Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Don Pedro de Barberana y Aparregui, Cavaleiro de Calatrava, por Diego Velázquez.

Fundada no reino de Castilha, região que hoje é território espanhol, a Ordem de Calatrava foi a segunda Ordem de Cavaleiros a receber apoio papal. O papa Alexandre III reconheceu sua legitimidade em 1164, com o objetivo principal de melhor organizar a ofensiva da Batalha da Reconquista, na qual portugueses e espanhóis pretendiam expulsar todos os muçulmanos da península Ibérica.

Os cavaleiros da Ordem lutaram e combateram os muçulmanos que ocupavam a região andaluz. Mas não foi até 1409 que a Ordem, que tinha por símbolo a cruz da Igreja Católica Ortodoxa Grega entrelaçado pela flor-de-lis, símbolos da cristandade, ganhou poder político, quando o papa Inocêncio VII, convencido do sucesso da campanha da Ordem do Dragão, patrocinou política e financeiramente a Ordem de Calatrava para investir contra o império Otomano.

Calatrava, Wallachia e Constantinopla são apenas alguns dos vários sítios históricos que testemunharam o derramamento de sangue por motivos religiosos. Não sejamos simplistas a ponto de achar que tais fatos ocorreram apenas pela fé. Nenhum rei, nem mesmo o Papa gastaria tanto dinheiro e patrocinaria tantas mortes se não houvesse real interesse econômico e político no domínio cristão na Europa.

As igrejas sempre foram grandes máquinas de coletar dinheiro (muitas vezes às custas das ilusões daqueles que não têm mais ao que se apegar), e perder a galinha dos ovos de ouro seria um preço muito caro. Foi preciso, nestes dois últimos séculos, fechar os olhos para o sexto mandamento de Moisés.

Mas os livros de história estão sempre empoeirados nas prateleiras daqueles que querem dedicar a vida à religião. Quinhentos anos parece algo tão distante e surreal que é fácil negar ou ignorar o cheiro de carcaça que ainda brota de um passado nem tão distante.

A verdade é que não precisamos ir tão longe. Para manter as chamas da ignorância acesas, atropelam-se deliberadamente os fatos que, se não fossem patrocinados por uma poderosa entidade religiosa, jamais passariam desapercebidos. Quem seria capaz de ignorar o legado de crueldade deixado pelo nazista? Qual empresa se safaria de tantas acusações de pedofilia por parte dos seus representantes?

Enquanto existir o controle das massas por essas megaempresas multinacionais que,explorando a fraqueza emocional e a necessidade de consolo espiritual, enriquecem os salões do Vaticano e os bolsos dos pastores evangélicos, continuaremos jogando a sujeira para debaixo do tapete e fechando os olhos para as atrocidades cometidas sob a proteção da batina e do crucifixo.

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6 Comments

    • historiador
    • Posted 19 de maio de 2010 at 11:05
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    Mas será que os Papas, assim como os cavaleiros, tinham o objetivo consciente de enganar os pobres oprimidos com a ilusão da religião, ou pelo contrário, mesmo aqueles da alta cúpula também eram “vitimas” dessas crenças e acreditavam estar fazendo o melhor pela “civilização” expulsando os barbáros da Europa?
    E pergunto mais, sem perder de vista os terríveis massacres, será que é válido desqualificar aqueles homens por sua crença a partir de nossa visão de mundo? Isso não se constituiria num anacronismo?
    Se tentarmos entender as políticas papais, não pela nossa luz, mas pela luz de seus contemporâneos, haveria outra solução além de investir furiosamente contra os mouros na Espanha?

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 19 de maio de 2010 at 15:43
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    Historiador, concordo com você quando questiona se eles sempre souberam o que estavam fazendo, ou se também eram vítimas da fé. É conhecida a existência até mesmo de papas que não levavam a sério o cristianismo (a exemplo do Papa Leão X), mas muitos fervorosos cometeram atos absurdos por acreditar que era certo.

    Agora considerar tais práticas anacrônicas me parece um pouco inocente. É só olhar em volta, temos casos muito mais contemporâneos, onde o Vaticano acolheu ou fechou os olhos para crimes contra a humanidade, a exemplo da segunda guerra mundial, como expus no meu texto Entre a cruz e a swastika ou o massacre de muçulmanos na Sérvia (1995), onde eu arrisco dizer que o Vaticano foi conivente. Se o Vaticano fosse uma pessoa física, eu o acusaria de omissão de socorro em todos esses casos (para dizer o mínimo), pois como uma das mais poderosas entidades religiosas do mundo, eles tem obrigação moral e política de intervir em tais atrocidades.

