na iminência da morte que surge o herói.

O bem e o mal se fundem; a pessoa deixa de ser um subproduto do meio e volta ao estado de organismo, numa tentativa cruel e observável de luta pela sobrevivência. Nessa luta não há coragem ou covardia; é a busca pela permanência existencial de um corpo que insiste em continuar ativo, independente do motivo de sua deterioração.

Retirada a força para o último suspiro, despede-se da vida para a eterna escuridão; mais uma máquina de sobrevivência e, com ela, suas confidencialidades, histórias particulares, crenças e subjetividades.

Surge, então, o resultado da luta diária de todo herói, ilustrado a seguir, em toda sua beleza biológica e possível tenebrosidade psicológica:

httpv://www.youtube.com/watch?v=w7fe0FqLDVI

Em 1964, foi apresentado ao mundo um documentário que chocou o público. Mondo Cane mostrou, pela primeira vez, uma nova religião nascendo diante das câmeras, e o mais interessante: os ocidentais eram os diretos responsáveis por ela.

Nas batalhas do pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial, era bastante comum o fato de soldados americanos montarem postos avançados de combate nas ilhas de lá. Eles tentavam manter um relacionamento amistoso com os nativos destas ilhas, e, para facilitar, costumavam dar alguns presentes como bugigangas e alimentos.

Os nativos observavam a origem de todos esses presentes: eram lançados de aviões com para-quedas ou chegavam de navio utilizando píeres especialmente construídos para este fim.

Quando a guerra acabou e os presentes se foram, os nativos, lembrando-se de como os presentes vinham daqueles pássaros metálicos, decidiram construir réplicas de madeira, imaginando que talvez desta forma os presentes pudessem ser magicamente atraídos.

Sob a réplica, os nativos aguardam a chegada da carga.

Além das réplicas, os nativos também abriram clareiras na mata para criar pistas de pouso para atrair os aviões, acendendo fogueiras que imitavam as luzes que guiam os aviões.

Pista de pouso para atrair aviões

 Na Ilha de Tanna, os cultos assumiram formas mais complexas. Os mais velhos imaginaram que, se comportando como os antigos visitantes, os presentes seriam atraídos. Para isso, no dia 15 de fevereiro de cada ano, uma bandeira dos Estados Unidos é hasteada, os mais velhos vestem os poucos uniformes que lhes foram deixados pelos soldados. Outros desfilam e dançam com pedaços de madeira imitando fuzis.

Com a bandeira hasteada e seus fuzis de bambu.

Eles também possuem um messias: os nativos esperam por John Frum, o filho de deus que, vindo acompanhado de um exército de mortos, fará com que os nativos retornem às antigas tradições em um evento apocalíptico. John Frum assume vários rostos: o de um nativo, um homem branco ou até mesmo um soldado americano negro. As origens dessa lenda remontam ao tempo em que ocorreram os primeiros contatos com exploradores ingleses.

Tentando evitar que seus marinheiros enganassem os nativos com truques tecnológicos, os líderes das embarcações os afastaram para outras ilhas. Dessa forma, muitos mártires foram criados. Nunca houve, até onde se sabe, um marinheiro chamado John Frum na marinha britânica. É possível, porém, que o nome derive de algum marinheiro se apresentando como “John from England”.

A maioria das religiões que vemos hoje em nossa sociedade nasceu em povos com tecnologias tão avançadas quanto a dos nativos de Tanna. As explicações mágicas para as cargas que caiam dos céus eram tão absurdas quanto as explicações que os hebreus deram para raios e trovões.

Por incrível que pareça, existem outras religiões nascendo no mundo moderno. Muitas delas envolvem alienígenas, abduções e revelações. Em minha próxima coluna, discutiremos uma destas religiões.

Trecho do documentário Mondo Cane (Youtube)

O início das religiões:

  1. O Culto à Carga
  2. A Cientologia
  3. Os Mórmons

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

Muitas vezes nos aprofundamos em discussões sobre detalhes e perdemos de vista a verdadeira questão. Por exemplo, quando discutimos se um deus pode ou não ter nos criado, se alienígenas nos visitam, se o amor é para sempre, pressupomos que haja realmente algo sendo discutido. Mas não há; por quê? Porque já sabemos as respostas. Aliás, em regra, todos os assuntos que apresentamos com esse tom de dúvida são apenas piadas vestindo paletó (será que fantasmas existem? Será que o mundo terá paz um dia? Será que o Santo Sudário é realmente o corpo de cristo? Etc.) Nessas questões há sempre dois lados, que nunca estão equilibrados; um se porta racionalmente, representando o bom senso, o outro se guia pela emoção, representando nossa capacidade de ignorar os fatos. Assim, há os que abordam o assunto com sensatez e os que preferem vê-lo como uma espécie de emplastro para feridas existenciais. Note-se que alguns indivíduos chegam a estar cientes da irracionalidade de suas crenças, e parece paradoxal que mesmo assim continuem acreditando, mas sabemos bem demais como isso é comum.

