A vida exibe seu desprezo em relação à existência – conceito gerado pelo grau relativamente elevado da consciência humana.

Nada parece mais prático e razoável do que a possibilidade de alcançar a almejada glória, tão longe da vista até mesmo das aparentes intocáveis criaturas humanas, sedentas de aventuras, riquezas e histórias para contar. Acontece, então, de muitos sentirem estar tão distantes da satisfação pessoal que buscam na morte seus sonhos, depositando nela suas expectativas de plenitude, isso a ponto de viver a morte. Fazem da morte sua história de vida. Realmente não há nada mais curioso do que a possibilidade da inexistência. Difícil imaginar a inconsciência mas, pensando melhor, ainda mais difícil é encarar uma existência eterna.

Uma das vantagens da morte é que nela surge a possibilidade de ser o que se pensa, ou fingir ser o que nunca se foi. É na iminência da morte que surge o herói.

O bem e o mal se fundem; a pessoa deixa de ser um subproduto do meio e volta ao estado de organismo, numa tentativa cruel e observável de luta pela sobrevivência. Nessa luta não há coragem ou covardia; é a busca pela permanência existencial de um corpo que insiste em continuar ativo, independente do motivo de sua deterioração.

Retirada a força para o último suspiro, despede-se da vida para a eterna escuridão; mais uma máquina de sobrevivência e, com ela, suas confidencialidades, histórias particulares, crenças e subjetividades.

Surge, então, o resultado da luta diária de todo herói, ilustrado a seguir, em toda sua beleza biológica e possível tenebrosidade psicológica:

httpv://www.youtube.com/watch?v=w7fe0FqLDVI

Be Sociable, Share!

6 Comments

    • Wallace
    • Posted 23 de maio de 2010 at 9:05
    • Permalink

    A gente sempre vê isso: na hora da morte iminente uns dão uma de heróis pra tentarem morrer gloriosos e outros extrapolam toda a cota de covardia que tiveram que disfarçar enquanto vivos.
    Pra mim, o que há de assutador há de interessante na morte. Não acho difícil imaginar a inconsciência, a experimentamos ao dormir todo os dias. Mas, curiosamente, ela continua estranha de se conceber.
    Quanto ao vídeo, já conhecia-o, mas não me lembrava dele. É, sem dúvida, algo belo e terrível ao mesmo tempo.

    • Wallace
    • Posted 23 de maio de 2010 at 10:24
    • Permalink

    Engraçado, fiz um comentário aqui, e ele sumiu… necessita de aprovação?

    • Wallace
    • Posted 23 de maio de 2010 at 10:26
    • Permalink

    Ah não… apareceu… deve ter sido por causa de múltiplas abas….

    Aliás, agora eu reparei – Mors Omnia solvit é “A morte resolve tudo” :)

    • Guilherme Policena
    • Posted 23 de maio de 2010 at 14:46
    • Permalink

    Obviamente ,é impossível para nós ,enquanto vivos,imaginarmos como é a inconsciência ;tendo em vista que qualquer coisa que imaginarmos ainda é fruto da consciência.
    O mais próximo é tentarmos imaginar como éramos durante os bilhões de anos anteriores ao nosso nascimento:dormindo profundamente ,sem nenhum dos cinco sentidos e sem pensamentos.
    Mas se analisarmos a questão com maturidade,veremos que a morte é importante para a vida(no sentido global);ou seja,para a perpetuação do gene.É preciso que os seres vivos morram ,para que outros entrem no lugar.Além disso,a matéria inorgânica que vamos nos tornar depois de mortos será bem útil para outros seres vivos.Isso só não é agradável para a nossa arrogância e sentimentos;mas desde quando a natureza se importa com os nossos sentimentos?

    • Gustavo dos Anjos
    • Posted 24 de maio de 2010 at 15:31
    • Permalink

    “Uma das vantagens da morte é que nela surge a possibilidade de ser o que se pensa, ou fingir ser o que nunca se foi”

    Eu uso o sonho para isso. Não preciso morrer para imaginar ser o que não sou ou não posso ser. Mais fácil assim.

    • Be Happy
    • Posted 24 de maio de 2010 at 16:39
    • Permalink

    Que belo texto Daniel ! Parabéns =D


One Trackback/Pingback

  1. Som Surround no Omnia 2…

    Bastante interessante, vejam também no meu blog :)…