    Não tinham escolha se não combater os mouros? O capítulo que sucede Calatrava é a criação do Santo Ofício, responsável por todas as atrocidades que conhecemos da inquisição e que estão longe de me parecerem anacrônicas. Os absurdos que se cometeram em nome da fé estão além da linha do tempo, e quem esquece a história está condenada a repeti-la, como bem disse Jorge Santayana.

    O que tentei mostrar nestes 3 textos foi que, ao contrário do senso comum, a religião cristã não prevaleceu no ocidente por que um determinado deus quis, ou por que contenha um caráter de legitimidade. Prevaleceu pois existiram homens com força de vontade suficiente para erguer uma espada e eliminar aqueles que se opunham ao absurdo no qual acreditavam.

    • historiador
    • Posted 19 de maio de 2010 at 17:51
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    Olá Victor,

    Quanto à suas questões acerca das políticas contemporâneas da igreja eu assino em baixo.

    E também sobre a sua postura diante da Igreja, só tomaria mais cuidado em julgar o passado. Acredito que a história é sempre um ponto de vista, então, é sempre importante deixar claro que é o nosso ponto de vista e não a verdade objetiva sobre determinado acontecimento.

    Abraços!

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 20 de maio de 2010 at 11:10
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    Historiador, talvez você esteja certo ao afirmar que o conhecimento da história não represente a verdade objetiva. Aliás, o que representa a verdade objetiva? Se nós formos relativizar tudo, ou analisar as coisas de forma mais minuciosa, nada ou praticamente nada representa a verdade objetiva, até porquê desconhecemos uma verdade tão aproximada.

    Entretanto, o termo “ponto de vista” me parece exagerado. Dizem que a história é escrita pelos vencedores, mas e quando os próprios vencedores narram histórias de barbaridades cometidas pelo seu próprio povo, estando bem documentadas e ilustradas (por mais de uma nação), e contendo evidências não só históricas, mas geológicas e paleontológicas?

    Transformar perspectivismo em relativismo é um risco que eu não quero correr.

    abraços.

    • historiador
    • Posted 20 de maio de 2010 at 13:10
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    Não se trata de relativizar, no meu entender, mas sim criar novas perspectivas por vezes que se contradizem.

    Por exemplo, de uma batalha,´pode-se chegar à duas versões totalmente diferente: aquela que você apreende por meio de análise de documentos da inteligencia e das cartas trocadas entre os comandantes que constituem, por exemplo, a narrativa de uma vitória contundente do exército X, e versão a partir do ponto de vista de um soldado raso deste mesmo exército vencedor – analisando as cartas que ele envia à sua amada – no qual justamente em seu setor todos foram mortos, embora o exercito do qual ele fazia parte ganhou a batalha como um todo.

    Há inumeras correntes historiogragicas, e muitos historiadores se propõem a contar o lado “perdedor” da história, como Walter Benjamin.

    • Error: Não foi possível criar o diretório uploads/2017/05. O diretório pai possui permissão de escrita?
      Victor Alves
    • Posted 20 de maio de 2010 at 15:51
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    Entendo muito bem o que o amigo quer dizer. Acho que a batalha de Agincourt é um exemplo bem pitoresco disso. Ninguém sabe ao certo o número de guerreiros naqueles campos, alguns exageram muito a desproporcionalidade entre o número de homens de armas dos exércitos franceses e ingleses.

    Mas uma coisa todos concordam, havia uma desproporção de pelo menos dois soldados franceses para cada inglês, que houve uma vitória por parte dos ingleses através da utilização do arco longo e da melhor estratégia geográfica. Ninguém duvida, ainda, que Agincourt foi palco de tal batalha, e que, apesar de não ter tanta relevância histórica, por ser feito inesperado foi considerada um marco nos calendários franceses e ingleses.

    O que eu quero dizer com isso? Talvez o número de mortos por Vlad III, ou pela Ordem do Dragão em si, ou até pela Ordem de Calatrava, tenha sido exagerados. Talvez, e talvez não (uma vez que não há essa discordância toda com relação aos números por parte de historiadores. Tampouco são histórias narradas oralmente, ou através de cartas de soldados, mas ricamente documentadas (se você tiver a curiosidade de ler os 2 textos anteriores, verá que no final há um extenso material de pesquisa). São histórias contundentes, ilustradas e que até hoje decoram os museus de toda a Europa.

    Basta uma passagem rápida por algumas cidades históricas da Espanha, a exemplo de Toledo e Madri para ver os resquícios dessa época.

    Resumindo: pode haver divergência nos números, datas e detalhes? Certamente. Isso põe em dúvida toda a história documentada? Não me arriscaria a ir tão longe.


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