Então, quando nossas discussões estão estagnadas por motivos emocionais e a razão não nos permite prosseguir por falta de fatos concretos, o melhor modo de levar a questão adiante pode ser um revigorante retorno ao óbvio. O que isso quer dizer exatamente? O retorno ao óbvio pode ser visto como uma espécie de metaintuição, tornando racionais processos mentais que normalmente realizamos automaticamente, tomados como pressupostos; é a tentativa de isolar os pontos-pacíficos que temos em nosso favor, usando-os como uma alavanca que multiplica a força de nosso conhecimento, a qual também pode, alternativamente, tornar inúteis nossos melhores esforços. Por exemplo, suponhamos que dois indivíduos estejam tentando decidir qual corre mais; porém, em toda disputa um vence o outro por frações de segundo, ou chegam perfeitamente emparelhados. Sem fatos, a razão não pode dizer qual dos dois foi mais rápido; por outro lado, racionalizar algum pretexto emocional para considerar este ou aquele mais rápido não será mais que uma mentira desculpável.

Nessa situação, onde está o óbvio? Não naquilo que se discute, mas naquilo que se cala. O óbvio sempre está distante das disputas acaloradas (que se tornam tão mais acaloradas quanto menos fatos houver). Mas trata-se de algo difícil de ser visto e tornado consciente. É tão evidente que chega a ser difícil sequer pensá-lo; claro que, uma vez visto, torna-se óbvio, como todo problema bem resolvido. Do que exatamente estamos falando? Há testes antidopping em corridas, certo? Faz sentido. Mas há testes antimilagre? Não; porque deus não existe; logo, milagres simplesmente não acontecem. Não é óbvio? Sim, é; e isso nos toca num nível tão fundamental que ficamos levemente atônitos; e é um pouco ridículo também, por se tratar de uma obviedade desmascara o nosso modo tradicional de lidar com o assunto. Esse tipo de detalhe normalmente passa despercebido, mas prova a inexistência de deus melhor que as complexas argumentações científicas/filosóficas (quando não têm todos os fatos, claro). Então, antes de discutir assuntos quaisquer no nível micro — como evolução versus criação —, deveríamos considerar se um rápido resgate do óbvio já não resolveria a questão logo de início, descartando a necessidade de nos engajarmos em discussões sérias, aprofundadas e inúteis.

Muito do que tomamos como óbvio nunca foi realmente trazido à consciência de maneira deliberada; num primeiro contato, por vezes isso nos choca, por vezes nos surpreende. O óbvio sempre nos revela perspectivas perigosamente imprevistas, ainda que instigantes. Porém, aqui não há margem de segurança; nesse nível não há como nos protegermos da realidade, pois estamos falando de uma busca por fatos autoevidentes, e não haverá como negá-los depois que os tivermos visto. Não há como prever exatamente quais serão as implicações; mas, na medida em que é esclarecedor, pode ser também um processo emocionalmente perturbador.

O óbvio pode revelar-nos uma verdade insuportável, mas também pode trazer-nos uma longamente aguardada serenidade diante da incerteza; para o bem ou para o mal, um raio de luz nunca deixará de ser um esclarecimento. Metaforicamente, esses insights são como buracos de minhoca da inteligência, ligando dois pontos de nosso conhecimento imediata e inesperadamente. Sempre revelam muitas coisas; porém, às vezes revelam mais do que gostaríamos, e diante disso nossa reação mais comum é fingir que nada vimos. É frustrante perceber nossa clara tendência de resistir ao conhecimento, engajando-nos em microdebates que frequentemente perdem de vista a imagem do todo, mas talvez seja exatamente essa a ideia. Nosso modo quase cínico de ignorar o óbvio não seria apenas reflexo de nossa incapacidade de suportá-lo?